Rua – 3

Rua, que era um dos títulos que se repetiam no À clef, agora será a rubrica sob a qual escrevo crônicas a partir de coisas que viu ou ouvi, muito naturalmente, na rua.
*

Um dos grandes mitos do pós-guerra, do mundo posterior à Segunda Guerra Mundial, pós-Holocausto, é que agora nós prezamos pela, anham, pela dignidade da pessoa humana. Os horrores da Segunda Guerra teriam nos ensinado que existe uma dignidade inerente a todo ser humano, ali simplesmente por ele existir. É claro que essa ideia não nasce aí, se você quiser é possível rastreá-la até os estoicos e, muito provavelmente, até bem antes deles. Mas há o discurso de que esse é o ensinamento da História, que nós passamos por esse episódio com essa lição aprendida. Ó, vocês viram o horror? Viram? Nunca mais, hein, nós aprendemos, nunca mais. Heh. Imagino que a maior parte das pessoas consegue identificar essa ideia e tenho certeza que estudantes de História, Filosofia e Direito se depararam com ela várias e várias vezes. Não crítico esse anseio, mas ele é só isso, um anseio. Peguemos, por exemplo, o Brasil. Isso não existe no Brasil, de forma alguma. A ideia de que as pessoas devam ser respeitadas simplesmente por serem pessoas é muito estranha ao nosso senso comum. Outro dia desses escutei uma militante pelos direitos dos usuários de drogas que vagam pelas áreas mais sujas e destruídas da cidade, o tipo de gente da qual não se espera esse tipo de, desculpem-me pelo termo técnico, merda,  falando:

— Essas pessoas não são todas ruins, aqui tem gente com diploma, tem gente que antes de cair era pai de família.
§
É a ideia do vagabundo, que o vagabundo estraga a sociedade, que o vagabundo tem de ser eliminado. Mas se você tiver suportado a mediocridade burocratizada de um curso superior, zás!, se você tiver cometido a insensatez de ter colocado alguém no mundo, zás!, agora você merece alguma consideração. A vida humana, por si só, continua não valendo nada. Isso fica especialmente evidente na nossa sociedade (a brasileira) brutalmente estratificada, grotescamente classista (se você discorda dessa afirmação é porque ou você está numa posição alta dessa hierarquia, ou, pior, defende a manutenção da hierarquia porque sonha em um dia figurar no topo). Não é exatamente a ideia de ralé defendida pela Hannah Arendt no Origens do Totalitarismo, mas é algo por aí. O desrespeito pelo outro é a cola que mantém o sistema todo juntinho e funcionando. Que grande parte das pessoas que professam, muito banalmente, esse discurso de ódio batam no peito para se dizerem cristãs é uma das provas que nós, humanos, conseguimos transformar qualquer ideia, inclusive as melhores, em alguma espécie de coletivismo violento.
*
E por meio dessa ideia do vagabundo é feita a defesa da sociedade. Tá tudo certo, ó, tudo vai correr certinho, é só extirpar os vagabundos. Não é preciso reconhecer que a sociedade está muito errada, que ela é uma das fontes dos nossos males e frustrações, que é, em grande parte, a própria forma como as coisas, todas as coisas, estão organizadas que nos traz tanta infelicidade e injustiça. Não, são os vagabundos. E a narrativa é sempre a mesma: eliminação, de preferência física, do vagabundo, ordenada e conduzida pelos homens de bem. Carl Schmitt defende que o que o político é quem define quem é o inimigo e que o embate com o inimigo não é meramente cultural, é físico, o inimigo é aquele que deve ser fisicamente eliminado. Schmitt foi um conservador católico que colaborou para a formação do arcabouço teórico do fascismo alemão, mas é possível encontrar o seu modo de pensar por detrás de várias pessoas e grupos que nunca teriam coragem de se assumir fascistas. É um modo de pensar que permeia a sociedade. Quem soube formular uma crítica muito pertinente a essa falácia foi a excelente e indispensável Ursula K. Le Guin quando Tales from the Earthsea foi adaptado para o cinema por Gorō Miyazaki, filho bem blé do genial Hayao Miyazaki.  Reclamando de alterações feitas na trama de sua estória, Le Guin afirma que a escuridão existe também em nós e não pode ser simplesmente dispensada com um golpe de espada mágica. Ela aponta isso como uma falha essencial das narrativas da fantasia moderna (sejam elas realmente narrativas de fantasia, concebidas como tais, ou discursos governamentais): o mal é sempre externalizado em um vilão que pode ser simplesmente morto, resolvendo todos os problemas imediatamente. Quantas vezes você já viu isso?
*
Os psicopatas correspondem a uma parcela ínfima da sociedade, o que nãos nos impede de gastar nosso tempo fantasiando com eles. O filme de serial killer transforma todos nós em pobres coitados, paralisados de medo diante de um monstro capazes de feitos atrozes. A ideia implícita ali é exatamente a de que as pessoas estão vivendo vidas significativas e ordenadas, interrompidas pelo assassino maníaco, que é uma excrecência no padrão da sociedade. Termina o filme e todo mundo fica mais tranquilo, ah, que bom, nem eu e nem ninguém querido meu foi vítima do serial killer, ou, talvez, ah, que bom, eu não sou o serial killer. Que serial killer, pessoa? Quem te ferra é você, a pessoa com a qual você tem um relacionamento, seus amigos, seus parentes, seus colegas de trabalho, seu chefe… E eu, eu mesmo. Escrevendo isso aqui, capaz d’eu ser um problema maior na sua vida do que o serial killer.  Não é anomalia que te ferra, pessoa, é a norma.  A mesma coisa acontece nas mil narrativas  que elegem os terroristas como inimigos. Os terroristas são contra o nosso estilo de vida, eles dizem. Curioso que o os terroristas, quando não estão matando muçulmanos no Oriente Médio (que são, em termos numéricos, as maiores vítimas do terrorismo) , só implicam com o estilo de vida de gente que habita países cuja política externa inclui meter o nariz nos conflitos do Oriente Médio. Naturalmente, o terrorismo é um problema, mas ele não é O problema e, garantidamente, não é uma manifestação monolítica do mal. Ou você acha que os terroristas aprovam, sei lá, o nosso carnaval (aquele cheiro de cerveja choca e mijo, no canto um sujeito tentando fazer alguma coisa com o pau meia bomba diante de uma mulher que lhe mostra uma teta, sertanejo emanando de um carro estacionado na transversal, a rua cheia de lixo, você louco de ácido e cheirando a maconha)? Desaprovam é claro, mas como restringimos a nossa intervenção militar à nossa própria população e ao Haiti, eles nem tascam. São maus? Decerto. Mas não estão aí contra o estilo de vida de ninguém (são sim uma reação desesperada e maligna às disputa que as potências mundias, talvez não desesperadas, mas certamente malignas, travam em seus quintais). É muito mais fácil eleger culpados absolutos e pregar eliminação deles do que aceitar que os nossos problemas estão diretamente ligados às decisões e ideias do passado que nós repetimos sem pensar.
*
[…]

Olivenbaum – 15

Ele impostou a voz, assumindo um jocoso ar oficial:

— Assim, por todo o exposto, fica o Sr. Paisano Gentil  desclassificado do certame literário em tela, eis que os exames médicos o revelaram um cidadão completamente apto para a vida em sociedade, falha grave majorada pelo seu exame toxicológico desprovido de qualquer indicativo de substâncias capazes de alterar estados de espírito, sejam elas lícitas ou ilícitas.

ISABELA – 24

(Algo que eu talvez incorpore à Lúcia de Esdrúxulo e Lúgubre)

— Quem é você? Não, é sério. É preciso saber. Quem são seus vários eus? O seu eu que tem preguiça de lavar louça, esse preguiçosinho inocente, não é o seu mesmo eu, tirânico, que se imagina no gozo de privilégios?… Eu ia adjetivar, infundados, indevidos, mas, ahn: privilégios, ponto.

Rascunhos para a RESINA

Resina é uma revista literária que um dia virá à luz. Por ora é um projeto meu e de Pedro Furtado (aceitamos outros colaboradores!). Cada edição terá textos (pode ser qualquer coisa, mas por agora pensamos em poesia) gerados a partir de uma palavra sorteada dentre várias escolhidas minutos antes. A palavra da vez é sombra.

Quase

corre pelo chão,
na horizontal
(projeção
quase
igual),
de encontro
à original,
a sombra
da folha
que cai:
(quase)
como o filho
pequeno
(e aflito)
aos braços
do pai.

 

[…]

— Ele disse ter visto o demônio.
— O demônio, tipo, O Demônio?
— Sim, O Demônio, O Demônio
— Não, não…. O quê ele viu? Como é?
— O Capeta, O Chifrudo!
— Pô, por favor, a descrição, o que o homem viu afinal?
— Um homem com chifres na testa!
— Um homem com chifres na testa? Um homem com chifres na testa? De onde você tirou a ideia de que está preparado para esse trabalho? Um homem com chifres na testa! Pf! Seu amadorismo me dá nojo, no-jo. Já ouviu falar em Pan, Baal Hamom, Cernunnos, sátiros, faunos? Chifres na testa podem ser mil coisas diferentes! Até na cabeça de Moisés!, de Alexandre o Grande!, já inventaram de por chifres!