Não em brancas nuvens

Ocaso
num céu de outono
desenhado por brisas,
uma nuvem sozinha,
central,
brilha laranja.

Fernando
agora
é memória.

A grave voz amiga
A barba ibérica e branca
As gentis trocas de golpes
(às vezes não tão gentis)
Viagens e cervejas

Memória.

Nemure, Fernando, nemure.

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A VITÓRIA DOS FUTURISTAS

I. 

Dedinhos nervosos
Dedinhos nervosos

Antes, o rigor da pedra
Estilo preciso
Hoje, dedinhos nervosos

Isso não te dá um cagaço?

— Você vai por cagaço no seu poema?

— Não te dá um cagaço?

II. 

Diuturnamente
(como na dicção
dum delegado pesporrente)
helicópteros
espancam as manhãs,
britadeiras empreendem
contra as tardes
e as noites
ai,
……(ai, o que se espera das noites…)
não sustentam mais
qual
quer
ilusão

Ao final das contas
sonha-se apenas com um
nada consta.
Mas, agora
que são
(só)
contas,
as contas,
as contas não fecham.
O que é

b   a   n   a   l

 

Banal
Como um transformador
explodindo de madrugada
em um bairro de classe-média baixa

(Sem um crescendo de explosões
Cem voleios de canhões sinfônicos
Nada assim tão épico, tão russo,
tão

……………………………………………………….escapista.

Os canhões, inclusive, isso é bem sabido,
Estão todos investidos na guerra contra o gozo).

Explode um transformador
E agora você
Medita sobre,
literalmente sobre,
As contas.

Elas não fecham.

PEREIRA XII

Olímpia, muito naturalmente, não passou batida. Como poderia? Quando lentamente abriu um sorriso para Pereira, com um muito leve erguer de sobrancelhas, enquanto Aeris tentava descobrir qual cabo funcionaria no projetor, o moço não pôde deixar de reparar nas maçãs agradavelmente proeminentes de seu rosto, acentuadas pela maquilagem dourada sutilmente aplicada (ele mesmo não saberia dizer se haveria maquilagem ali), e no suave castanho claro dos seus olhos, encimados por pálpebras coloridas com sombra verde, de tons metálicos. Interpelá-la era um imperativo.

— E você, — Pereira então acertou, tratando-a por você, não escutando então que “Senhora está lá no céu”— o que te traz até aqui, até Car-, ahn, até a Mestra Intreza?

A socialite morena fechou os olhos por um momento, coisa muito rápida, e então fez um doce meneio de cabeça, em tom afirmativo,  como se tivesse mentalmente repetido a pergunta de Pereira para si mesmo e prontamente encontrado a resposta:

— Beeem. Sabe aquela pessoa?… Que gosta mais da expectativa da festa, não sabem?, de pensar, preparar e coordenar tudo, tu-do, do que, assim, da própria festa? Então, beeem,  meus caros, essa pessoa… —  com uma jogadinha do tronco para a direita, abrindo as mãos lentamente, as palmas quase que votadas para cima, os cotovelos bem próximos à cintura marcada pela calça e jaqueta, sorrindo  — Sou. Eu. E… Bem, festas sim, claro, que a festa é o — soltando quase um agudo no á — ápice da civilização, claro, claro, mas não só festas, porque com frequência eu projeto e promovo eventos, eventos culturais, ou, como eu gosto de chamar… —  gesticulando com os pulsos articulados de forma a expor,  além de suas unhas pintadas de um verde também metálico, os seus vários e coloridos anéis — Realidades possíveis, ainda que… Improváveis e… Temporárias… Entendem?

Àquela altura, depois de relatos de visitas extraterrestres e viagens extraplanares, ninguém demonstrou ter qualquer dificuldade com o conceito. Olímpia continuou, empostando a voz, ainda que levemente:

— E, além disso, eu sou uma grande, aha!,  flâneuse, não sabem? Adoro borboletear, por aí, pelo mundo. Adoro. Mas, assim, não sabem?, o que me agrada não é essa coisa pré-definida, óbvia, chata, do turismo não. Ah, não, não. Sou uma viajante, não uma turista. Sabe? Totalmente diferente…

Ergueu, dramaticamente, apenas a sobrancelha direta:

— Uma coisa, assim, não sabem?… Distinta.

Sendo que a última palavra foi dita com uma súbita e desagradável contração da catadura que ela logo tratou de desfazer, revelando a enorme plasticidade de seu rosto, seguindo, mais uma vez sorrindo:

—  Daí, uni essas duas coisas, esses dois traços meus, sabem?, e aqui, na Associação…  — apontando um indicador para baixo e outro para cima   Aqui eu faço um trabalho com Intreza, com a Mestra… Desde… Desde de logo depois que nós duas nos conhecemos…  Ai, queridos, que episódio… Ah, foi tão… Tão… Ai, fico, assim, sem palavras…

Olímpia inclinou-se para frente ligeiramente, piscando de forma jocosa e como que dedilhando o ar:

— Ah, quase consigo escutar as harpas, não sabem?, como em um flashback de desenho animado. Haha! Foi em um lugar muito especial que nós nos conhecemos, não sabem?, nada mais, nada menos do que na frente da própria Esfinge de Gizé. Sim, ela mesma. Uma coisa assim… Incrível. Não vou dizer que foi, ahn, uma experiência mística, mas, ó!, — levando as mãos ao rosto (os antebraços comprimindo ligeiramente o busto), o queixo caído de maneira exagerada — foi quase, não sabem?, qua-se. Eu estava lá, embasbacada, cheia de… Cheia de maravilhamento e… E temor ao mesmo tempo. Ah, temor, sim. Não é à toa que a Grande Esfinge é chamada pelos falantes de árabe de o Pai do Terror… É sim, não sabiam?

O Sr. Hidelbrando coçou o seu papo bem barbeado (um feito realmente digno de nota, dado o conjunto de pelancas que era seu papo) com sincera perplexidade. Flávia Cláudia encantada com Olímpia, soltava, bem baixinho, consecutivos ós, enquanto, Pereira, indolentemente, rabiscava pirâmidezinhas em seu bloco de anotações.

— Eu fiquei assim, como que paralisada, como uma ratinha diante da cobra, duma, assim, duma naja, não sabem? E vi, assim, vi na minha imaginação, vi e não vi, vi num só relance… — Passando a mão aberta lentamente na frete do rosto, a palma voltada para os espectadores, os dedos bem espaçados, um tanto lânguida, quase como em um passo de dança — A Esfinge completa e… Colorida!… A face no corpo de leão, inteira, assim, de um vermelho terroso, com seu nariz e barba faraônica cerimonial ali, presentes, com aquela coroa listrada de dourado, ah, um dourado muito vivo, e daquele azul plural, intrincado, do lápis-la-zú-li. Gente, nossa, muita emoção, não sabem? E tudo tão súbito. Um frisson, ai, muito forte, uma sensação, assim, celeste, me arrebatou e me deixou sem ar, sabem?, fiquei bamba… Toda solta. 

— Mas e aí? —  inquiriu Flávia, quase aflita, mãozinha mexendo nervosa sobre os joelhos.

— Então menina, atrás de mim, eu percebo, assim, na minha visão periférica, uma mulher, eu me viro e a vejo, ela está envolta num véu púrpura, nossos olhos se encontram e então ela me diz, assim: Encarar a Esfinge seriamente é encarar o transcendental ele mesmo, o arcano ele mesmo. O transcendental e o arcano, gente. Acho que na cabeça dela era até com com maiúscula, em caixa alta . O Transcendental. O Arcano. Que surpresa, não é? E a medida que eu ia me recuperando, a Mestra, que eu então sabia então quem era, não fazia nem ideia, me dava o ombro enquanto nós seguíamos o caminho de volta, ela me contando coisas sobre a Esfinge que eu em absoluto não sabia. Contou, assim, vejam só, que não existem registros da construção da estátua. E que existem marcas de erosão por água em seu dorso, o que indicaria que ela teria sido construída em um tempo em que chovia muito ali, um tempo talvez anterior aos pró-prios egípcios… Ai, meus queridos…

Olímpia silenciou-se brevemente, como que se dando tempo para os presentes considerarem todas essas informações, ainda que jogadas assim, um tanto desconexas. Olhava para o centro da mesa branca, perdida:

— E daí, a partir daquele momento, daquele instante em que ela me ofereceu o ombro, seguimos juntas, foi Karnak, os templos de Ramsés e Nefertari, o Vale dos Reis, o Monte Sinai, enfim, o Egito ele todo juntas…

— Ai, que privilégio! —  Flávia Cláudia, de boca cheia, numa expressão que era ao mesmo tempo uma sincera manifestação de seu juízo de valor acerca daquela viagem com Mestra Intreza e uma verdadeira suma de toda a vida de Olímpia, que, feliz com tal recepção, continuou:

— E no meio nossa recém iniciada convivência, muito agradável, agradabilíssima, foram surgido, assim, naturalmente, inúmeros roteiros para vários passeios, à guisa, inicialmente, de mera especulação, não sabem? E se fossemos a Angkor, no Camboja? E se fossemos a Kyoto? E se fossemos ver a aurora boreal na Finlândia? Daí Intreza, digo, a nossa Mestra, me convidou para a Associação e para, dentro da Associação, ser eu a pessoa encarregada do planejamento, organização e acompanhamento das viagens internacionais… Viagens que eu programo para emular, não sabem?, o mesmo espanto, o mesmo maravilhamento que tive diante da Esfinge, naquela vez…

Olívia olhou demoradamente para cada um, piscando como se sonolenta e envolvendo-os com um sorriso sugestivo:

— Viagens vivenciais, experimentais…

E então quase séria, cerimoniosa:

— E isso é, nada mais, nada menos do que uma maneira de celebrar a vida, não é? Ah, ver as expressões de encantamento na face das pessoas… Como é, assim, gratificante…

— Aí, imagino, estar facilitando, né, esses encontros, apresentando as maravilhas do mundo, ai, gente, que tudo… — Flávia, tiete.

— E, não sabem?, deu certo, é um projeto de, assim, muito sucesso. Começamos por aqui perto, na nossa América Latina mesmo. Fizemos expedições para Machu Picchu, para a Ilha de Páscoa, para o deserto de Guajira, para o Deserto de Sal… Depois começamos a fazer roteiros em Portugal. O Caminho de São Tiago de Compostela, Fátima, a Quinta da Regaleira… Ano passado fizemos Lourdes, na França e Assis, na Itália…

— Olha só, eu não me considero, assim, um beato, mas, olha, eu bem que gostaria de sim… Lourdes e Assis? Ah, vejam, sim… — Hidelbrando murmurando em concordância.

— Mas, assim, gente, é…. Ai, querida, como que?… — Flávia: atônita — como qu’eu faço? Assim, para participar, ai, ir com vocês…

— Ah, sim… Essas viagens, você pode ver que nenhuma delas é divulgada no site, elas são somente para um grupo, assim, mais próximo, não sabe?

Eis que expressão de abandono, completo abandono no rosto de  Flávia condoeu Olímpia:

— Mas, ó, querida, presta atenção aqui, eu te aviso. Ai, queridos, aviso todos você, tá?, com certeza, aviso todos da nossa próxima viagem. Vocês são todos, ai, sem dúvida, distintos. Mas, não vai ser esse ano, sabem?  Esse ano, vai acontecer… 

Aeris, visivelmente preocupada, mirou Olímpia nos olhos. Olímpia tentou não alterar o fluxo da sua fala, continuando, sem esboçar qualquer resposta direta a Aeris:

—  É, bem… Esse ano faríamos toda a Londres ocultista, culminando com uma visita noturna a Stonehenge . Ai, queridos, seria tão, mas tão lindo, iríamos começar na Catedral de São Paulo, não só por conta propriamente de São Paulo, não que eu tenha nada contra Paulo de Tarso, é claro que não gente; e nem só porque no exato lugar da catedral existia, muitos anos antes, ai, incontáveis anos, um importantíssimo templo consagrado a Diana, uma das deusas mais importantes do panteão romano e, ao mesmo tempo, uma das divindades mais influentes no ocultismo, não só por isso queridos; e ainda, não só porque é um  ponto elevado de Londres, uma colina, não é?, e eu imagino que vocês bem saibam que os lugares elevados tem um valor especial para as forças místicas; mas porque estaríamos então em Ludgate Hill, o local onde está enterrado o Rei Lud, o monarca gaélico, descendente do próprio deus celta Nodens, fundador de Londres. Não sabem?, o próprio nome Londres vem dele, vem do latim Londinum que por sua vez vem de Caer Ludein,  a fortaleza de Lud.

A socialite abriu os braços com as mãos espalmadas, como quem, um pintor, um fotógrafo, busca um enquadramento ideal, e, com, os olhos vidrados, piscando excessivamente, sugeria uma cegueira para o que tinha diante dos olhos que lhe permitiria enxergar terras distantes, tudo uma evidente brincadeira:

— Haveria, muito naturalmente, uma visita às igrejas barrocas de Hawksmoor, o arquiteto. Ah, não sabem?, são cheias de curiosos elementos pagãos, suas posições no mapa de Londres formam o que? Nada menos do que um pentagrama, não sabem? A Minha preferida é a St. George, no Bloomsburry, nossa, o que é aquilo, gente, não é mesmo? A torre, uma referência explícita ao Mausoléu de Halicarnasso, e, ai, gente, Bloomsburry, não é mesmo?, ali do lado, ó, temos algumas das estátuas que antes figuravam no Mausoléu Halicarnasso no Museu Britânico… Ah, e é claro, ao Museu Britânico seria dedicado pelo menos um dia inteiro, é claro, não é? De antigos feitiços sumérios escritos em cuneiforme ao espelho negro clarividente de Dr. John Dee, é coisa demais para ver, para sentir… Tem de tomar até cuidado, não sabem?, porque podem ser muitos os arroubos, ah, sim…

— É… — Aeris, entre grave e sem jeito — Olímpia…

 — O que mais não poderia faltar? Ah! A rua na qual Blake morou por quase duas décadas?, a casa onde Madame Blavatsky explanava sua doutrina, pessoalmente, toda terça-feira? Ai, ai…

 — Bem, tudo pronto aqui, prezados — Aeris, as mãos na cintura, dirigindo-se, verbalmente, a todos, mas olhando especificamente para Olímpia, que anuiu em encerrar sua fala, pulando para o final:

— Mas, enfim, queridos, tudo isso para acabar em uma visita a Stonehenge, sim. Mas, ó, meus lindos, vocês não sabem, não sabem não, a dificuldade que é fazer uma visita digna ao monumento que é Stonehenge, as ovelhas, aquelas ovelhas, com números em azul pintados nas laterais de seus corpos nem são o pior, algumas acabam sendo até agradáveis, mas espirituosas do que muita gente que eu conheci por aí… A questão é aquela maldita estrada, cinza, barulhenta, ai, banal, banal, dolorosamente banal, ali do lado, impedindo a fruição do monumento, belíssimo, belíssimo… Eu, na qualidade, ai, meus lindos, qualidade singular de curadora de momentos especiais, curadora de, assim de epifanias, poderia eu apresentar Stonehenge assim, desfigurada assim? De jeito nenhum, não é mesmo? E por isso então que eu consegui uma coisa, assim, super difícil, não sabem?, super. Uma visita ao monumento à noite. É fantástico, meus lindos, fantástico — Olivia então suspirou, catando os olhos de Aeris — Mas… Bem, as atividades desse ano parece que, bem, serão interrompidas…

*

LÚCIA XIV

— De início eu sempre sacava — estalou os dedos — é um sonho!, porque estava habituada aos sonhos e às coisas dos sonhos. E daí fazia experimentos, todos bastante curiosos. Comecei a perder esse poder quando, sonhando, diante de algo estranho, pensava estar chapada. Foi daí que maneirei com álcool e beque, bem antes mesmo de Úrsula nascer. A coisa fica feia, e então é hora de grandes mudanças, quando diante do onírico você não cogita nem um sonho e nem uma onda: mas a loucura. Aí ó: para e pensa tudo de novo.

NENHURES

I.

Planeta ermo:
rochas, poças e miasmas.
Estaríamos sozinhos
se não trouxéssemos
sempre conosco
nossos fantasmas.

Nenhum dia
nasce puro,
rastros de escuro
tracejam a luz.

(a necessária aporia
pela qual,
……………….ainda que obscuro,
qualquer futuro
o morto aduz).

Isso aqui é lugar nenhum:
isso aqui é tudo de novo.

Já não é mais nenhures

(e não é a negação,
e nem
a negação
da negação).

II.

Houve, porém, uma figura errante.
Que não fui eu e não foi você.
E ninguém que conheçamos.
Uma figura errante.
Com nenhures no coração,
errando pelo coração de nenhures.

III.

Sombra sem pés
Raio escuro
Veloz
Vulto corpulento

(Credo de mil fés
Serafim impuro
Atroz
Arauto virulento)

IV.

E alguns, que pensavam em ir embora voando:

Haverá uma fresta
na pedra, uma senda
na floresta, um fio
no rio?

Rumo aos destroços?

E uma vez lá…

Por meio de qual magia
chamaremos essa
…………….suja
pouca, porca, gasta
feia, falsa, fraca
…………..matéria

…………………………de prima?

É desmemória a alegria?
É o saber que arrasta?
Vamos então…
Esmurrar esquecendo a faca?
Repetir como se fosse a estreia?
Mas

………a sucata não arrima.

A BALADA DO VEÍCULO AUXILIAR DE TRANSPORTE

I.

Abandonada a programação:
civilização, ciência?;
………………………………..na-da.
Queima azul a astronave:
chave quebrada, teima
aziaga, seta sem direção.

II.

Assistimos de longe,
é outra a nossa sorte
No veículo auxiliar de transporte

Agora a excelência humana
é um mito de valor muito inferior
a qualquer coisa útil, concreta
como, por exemplo, uma banana

III.

E o transporte vai
E a nave mãe cai

Dia atroz
Dia do mal
E o transporte a queimar
Atritando contra o ar
Tudo é malsão
Tudo desfaz
No desafiar
Da atmosfera encontrar

E o transporte vai
E a nave mãe cai

IV.

Eis que agora estamos salvos
Eis que estamos entregues à culpa

 

 

A ASTRONAVE CAI

I.

Cenas que vão
rápidas e vazias
Se bem que…
……………………. Não
Antes fossem vazias
E antes tudo fosse rápido
(não insistindo em se repetir, estúpidas
historiúnculas despedaçadas,
meio sem sentido, meio ferradas)

Cenas que vêm e vão
em rápida repetição

Ele vê essas cenas
e muito lixo

Monturos e monturos

II.

Por que estaria ele jogado,
bêbado, quase pelado,
num canto desconfortável,
com cara de inconsolável,
lendo as instruções,
longe de suas funções,
o leme no manual
em abandono total?

III. 

Não haveria um descontento, assim, arranjado,
(Por que o descantar tão irado?)

que seguisse manso, talvez acompanhado de… Guitarras e violinos?

Guinchos de metal em torção,  o alarme esganiçado,
A astronave agora cai, entre silvos e hinos,

Contagem regressiva
e apelos ao transcendental,

até que com a nave mãe estragada
venha o clichê do final:
queimar na reentrada

IV.

Haveria de cuidar de cada sol,
deixar-se reger pelos sois
Comer (como remédio para a úlcera):
os pomos de prata da lua,
os pomos de ouro do sol.

V.

E astronave cai
Feito estrela
………………….despenhada
Ou pior: ideia nunca anotada

 

Olivenbaum 16

Às vezes,
passando pela rua
………………………………que é só sua

escuto seu piano.

mas não penso te em visitar
(porque) é também a mim prazeroso
imaginar-te e te deixar estar
(o quê?) em ócio operoso

(e de estar você assim,
tão sutil, tão abstrato,
de qual emoção, enfim,
teremos um
…………………….concreto
……………………………………retrato?,
sua destra marcará
prosa, poesia,
riff de guitarra,
grifo ou carcará,
gozo ou azia,
fossa ou algazarra?)

e às vezes eu não quero te encontrar
por banal, não ter nadar para lhe mostrar

ISABELA 27

— Ou, simplesmente não engulo essa conversa de que a literatura não serve mesmo para nada. Tá doido?, ela serve, no mínimo, para ser lida. Acho que a literatura é como o rap quando o Sabotage fala que ó rap é que nem bombril. Sabotage, inclusive, que foi um dos melhores versemakers (na concepção poundiana) das últimas décadas, serião, tanto em termos de rima como de cadência.