PEREIRA – X

Apesar da proteção fornecida pelo teto do carrinho de golf  e pela pigmentação escura da íris do moço, a luz do início da tarde fazia com que Pereira mantivesse impressa em sua face uma leve careta. Mirava os arbustos e as pequenas árvores contorcidas do cerrado, crescendo logo depois dos estreitos canteiros às margens da estradinha asfaltada, onde, semeadas e irrigadas artificialmente, plantas de folhagem mais vistosa do que as de suas parceiras naturais desafiavam a secura do sertão.

À frente, aproximavam-se lentamente os prédios da Associação Transcendental Amalantrah, evocando, com seus desenhos arredondados, um cenário de filme de ficção científica ruim qualquer, no qual o futuro aparece familiar, datado. O muro visto antes na entrada se estendia agora abraçando todo o perímetro da vila, feito o de um condomínio fechado.  Em seu caderninho apoiado sobre o joelho, tremendo ligeiramente, Pereira rabiscou cifrões, pensando: esse povo é rico. Por ser acostumado a viver nas áreas centrais de cidades sujas, o ar limpo, ainda que seco e quente, agradava-lhe especialmente, como também lhe agradava o perfume da motorista, moça que, por seu corpo delgado, coluna aprumada e nariz adunco, tinha algo de ornitoídeo. Mas nada galináceo, bicho ao mesmo tempo abobado e nervoso: uma ave esperta, calma e rápida. A jovem conduzia para a primeira construção depois do portão, referida por ela mesma como Câmara de Descompressão, enquanto ia discorrendo, institucionalmente:

— A Associação foi fundada em 88 e inicialmente funcionava em uma chácara lá em Minas, na cidade de São Thomé das Letras. Essa chácara ainda existe, não é mais a sede, mas uma de nossas várias unidades pelo país. Uma de nossas filiais. Em 95 foi adquirido esse espaço, que, além de várias vezes maior, é energeticamente mais potente do que a chácara. O domo foi a primeira construção, servindo para todas as nossas atividades, até que, graças aos Mestres Ancestrais, fomos crescendo, com mais associados optando por uma experiência mais intensa e mais recompensadora, até que em 2000 começarmos a construção da vila, para darmos conta de abrigar todos. São quase noventa casas… Ahn, exatamente 92 com as três que ainda estão em construção, ali ó.

A moça tirou rapidamente a mão do volante e apontou para a esquerda. Pereira fez breves anotações, das quais, além dos cifrões, só os números apareciam, mais ou menos, legíveis. A jovem, depois de uma disfarçada olhadela no caderno do jornalista, continuou:

— Uma grande parte do investimento vem de Mestra Intreza, que nunca mediu esforços, sejam eles recursos materiais, sejam suas próprias energias, vitais e psíquicas, para passar adiante os ensinamentos que os Mestres Ancestrais lhe transmitem. Fora isso, existem as contribuições de todos que participam de nossas atividades. Como você, sua revista, por exemplo. É um investimento duplo, você investe em você, em seu crescimento e aprendizagem, e em nós, nesse coletivo. Já os… Os mais avançados nos estudos, que já residem aqui e estão mais preparados, investiram aqui tudo o que tinham, por uma questão muito lógica: a vida deles é aqui. Aqui, e quando for a hora, além. Mas antes, necessariamente, aqui.

— Você é uma dessas pessoas? — Pereira disse fingindo anotar qualquer coisa, sua vista abaixada.

Ao que Aeris — e esse era o nome usado pela moça dentro da Associação, um nome de personagem de videogame, que Pereira bem sabia, mas preferiu não questionar, nem mesmo comentar, simplesmente repetindo, Aeris, quando ela se apresentou ao moço instantes antes, quando abriu o portão — disse, desembaraçada:

— Sim, eu vim para cá em 2010, com a minha mãe. Minha mãe conheceu a Mestra no início dos noventa, nós sempre participamos de várias atividades. Eu desde criança. Várias. Aí, em 2010, quando ficou evidente para nós que algo, algo enorme, estava prestes a acontecer e que… Que era necessário estarmos preparadas, viemos para cá…

— E deixaram tudo para trás?

— Sim… Deixaram para trás, mas… Eu não diria que era tudo. Deixamos para trás uma vida sem significado.

— Ahn… E o que… O que está prestes acontecer?

— Você é privilegiado Daniel, muito privilegiado — e então a moça, com um ar solene, tirou os olhos da via, que seguia mesmo reta, desacidentada e vazia, e disse, olhando nos olhos de Pereira — A Mestra não só aceitou que você fizesse essa visita e produzisse o seu texto tratando da Associação. ela também quer falar pessoalmente com você….

Fala que causou em Pereira uma curiosa sensação de esperança, indefinida e arrepiada. A moça prosseguiu:

— Já amanhã você vai ter a oportunidade de falar com Mestra Intreza, depois da sua primeira aula. Ela mesma lhe explicará todas essas coisas… 

— …

— Mas… Eu tenho umas explicações mais gerais, vamos só encontrar os outros na Câmara… Para eu não ter de me repetir muito.

Depois de estacionar o carro em uma pequena marginal próxima à construção cilíndrica de teto abobodado, a dita Câmara de Descompressão, a mulher, com seu passo preciso, caminhou em direção da grande porta de ferro da casa.

A moça com seu macacão prateado, como o de um um geólogo intrépido que se aproxima de um vulcão em plena atividade, veste que quebrava a luz chapada da tarde em vários poliedros aluminados de formas intercambiantes, o  portão metálico e a construção minimalista, erigida em uma paisagem que, dependendo do enquadramento, parecia-se com um deserto, compuseram um quadro que, por instantes, breves instantes, tinha algo de extraordinário.

Como se a moça fosse uma exploradora sideral em um planeta hostil.

Imagem que se sustentou até Aeris abrir a porta, revelando um cômodo de piso de ardósia verde escura encerada, mobiliado com uma mesa e  cadeiras, todas brancas e de plástico. Em volta dessa mesa, três pessoas conversavam. Entrando, seguida de perto por Pereira, a moça anunciou o jornalista:

— Pronto, gente, esse é o último. É o Daniel Pereira, que veio nos visitar em nome da revista Palco.

Apresentação que Pereira complementou com um oi muito discreto, um pouco atrapalhado pela súbita mudança na iluminação —  as janelas estavam com as cortinas fechadas, uma lampadazinha débil servia como a única fonte de luz  —  e imediatamente irritado com o odor avinagrado vindo do ar condicionado do recinto, que lhe remetia a salas de cinema cheias de mofo.

— Por favor, sente-se — a moça disse ao jornalista.

Quase na beirada da mesa, havia um projetor ligado a um laptop. Aeris sentou-se diante do computador enquanto Pereira tomou assento do outro lado da mesa, junto com os que ali já estavam: um velho e duas mulheres, uma na casa dos trinta, outra de talvez cinquenta anos. O senhor falava enquanto as mulheres o escutavam atentamente.

Todo rosto nos parece ter uma expressão que lhe é mais natural do que as outras. Mesmo impassível, toda face, pelo seu próprio desenho, sugere-nos uma careta e, pela careta, um estado de espírito do qual, às vezes, fazemos um julgamento moral. Fulano tem cara de irritado, beltrana de preguiçosa, sicrano de arrogante. O velho tinha em seu rosto uma permanente caretinha contida de nojo, como se surpreendesse com algo desagradável, quiçá escatológico, mas tivesse de manter as aparências. De um branco amarelado, seu cabelo era todo eriçado. A pele lisa de suas rosadas bochechas barbeadas contrastava imensamente com as rugas que se cercavam sua boca e olhos e se eriçavam acima de suas sobrancelhas. Seus dentes eram de um amarelo claro, salpicado de pontinhos pretos nos incisivos inferiores, combinando feiamente com o tom acinzentado de suas gengivas amplamente expostas. Olhando para as suas mãos, pousadas sobre o punho de uma bengala de alumínio de quatro pontas, Pereira as imaginou frias e úmidas. Além uma incongruente camisa social toda amassada, o velho vestia calças e jaqueta de treino negras, de material sintético, lembrando a um Fidel Castro glabro.

— É… Ahn… Muitos, não é mesmo?, muitos diriam que a, ahn, a própria forma da figura, a sua própria forma, ahn, antropomóooorfica, não é mesmo?, seria um graaande obstáculo para a ve-ro, verossimilhança de meu relato… — os olhos acompanhando os movimentos de Pereira ao se sentar, tentando em vão arreganhar a boca em um sorriso convidativo — Mas não há nada de verdadeiramente, ahn, literalmente in-crí-vel nessa minha, ahn, nesse meu relato… Porque essa forma — erguendo as mãos, a bengala sobre um dos joelhos — essa nossa forma de cinco pontas, essa forma de estrela, ela não  é uma forma completamente alea… Aleatória, um fruto qualquer de um processo seletivo qualquer, ahn, de seleção natural…

— Design inteligente — murmurou a mulher mais nova, uma moça de cabelos castanhos presos em um coque, trajando uma longa bata indiana bege.  Tinha um pouco de branco demais nos olhos e, inclinada para frente, as mãos espalmadas juntas diante do rosto, quase que como se rezando, mantinha um ar pretensamente reverencial que não conseguia esconder sua, talvez permanente, ansiedade. 

O velho piscou demoradamente e então disse, num gemido agudo e anasalado:

— Não…

Buscou o punho da bengala e, levantando levemente os ombros, retomou sua fala:

— A própria… Não, sem nada necessariamente inteligente… A própria seleção natural, ahn, gera formas… Formas que se repetem… Existem formas que são funcionais, que, portanto, se repetem… Diferentes organismos, seguindo diferentes caminhos evolutivos… Por necessidade… Pela, ahn, interação do seres com a matéria… Chega-se a soluções semelhantes… Ahn, pensemos, ahn, nas formas… No corpo de um tubarão, que é um peixe; no corpo de um de um golfinho, que é um cetáceo e, assim como as baleias, também um mamífero e, ehn, pensemos no corpo de um iqui-ti-o-saaau-ro, ahn, ictiosauro, que foi um um réptil marinho, um réptil…  — e então, demoradamente, o velho, com o indicador (os olhos espremidos seguindo o movimento do indicador), começou a desenhar no ar a silhueta passara a descrever — Comecemos pela cauda, com aquela nadadeira aberta assim, ampla, ahn, depois o corpo, espichado, não é?, mais grosso no meio, as barbatanas, não nos esqueçamos das barbatanas, o ros-, é, o focinho pontudo, assim afunilado…

As duas mulheres observavam atentamente a explicação do senhor. Pereira o escutava e o observava, mas às vezes olhava de relance para Aeris que, entre muxoxos e murmúrios, tentava fazer o projetor funcionar, checando ora o cabo ligado à entrada do próprio projetor, ora o cabo ligado à conectado ao laptop. Concentrado em em sua fala, o senhor continuou:

— Então temos — contando os dedos da mão esquerda com a direita, a bengala apoiada na beirada da mesa — peixe, réptil, mamífero —  mostrando três dedos erguidos —  três seres distintos, internamente muito diferentes, mas apresentando, ainda que su-per-fi-ci-al-men-te, o meeesmo desenho, a meeeesma forma. Ahn, evolução… É… Evolução convergente…  Esse é o nome que a ciência dá, evolução convergente… Então… Vejam, é perfeitamente possível. Então não há nada de estranho, nada de inverossímil na forma do ser que me visitou, por ser ele um extraterrestre hominídeo… Essa forma, essa forma nossa, por sua utilidade, sua funcionalidade, pode muito bem se repetir… Essa forma de estrela, torso membros e cabeça… Estrela, microcosmo, pensem… É uma forma muito apta a se desenvolver por aí… Se repetir por aí, nos imeeensos abismos sideraaais…

O senhor virou-se lentamente para Pereira, lembrando-se de que o jovem não estava lá quando ele começara o assunto.

— Fui visitado, sabe? Contatado — segurando a bengala com as duas mãos e a erguendo lentamente para junto do peito — Um nível muito, muuuito profundo de contato.

Pereira tentou manter o semblante o mais sério possível. Aeris disse saindo do cômodo a passadas largas:

— Esse projetor não presta.

Antes de encostar a porta pela qual entrara com Pereira instantes antes, ela disse, quase gritando:

— Volto já, dez minutos, vocês não terão de esperar mais, dez minutos…

Ao que todos anuíram quase que automaticamente, por interessados na narrativa do senhor de vestes esportivas negras, que prosseguiu, enquanto de lá de fora vinha o som do motor do carrinho de golf  dando partida:

— Eu estava, como que agora, não sabem?, lá em minha casa, preparando-me mentalmente para ir dormir, lendo um pouco… Estava lá, na minha cadeira de vime no jardim, sabem? Todo sossegado já, o dia já corrido, passado, tudo feito. É engraçado… Porque será, hein? Haha. Nas estórias as aparições fan-tás-ti-cas sempre se dão assim, não é mesmo? São preeeceeediiidas desses episódios esquecíveis, comezinhos… Quem me, ahn, visitou não foi um animal, ah… Agourento, a me lembrar de um amor já impossível, mas… Como no poema, não é mesmo? Não foi um corvo, a memória de águas passadas, ai, primaveras, ai, primaveras semi-esquecidas… Não. Mas.. Algo novo… Uma personagem…

O velho parou subitamente, mirando Pereira com o caderninho sobre o joelho:

— Algum problema se eu tomar notas? — disse o jornalista, meio acanhado.

— Não, de forma alguma, esse relato é de fato importante, eu não posso, ahn, não posso escondê-lo, não posso ser pudendo com algo de tamanha magnituuude, por mais que, por mais que, diretamente, eu me exponha… Mas, sabe, eu já… Vocês vão ver, é triste, mas é uma questão de tempo a vocês verem por si mesmos… Eu já me expus tanto nessa vida… Ahn, esperem que vocês verão… Exames, todos os tipos de exames, ser velho é ter o corpo entregue aos médicos… Sr. Hidelbrando, o senhor poderia? E aí vêm todo tipo de pedido, tudo quanto é situação, e então, por qual razão?, pra quê?, pra quê ser pudendo agora? Pode sim tomar notas, meu jovem… É…

— Muito obrigado…

— É, revista, a moça disse agorinha, revista?…

— Palco… — respondeu Pereira coçando nervosamente seu cavanhaquezinho macio,  — É uma revista que trata de… Artes. E… Mas, é… Não só artes, sabe? Artes e estilo de vida.

— Estilo de vida. Unhum. — disse a mulher que até então ficara calada, fazendo em seguida um beicinho que era como um carimbo a validar a sua breve fala, fala que revelara um relâmpago de dentes branquíssimos em contraste com um bronzeado cinematográfico. Sentada na extremidade da cadeira, com as duas mãos pousadas placidamente sobre os joelhos, com a coluna ereta, ela arqueava uma casaca de hipismo estilizada, de veludo azul-marinho, que casava com os seus culotes brancos justíssimos e com as suas botas de montaria marrons, perfeitamente lustradas.  Sua face felina —  toda natural, exceto pelas duas covinhas cavadas meticulosamente por um cirurgião plástico que chegara a assinar um termo prometendo nunca revelar tal intervenção —  era emoldurada por um corte de cabelo a la Louise Brooks e estava o tempo toda direcionada à Pereira, na expectativa de que o jornalista a reconhecesse. Pereira, alheio ao mundo das colunas sociais, não reconheceu, entretanto, Olímpia Magalhães Errenteria, que além de socialite,  fazia também sua parte na formação no excesso de contingente de advogados, jornalistas, escritores e DJs do país, clamando para si tais títulos. 

A fala da suposta amazona acalmou Pereira, que acenou com a cabeça concordando, fechando os olhos de forma veemente: ele não queria ser desmascarado, não queria ser visto ali como quem era, o rock journalist chatinho, esnobe das bandas desconhecidas. Era alguém que escreve sobre o quê? Perfeitamente, estilo de vida.

— Palco? Vocês tratam de ópera também? — Hidelbrando desconcentrou-se por instantes.

— Olha, não… Mas é… É uma boa pauta, uma boa pauta….

— Ah, olha só, eu sou um diletante, quase um leigo… Mas, sabe, já escrevi algumas coisinhas, depois posso lhe mostrar… Mas, sim, estilo de vida —  os braços esticados,  as mãos erguidas abaixo, diante de si, a esquerda sobre a direita, a direita pousada sobre o cabo da bengala, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado — faz sentido, poder-se-iiia falar siiim em um estilo de vida mais propício a aceitar esse tipo de fenômeno, e é claro, indo além, também um estilo de vida novo, que se desenvolve a partir da fruição do fenômeno, do… Do contato.

Pereira rabiscou um pequeno disco voador, escreveu displicentemente em baixo “Contato imediato? Qual grau?”.

Tentando manter um semblante profissional, empunhando a caneta, mirou os olhos do velho, como quem diz, estou pronto:

— Sim…

— Mas, bem, onde eu?… Sim, ah, sim… Estava eu então no meu quintal, não é?, preparaaando-me para em instantes ir dormir, entreeegar-me aos braços de Mooor-feu, não é?, quando acooon-te-ceu. Sim. Tudo começou com uma súbita luz, dourada, que me banhou todo, até me trespassou, eu diria, surgindo acima de mim, sem som nenhum, odor nenhum, nada, só essa luz. Não digo que me paralisou, mas foi quase, não sabem? No que veio a luz fiquei incapaz de me mover normalmente. Era… Era como se o ar tivesse se transformado em um meio muito mais denso, como se ca-da mo-vi-men-to fosse muito mais difícil, arrastado, do que o normal… Assim, limitado, olhei para cima, para de onde vinha a luz… Eis que do alto, no meio mesmo da luz, havia um ponto negro, um objeto, que de início é só um pontinho, só um pontiiinho que leeentameeente foi crescendo, tomando forma, desceeendo… — o velho então voltou a deixar a bengala de alumínio cair sobre os joelhos e olhou para o alto, para o teto do cômodo, como se de fato vissse ali a luz e o corpo que por ela descia — E daí vi uma silhueta, negra contra a luz, silhueta na forma da qual falava antes… Uma forma humanoide, com cabeça, torso e membros… Não caia, entendem? Não acelerava. Essa figura vinha em minha direção, abaixava-se numa velocidade constante, leeenta… Como se a descessem amarrada a uma corda… Corda invisível… E nisso o tempo se estendeu, não sabem? Eu não poderia dizer com certeza o quão demorado foi isso… É tão incrível, não é? Quando essas coisas espetaculares acontecem a nossa reação não é nada parecida com aquela que imaginamos que teríamos… Ah, eu tenho todo tipo de equipamento lá em casa, eu sou um sujeito up to date…  — projetando perdigotos — Eu tenho câmeras ótimas, equipamento de primeira mesmo, sabem? Mas não gravei nada, não é mesmo? Nada além do que ficou aqui… — apontando para a cabeça — Não só aqui, na verdade…

O velho ficou por instantes com os olhos fechados. Por um breve momento a sua distintiva careta se desfez e viu-se em seu rosto um sorriso, como se tivesse sido contemplado com uma graça fugaz.

— E então, pela luz, ungida pela luz dourada, de ponta a cabeça, a cabeça dela vindo como que de encontro a minha, os braços esticados gentilmente em minha direção, veio descendo a cria-tu-ra, ah, nua, nua, alienígena, mas hominídea, antropomórfica,  feminina, feminina, sabem? De silhueta, contorno, feminino, não sabem? Um corpo, assim, esguio, mas não es-quá-li-do, sabem? Mas, pequeno, pequeno, eu diria… Quando se aproximou mais, eu pude ver… Um metro e quarenta… Careca, careca mesmo, sem quaisquer pelos, a pele lisa, quase translúcida, várias veias assim reveladas, visíveis, sombras dos ossos debaixo da carne, manchas escuras indicando os órgãos… A cabeça, tão bela, tão altiva, graaande, ovalada…

Ao que a mulher da bata bege se empinou toda e arregalou os olhos em espanto, a socialite bronzeada sorriu tranquilamente, como se aquilo tudo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto Pereira se conteve para não soltar um muito modulado e sonoro:

— Nuuuooooossa —, restringindo-se a rabiscar em seu caderninho: quinto grau, será?.

Os olhos — prosseguiu o velho — e aqueles olhos, amendoados e enormes, enormes, muito negros, todos negros, todos pupila, estáticos, completamente estáticos… Ah, quando eu vi a-que-les ooolhos… Era como se, sem nenhuma, nenhuma palavra, num silêncio… Um silêncio que só não era silêncio porque havia um leve zumbindo, sabem? Um si-bi-lo contínuuuooo, extremamente agradável… Um zuuumbido divino. Exceto por isso, silêncio, silêncio. Não existiam palavras. Neeem em miiinha mente… Acho que nem em minha mente se formaram então palavras. E nesse silêncio, aqueles olhos… — levantou as duas mãos para cima, espalmadas, os polegares próximos de si, separados pelas imaginárias e minúsculas narinas do alienígena, os mindinhos apontando para cima, as mãos assim marcando onde estariam os descomunais olhos do ser sidérico; o cabo de sua bengala, solto, foi então de encontro à beira da mesa, golpeou-a de levinho e deslizou para a direita, não caindo o instrumento porque ficou encostado na perna do velho, feito um falo falso, metálico, erguendo-se na diagonal — Aqueles olhos se comunicaram comigo, conheceram-me, realmente conheceram-me, perguntaram-me coisas, coisas que eu respondi com o maior prazer, a, ahn, com a maiooor entrega, tudo por meio de imagens, sim, apenas imagens, imagens que eu ia revisitando, abrindo em minha memória e transmitindo àqueles olhos… Momentos de minha vida que ia buscando, reconstruindo, embalando de prazer… Como se meu prazer fosse uma grande folha de papel dourado que eu pudesse cortar e com ela embalar essas imagens, esses instantâneos que com um pouquinho de força, quase que força nenhuma, quase que só uma confirmação de que sim, aquilo era pra aquela criatura miraculosa, aquilo era o que ela queria, eram as respostas para as perguntas informuladas dela… E ela também, por sua vez, não sabem?, foi me enviado mensagens por meio de imagens… Abismos siderais, um comboio de naves errando por céus distantes, frios, desolados, transpotando seres de uma existência em parte orgânica, como nós, e em parte sintética, como já estamos também nos tornando… Seeeres mais antigooos do que nós, mas, parecidos, in-cri-vel-meeen-te, parecidos, não é mesmo? Foi só aí, realmente, que ficou evidente para mim a natureza realmente alienígena de minha visitante, não sabem… Até então, mesmo eu sendo um homem prático, técnico, afeito às ciências, até então eu considerava seriamente minha visitante como, ahn, diii-viii-na… Mas, por meio daquele delicioso cinema mudo telepático ela me revelou ser um ser, apesar de sideral, profano, suscetível aos sortilégios da mooorte, assim como nós… Do amor e da morte.

— Que incrível… — a moça da bata bege.

— O mais incrível, na rea-li-da-de veio depois, depois desse nosso, ahn, digo jooocosamente, mas com muito respeito… —  olhos fechados, levando a mão ao início do nariz, no meio dos olhos, onde se apoiariam os óculos  — Depois desse nosso primeiro contato, no qual nós nos conhecemos muito, muito mais rápido do que se conhecem os… Os jovens, éhn, de agora, na eeera da infooormação, não é mesmo? Foi exatamente depois dessa nossa primeira conversa que se deu o mais digno de nota, o que pode nos espantar, abiiismar verdadeiramente, mas, que, li-te-ral-men-te — dedinho indicador em riste — literalmente nada tem de incrível…

— Claaaro… — mais uma vez, a moça de bata bege, agora passando a mão pela testa nervosamente. A morena continou com um sorriso de catálogo de imagens, Pereira sublinhou duas vezes o escrito quinto grau, na expectativa do clímax do causo.

O homem então inclinou a cabeça para baixo, lentamente, como se fosse colocar a testa contra a mesa. Movimentou-se, antes fechando os olhos, de forma tão lenta, tão harmoniosa, que Pereira pensou talvez o velho, com sua face escondida por abaixada, talvez tivesse conseguido momentaneamente sorrir de verdade mais uma vez.

Voltando a erguer a vista, buscando, e encontrando, um céu ausente, com os braços como que se tentando mover acima de si um pesado cobertor, o velho continuou, agora às vezes esganiçando num falsete estranhíssimo:

— E então veio, veio sim, ah, veio. Ó, aqueles dedos alongados, ó, se prolongando, o que era aquilo?, ó, ela veio, se aproximando de mim, os dedos, alooongados, me tocaram, tocaram o topo, o próooprio topo da minha cabeça, e aí, ó!, algo, eu não digo sobrenatural, mas, ó, algo fantástico, ó, fantástico, ainda que tecnologicamente fantástico, aconteceu, é!, o topo da minha cabeça se efervesceu por completo, efervesceu, e era como se estivesse lá, em uma brasa prazerosa, e como se então também não estivesse, como em sono, mas também um sono de gozo; imagino que aquela criatura celeste, ai, estelar, estivesse vibrando em frequências, frequências especiais, sutilíssimas, por meio das quais ela podia, não, dois corpos não podem permanecer no mesmo espaço ao mesmo tempo, claro, mas ela podia, vibrando, vibrado, efervescer, tomar meu couro cabeludo e então, ó, ir tocando, sem me ferir, sem tirar nada do lugar, ir descendo, tocando meu crânio, trespassando pacificamente meu crânio, ó, afundando aqueles prooolooongados dedos — enquanto agora esfregava os próprios dedos e se mexia na cadeira — ó, aqueles dedos então afundando, ai, no meu cérebro, dois dedos, dois dedos feito uma pinça, uma pinça assim aberta, um compasso, ai, o compasso do criador, ai que blasfêmia, e vão afundando aqueles dois dedos, afundando sensualmente, vibrando, até tocarem minhas amidilas ce-re-be-looo-sas, ai, causando em mim, ai, como eu diria?, aaah…

Tapando o rosto com as mãos espalmadas, a voz ao mesmo tempo empostada e embargada:

— O céu de azul aceso num lampejo, tropel vitorioso a festejar, abismo de vertigens mil a enflorar, translúcido ardor do amor que almejo, uma dança com um demônio benfazejo, nasce o sol do céu e mar a encontrar, são fogos e champanhas a estourar, enfim beijo o bom anjo do desejo, o frêmito incrível, deuses líquidos, e o súbito cessar de todos os ruídos que morno me descobre tão lânguido, no rol dos, oh!, felizes incluído, agora, nada límpido, mas plácido, profano, sou em carne revivido!

Ao que as mãos do velho desceram, revelando seu lábio inferior trêmulo, seus olhos marejados. Levantou-se apenas o suficiente para conseguir retirar um lenço do bolso de trás da calça e, fungando muito, prosseguiu:

—  Ai, vão dizer que homem não chora, não é mesmo? Mas… Vocês me dão essa licença, poé-

— Não, não, mas é claro, o senhor tem de… — não conclui a moça da bata bege.

— Ô, meu caro — Pereira, vacilante — O senhor tem mesmo de…

— Muita emoção. É muita emoção, gente — disse Olímpia com sinceridade.

— Ai, sim, emoção demais. Imaginem? Ai, me esquentei mesmo. Dando até um breve circulaçãozinha lá embaixo, onde eu já ando há muito, ahn, desfalecido mesmo…. E no que foi tirando eu fui tremendo todo, sentindo aquele efervescência diminuindo, ai, aquela coisa fantástica.

Sorriu pela última vez seu raro sorriso?

Antes que alguém fizesse que ia falar, retornando à caretinha usual, quase gemendo:

— Mas… Da mesma forma repentina como veio até a mim, ela… Ela se foi… Não é mesmo? Entre nos dois abismos, abismos —  os olhos baixados, a vista deslizando pelo chão —  Nunca mais fui contatado, com nada… Uma… Uma imagem… Sequer… E, bem, ai, por isso, por isso cá estou, não sabem? Acredito que aqui, aqui vou conseguir entender como… Como fazer contato, poder, sentir…. Sentir mais uma vez.

*

 

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Olivenbaum – 15

Ele impostou a voz, assumindo um jocoso ar oficial:

— Assim, por todo o exposto, fica o Sr. Paisano Gentil  desclassificado do certame literário em tela, eis que os exames médicos o revelaram um cidadão completamente apto para a vida em sociedade, falha grave majorada pelo seu exame toxicológico desprovido de qualquer indicativo de substâncias capazes de alterar estados de espírito, sejam elas lícitas ou ilícitas.

ISABELA – 24

(Algo que eu talvez incorpore à Lúcia de Esdrúxulo e Lúgubre)

— Quem é você? Não, é sério. É preciso saber. Quem são seus vários eus? O seu eu que tem preguiça de lavar louça, esse preguiçosinho inocente, não é o seu mesmo eu, tirânico, que se imagina no gozo de privilégios?… Eu ia adjetivar, infundados, indevidos, mas, ahn: privilégios, ponto.

[…]

— Ele disse ter visto o demônio.
— O demônio, tipo, O Demônio?
— Sim, O Demônio, O Demônio
— Não, não…. O quê ele viu? Como é?
— O Capeta, O Chifrudo!
— Pô, por favor, a descrição, o que o homem viu afinal?
— Um homem com chifres na testa!
— Um homem com chifres na testa? Um homem com chifres na testa? De onde você tirou a ideia de que está preparado para esse trabalho? Um homem com chifres na testa! Pf! Seu amadorismo me dá nojo, no-jo. Já ouviu falar em Pan, Baal Hamom, Cernunnos, sátiros, faunos? Chifres na testa podem ser mil coisas diferentes! Até na cabeça de Moisés!, de Alexandre o Grande!, já inventaram de por chifres!

ISABELA – 23

Estávamos eu, Olivenbaum e Isabela sentados na praça dos leitões,  suspensos num ponto indefinível entre a onda e a lombra, quando Fernandinho dobrou a esquina. Como dizem os cariocas: ele brotou. Todos nós o vimos e não conseguimos desvê-lo.  Lépido como um suíno n’água, monstrando todas as suas sessenta e quatro canjicas, Fernandinho em instantes já estava plantado na nossa frente.

Lançou a mão à frente estalando os dedos,  finta barata. Vocalizou:

— Ou. Literalmente, cês fragam? Todo mundo fala literalmente errado, bota fé? Trudia amigo meu falou: véi, a fessôra vai literalmente comer meu cu com essa prova. Daí um carinha foi zuar ele perguntando se a professora ia fazer um maço de provas, um dildo de maço de prova, e chuchar no rabo dele, e eu, haha, eu fiquei pensando, que literalmente, literalmente mesmo, nem isso era, ela teria de tipo, preparar o rabo dele com a prova, de algum jeito, cara, seja lá qual for, e comer, com a boca, tipo, morder, mastigar, engolir. Literalmente. Não me olhem com essa cara de nojinho, eu tenho a imaginação fértil, o cara falou isso e pan!, já me veio a coisa toda na cabeça.

— …

— …

— …

— Mas, ou, Isabela, sabe quem manda mó mal nessa? De literalmente?

— Quem?

— Seu Chames Choyce. Eu fui lá ler o que dizem ser o melhor conto dele, que brincou que eu vou encarar aqueles tijolões se o cara escreveu contos. Os mortos. The Dead. Começa com um literalmente, pan!, logo na primeira frase. Há! Achei que era da tradução, cacei o inglês na interntet e pan!, literally.

Isabela abriu a bolsa, rabiscou discurso indireto livre num caderninho, rasgou a folha e a entregou para Fernadinho:

— Vai estudar, Ferdinaaando.

O que nem de perto abalou o ânimo do rapaz.

ISABELA – 22

— A avassaladora maioria dos leitores gosta de descrições. Desde criança, inclusive. As crianças querem saber exatamente como foi isso e aquilo, como era a cara de fulano, como era a casa de sicrano. Não tudo, é claro, porque tu-do é impossível e… Até mesmo antes do tudo, no muito, já há um problema. Imagine se o Monk não parasse para que os caras da banda pudessem fazer seus solos. Então, nada de tudo, nem de muito, vamos deixar as lacunas para o leitor ter o seu espaço, mas descrições, sim, um tanto bom de descrições. Do clima também, sim. Sol, chuva, nuvens e vento, sim. Descrições. E adjetivos. Uma pá de adjetivos. Um grande foda-se para as dicas de jornalistas para escritores iniciantes. O que seria de um Eça (o cristo atlético da abertura dos Maias assombra a minha imaginação), de um Tolstói, sem descrições? Two Gallants, lembra desse conto?

— Do Dubliners?

— Isso, Joyce. Lembra do primeiro parágrafo?

— Ahn, não…

— Eu decorei. The grey warm evening of August had descended upon the city and a mild warm air, a memory of summer, circulated in the streets. The streets, shuttered for the repose of Sunday, swarmed with a gaily coloured crowd. Like illumined pearls the lamps shone from the summits of their tall poles upon the living texture below which, changing shape and hue unceasingly, sent up into the warm grey evening air an unchanging unceasing murmur. Isso é ruim?

— É ótimo.

— Descrição. Descrição do clima. Adjetivos. James Augustine Aloysius fucking Joyce.

—Mas, ou, só o Joyce é o Joyce.

— É, garantido. Mas imitatio et emulatio ainda é um princípio. Pareado com o make it new do Pound.

ISABELA – 21

—  A Literatura pode até partir de uma egotrip, o estalo inicial pode ser qualquer coisa, mas não é espaço para se fantasiar com o desenvolvimento de potencialidades não realizadas no mundo. A Literatura não é uma segunda chance para os obliterati, é o campo no qual se realizam as coisas, muito tautologicamente, da própria Literatura. O poema sobre o, ahn, beijo nunca dado, por exemplo, não será esse beijo, nem um simulacro precário, será, porém, em sua plenitude, um poema.