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— O problema dele — disse Isabela, fazendo um genuíno esforço para remover o sujeito do escopo das nossas conversas daquela noite — é que é daqueles que fabricam e defendem opiniões absurdas apenas para conseguir algum destaque, para aparentar alguma inteligência. E essas coisas, na maior parte das vezes, são imbecilidades entristecedoras… Construções, ahn, mal enjanbradas… Cuja refutação não dá prazer nennhum.

— …

— Eles mesmos — e então ela já havia abandonado a figura em questão, tratando agora de toda uma categoria de pessoas — nem acreditam nessas coisas… E, como nunca pararam para pensar honestamente sobre nada (porque as egotrips infinitas não permitem), nem sabem  exatamente no que acreditam, ou que verdadeiramente sentem. É gente embotada pela vaidade, da percepção embotada pela vaidade.

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— Eu ando tendo fantasias demais.  E isso é sempre mau sinal. Pego-me no meio do expediente, completamente desligada das coisas, sonhando com uma outra vida minha, em outro lugar, com outras pessoas.

— …

—  Isso é ruim, sabe? Eu… Eu normalmente não tenho disso.

Eu assenti, mentirosamente, em parte em apoio à pessoa (que tinha um juízo negativo de tal hábito mental) e em parte por vergonha. Eu normalmente tenho disso. Eu nasci sobre esse dito mau sinal. 

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— Nisso de negação do ego… Eu não sei se pode-se dizer exatamente assim… Negação do ego, mas… Acredito; gente, quem já disse isso?; que sim, somos proprietários apenas dos erros. Os acertos não são nossos, não nascem de nós, mas de uma, ahn, apassivação… Uma apassivação do ego diante da realidade. Quando estamos certos compactuamos com a realidade. De forma que aquele que se sente ou se sabe certo, correto, não deve nunca se orgulhar de nada: não há nada de individual ali, ele apenas é condizente com algo maior, diante do qual o ego dele é completamente insignificante.

Prossegui andando, olhando para as folhas de castanheira sobre o chão. Isabela continuou:

— Isso eu não tiro de uma percepção geral, porque, honestamente, eu nunca cheguei perto de algo que possa ser chamado de uma percepção geral, mas de estar certa pontualmente, sobre algo disputado, e saber que estar certa aí é ter abandonado todo e qualquer preconceito, toda e qualquer predisposição, toda e qualquer opinião sobre a superioridade de qualquer método e de qualquer forma de crítica, e ter realmente me colocado diante da questão até que eu mesma não fizesse nenhuma importância. De forma que minha autoridade, minha certeza não viesse de mim mesma, de alguma fabricação do meu espírito, mas da percepção das coisas como ela são, naquele caso ali, naquela oportunidade, naquelas circunstâncias.

Continuei calado.

— Entende?

No dia seguinte ela me mandou, por e-mail, um trechinho daquele ensaio do Eliot, Tradition and The Individual Talent:

[…] What is to be insisted upon is that the poet must develop or procure the consciousness of the past and that he should continue do develop this consciousness troughout his career.

What happens is a continual surrender of himself as he is at the moment to something which is more valuable. The progress of an artist is a continual self-sacrifice, a continual extinction of personality.

Então passei algumas horas à toa, pensando nela (depois de acender um e colocar uma playlist imensa pra tocar), desfazendo todas as imagens que eu havia feito antes, (da menina frágil e nervosa).

Eu não conhecia Isabela.

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Você fica um tempo aereo, olhando para as veias no colo dela. O adjetivo meandroso lhe ocorre. (E também) como a pele dela é fina. Tal percepção, então nova e meramente estética, descola-se da memória do dia — ordinário e triste, no geral  — e vai se irmanar a experiências há muito já sedimentadas, visões que hoje são opiniões.

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— Não, eu acho que tem mais. Mais dois. Aqui. O maço é assim, diferente da caixinha, permite essas surpresas. Percepção de viciado, naturalmente.

— Haha.

— O maço, ó, veja, é uma caixinha de surpresas. E a caixinha não, todos cigarros ficam lá, imediatamente à mostra, sem revelações posteriores.

— Total.

— Saca? O maço, assim ó, mole, misterioso: o gato, aha, não… A caixa do gato de Schrödinger do tabagismo.