[…]

§

Acordar  é difícil demais. É ao acordar que subitamente tomamos consciência de que dormíamos (excluindo os casos de sonho lúcido), ainda enebriados pelo prazer — restaurador, libertador — do sono. E o prazer está ali muito próximo: basta não se movimentar muito mais e não pensar muito mais, apenas fechar os olhos, voltar, dormir. Acordar, além de demandar energia, é trocar esse gozo certo pela duvidosa pluralidade da vigília.

§

— Quem é você?

Lúcia pensou em teatralmente bradar, enojada por aquilo tudo, que julgava ser uma tentativa mal sucedida de dar sentido à realidade:

— Eu sou o Caos Primordial, do qual nada nunca escapou.

Mas esse chiste, como em muito menos de um segundo ela percebeu, era impróprio. Ela estava ali por um só motivo, que definia tudo:

— Eu sou a mãe.

E para que os seus interlocutores tivessem a mãe pela A Mãe, ela completou:

— E eu tenho a arma — erguendo a arma do Piloto com  a mão esquerda e logo em seguida atirando à frente, o tambor sabiamente antes descarregado — e a arma não vale nada.

§

tartamudo

barbalhoste

§

Aprendamos a fazer como supostamente faziam os antigos cavaleiros templários que, para se safarem da morte quando capturados pelos mouros, convertiam-se, não de coração, mas só mesmo da boca para fora, tendo inclusive treinado antes para assim fazê-lo, cultuando mentirosamente, mas mesmo assim em segredo, Maomé (nome cuja corruptela da origem ao Bafomé dos ocultistas, uma versão quimérica do hermafrodita de Heinrich Khunrath, inventada, com a mesma liberdade com a qual foi associada ao décimo quinto arcano maior do tarô, por Éliphas Lévi, posteriormente gerando o pleonasticamente malévolo capetão que é o Bafomé dos headbangers). […]

§

Será?:

O contato com os mais novos é muito difícil, por mais que eles tenham ciência de nossa existência,  ainda não nos conhecem efetivamente, não são os que nos criaram e nos visitaram nos tempos primevos. Conseguimos concebê-los, porque, pela fantasia, ensaiamos conceber o perfeito, mas para eles, perfeitos, não fazemos nenhum sentido.

Segunda nota sobre Esdrúxulo e Lúgubre

Apesar das constantes atribulações, continuamos (trata-se do plural majestático, é claro, essa é uma operação de uma só pessoa) cometendo o que eventualmente há de ser uma novela ou um romance, por enquanto com o nome de trabalho de Esdrúxulo e Lúgubre (o nome definitivo teremos só ao final). Os interessados em ir acompanhando o progresso da escrita, muito por favor, atentem-se à seguinte ordem de posts:

1. Incigaz e Zandroso – I
2. Pereira – VII
3. Pereira – VIII

Pereira – VIII

 

*

Pereira, quase que só por educação, fez mais algumas perguntas (vagas, bobas) para Luciano, sem se demorar muito mais no escritório do arquiteto. Despediram-se amistosamente, prometendo um reencontro em breve. Luciano traria algumas fotografias e fitas, Pereira daria notícia de sua tentativa de entrar em contato com Cármen. Nunca se falaram de novo.

O moço voltou para seu apartamento como viera, a pé, agora em meio a centenas de pessoas retornando de seus trabalhos. Caminhando, reafirmava para si quão sem graça fora a entrevista, o quão afastados de suas recém-criadas expectativas estavam os membros da Olho Pineal dos quais se aproximara. Luciano, apesar de muito agradável, pareceu-lhe insosso demais, para não dizer careta, além de afastado da música; enquanto Cármen — não Cármen ela mesma, naturalmente, que continuava desconhecida, mas a Cármen fornecida pela entrevista com Luciano — excêntrica demais, para não dizer doida, e, também, afastada da música.

Antes de subir para seu retiro apertado, Pereira comprou em um supermercado próximo de seu prédio — muito e cheio, forçando-o a se mover muito mais devagar do que gostaria — duas latas de cerveja e uma pizza (de calabresa) congelada, produtos forneceram um pouco mais de matéria orgânica morta às bactérias de seu teclado.

Durante toda a vinda, a tela do monitor de Luciano lampejava na memória de Pereira. Ele tinha de rever o site da A.T.A.. Encontrou-o com facilidade. Lá estava, entre os primeiros resultados da busca, simplório, numa apresentação típica da década de noventa, com uma fotografia do grande domo branco, brilhando ao sol, a receber os visitantes. O seguinte texto aparecia sob o título Que somos nós?:

Associação Transcendental Amalantrah (A.T.A) é um grupo de pessoas dedicadas ao estudo e prática de uma imensa variedade de artes e técnicas destinadas ao engrandecimento do ser humano. Com uma abordagem multidisciplinar para os grandes problemas existenciais, a A.T.A. faculta a todos os interessados em alterar sua visão de mundo a oportunidade de abraçar um estilo de vido pleno de realizações. A partir de uma doutrina que une harmonicamente a ciência, a filosofia e a religião, a A.T.A. buscar levar o indivíduo até à sua manifestação máxima.

Oferecemos uma série de tratamentos e serviços para os sofrimentos da existência (incluindo problemas financeiros) além de promovermos cursos, oficinas e palestras tratando dos temas que nos são caros, tais como A Tradição Hermética, os Chakras e a energia vital, o Karma e as reencarnações, a existência de capacidades extrassensoriais e contato com seres intra e extraterrestres.

Venha já nos visitar e fazer parte dessa luminosa corrente.

A redação, de início vaga e repetitiva, culminando subitamente em poderes paranormais e promessa de comércio com seres subterrâneos e alienígenas causou um leve espanto em Pereira, reforçando a narrativa de Luciano de que Cármen havia se transformado em uma pessoa totalmente dedicada ao sobrenatural. Desnecessária confirmação podia ser encontrada na seção chamada A Mestra:

Os trabalhos desenvolvidos na Associação Transcendental Amalantrah se dão sob a orientação espiritual de Mestra Intreza.

Abaixo listamos os mais importantes títulos e graduações de nossa Mestra:

Mestra Desperta, Conduto Imediato com os Mestres Ancestrais
Formada em História pela USP
Phd em Arqueologia Alternativa pela Miskatonic University
Formada em Terapia Orgônica Avançada
Formada em Imposição de Mãos (escola oriental e ocidental)
Formada em Astrologia Suméria
Shihan (7ª dan) de Kureijigachou-Ryu Kiai-Jutsu
Iniciada no Xamanismo por Mestre Piaga Potoca
Formada em Tarologia pelo Gébelin Institut

Perguntando-se o que seria um Conduto Imediato e quem seriam os Mestres Ancestrais, Pereira correu os olhos pelo sintético currículo, decepcionado por não encontrar ali nenhuma menção àquilo que ele reputava como o grande feito de Cármen, o que ela deveria fazer constar ali, necessariamente, na seguinte ordem: compositora, vocalista e guitarrista da banda Olho Pineal.

Murmurando — não, não, não pode — Pereira continuou clicando pelo site, até encontrar a seguinte lista sob a rubrica Cursos, Palestras, Tratamentos e Serviços:

Cursos:
Meditando com cristais
Meditando com os quarks
O corpo sutil e frequências energéticas
Autodefesa psíquica
Introdução à Magia Cerimonial
Introdução à Viagem Astral
Introdução à Cabala Gnóstica
Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios

Palestras:
Os Extraterrestres Crísticos / Os Extraterrestres Luciferinos
O Fluido Cósmico Universal
Paleocontato e ufoarqueologia
Os Princípios Herméticos

Tratamentos e Serviços:
Equilíbrio dos Chakras pela Cromoterapia e Cromopuntura
Cura por meio da imposição de mãos
Cristaloterapia holística
Orientação profissional, financeira, amorosa e espiritual pelo Tarot
Numerologia aplicada à Contabilidade

Desse curioso rol, Pereira pulou para a página com a galeria de fotografias, já vista no escritório de Luciano. Correu os olhos por várias imagens do domo, externas e internas (o interior do prédio sendo uma coisa retrofuturista com decoração de loja de artigos esotéricos), e da vila de pequenas casas, cilíndricas e de teto convexo, afastadas da nave de concreto, construídas ao redor de uma praça com uma tenda enorme, com a estrutura de uma cúpula geodésica, armada no centro.

Uma das legendas dizia que naquelas casas viviam pessoas que, e a redação era exatamente essa, tiveram uma revelação de ordem metafísica e decidiram se dedicar integralmente à obra de suas próprias ascensões. Pereira ficou sinceramente incomodado com essa informação, solta assim, na legenda de uma fotografia, correndo o risco de passar batida. Como dissera Luciano, a A.T.A. parecia realmente ser uma seita, mas Pereira queria contatar Cármen mesmo assim.

Ele deu mais uma olhada, displicente, no site e depois de alguns minutos parado, mirando a fotografia inicial do domo, murmurou para si mesmo:

— É… Hoje, só amanhã.

Decidiu dar o expediente por encerrado, se é que podemos falar de expediente em se tratando de Pereira, e foi encontrar com conhecidos e amigos em um bar na Augusta.

No dia seguinte, no início da tarde, assim que acordou, ressaqueado, Pereira foi procurar por Dinho Motta, um dos editores da revista Palco. Pereira era um colaborador frequente do periódico e tinha um bom relacionamento com Dinho, que no ano passado havia lhe enviado para cobrir um festival na Espanha, ocasião na qual o jovem jornalista pós os pés fora do país pela primeira vez.

Sob a garoa — chuva de molhar bobo, como diria Pereira imitando suas parentas do interior — curtindo uma leve dor de cabeça, ele caminhou até o prédio no qual a redação da Palco funcionava. A informalidade de fazer uma visita sem antes marcar um horário não chegou a prejudicar Pereira, que teve apenas de esperar um pouco (propositalmente em pé, encostado no parapeito de uma janela) enquanto Dinho terminava uma conversa com sua orientanda de mestrado.

Ao contrário de Pereira, que tratava exclusivamente, dolorosamente, de rock, Dinho cobria com naturalidade e gosto quase todos os gêneros musicais, com conhecimento e sensibilidade suficientes para abarcar também a música erudita. Escrevia fazendo tantas referências pertinentes e chegando a tantas conclusões válidas (projetando-se para fora do universo da música) que gerava em Pereira a impressão de uma eloquência imensamente livre, como se aquele careca rechonchudo pudesse escrever, com leveza, sobre (quase) qualquer coisa, dando uma dignidade ao ofício que Pereira julgava ser, pelo menos para ele, ainda inatingível.

Quando Larissa, esse era o nome mestranda, depois de guardar seus papéis e livros em uma grande pasta de plástico, indo embora, levantou-se, Pereira abriu a porta de vidro da saleta de Dinho, segurando-a para a moça, que lhe dirigiu um muito rápido olhar de desdém. Pereira, que pretendia dizer-lhe qualquer coisa, simplesmente para se sentir parte de um grupo de pessoas supostamente interessantes cujo centro seria Dinho, desanimado com essa tênue comunicação, sorriu-lhe um sorriso dourado de tão amarelo, então envergonhadamente consciente de suas roupas coladas ao corpo por molhadas e do seu moptop normalmente meio eriçado agora deformado, com uma franjinha grudenta a ornar a testa.

Com um ar protocolar, Dinho se levantou para apertar a mão de Pereira e, por gestos, oferecer-lhe assento. Retornado à sua mesa prazerosamente organizada — cheia de livros (de ficção e não ficção), discos (ao contrário de Pereira, ele ainda comprava CDs), recortes de jornais colados em folhas de ofício com pequenas notas escritas em uma caligrafia quase técnica, revistas e folhetos — educadíssimo, como de costume, Dinho interpelou o mineiro com seu discreto sotaque carioca:

— E aí, meu caro, o que você conta?

— Tudo bem, Dinho. De boa. E você, cara?

Ao que Dinho deu um leve sorriso e disse cerrando os olhos e balançando levemente a cabeça:

— Não tenho do que reclamar.

— Ótimo, cara, ótimo. Eu queria te perguntar…

— Diga…

— Olho Pineal, cê fraga?

Dinho riu internamente do fraga e acenando agora positivamente, disse:

— Vi no seu blog a resenha. Mas não conheço. Nunca ouvi falar.

Pereira tirou do bolso o pendrive com os arquivos que continham as canções de Quimeras e Tetragrammaton e o ergueu cerimoniosamente à frente de seu rosto, quase como um padre segurando a hóstia sagrada. Dinho estendeu a mão e recebeu o dispositivo de Pereira, espetando-o em seu computador logo em seguida.

O editor colou Quimeras para tocar. Escutou Hecáte impassível, fazendo com que Pereira, nervosíssimo, sentisse nu diante de seu superior. Depois do final da canção, passando a mão pela ampla careca, parou a reprodução do disco e disse, num tom de voz esmaecido:

— Meu caro… Daniel, mas… Mas isso é diluição… E… Nem bem-feito é.

— Cara, você tem de… Tem de escutar com mais atenção.

— …— Sem lhe responder, Dinho fez com que a música continuasse. Ia escutando a introdução de cada canção, pulando para mais para frente, quando surgia o vocal, e então para o final de cada faixa. Dessa maneira, passou por todo o álbum em menos de quinze minutos.

— Dinho, não, cara… É um álbum conceitual, você tem de escutar tudo, as músicas inteiras. Cara, tem valor, isso tem valor.

— Olha, Pereira, eu te entendo muito bem, te entendo perfeitamente. Você gostou dessa banda. Agora você tem de entender também que às vezes nós gostamos de algumas coisas por motivos completamente pessoais… Eu não escutei nada aqui, meu caro. Eu não preciso escutar tudo para fazer um juízo de valor. Eu consigo, a maior parte dos críticos bem treinados consegue, não é um privilégio meu, ter uma visão do todo pela parte. E, meu caro… É só diluição, mesmo. E é mal tocado e mal gravado… E, essas letras, Daniel, que coisa pretensiosa…

— …

— Sério, Pereira. Existem os inventores, os mestres e os diluidores. E esses caras são meros diluidores. De quinta categoria, Pereira. Quinta. Existem diluidores ótimos, necessários, que tornam as coisas mais acessíveis para o público geral. E, cara, não é o caso. Não é o caso.

— Eu discordo, eles são únicos, Dinho, sério mesmo, únicos…

— E… Eu posso estar errado. Mas esses caras me parecem, ahn… Irrelevantes. Em todos os aspectos. Você fala lá na sua resenha que são tributários do Jefferson Airplane. Pereira, eu não preciso te dizer isso, você sabe muito bem, J.A. foi uma das bandas mais engajadas da época deles, umas das bandas mais engajadas do rock. Esses aqui são uns chapadões apolíticos, e não no apolítico no sentido de anarquista, que se fosse assim estaria tudo bem, mas no sentido de alienados mesmo. Não tem comparação, meu caro. Não há relação.

— …

— Daniel, eu posso até te prometer que vou escutar com mais atenção — Dinho disse copiando os arquivos para seu disco rígido. De olho na barra de progresso da operação ele disse, mantendo a mesma voz arrastada — Mas qual é a ideia? Você quer publicar aquela resenha do Noise é Nóis aqui na Palco?

— Não, cara, não… Eu queria fazer um perfil… Ahn, recuperar, ahn, resgatar… Eu queria fazer um perfil da Cármen Valente, que foi a bandleader deles, saca? Vocal, guitarra, composição, saca? Era tudo dela. Queria… Ahn, quero fazer um perfil dela. Eu já conversei com o Luciano Rizla, que era o baixista… E agora eu queria falar com ela…

— Ah…— fez Dinho com uma expressão de quem pede desculpas estampada no rosto.

— Não vai rolar, né?

— Eu não vejo razão… Mas, eu também não quero te podar, meu caro… Por qual motivo você precisa da Palco para ir ter com ela? Você pode mandar esse perfil no Noise é Nóis. Talvez eu possa te ajudar, fazer uns telefonemas, qual é a questão?

— Ah, é só que ela mora perto de Brasília e… Eu não tenho a grana para chegar lá, cara.

— Ah, entendi. Hmmm… Onde ela mora, exatamente? — questionou o editor, ajeitando seus óculos retangulares.

— Bem, tem isso… — e aí Pereira deu um longo suspiro— Ela mora numa… É tipo… Uma, ahn, comunidade mística…

Ao que Dinho fez sons desarticulados com a garganta e o nariz à guisa de risada:

— Comunidade, você disse, mística?

Pereira tentou disfarçar sua falta de paciência. Ele não queria tratar desse assunto:

— É. É um treco muito paia. Ao mesmo tempo, faz sentido. Escutando… Ahn, isso é, se você escutar os dois discos vai perceber que o misticismo, o sobrenatural, são temas caros à Cármen. De acordo com o Luciano, com o qual eu conversei ontem, ela deu… Deu uma pirada e… Passou a viver disso, nessa pira. De ser a líder de um grupo místico. Eu não entendi direito, tem todo tipo de parada new age lá, mas parece que eles fritam muito numa onda transcendental que inclui extraterrestres. Ah, intraterrestres também.

Dinho gargalhou alto, levando a mão à face, levantando os óculos e espremendo de leve os olhos:

— Extraterrestres? Intraterrestres? Será que eles tem alguma ligação com os reptilianos?

O editor deu outra gargalhada, Pereira permaneceu sem graça:

— Eu sei lá, Dinho…

— Mas… Ahn, ai… Ai… Foi esse Luciano quem te disse isso?

— É, mas, bem, eles tem um site. Procura aí, Associação Transcendental Ala… Não… Amalantrah, com no final.

— Associação Transcendental A-ma-lan… Aha!, deu aqui.

— …

Diante de um Pereira visivelmente incomodado, Dinho leu todo o site com deleite, soltando uma série de breves interjeições, rindo infantilmente e balançando-se, de levinho, para frente e para trás, com uma ansiedade alegre. Ao fim, Dinho estapeou a coxa e disse, debochadamente:

— Pois bem, Sr. Daniel Pereira, ainda que parcialmente, defiro seu pedido.

— Oi?

— Está certo, é mesmo uma boa ideia, é uma boa pauta — Dinho disse sorrindo moderadamente, ainda olhando para o seu monitor. A banda… Não. Mas isso aqui, isso aqui é alguma coisa.

— …

O editor, com um rápido movimento do pé direito contra o chão, fez sua cadeira girar, colocando-se então diante de Pereira.Bateu de levinho as duas mãos contra o s joelhos e olhou nos do moço:

— O que você acha? Escute essa proposta! Estamos agora desenvolvendo a ideia de ampliar o escopo da revista, você sabe… Tratar de mais temas, além de música, teatro e cinema, escrever também crítica de costumes. Nossa, que arcaico isso… É… — Dinho coçou a nuca—Tratar de estilo de vida, sabe? Comportamento. E… Não acho que você escreva mal, Pereira. Acho que pode ser bom para você. O que você acha?

Pereira coçou seu bigodinho ralo, abaixou a cabeça e voltou a olhar para Dinho:

— Não entendi… Eu…

— Você faria uma matéria sobre essas pessoas, sobre esse lugar. Uma coisa maior, extensa mesmo, como se fosse um perfil, sabe? Ahn, nós te colocamos num desses cursos, para você ter uma experiência o mais próxima possível da pessoa que vai lá participar das atividades deles… E bem, você pode tentar uma escrita mais pessoal talvez, fazer algo como um diário…

— Uma coisa meio, ahn, New Jornalism?

— É, exatamente, é bem por aí. Você seria um Hunter S. Thompson um pouco mais careta, ou pelo menos não tão… Porra-louca… Um Tom Wolfe…

— Mal vestido?

— Haha! Não. Bem, não… Você… Você entendeu. É uma ótima. Não é uma ótima? Você pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, escrever contando para o público da Palco a sua experiência na Associação Transcendental Amalantrah e, uma vez lá, entrevistar a Cármen para o seu blog.

Era mesmo um ótima, Pereira reconheceu. Não quis soar ingrato:

— Cara, siiim, siiiim, uma ótima.

— Chegue aqui, meu caro, por favor, vamos dar uma olhada nisso aqui — disse Dinho se colocando mais uma vez diante de sua tela, retornando à página do site da A.T.A. que listava os cursos ministrados na sede da associação — O que disso aqui você acha interessante? É para fazer mesmo, ou pelo menos tentar fazer… Para você ter material para umas seis mil, oito mil palavras… Algo nesse patamar…

O rapaz se levantou e foi até Dinho. Diante dos dois estavam os nomes dos cursos que Pereira vira no dia anterior. Nada lhe parecia realmente cativante, com a exceção do curso de Tarot, que lhe lhe interessava, ainda que  vagamente. Lembrando-se de um professor, de quando ainda frequentava as aulas na faculdade de Psicologia, falando de alguma conexão entre a obra de Jung e o Tarot, de como vários arquétipos trabalhados pelo alemão estariam presentes nas imagens que estampam as cartas, Pereira apontou para a tela do monitor:

— Acho que… Acho que esse aqui, Dinho…

O jornalista mais velho leu o nome do curso numa exclamação brincalhona, pronunciando acertadamente a palavra francesa:

Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios.

— Exatamente…

— Você sabe o que vem a ser um grimoire?

— É um grimório, um livro de magia — disse Pereira lembrando-se das tardes passadas jogando RPG. 

— Pô, meu caro, você está por dentro dessas coisas místicas, hein?

— Nada, sô…

— Quanto custa isso? Investimento, que coisa mais fuleira, chama preço de investimento… Salgado, bem salgado. Estão fazendo dinheiro os seus místicos viu, meu caro? Mas, ó, sem problemas, está dentro do orçamento… Sem problemas. Vamos, vamos ligar para lá — disse então Dinho, levando a mão ao telefone.

Quando a ligação completou, Dinho começou a escutar a gravação de espera, um cântico xamânico sustentado por batidas eletrônicas. O texto de apresentação,  o do site, foi lido pausadamente por uma voz masculina. Logo depois da expressão “manifestação máxima”, Dinho escutou o barulho do fone sendo tirado do gancho, um sútil chiado, e então uma voz de bom moço, que seguiu emendando uma pergunta atrás da outra:

— Oi, tudo bom? Meu nome é Incigaz, tudo bom? Como você se chama?

— Boa tarde. Tudo ótimo, Inci-

— In-ci-gaz

— Incigaz. Sim, meu caro, tudo ótimo. Meu nome é Dinho Motta. Eu… Eu falo aí na Associação Transcedental Ala-

— Ama-lan-trah. Sim, senhor. Bom dia, Sr. Dinho, como vai o senhor? Que lindo, não, senhor? Esse momento, esse encontro, essas possibilidades que se abrem agora, não é, senhor? O senhor quer aprender, senhor? Descobrir-se, senhor? Encantar-se mais uma vez com a vida e com quem o senhor é, senhor?

*

Depois de vários e extensos salamaleques, ficou então combinado entre Dinho e Incigaz que Pereira, a serviço da Palco, iria passar cinco dias na sede da A.T.A, pernoitando na vila inclusive, para fazer o curso de Tarot, participar de sessões de meditações com cristais, assistir uma palestra tratando do Princípios Herméticos e uma outra a respeito de alienígenas presentes em nosso passado e entrevistar Cármen Valente, agora Mestra Intreza, tudo com o objetivo de escrever uma matéria extensa apresentando a Associação aos leitores da revista.

Dinho ficou verdadeiramente irritado com a efusividade dos agradecimentos de Pereira, que só faltou chorar de alegria e beijá-lo. Tinha uma série de conselhos para o moço, a maior parte consistindo em dicas de redação (dentre os quais incluía não adotar pontos de vistas por demais particulares, correndo o risco de escrever para o próprio umbigo), mas os abandonou todos diante da alegre verborragia de Pereira, temendo que ele ficasse ali sonhando em voz alta pelo resto da tarde.

Uma vez fora da redação da Palco, Pereira, extremamente aéreo, de tão feliz, perdeu totalmente o seu (parco) senso de praticidade, descuidando do fato de que, em razão da viagem, além dos preparativos indispensáveis (fazer as malas, comprar passagens, decidir como iria de Brasília até Formosa e então à sede da A.T.A.), teria de adiantar alguns trabalhos cujos prazos de entrega, antes distantes, tornaram-se próximos por conta dessa nova tarefa. Siderado, passou o final da tarde da mesma forma que antes descobrira Olho Pineal, passeando, lentamente, por livrarias, lojas de disco e sebos. Findou a prospecção num bar e só chegou em casa muito mais tarde, chumbado.

No dia seguinte, começou a se preparar para a viagem após acordar, aristocraticamente, lá pelo meio dia. Quanto à mala, passou mais tempo, primeiro, ponderando sobre os riscos de portar maconha em um voo (ainda que nacional) e, depois, manufaturando baseados com papel branco e filtro, quase idênticos a cigarros normais, do que efetivamente preparando a bagagem. Já no que se refere ao deslocamento até à Associação, optou por agendar um táxi, desconsiderando a sugestão de Dinho de alugar um carro e dirigir (Pereira, por livre escolha, nunca trocaria o olhar perdido do passageiro pela atenção do motorista). Resolvidas essas questões (que, atipicamente, não deixou para última hora), comprou comida (agora de verdade) para três dias, tempo que passou sem sair de casa, colocando o trabalho em dia e estudando tanto como iria escrever o texto para a revista quanto quais seriam as perguntas a respeito de Olho Pineal  que faria à Cármen, se ainda existisse algo da artista Cármen nessa estranha  religiosa Mestra Intreza.

O tempo passou velozmente (fazendo, inclusive, Pereira considerar se não era melhor trabalhar assim, focado, com um padrão de sono e refeições pré-definidos, e não no improviso eterno com o qual estava acostumado), logo encontrando o rapaz no aeroporto, de mochila nas costas.

Depois de, com o maço de falsos caretas no bolso da camisa de flanela (peça totalmente desapropriada para o nosso clima tropical), passar em branco pelo único pastor alemão à vista, imerso no clima paranoigênico do lugar, aumentada rodoviária pan-óptica, posicionado próximo ao devido portão de embarque,  Pereira aguardou seu voo cautelosamente, alternando o olhar entre a leitura do jornal sobre os seus joelhos e o painel  acima, anunciando os voos.

Para a alegria geral dos passageiros, o percurso seguiu banal até o fim. O jornalista escutou desinteressado as conversas de parlamentares rumo ao Congresso, que, megafônicos, faziam questão de serem reconhecidos como tais,  e observou, até o pescoço doer um pouquinho (e então parar), as formas geométricas do agronegócio deslizando devagarzinho lá embaixo.

No aeroporto de Brasília ele foi logo recebido pelo taxista, um senhor de ampla barriga, barbudo e careca — lembrando uma versão corpulenta do poeta Allan Ginsberg —, segurando um grande pedaço de papelão onde se lia DANIEL PEREIRA.  Chegaram rápido ao carro, rendendo uma conversa completamente protocolar.

—  Fez boa viagem? Como está o clima em São Paulo? O trânsito agora está legal, a estrada regular, em mais ou menos uma hora e meia chegamos lá, na Associação.

A corrida seguiu em silêncio por meia hora, com Pereira, acostumado com os morros e montanhas de Minas e com os edifícios de São Paulo, mirando o cerrado a secar no plano, até que o taxista puxou conversa:

— Aqui perto, nesse mesmo sentido, Daniel…  Aqui pertinho mesmo, você quebra à direita antes de Planaltina, tem outra… Outra organização, outro centro, muito, muito interessante… Que também tem essa coisa do espiritual… O Vale do Amanhecer, você conhece? Eles fazem lá um trabalho espiritual muito… Muito legal.  Assim, eu acho, né? Assim, pensa só, você vai lá, e o povo fica horas e horas, falando só de coisa boa, só de coisa boa. Paz, amor, perdão, crescimento, tem de ser bom, não tem? Só coisa boa. Paz e luz.

— Não… Vale do Amanhecer? — disse Pereira, que não havia pesquisado acerca dos outros grupos místicos sedeados nos entornos de Brasília, ligeiramente confuso.

— É. Depois você procura saber… Muito legal.

— Claro, claro… — meramente pro forma.

— Onde você está indo, essa Associação, eu já levei muita gente lá, ih, gente famosa, importante, artista, político… Mas eu, eu mesmo nunca fui lá. Mas deve ser bom, né? Do que eles falam lá? É coisa boa também, né?

— Bem, eu imagino que sim. Eu também não os conheço. Ainda. Estou indo para conhecer — Pereira disse, depois explicando que estava ali para escrever a respeito da associação para a Palco, revista que o taxista não conhecia, mas disse ser leitor assíduo.

— Bem, não deixe também de passar por Formosa — disse o motorista, com os olhos na estrada, abrindo a porta do porta-luvas e entregando um folheto expondo as atrações turísticas da cidade, no qual Pereira viu fotografias de pessoas passeando por matinhas e banhando-se em cachoeiras, além de o que pareciam ser marcas pré-históricas feitas em pedras.

— Ó, que legal… — Guardando o folheto na mochila.

[ALTO PARAÍSO]

[Pereira começa a sentir que não pesquisou quase nada].

Voltaram ao silêncio. Chegando próximo de Formosa, Pereira começou a consultar o mapa que indicava como chegar à sede da A.T.A., retirado do site do grupo. Após alguns minutos dirigindo pela zona rural da cidade, chegaram ao seu destino.

Desprovida de qualquer atrativo, o portão de entrada da A.T.A. parecia como a entrada de um condomínio fechado, com muros caiados de três metros de altura encimados por uma cerca elétrica estalando monotonamente. Três câmeras de segurança observavam a entrada,  uma no canto esquerdo do portão, apontando para o exato centro do portal, outra no canto direito, também apontando para o centro e uma voltada para a face de quem estivesse na frente do interfone de um só botão, colocado na muro à direita da entrada. Uma marquise de um metro e meio se projeta para frente, oferecendo proteção do frequente sol escaldante e de eventual chuva. 

Pereira pagou o taxista, dando-lhe uma significativa gorjeta. Só lembrou de pegar uma nota para depois prestar contas a Dinho porque o homem o questionou. Saiu do carro, pegou a mochila que tinha deixado no banco traseiro e então se aproximou, só um pouco ,do portão, tirando um dos cigarros do maço do bolso. Antes de acendê-lo, dispensou o sósia do Ginsberg, que, educadamente, tinha a intenção de somente ir embora depois que Pereira fizesse comunicação com a gente da associação e tivesse sua entrada aceita:

— É…. O… O senhor pode ir… Eu acho que vou parar aqui um pouco… E começar já a pensar no meu texto olhando aqui, para a entrada — gesticulando com o cigarro em mãos.

O taxista o olhou apreensivo por alguns instantes e então anuiu:

— Tá. Qualquer coisa você me liga, hein? — e foi puxando o carro demoradamente até engatar a segunda marcha, então terceira e quarta.

Pereira, que na verdade queria era fumar um dos seus baseados travestidos antes de bater o interfone, esperou o carro se afastar, o que fez levantando uma fina nuvem de poeira roseada na estrada de terra vermelha. Virando o olhar, por entre as grades do portão ele podia ver um caminho, asfaltado, que seguia até a vila, ultrapassando-a e chegando até o domo, lá longe.

Como acontece com os fumantes em ponto de ônibus, assim que o moço deu o terceiro longo e demorado trago, avistou vindo pela via diante de si um carrinho daqueles utilizados em campos de golf.

— Ô, desgrama — ele disse dando rápidas baforadas, antes de então jogar o cigarro no chão, esfarelá-lo contra a sola do seu sapato e, ato continuo, retirar várias balas macias de maçã verde da mochila, que foi logo abrindo e jogando para dentro da boca, na frustrada tentativa de mascarar seu hálito. Quando o carrinho enfim chegou, dirigido por uma moça loira do cabelo puxado para trás, com sombra vermelha nos olhos e vestindo um macacão prateado, Pereira, cheirando a maconha (fedendo, como diriam aqueles que não apreciam a erva), estava agachado, catando o papel das balas do chão, mastigando desajeitadamente a amorfa massa verde na qual os doces haviam se transformado, um filete de baba esticando-se por seu queixo. 

— Seja muito bem vindo! — disse a moça, ainda dentro do carro, abrindo o portão com um controle remoto.

Pereira limpou a saliva do rosto com a manga da camisa de flanela e tentou responder:

— Muh-to oh-bh-gado!

*

 

 

A era de M.

I. Dedinhos nervosos

(feat. Menina Lua)

Dedinhos nervosos
Dedinhos nervosos

Antes, o rigor da pedra
Estilo preciso e forte
Hoje, dedinhos nervosos

Isso não te dá um cagaço?

— Você vai por cagaço no seu poema?

— Não te dá um cagaço?

 

II. Disque M para Filippo Tommaso Emilio M.

[…]