O Cromoterapeuta – 1

Glauco estava acostumado a olhar para si mesmo e perdoar aquilo que outros acusariam de torpeza, mas se passar por morador de rua, macaqueando as vestes e modos dessa gente, de início, foi algo que lhe fez se sentir culpado, ou, pelo menos, ligeiramente envergonhado. Mas só de início, já que sua necessidade de manipular as pessoas era maior, sempre maior do que qualquer entrave moral. Depois de desenvolvido a persona e o modus operandi, passou a ser apenas mais um expediente. Apresentava-se como um sujeito manco e corcunda, a grunhir desarticuladamente, que revirava o lixo alheio com celeridade, em busca quase que só de papeis, e seguia adiante. Assumia o disfarce sobretudo nas segunda-feiras, ao cair da noite, quando colocavam quantidades maiores de lixo na rua, todo o lixo do final de semana. Antes do caminhão da coleta passar, misturava-se aos famélicos que peregrinavam pelos bairros de lixeira em lixeira. Apenas essas figuras desesperadas às vezes duvidavam de sua farsa, a avassaladora maioria das pessoas vira os olhos quando vê um sujeito rasgando um saco plástico sob o qual vermezinhos se contorcem. Certa vez, uma catadora de recicláveis, que esperava aquela figura corpulenta ir embora para conferir a lixeira, achou estranho ele ignorar dezenas de latinhas e vários pedaços de papelão. Doutra oportunidade, um jovem esquálido se encantou com o fato daquele revirador rechonchudo ignorar por completo uma pizza pela metade e seca, ainda na caixa de papelão utilizada para a entrega domiciliar. Glauco batia o olho no conteúdo dos sacos, formulando em sua cabeça um padrão de comportamento a partir do que via, e levava consigo tudo o que era papel. Foi assim que ele obteve as cartas que Sérgio escreveu para Lúcia e nunca enviou.

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Às vezes olhamos para a fumaça e ela é uma coisa, assim, boba, imprecisa, como se vivêssemos em uma animação e os animadores tivessem decidido desenhar a fumaça de forma simples, quase preguiçosa, uns tracinhos ondulados que sobem e nada mais. Doutras vezes, olhamos para a fumaça e vemos uma miríade de espirais, intricados arabescos, minuciosas e repetitivas revoluções.

*

Do ponto de vista falocêntrico, ainda que a princípio contraditório, nada é mais broxante do que o gozo.

PEREIRA XIII

— Bem, eu preciso da atenção de vocês agora. — Com as mãos para trás e as pernas bem espaçadas, Aeris envergou uma postura militar —  É muito importante que vocês assistam esse vídeo com o máximo de atenção, mesmo que o já tenham visto várias vezes antes.  Prestem bem atenção. Nós aqui temos um propósito próprio, diferente daquele do mundo lá fora, do mundo que, para nós, é secular. Toda atividade dentro desses muros, dentro da Associação, é guiada por esse propósito. Quem aqui está deve agir em total consonância com esse propósito, seja ele um visitante em sua primeira estadia, movida talvez pela curiosidade, o que nós não repudiamos de forma nenhuma; — o que foi dito com um sorriso protocolar para Pereira — seja ele um visitante habitual, recebido por nós várias vezes antes; seja ele um residente, já com todos os aspectos da sua vida voltados para o nosso propósito. Isso tudo é para dizer que aqui nós temos uma série de regras, que devem ser observadas com muita atenção. Muito do que é considerado normal pelo mundo lá fora aqui pode ser desaconselhado ou até mesmo não permitido. Prestem atenção às regras.

A moça apagou então as luzes da sala e deu inicio à projeção.

Surrupiado de algum documentário estrangeiro, surgiu diante dos espectadores, flutuando contra um fundo negro, uma grande nuvem de poeria, cheia de pedregulhos: representava o Cinturão de Kuiper. Logo veio Plutão, seguido dos demais planetas do Sistema Solar,  figurados numa escala de tamanho de e distância quase que arbitrária, até  chegar à Terra. Nosso planeta foi se aproximando até que, com a câmera imaginária adentrando a atmosfera, nuvens esbranqueceram por completo a tela. As imagens tomadas do documentário foram então deixadas de lado, as nuvens desaparecera dando lugar a  uma tomada aérea do domo de concreto e da vila (sendo  possível  vislumbrar por instantes a sombra do helicóptero utilizado na filmagem). A câmera posicionada no helicóptero ampliou a imagem do domo até o seu limite e então, em mais um corte um tanto quanto porco, apareceu na tela não o domo, mas uma réplica de isopor. A câmera então foi descendo até o branco do domo de isopor preencher toda a tela. Numa rápida piscação, o branco acinzentado foi substituído pelo branco amarelado de uma porta a se descerrar, revelando então um longo corredor, onde estava ao fim; ladeada por  duas longuíssimas estantes, a da esquerda negra e a da direita branca, as duas carregadas de livros e pequenas esculturas; uma mulher sentada. Pereira, mesmo só tendo a visto no desenho na capa do disco Quimeras, reconheceu imediatamente Cármen, ali atendendo por Mestre Intreza. 

Ela tinha a testa ampla, como a de Poe ou Baudelaire; grandes olhos amendoados, de íris vivas e aliciantes;  o nariz que descia perfeitamente linear até acabar numa pontinha triangular, carnuda e ligeiramente arrebitada; maçãs do rosto  bem delineadas, mas não exatamente salientes; a boca magra, transmitindo um ar de estoicismo e intelectualidade e um queixo pequenino que combinava com o suave arredondado de seu maxilar. Essa face, singular e teatralmente empoada, figurava no exato centro da tela, hipnótica. A Mestra usava na cabeça um alto turbante cônico, de pano dourado, adornado com o desenho de jóias azuis, verdes e vermelhas; sobre os ombros, um manto vermelho, ornamentado  com padrões de ramos dourados;  por debaixo do manto o que parecia ser uma espécie de quimono, azul-marinho e muito justo. Suas mãos seguravam, aberto sobre seu colo, um um grosso tomo de páginas amareladas, com escritos em latim em grandes letras góticas. A seus pés jazia uma grande peça de marfim no formato de uma lua crescente, com as duas pontas voltadas para cima. Atrás da mulher estava estendido um véu, tremulando como se tocado por uma leve brisa, no qual se viam os desenhos de romãs seccionados, revelando assim seu interior carmesim, e pequenos sinos dourados. Por trás do véu, banhando toda a cena, emanava uma luz entre o verde e o azul. A face da mulher se manteve impassível enquanto a câmera avançou por entre as estantes, nas quais, apesar de nenhum dos ali presentes ser capaz de identificar, podiam ser vistos de bustos de, dentre outros filósofos, Pitágoras, Platão e Plotino, além de estatuetas representando, dentre outras, as divindades Ísis, Hera e Perséfone. A câmera enfim parou no ponto que a tela ficou preenchida quase que apenas pela imagem da mulher, com apenas as bordas das estantes, uma negra, outra branca, então aparentes. Pereira se retesou todo em excitação: apesar de toda aquela montagem, não pôde deixar de ver ali Cármen e apenas Cármen. Via-a como se em um clip, prestes a começar a cantar, talvez sacando um violão ou uma guitarra de trás do véu (seria melhor uma guitarra, pensava). O Sr. Hidelbrando e Flávia Cláudia a miraram com um temor reverencial enquanto Olímpia deu mais uma demonstração de o quão fleumática conseguia ser, apenas sorrindo.

— Seja bem vindo a Associação Transcendental Amalantrah. Que os Mestres Ancestrais abençoem a sua senda — disse a Mestra, com uma voz grave, poderosa, que parecia brotar da própria terra, mesmo vinda das fraquíssimas caixas de som  embutidas do laptop de Aeris. Concomitantemente, apareceu a sigla A.T.A. na tela, numa tipografia clássica, serifada, em azul celeste.

— Você está prestes a entrar em um local consagrado à superação da condição humana — a Mestra disse assim que as iniciais desapareceram da tela — Todo aquele que adentra o nosso espaço o faz por livre e espontânea vontade e todo aquele que adentra o nosso espaço deve seguir à risca as nossas regras.

A imagem foi então se escurecendo, permanecendo a Mestra estática em seu trono, as mãos ainda por cima do livro de páginas oxidadas, até sua figura perder o contorno e desaparecer no negrume. Começaram a surgir então, na mesma tipografia da sigla de antes e no mesmo tom de azul celeste, escritas sobre o fundo escuro, as normas do regulamento interno da Associação. Além de grafadas com luz, elas eram também lidas em voz alta pela Mestra, atrás, do escuro, com sua voz marcante. A cada item que aparecia na tela soava um um pequeno sino.

As regras eram as seguintes:

1. Foco. Uma vez dentro da Associação, até sua saída, deve-se permanecer, de mente e corpo, efetivamente dentro da Associação, voltando todas as suas atenções para as atividades aqui desenvolvidas. Salvo em casos excepcionais, autorizados diretamente pela Mestra; estão proibidas todas as formas de comunicação com o mundo exterior. Não é permitido o uso de telefones, computadores, aparelhos de rádio ou aparelhos eletrônicos de qualquer sorte. 

2. Mente e corpo. Da mesma forma que sua atenção deve pousar somente sobre as atividades desenvolvidas na Associação, o sustento para seu corpo físico virá também, exclusivamente, da Associação. Existe uma dieta pré-determinada dentro da A.T.A., que deve ser seguida à risca. Não é permitido entrar nas instalações com qualquer tipo de comida, bebida ou substância, exceto medicamentos necessários à saúde do indivíduo, previamente informados na ficha de inscrição e autorizados diretamente pela Mestra.

3. Ordem. Todos os presentes dentro da Associação devem estar vestidos de acordo com o seu grau. Todos os visitantes e aspirantes deverão estar vestidos com as vestes negras do primeiro grau. Os de segundo grau deverão estar vestidos com as vestes brancas dos teóricos. Os de terceiro grau deverão estar vestido com as vestes amarelas dos práticos. Por fim, os de quinto grau deverão estar vestidos com as vestes rubras dos filósofos.

4. Propósito. Todas as atividades dentro da Associação devem seguir os roteiros pré-definidos para cada um pela própria Mestra, sendo necessária a autorização direta de um Adepto para qualquer exceção a essa regra.

Assim que os dizeres desapareceram, a tela foi clareando, voltando a mostrar a Mestra que, levantando a mão direita espalmada, despediu-se dos telespectadores com uma invocação aos Mestres Ancestrais, permanecendo estática então, a cena toda se preenchendo de fumaça (gelo seco?) até ficar branca e, figuradamente, congelar. Os dizeres A.T.A. apareceram mais uma vez, em azul celeste sobre o fundo branco.

Aeris ascendeu as luzes. De uma gaveta instalada debaixo da mesa ela tirou três grandes bolsas feitas de um plástico ao mesmo tempo grosso e transparente. Cada uma das bolsas tinha um adesivo, colocado de forma bem visível na sua frente, que exibia o nome de cada um dos ali recepcionados escritos em branco sobre um fundo preto.

— Bem, todos vocês já fizeram o depósito corretamente antes de chegar aqui, de forma que não temos de discutir valores. Inclusive, o valor depositado cobre todas as necessidades que terão, de tal forma que nesse intervalo vocês não terão de adquirir nada. Na verdade, durante esse intervalo vocês não poderão fazer nenhum tipo de negócio, de transação, todos os valores em espécie, cartões de crédito, cheques e semelhantes ficam comigo aqui.

Sr. Hidelbrando espremeu seus secos lábios, aproximou, com as duas mãos agarradas ao punho, a sua bengala contra o peito, fazendo lentamente não, não, não com a cabeça. Soltou um pigarro ctônico e em seguida sibilou nervosamente que aquilo era um absurdo sem igual. Aeris travou corpo e o olhou com os olhos acusatoriamente arregalados, como se absurdo, realmente, fosse fazer aquela consideração.

— Nós não expulsamos ninguém da Associação e também não convidamos ninguém. Se não convocamos, necessariamente, não forçamos a entrar. Todos que aqui adentram o fazem de acordo com suas vontades, o senhor escutou bem. A questão é binária, senhor. O senhor entra ou sai.  Sim ou não. Se sim… Eu ficarei com esses bens aqui, que serão  então depositados em nossos cofres. Tudo será documentado. E… Bem, o senhor sai quando bem entender… Se não… Bem… Então não.

Hidelbrando, pensando que não havia deslocado até ali para simplesmente voltar sem nada, anui, ainda que a contragosto:

— Olha, filha… Eu vou querer um recibo disso tudo — O que Aeris respondeu que podeira ser providenciado, aproximando-se do homem. 

As bolsas por dentro se assemelhavam a pastas sanfonadas, com diferentes compartimentos. Na primeira parte Aeris colocou a carteira de Hidelbrando, com seus documentos e dinheiro. Passando então para a segunda parte da bolsa, recolheu então o celular do velho:

— Bem, como vocês viram no vídeo, todos os relógios, celulares, computadores e aparelhos eletrônicos de uma forma geral, como máquinas fotográficas, filmadoras, tabletspagers e etc., devem ficar aqui

Recolhidos os pertences do Sr. Hidelbrando, que ficou sem recibo nenhum (nem ali, nem depois), ela se aproximou de Pereira. O moço, levando a mão à testa, tartamudo, tentou se manter na posse de suas ferramentas de trabalho:

— Mas, eu… Nós, ahn, combinamos… A matéria, é… Não… Não tem como eu fazer tudo de cabeça.

Aeris, no mesmo tom sério, rapidamente o acalmou:

— Bem, no seu caso, há uma autorização expressa de Mestra. Poderá ficar com suas anotações e seu gravador. Fotografias serão cedidas por nós. Terá também um computador ao seu dispor, mas sem acesso à internet. O contato com o mundo lá fora, e isso é válido para todos, está suspenso até a saída. Fazer qualquer contato implica em, necessariamente antes sair das nossas instalações… Para voltar, só passando mais uma vez por esse mesmo procedimento…

Flávia Cláudia, de tão solícita, só faltou tirar a bolsa transparente da mão de Aeris e colocar ela mesma os seus pertences dentro dos diferentes compartimentos.  Aeris seguiu reforçando as restrições impostas pela Mestra:

— A alimentação se dará também de acordo com o determinado pela Mestra, respeitando, é claro, as restrições  e condições de saúde de cada um, conforme informado no formulário de inscrição… Não só o conteúdo da alimentação, mas também as horas e os lugares são essenciais, de forma que não é também permitido aqui  entrar com qualquer tipo de alimento, bebida ou substância… Não é permitido consumir nada fora do que é servido aqui, com exceção dos necessários remédios já informados no fichário de inscrição.

Mesmo diante de alocução tão redundante, Pereira tinha de perguntar. Fumar, um careta ou um do verde, era algo do qual ele não conseguia abrir mão. Tinha de pelo menos perguntar:

— Proibido fumar. Proibido álcool, açúcar, cafeina, qualquer droga, lícita ou ilícita — respondeu-lhe Aeris, com um claro olhar de reprovação que para Pereira, e somente para Pereira, tinha algo de decepção, como se a moça tivesse algum tipo de expectativa em relação a ele (ela não tinha).

Aeris retirou três embrulhos de debaixo de outra gaveta, também localizada de baixo da mesa circular:

 — Além disso, há a questão do vestuário, as suas roupas também ficarão aqui comigo e serão devolvidas quando vocês partirem. A partir das informações constantes nos formulários foram feitas vestes para cada um de vocês, nos tamanhos e modelos apropriados a seus corpos, com a cor correspondente à posição de cada um de vocês em nossa hierarquia… Aqui…. — ela disse entregando um dos embrulhos para o Sr. Hildebrando — Nigredo, o posto de entrada… Para o Sr. Hildebrando, ahn, acredito que M seja o tamanho, não é?

— Sim, minha filha.

Aqui, Nigredo também para você, Daniel… Vocês podem se trocar ali, ali, ó, tem um vestiário, um instante só. E, aqui, Flávia Cláudia, Albedo… E aqui, Olímpia, a sua, Citrinitas…

— Ah, se pudesse eu já vinha com a minha na malinha, trazia de casa, mandava fazer…

—  Olímpia, não, tem de ser a veste fornecida aqui, você sabe. 

— Adorei o preto, mas… — caderninho no joelho, tentando aparentar um distanciamento profissional — Olha, essa pergunta é feita de maneira, assim, cem por cento honesta, tá bem? Eu… Eu não quero provocar… É… Tá certo, nós vamos usar essas roupas, beleza. Assim, é como eu disse, preto…. Eu não tenho uma cor favorita, sabe?, mas se eu tivesse, com certeza seria preto… É que… Porque todos nós temos de usar essas roupas aqui?, padronizadas, e você, que, ahn, também está aqui na Associação, assim, muito mais do que a gente, né? Usa…

A moça levantou a mão como quem diz que já entendeu e aceitou a pergunta. Era uma questão que ela tinha prazer em explicar (a bem da verdade, tinha um enorme prazer em elucidar tudo relacionado à Associação e à Mestra):

— Ah, sim, é claro… Aqueles que visitam a Associação ocasionalmente tendem a permanecer no primeiro grau, vestindo-se de preto. A medida que a pessoa vai entendendo, não só racionalmente, mas também com o coração, sentindo também… A medida que os ensinamentos da Mestra são compreendidos e a frequência na Associação vai aumentando, a pessoa passa de grau. Depois do grau de filósofo, no qual se usam vestes vermelhas, vem o grau de Adepto. Para se chegar ao grau de Adepto é necessário passar por um… — Olhos revelando receio — Um ritual, um rito… Um rito no qual se descobre seu nome transcendental e suas vestes transcendentais, definitivas, utilizadas aqui e além…

— Além? — falso tom de surpresa.

— Tudo em seu tempo. Agora você deve se trocar.

Depois de anotar “graduação / formatura = parangolés” em seu bloco de notas, Pereira seguiu para o cômodo que servia de vestiário. Virado para a parede, de forma a não ver o nenhuma parte do corpo nu do Sr. Hidelbrando, Pereira se trocou desajeitadamente. Descobriu que suas vestes consistiam em um par de calças largas, uma camisa de mangas compridas que se assemelhava a uma bata, um pequeno poncho, que ia quase até a cintura e um pequeno barrete. Além disso, havia também um bornal de pano. A capa e a pequena touca, ele foi informado por Aeris assim que retornou à sala anterior, eram de uso opcional (opção claramente desaconselhada, graças ao calor). Ligeiramente envergonhando, ele retirou essas duas peças, deixando-se então de se sentir, nas suas palavras (apenas pensadas, não proferidas), como um duendezinho melancólico. Ficou sentando, as mãozinhas uma sobre a outra, as duas sobre os joelhos, olhando para Aeris com um sorriso tímido e amarelo até que os demais voltassem, quando a moça então entregou folhetos a todos.

Abrindo o seu folheto, Pereira descobriu um pequeno mapa da sede A.T.A. em preto em branco, marcações em caneta vermelha indicava os caminhos, locais e horários que deveria seguir ali dentro. Ficou imaginando, maravilhado, se eram anotações feitas pelo próprio pulso de Cármen? 

— Bem, é isso então, Olímpia, Flávia Cláudia, vocês duas estão liberadas, um carro deve estar chegando para levar vocês. — A mão direita fazendo um V com os dedos, apontando para dupla Hidelbrando e Pereira — Os senhores, por favor, por aqui, uma iniciação é necessária.

*

SILHUETAS

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A ideia de escrever algo cujo fim não se avista, seja pelo próprio tamanho da coisa, seja pela minha morosidade (trata-se do trabalho que vem saindo aqui sob o título provisório de Esdrúxulo e Lúgubre) me chateava, de forma que comecei, seguindo uma ideia de O.  e imitando as epifanias do Joyce, a escrever umas passagens curtas, que a princípio seriam apenas cenas realmente observadas por mim, mas que foram atacadas pela ficção rapidamente (especialmente o próprio narrador, um eu que é um outro, e Isabela, ávida defensora de um ethos faulkneriano.) Esse exercício, originalmente publicado aqui sob o título autoexplicativo (e pedante, e bobo) de à clef, foi escolhido pela querida e independente Editora Calamares para se transformar em SILHUETAS, livro feito desses textos em conjunto com fotografias do excelente Mauro Figa. O lançamento será dia 16.5.2018, às 19h, na Rua Sapucaí, nº 153, Floresta, Belo Horizonte/MG.

Ou, em outras palavras, vamô ali num barzinho?

O livro por vir

Como dito anteriormente, alguns textos publicados aqui sob a rubrica à clef  sairão no formato de livro, pela linda, independente e mineira Editora Calamares. A edição será um mimo e contará com fotografias do talentoso Mauro Figa. Silhuetas é o nome. Seguem abaixo algumas fotos da boneca. Fica aqui, desde já, o meu agradecimento às editoras e editores da Calamares, pessoas muito queridas. Assim que tivermos a data de lançamento e demais informações, informo aqui no blog.

 

 

A VITÓRIA DOS FUTURISTAS

I. 

Dedinhos nervosos
Dedinhos nervosos

Antes, o rigor da pedra
Estilo preciso
Hoje, dedinhos nervosos

Isso não te dá um cagaço?

— Você vai por cagaço no seu poema?

— Não te dá um cagaço?

II. 

Diuturnamente
(como na dicção
dum delegado pesporrente)
helicópteros
espancam as manhãs,
britadeiras empreendem
contra as tardes
e as noites
ai,
……(ai, o que se espera das noites…)
não sustentam mais
qual
quer
ilusão

Ao final das contas
sonha-se apenas com um
nada consta.
Mas, agora
que são
(só)
contas,
as contas,
as contas não fecham.
O que é

b   a   n   a   l

 

Banal
Como um transformador
explodindo de madrugada
em um bairro de classe-média baixa

(Sem um crescendo de explosões
Cem voleios de canhões sinfônicos
Nada assim tão épico, tão russo,
tão

……………………………………………………….escapista.

Os canhões, inclusive, isso é bem sabido,
Estão todos investidos na guerra contra o gozo).

Explode um transformador
E agora você
Medita sobre,
literalmente sobre,
As contas.

Elas não fecham.

PEREIRA XII

Olímpia, muito naturalmente, não passou batida. Como poderia? Quando lentamente abriu um sorriso para Pereira, com um muito leve erguer de sobrancelhas, enquanto Aeris tentava descobrir qual cabo funcionaria no projetor, o moço não pôde deixar de reparar nas maçãs agradavelmente proeminentes de seu rosto, acentuadas pela maquilagem dourada sutilmente aplicada (ele mesmo não saberia dizer se haveria maquilagem ali), e no suave castanho claro dos seus olhos, encimados por pálpebras coloridas com sombra verde, de tons metálicos. Interpelá-la era um imperativo.

— E você, — Pereira então acertou, tratando-a por você, não escutando então que “Senhora está lá no céu”— o que te traz até aqui, até Car-, ahn, até a Mestra Intreza?

A socialite morena fechou os olhos por um momento, coisa muito rápida, e então fez um doce meneio de cabeça, em tom afirmativo,  como se tivesse mentalmente repetido a pergunta de Pereira para si mesmo e prontamente encontrado a resposta:

— Beeem. Sabe aquela pessoa?… Que gosta mais da expectativa da festa, não sabem?, de pensar, preparar e coordenar tudo, tu-do, do que, assim, da própria festa? Então, beeem,  meus caros, essa pessoa… —  com uma jogadinha do tronco para a direita, abrindo as mãos lentamente, as palmas quase que votadas para cima, os cotovelos bem próximos à cintura marcada pela calça e jaqueta, sorrindo  — Sou. Eu. E… Bem, festas sim, claro, que a festa é o — soltando quase um agudo no á — ápice da civilização, claro, claro, mas não só festas, porque com frequência eu projeto e promovo eventos, eventos culturais, ou, como eu gosto de chamar… —  gesticulando com os pulsos articulados de forma a expor,  além de suas unhas pintadas de um verde também metálico, os seus vários e coloridos anéis — Realidades possíveis, ainda que… Improváveis e… Temporárias… Entendem?

Àquela altura, depois de relatos de visitas extraterrestres e viagens extraplanares, ninguém demonstrou ter qualquer dificuldade com o conceito. Olímpia continuou, empostando a voz, ainda que levemente:

— E, além disso, eu sou uma grande, aha!,  flâneuse, não sabem? Adoro borboletear, por aí, pelo mundo. Adoro. Mas, assim, não sabem?, o que me agrada não é essa coisa pré-definida, óbvia, chata, do turismo não. Ah, não, não. Sou uma viajante, não uma turista. Sabe? Totalmente diferente…

Ergueu, dramaticamente, apenas a sobrancelha direta:

— Uma coisa, assim, não sabem?… Distinta.

Sendo que a última palavra foi dita com uma súbita e desagradável contração da catadura que ela logo tratou de desfazer, revelando a enorme plasticidade de seu rosto, seguindo, mais uma vez sorrindo:

—  Daí, uni essas duas coisas, esses dois traços meus, sabem?, e aqui, na Associação…  — apontando um indicador para baixo e outro para cima   Aqui eu faço um trabalho com Intreza, com a Mestra… Desde… Desde de logo depois que nós duas nos conhecemos…  Ai, queridos, que episódio… Ah, foi tão… Tão… Ai, fico, assim, sem palavras…

Olímpia inclinou-se para frente ligeiramente, piscando de forma jocosa e como que dedilhando o ar:

— Ah, quase consigo escutar as harpas, não sabem?, como em um flashback de desenho animado. Haha! Foi em um lugar muito especial que nós nos conhecemos, não sabem?, nada mais, nada menos do que na frente da própria Esfinge de Gizé. Sim, ela mesma. Uma coisa assim… Incrível. Não vou dizer que foi, ahn, uma experiência mística, mas, ó!, — levando as mãos ao rosto (os antebraços comprimindo ligeiramente o busto), o queixo caído de maneira exagerada — foi quase, não sabem?, qua-se. Eu estava lá, embasbacada, cheia de… Cheia de maravilhamento e… E temor ao mesmo tempo. Ah, temor, sim. Não é à toa que a Grande Esfinge é chamada pelos falantes de árabe de o Pai do Terror… É sim, não sabiam?

O Sr. Hidelbrando coçou o seu papo bem barbeado (um feito realmente digno de nota, dado o conjunto de pelancas que era seu papo) com sincera perplexidade. Flávia Cláudia encantada com Olímpia, soltava, bem baixinho, consecutivos ós, enquanto, Pereira, indolentemente, rabiscava pirâmidezinhas em seu bloco de anotações.

— Eu fiquei assim, como que paralisada, como uma ratinha diante da cobra, duma, assim, duma naja, não sabem? E vi, assim, vi na minha imaginação, vi e não vi, vi num só relance… — Passando a mão aberta lentamente na frete do rosto, a palma voltada para os espectadores, os dedos bem espaçados, um tanto lânguida, quase como em um passo de dança — A Esfinge completa e… Colorida!… A face no corpo de leão, inteira, assim, de um vermelho terroso, com seu nariz e barba faraônica cerimonial ali, presentes, com aquela coroa listrada de dourado, ah, um dourado muito vivo, e daquele azul plural, intrincado, do lápis-la-zú-li. Gente, nossa, muita emoção, não sabem? E tudo tão súbito. Um frisson, ai, muito forte, uma sensação, assim, celeste, me arrebatou e me deixou sem ar, sabem?, fiquei bamba… Toda solta. 

— Mas e aí? —  inquiriu Flávia, quase aflita, mãozinha mexendo nervosa sobre os joelhos.

— Então menina, atrás de mim, eu percebo, assim, na minha visão periférica, uma mulher, eu me viro e a vejo, ela está envolta num véu púrpura, nossos olhos se encontram e então ela me diz, assim: Encarar a Esfinge seriamente é encarar o transcendental ele mesmo, o arcano ele mesmo. O transcendental e o arcano, gente. Acho que na cabeça dela era até com com maiúscula, em caixa alta . O Transcendental. O Arcano. Que surpresa, não é? E a medida que eu ia me recuperando, a Mestra, que eu então sabia então quem era, não fazia nem ideia, me dava o ombro enquanto nós seguíamos o caminho de volta, ela me contando coisas sobre a Esfinge que eu em absoluto não sabia. Contou, assim, vejam só, que não existem registros da construção da estátua. E que existem marcas de erosão por água em seu dorso, o que indicaria que ela teria sido construída em um tempo em que chovia muito ali, um tempo talvez anterior aos pró-prios egípcios… Ai, meus queridos…

Olímpia silenciou-se brevemente, como que se dando tempo para os presentes considerarem todas essas informações, ainda que jogadas assim, um tanto desconexas. Olhava para o centro da mesa branca, perdida:

— E daí, a partir daquele momento, daquele instante em que ela me ofereceu o ombro, seguimos juntas, foi Karnak, os templos de Ramsés e Nefertari, o Vale dos Reis, o Monte Sinai, enfim, o Egito ele todo juntas…

— Ai, que privilégio! —  Flávia Cláudia, de boca cheia, numa expressão que era ao mesmo tempo uma sincera manifestação de seu juízo de valor acerca daquela viagem com Mestra Intreza e uma verdadeira suma de toda a vida de Olímpia, que, feliz com tal recepção, continuou:

— E no meio nossa recém iniciada convivência, muito agradável, agradabilíssima, foram surgido, assim, naturalmente, inúmeros roteiros para vários passeios, à guisa, inicialmente, de mera especulação, não sabem? E se fossemos a Angkor, no Camboja? E se fossemos a Kyoto? E se fossemos ver a aurora boreal na Finlândia? Daí Intreza, digo, a nossa Mestra, me convidou para a Associação e para, dentro da Associação, ser eu a pessoa encarregada do planejamento, organização e acompanhamento das viagens internacionais… Viagens que eu programo para emular, não sabem?, o mesmo espanto, o mesmo maravilhamento que tive diante da Esfinge, naquela vez…

Olívia olhou demoradamente para cada um, piscando como se sonolenta e envolvendo-os com um sorriso sugestivo:

— Viagens vivenciais, experimentais…

E então quase séria, cerimoniosa:

— E isso é, nada mais, nada menos do que uma maneira de celebrar a vida, não é? Ah, ver as expressões de encantamento na face das pessoas… Como é, assim, gratificante…

— Aí, imagino, estar facilitando, né, esses encontros, apresentando as maravilhas do mundo, ai, gente, que tudo… — Flávia, tiete.

— E, não sabem?, deu certo, é um projeto de, assim, muito sucesso. Começamos por aqui perto, na nossa América Latina mesmo. Fizemos expedições para Machu Picchu, para a Ilha de Páscoa, para o deserto de Guajira, para o Deserto de Sal… Depois começamos a fazer roteiros em Portugal. O Caminho de São Tiago de Compostela, Fátima, a Quinta da Regaleira… Ano passado fizemos Lourdes, na França e Assis, na Itália…

— Olha só, eu não me considero, assim, um beato, mas, olha, eu bem que gostaria de sim… Lourdes e Assis? Ah, vejam, sim… — Hidelbrando murmurando em concordância.

— Mas, assim, gente, é…. Ai, querida, como que?… — Flávia: atônita — como qu’eu faço? Assim, para participar, ai, ir com vocês…

— Ah, sim… Essas viagens, você pode ver que nenhuma delas é divulgada no site, elas são somente para um grupo, assim, mais próximo, não sabe?

Eis que expressão de abandono, completo abandono no rosto de  Flávia condoeu Olímpia:

— Mas, ó, querida, presta atenção aqui, eu te aviso. Ai, queridos, aviso todos você, tá?, com certeza, aviso todos da nossa próxima viagem. Vocês são todos, ai, sem dúvida, distintos. Mas, não vai ser esse ano, sabem?  Esse ano, vai acontecer… 

Aeris, visivelmente preocupada, mirou Olímpia nos olhos. Olímpia tentou não alterar o fluxo da sua fala, continuando, sem esboçar qualquer resposta direta a Aeris:

—  É, bem… Esse ano faríamos toda a Londres ocultista, culminando com uma visita noturna a Stonehenge . Ai, queridos, seria tão, mas tão lindo, iríamos começar na Catedral de São Paulo, não só por conta propriamente de São Paulo, não que eu tenha nada contra Paulo de Tarso, é claro que não gente; e nem só porque no exato lugar da catedral existia, muitos anos antes, ai, incontáveis anos, um importantíssimo templo consagrado a Diana, uma das deusas mais importantes do panteão romano e, ao mesmo tempo, uma das divindades mais influentes no ocultismo, não só por isso queridos; e ainda, não só porque é um  ponto elevado de Londres, uma colina, não é?, e eu imagino que vocês bem saibam que os lugares elevados tem um valor especial para as forças místicas; mas porque estaríamos então em Ludgate Hill, o local onde está enterrado o Rei Lud, o monarca gaélico, descendente do próprio deus celta Nodens, fundador de Londres. Não sabem?, o próprio nome Londres vem dele, vem do latim Londinum que por sua vez vem de Caer Ludein,  a fortaleza de Lud.

A socialite abriu os braços com as mãos espalmadas, como quem, um pintor, um fotógrafo, busca um enquadramento ideal, e, com, os olhos vidrados, piscando excessivamente, sugeria uma cegueira para o que tinha diante dos olhos que lhe permitiria enxergar terras distantes, tudo uma evidente brincadeira:

— Haveria, muito naturalmente, uma visita às igrejas barrocas de Hawksmoor, o arquiteto. Ah, não sabem?, são cheias de curiosos elementos pagãos, suas posições no mapa de Londres formam o que? Nada menos do que um pentagrama, não sabem? A Minha preferida é a St. George, no Bloomsburry, nossa, o que é aquilo, gente, não é mesmo? A torre, uma referência explícita ao Mausoléu de Halicarnasso, e, ai, gente, Bloomsburry, não é mesmo?, ali do lado, ó, temos algumas das estátuas que antes figuravam no Mausoléu Halicarnasso no Museu Britânico… Ah, e é claro, ao Museu Britânico seria dedicado pelo menos um dia inteiro, é claro, não é? De antigos feitiços sumérios escritos em cuneiforme ao espelho negro clarividente de Dr. John Dee, é coisa demais para ver, para sentir… Tem de tomar até cuidado, não sabem?, porque podem ser muitos os arroubos, ah, sim…

— É… — Aeris, entre grave e sem jeito — Olímpia…

 — O que mais não poderia faltar? Ah! A rua na qual Blake morou por quase duas décadas?, a casa onde Madame Blavatsky explanava sua doutrina, pessoalmente, toda terça-feira? Ai, ai…

 — Bem, tudo pronto aqui, prezados — Aeris, as mãos na cintura, dirigindo-se, verbalmente, a todos, mas olhando especificamente para Olímpia, que anuiu em encerrar sua fala, pulando para o final:

— Mas, enfim, queridos, tudo isso para acabar em uma visita a Stonehenge, sim. Mas, ó, meus lindos, vocês não sabem, não sabem não, a dificuldade que é fazer uma visita digna ao monumento que é Stonehenge, as ovelhas, aquelas ovelhas, com números em azul pintados nas laterais de seus corpos nem são o pior, algumas acabam sendo até agradáveis, mas espirituosas do que muita gente que eu conheci por aí… A questão é aquela maldita estrada, cinza, barulhenta, ai, banal, banal, dolorosamente banal, ali do lado, impedindo a fruição do monumento, belíssimo, belíssimo… Eu, na qualidade, ai, meus lindos, qualidade singular de curadora de momentos especiais, curadora de, assim de epifanias, poderia eu apresentar Stonehenge assim, desfigurada assim? De jeito nenhum, não é mesmo? E por isso então que eu consegui uma coisa, assim, super difícil, não sabem?, super. Uma visita ao monumento à noite. É fantástico, meus lindos, fantástico — Olivia então suspirou, catando os olhos de Aeris — Mas… Bem, as atividades desse ano parece que, bem, serão interrompidas…

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