Corpo Habitável

No próximo dia 22.9.2018, sábado, teremos o lançamento do livro de poesia Corpo Habitável, de Pedro Furtado, pela Editora Calamares, na Feira Textura, das 11h as 17h, na Rua Esmeralda, nº 298, Bairro Prado, Belo Horizonte/MG.

Trata-se de evento imperdível para os interessados em poesia brasileira contemporânea.

Estarei lá para prestigiar o poeta e obter uma cópia autografada do livro.

(Também estarei lá divulgando Silhuetas, meu livro também editado pela Calamares).

Anúncios

COISAS BOAS E RUINS – 2

COISAS RUINS

(contra o) domingo de noite 

de jururu a transviado travesso
quero a alma virada ao avesso
toda ignorância, gaia ciência
toda depressão, saliência
que morra esse ser que arfa e se cansa
numa improvisada e tresloucada dança

COISAS BOAS E RUINS

COISAS RUINS

o país

o país é como uma família nuclear
(o pai manda)
em cuja casa o quintal foi cimentado
(essa porcaria dessa goiabeira, sujando tudo,
esse cheiro de goiaba podre, cheiro de chiqueiro,
parece uma roça, e essa horta,
qual a necessidade de horta?,
no supermercado tem tudo)
transformando-se em estacionamento
para o carro da família
lavado todos sábados
água farta num escorrer infértil pelo cimento
até chegar em riachinhos d’antanho
agora canaletas de merda
(cê viu, Cláudio?, bem melhor, né?,
sem aquelas porras, aqueles matos).
no verão, paralelepípedos de luz,  imensos,
invadem a sala sem qualquer resistência
e não há nem sombra
da memória
da árvore
(vô pô um insulfim nessa janela, pu-ta que o pa-riu,
e ar-condicionado nessa sala também,
olha aqui, olha aqui,
puta que o pariu, viu,
tô suando feito um porco).

o país é como uma família nuclear
(o pai manda)
na qual a filha, a caçula, quer brincar de Lego
quer fazer o para-casa de matemática com lápis coloridos

todos números pares de uma cor, ímpares de outra,
até ela conhecer os primos,
racionais, irracionais
e sinestesia-los também

quer ser cientista,

da forma que as crianças querem ser cientistas,
polímatas ignorantes dos limites entre matérias
cientistas fantásticos de desenho animado

mas é convencida pelo pai
(você ama  o papai?)
a quando crescer estudar Direito
(melhor coisa, minha filha, é um cargo público, faz concurso, minha filha, melhor coisa, escuta o seu pai, minha filha, é a melhor coisa, faz um concurso aí, ó, melhor coisa, um cargo público)

[…]

つづく

 

ISABELA 29

Talvez fossemos todos masoquistas enamorados irremediavelmente. Mesmo com a distribuição costumeira de bordoadas de nossa dominatrix, o curso de escrita criativa de Isabela não minguou, ao contrário, foi crescendo e crescendo…

—  Ahn… Quantas vezes vocês participaram de um curso, de uma turma, e lhes foi dito, pelo professor, instrutor ou semelhante, que vocês são especiais, guerreiros, campeões? Que só por estarem ali, por terem escolhido estar ali e não em algum outro lugar, são dignos de algum mérito? Isso já aconteceu, não aconteceu? Com certeza, está no roteiro desse pessoal. Talvez, talveeeez, isso fosse verdade naquelas ocasiões. Eu, particularmente, duvido muito. A questão é, aqui não. Aqui não tem ninguém especial, nenhum guerreiro, nenhum campeão. Aqui vocês são gente, gente e só. E é aí que a literatura começa. E termina.

ISABELA 28

— Bem, de início  era contra isso de uma oficina de escrita criativa, afinal, apesar de mil projetos, nunca consegui terminar e publicar nada além de Fútil e Fugaz, meu livrinho de contos. Depois fiquei tranquila, vendo que a maioria dos instrutores, professores, facilitadores, chame aí como quiser, que conduzem essas oficinas não produziram nada muito significativo. E tem também a questão dos alunos. Ninguém num curso de escrita criativa está verdadeiramente interessado em escrever, eles estão lá só procrastinando, tentando flertar, posar de pessoas intelectualizadas, etc. O verdadeiramente interessado em escrever, ta-tá, está ocupado escrevendo. Inclusive, os verdadeiros interessados por literatura abominam eventos literários. Eles estão ocupados lendo, talvez escrevendo; mas sempre lendo mais do que escrevendo. Flaubert está no papel, ou, se você quiser, no Cimetière-Monumentale, mas não na FLIP. Mas, bem, sejam bem vindos ao meu curso de escrita criativa, hoje começaremos a abordar a escrita do romance. Na primeira aula cuidaremos de como fortalecer a lombar e o abdômen e de como relaxar o pescoço e ombros. Todos com seus tapetinhos? Vamos para o chão.

O Cromoterapeuta – 1

Glauco estava acostumado a olhar para si mesmo e perdoar aquilo que outros acusariam de torpeza, mas se passar por morador de rua, macaqueando as vestes e modos dessa gente sofrida, de início, foi algo que lhe fez se sentir culpado, ou, pelo menos, ligeiramente envergonhado. Mas só de início, já que sua necessidade de manipular as pessoas era maior, sempre maior, do que qualquer entrave moral. Depois de desenvolvido a persona e o modus operandi, passou a ser apenas mais um expediente. Apresentava-se como um sujeito manco e corcunda, a grunhir desarticuladamente, que revirava o lixo alheio com celeridade, em busca quase que só de papeis, e seguia adiante. Assumia o disfarce sobretudo nas segunda-feiras, ao cair da noite, quando colocavam quantidades maiores de lixo na rua, todo o lixo do final de semana. Antes do caminhão da coleta passar, misturava-se aos famélicos que peregrinavam pelos bairros de lixeira em lixeira. Apenas essas figuras desesperadas às vezes duvidavam de sua farsa, a avassaladora maioria das pessoas vira os olhos quando vê um sujeito rasgando um saco plástico sob o qual vermezinhos se contorcem. Certa vez, uma catadora de recicláveis, que esperava aquela figura corpulenta ir embora para conferir a lixeira, achou estranho ele ignorar dezenas de latinhas e vários pedaços de papelão. Doutra oportunidade, um jovem esquálido se encantou com o fato daquele revirador rechonchudo ignorar por completo uma pizza pela metade e seca, ainda na caixa de papelão utilizada para a entrega domiciliar. Glauco batia o olho no conteúdo dos sacos, formulando em sua cabeça um padrão de comportamento a partir do que via, e levava consigo tudo o que era papel. Foi assim que ele obteve as cartas que Sérgio escreveu para Lúcia e nunca enviou.

[?]

Às vezes olhamos para a fumaça e ela é uma coisa, assim, boba, imprecisa, como se vivêssemos em uma animação e os animadores tivessem decidido desenhar a fumaça de forma simples, quase preguiçosa, uns tracinhos ondulados que sobem e nada mais. Doutras vezes, olhamos para a fumaça e vemos uma miríade de espirais, intricados arabescos, minuciosas e repetitivas revoluções.

*

Do ponto de vista falocêntrico, ainda que a princípio contraditório, nada é mais broxante do que o gozo.

*

Há como fecharmos em nós mesmos de forma crítica, em contato com a verdade, talvez não a Verdade, mas talvez algumas verdades (muitas delas aferíveis em sua vericidade pelo desconforto que  nos causam); mas o isolamento também pode se transformar em alienação, na criação de um mundo no qual não somos meros mamíferos mortais, mas Demiurgos na tradição platônica ou gnóstica: mentirosos e ególatras.