A Mestra – IV

— O convívio com todas essas projeções. Projeções errôneas. Se um cão late para uma sombra, enganado, outros cem cães latem junto. Os erros, os erros. Estamos imersos num agente, divino e natural, no qual se projetam todas imagens, ideais, pensamentos, e vontades… E os erros. Como já disse um importante estudioso do oculto, nada contribui mais para o erro e para a loucura do que o reflexo das imaginações depravadas umas nas outras. É necessário se proteger disso,  desses estímulos, desse convívio com as perversões projetadas no Plano Astral, que é aquilo que os mais céticos chamam de consciente coletivo. Guiada por minha intuição, comecei a desenvolver, conscientemente, deliberadamente, uma persona íntima, secreta, diferente da minha persona pública, para me proteger. Acontece que não desenvolvi nada, fabriquei nada, mas descobri. Essa persona secreta era, em verdade, meu eu verdadeiro… Era não, é. É o meu eu verdadeiro, destinado a cumprir minha verdadeira função aqui, nesse plano e nesse planeta… E aqui eu mostro como todos podem se separar das emanações negativas do Astral justamente por meio desse procedimento, da invenção, da descoberta de seu eu íntimo, imaculado, verdadeiro.

Lúcia – VI

— Ah, Joana, eu  não… Não busco o maravilhoso em sonhos não. Ele está aqui, no meio das coisas mais chãs, é questão de encontrar. Sonhar é mais fácil, claro, encontrar o maravilhoso na realidade que é a questão, a grande questão. Eu… Sou péssima, péssima, com nomes de autores, mas… Quem disse que o Mistério não está em como as coisam existem, mas no simples fato delas existirem? Passa por aí.

Versos de ocasião de Cláudio Tropigo

Rema-rema

Para Olivenbaum

I. Poeminha da ansiedade

Tenho tanta inveja
de quem vive no passado
O presente em mim craveja
Imanentes, inelutáveis dardos
Sou refém dessa eterna hora
Saboreio sempre o triste fardo
Da angústia do agora
Porto d’onde nunca parto.

(Também conhecido como O Lamento do Assalariado).

II. Poeminha do profissionalismo

Meu coração, não.
Passando daquela porta,
É só o músculo
Ligado à minha aorta.

Meu coração, não.
Só ideia torta
E ânimo minúsculo
Passando daquela porta.

Meu coração
Só faz o que gosta.
Então, não.
Nem pitaco dá
Passando daquela porta.

III. Prosaico

Vem-me uma impressão fugidia d’um ar fresco, d’uma luz gentil; como se, ainda criança, de manhã, na casa de minha avó materna, saindo pela porta da cozinha, chegando ao quintal, encontrasse ali todas as roupas brancas estendidas sob um grande pedaço de lona, a quarar, brilhando incrivelmente alvas. A memória de um maio passado que me visita enquanto a correspondência se acumula, o telefone não para e o único alento são fones de ouvido e ar condicionado.

IV. Doutrina maldita

Dizem os espíritas
Que depois da morte
Há muitas moradas,
Organizadas sociedades,
Com hierarquia e trabalho.

Doutrina maldita:
Que tipo de sorte
É aturar essa maçada
Por toda a eternidade,
Entre a bigorna e o malho?

V. Os lírios não constam (mais) nas leis

Dizem os protestantes
Que é por meio do trabalho
Que Deus escolhe os sob seu manto.

Sem querer ser pedante,
Às vezes, acordando com o orvalho,
Pergunto-me, desassossegado:
Que há de errado
Com olhai os lírios do campo?

*

Criancinhas

[…]