Pereira – I

Pereira interrompeu a reprodução da gravação de voz e fitou a tela do monitor, a única fonte de luz do cômodo, onde as palavras da Mestra, recém-digitadas, tremiam negras contra o branco brilhante. A transcrição, horas e horas a fio da mulher discorrendo sobre os preceitos da seita, arrastava-se lentamente. Desesperado, o jovem sentia fortes dores de estômago que o faziam se encurvar para frente e, às vezes, quase ganir. Sozinho em sua célula, alternava-se entre sentir raiva de seus captores e pena de si mesmo.

Perguntava-se como, exatamente, isso pudera acontecer. De que forma um rock journalist (maneira como Pereira, anglófilo, costumava chamar sua profissão) — ofício já definido como pessoas que não sabem escrever entrevistando pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler — poderia descobrir-se ali, aprisionado por fanáticos? Não seria esse um risco a pairar apenas sobre profissionais em outros ramos da imprensa, situação tétrica destinada somente àqueles habituados a cobrir os domínios, de fronteiras nem sempre distinguíveis, da política, do crime e da guerra?

As respostas lhe vinham à cabeça cheias de exagerada autodepreciação. Desconsiderava o óbvio: a gritante injustiça de sua prisão, a imprevisibilidade da série de eventos que o reduziram àquele estado e a necessidade de se pensar em alguma efetiva saída, para ficarmos em só alguns exemplos. Figurava em sua imaginação como o único e grande culpado por tudo. Estava convencido de que duas, duas, posturas suas diante da vida haviam-no rendido naquele quartinho.

Primeiro, acreditava estar ali por nunca ter efetivamente feito a transição da vida adolescente para a adulta. O que era uma percepção difusa, sempre arredável, tornou-se naquelas circunstâncias uma certeza para o jornalista: a puerilidade era a causa de seus presentes males. Supunha pagar ali por sua falta de vivência.

Apesar de os mais críticos atestarem ser impossível escrever decentemente sobre bandas de rock sem viver em uma das cidades nas quais ela surgem (tocando ainda anônimas em estabelecimentos específicos) e sem se misturar entre o público dos grandes festivais (todos havidos nos Estado Unidos e na Europa), Pereira conduzia seu ofício quase que exclusivamente a partir de seu quarto. Desde a puberdade passava o grosso do seu tempo conectado à internet, lendo um sem número de resenhas, das mais variadas fontes, e baixando, raramente dentro da lei, arquivos de músicas que enchiam dezenas de discos rígidos. De início, escrevia num blog, de graça, pelo puro prazer de tratar minuciosa e idiossincraticamente de seu assunto favorito. Com o seguir dos anos e o persistir dessa rotina, por meio de contatos feitos também na rede, passou a trabalhar para algumas revistas e jornais, recebendo o suficiente para arcar com suas despesas relativamente modestas. Mudara de estado (de Minas para São Paulo), abandonara a faculdade da qual já não mais gostava (de Psicologia) e passara a pagar as suas contas sem a ajuda da família, decerto, mas continuava a viver a mesmíssima vida de menino, enfurnado sozinho em seu quarto de dormir, varando madrugadas a escutar música no volume máximo em seus fones de ouvido.

Assim, nunca passara pelas ordálias das entrevistas de emprego, da marcha das horas do expediente comercial (longas quando se está entediado; curtíssimas quando, angustiado, precisa-se de tempo), da difícil convivência com colegas e chefes, do tempo gasto no trânsito congestionado, do caos banal da cidade, etc. Levara, até ali, uma lida leve.

Lida que, pensava então Pereira, privara-lhe das experiências necessárias à formação do que ele julgava ser um verdadeiro homem, possibilitando, em sua concepção, a atual posição: patética.

Segundo, entendia ainda o moço que aquele sofrimento poderia ter sido evitado caso — além de ser um sujeito apto a viver sem grandes atribulações apenas dentro da bolha que ele próprio criara — não fosse ele também um esnobe, sempre a se julgar superior ao seu semelhante simplesmente por ouvir determinadas bandas obscuras. Antes, já consciente de tal sentimento, tentava lhe dar outra interpretação, dizendo para si mesmo que seu gosto pelo desconhecido do vulgo vinha da faculdade, rara, de fruir de uma canção sem qualquer expectativa, sem antes ter escutado sequer um acorde, sem ter lido ou ouvido qualquer comentário a respeito, por mais vago que fosse. Assim, de certa forma platônico (sem nunca ter lido Platão), dizia para si mesmo, poderia considerar diretamente o objeto contemplado, sem o intermédio ou interferência das experiências alheias. Essa explicação não se sustentava mais. Pereira reconhecia agora que era mesmo um sentimento mesquinho, uma vontade puramente egoísta de se enxergar destacado da massa, solitário e especial.

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