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— O sujeito chega então a conclusão de que não há sentido em absolutamente nada. Certo. Então decide escrever e publicar tratados, ensaios, peças e não sei mais o que, para levar essa irremediável verdade aos incautos. Não há sentido em nada, tudo é destituído de valor, ele brada, mas mesmo assim sua vaidade persiste, contraditória, alheia a tudo que defende. Mesmo assim ele quer ver seu nome em capas de livros, na boca de gente que reputa digna de alguma admiração. O niilismo como um cartão de visitas. É triste, bem triste. É mais um embuste.

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Isabela dizia não se preocupar com a morte, não temer a morte. [Uma postura advinda de vários e recorrentes sentimentos vagos validados por sua interpretação do Críton feita quando adolescente (que é a idade adequada para conhecer Platão, diga-se de passagem)]. Uma vida mortificada — cheia de dor e privada de significado — parecia-lhe bem pior do que a própria morte. As coisas mudavam drasticamente de figura quando ela estava trabalhando em algum texto capaz de verdadeiramente deixa-la excitada. Era seu parâmetro de qualidade:

— Esse é o nível de empolgação, de comprometimento, de entrega, Nestor. Você tem de temer pela própria vida. Bem, não, não exatamente pela própria vida. Você tem de temer morrer sem terminar o texto. Terminar o texto.

Palavras que eu escutei calado, passando a mão no queixo mal barbeado, sentindo uma mistura de admiração e inveja.