Lúcia – XII

— Eu sei lá. Acho melhor sempre evitar essas ladainhas, esses pensamentos repetitivos,  essas racionalizações compulsivas do… Medo? Acho que simplificando, sim, é tudo medo mesmo. É melhor não ficar repetindo essas… Merdas.  Mantras do mal. Repetindo rotineiramente esse reza rançosa não há tempo e nem espaço para o novo. Sabe? De onde surgirá então o novo?

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PEREIRA – XI

— Mas, olha, olha que fantástico. Isso que o senhor está falando tem tudo, tudo mesmo, tudo a ver com questão do controle do padrão vibratório, que é, assim, uma técnica muito, muito importante pra gente da projeção astral — disse a moça da bata bege.

— Ah, é mesmo, minha filha?

Pereira não conseguiu acompanhar imediatamente a continuação da conversa, ainda cativado por aquilo que acabara de escutar. Ficara aterrorizado com a descrição da feminina criatura alienígena, imaginando-a como um híbrido de mulher e taruíra, um ser de pele fina, fria e pegajosa (como também pareciam frias e pegajosas as mãos do velho).  Além disso, compadecia-se com o Sr. Hidelbrando, com a sua dificuldade de conseguir o que Pereira resolveria, várias vezes maquinalmente, com quinze minutos no banheiro, entregue a uma memória ou fantasia libidinosa (quando não a um videozinho tóxico que lhe emporcalharia a cabeça com cenas de sexo bufo). A dor do velho funcionava ainda como lembrança de que Pereira, caso chegasse a tal idade (tendo o velho algo entre setenta e oitenta anos, estando muito conservado até, aparentemente independente da ajuda dos outros para conduzir sua vida), também teria de lidar com esse e mais problemas, muito provavelmente sem a intervenção de seres vindos do espaço. Olhando para o senhor, tetando não sentir dó, seguindo aquela máxima popular de que o dó é o pior sentimento, Pereira, que não levou a sério nem uma só palavra do relato, desejou imensamente que aquilo fosse verdade, verdade pelo menos para o velho, e que Cármen, ali Mestra Intreza, tivesse alguma forma, a forma que fosse, de ajudá-lo.

Dada a sua repentina loquacidade, pareceu então que era agora a vez da moça de bata bege de expor os seus motivos para estar ali, no que seria o vestíbulo da Associação Transcendental Amalantrah. Com a musculatura do ombro e pescoço visivelmente retesada, inquieta em sua cadeira, piscando em excesso e descerrando um amplo sorriso, ela lembrava uma apresentadora de programa infantil cocainômana:

— Assim, né?, a projeção é uma das técnicas, talvez a principal técnica que eu uso no meu ofício de — inclinando a cabeça levemente para trás e arregalando os olhos, olhos já com branco demais — life coach. O senhor sabe, vocês sabem, o que é um life coach?, o que é coaching?

— Ah… — no que o velho tomou a palavra com um gemido desarticulado, levantando debilmente o dedo indicador ao ar, um gesto perdido entre a criança que anuncia à professora que tem uma contribuição à aula ou um sábio atentando para a importância de sua lição — seria, seria, ahn, um… Técnico para a vida?

— É, exatamente, um técnico, um treinador, né? Um treinador para a vida, exatamente. E ele vai estar o que? Ele vai estar apoiando, assim, proativamente, ele vai estar apoiando o cliente, né?, que é o coachee, né? e então a moça fez um minúsculo intervalo e sorriu, como às vezes sorriem os professores ao discorrer, achando graça de um detalhe ou minúscula reviravolta que, para todos os demais, não poderia ser mais desinteressante ele vai estar apoiando o coachee a contando os verbos nos dedos da mão direita descobrir, criar e sustentar… O que?

Hildebrando produziu som amorfo com o fundo da garganta. A socialite morena disse “Diga-me você, querida”, só com os cílios. Pereira ainda pensando no gozo alienígena do Sr Hildebrando, ignorou a pergunta.

— O que ele mais quer, gente! O que ele, o cliente, né?, mais quer e, assim, mais deseja, deseja profundamente para a sua vida. Assim, o life coach obtém várias informações, né? Pesquisa meeesmo os, assim, valores e crenças do cliente, né? Para estar conseguindo isso. Gente, é difícil, tá? Porque às vezes as pessoas não sabem o que querem. É sério, muita gente não sabe o que quer. Uma coisa é você querer ter um carro assim, assado, né? Mas o que eu quero, assim, da minha vida? Como eu vou desenvolver, como eu vou, assim, investir, investir em mim mesmo, né, empreender, fazer de mim esse empreendimento, se eu mesmo não sei o que eu quero? O life coach também vai estar atuando aí, ajudando a pessoa a des-co-brir o seu sonho… E aí, é um processo, né, gente?, uma caminhada mesmo, partindo de onde a pessoa está até onde ela quer estar, até esse estado desejado. E quem não quer, né?, estar dando esse salto?, quem não sente essa distância, entre o que somos e o que queremos ser…

— Dever ser… disse Hildebrando, solenemente.

— Ah! Claro Sr. Hidelbrando, a vida é um imperativo, é mesmo, estarmos conseguindo usufruir do má-xi-mo da vida, sim, é um imperativo. É sim um dever ser. E para isso as pessoas precisam… E se não realmente precisam, podem sim se valer muito de alguém que as dê, profissionalmente, profissionalmente, né, gente?, uma pisca, pisca orientação positiva para a vida. Para deixar, ó, deixar, jogar fora, deixar de lado, dizer, isso não me pertence, jogar fora todas as neuroses. É, sim. Deixar de ser medíocre, neurótico, disfuncional. Sabe?, sabe?, é a ação no mundo! A preparação para a ação no mundo! Com esse soquinho na mão espalmada —, com esse objetivo final. O êxtase. Contínuo.

E então a ela fez uma pequena pausa dramática, olhando todos os ali presentes com uma carinha de falsa condescendência.

— Isso mesmo. Êxtase. Contínuo. O êxtase contínuo de se viver de forma plena. Ple-na. Ser na vida um ás. Um ás, sabe? Não ser bom, não ser muito bom, não ser excelente, mas ser um ás.

Ela esperava expressões e interjeições de admiração que simplesmente não vieram. Não porque aquela pequena apresentação não funcionasse, funcionava, ou, pelo menos, funcionava na maior parte das vezes: ela de fato vivia disso. A questão era que o Sr. Hidelbrando, um etarista militante, a considerava nova demais para orientar qualquer pessoa acerca de qualquer coisa; Pereira ainda estava meditabundo, pensando em impotência e punhetinhas cerebrais vindas do espaço, enquanto Olímpia, ainda que escondesse, por dentro virava os olhos para qualquer exaltação ao esforço, ao exercício ou à meritocracia, atribuindo tudo o que é essencial à pessoa a uma questão de, essencialmente, berço (berço que ela tinha e a moça não).

O Sr. Hidelbrando, entretanto, ainda que não impressionado, deu continuidade à conversa, porque, em razão de sua solidão contínua, esse era mais ou menos o seu procedimento padrão, interpelar a maior parte das pessoas em seu caminho e tentar arrastar ao máximo a mais comezinha das conversas. Além disso, como tratava-se de algo novo para ele, com um nome em inglês, por mais não diretamente interessado que ele estivesse, maiores informações eram necessárias, até mesmo para talvez refutar a coisa toda:

— Tem escola disso, faculdade disso?

A moça da bata bege apertou os lábios brevemente, mas com força o suficiente para que por um átimo eles ficassem esbranquiçados, e então falou:

— Então… Eu fiz vários, vários, cursos, sabe? Eu, assim, sou sedenta, sedenta, por conhecimento, ai, minha atividade mental é, ó, — estalando os dedos — frenética, frenética, então, assim, eu fiz vários cursos… E, assim, eu estou o tempo todo, o tempo todo não, é exagero, claro, mas, eu faço, ó, muitos retiros. Esse ano eu já fiz três retiros. Já se foram mais de seis mil reais, só em retiros. Agora estou no quarto e… Ainda vou fazer um no final do ano também né, gente? Claro. Cla-ro.

— Cursos… — murmurou o velho.

— E assim, muita leitura! — passando as páginas de um enorme tomo imaginário — Nossa, só de autoajuda… Só de autoajuda, hein? Eu li duzentos. Duzentos. Aí, somando com biografias, livros, assim, do lado mais espiritual, né? Dá duzentos e cinquenta. Assim, ler muito é um hábito meu, eu tenho o hábito da leitura. Mas eu sou muito séria, para mim o que importa é o pragmatismo, eu não perco meu tempo não, nunca leio nada, na-da mesmo de, assim, ficção, romance, essas coisas. Eu não quero nada com esses personagens e coisas que nunca aconteceram. Sério. O meu foco é o conhecimento, o conhecimento legítimo… Esses livros, eu construí essa bibliografia conversando com especialistas em várias áreas, experts mesmo, milionários, gente com ph.D, líderes espirituais, líderes empresariais, muita gente da indústria, sabe? Isso porque, assim, eu trabalho com muitos executivos, sabe?, gente de várias, várias, multinacionais… Eu tenho facilidade em lidar com essas pessoas…. Eu tenho isso em mim, sabe?, isso de me conectar com as pessoas, e também isso, de um senso, assim pra negócios, pra business, assim, sabe? E é essa questão do… Estilo de vida, né? Eu trabalho no final é com isso, né?, como vocês disseram, estilo de vida. Eu tenho de liderar, fazer a parte de marketing e — quase gritando no e — entregar os resultados, pelo exemplo. Aí, assim, eu tenho facilidade… Empatia. Ah, sim, a parte do marketing, assim, do negócio mesmo, nossa é muito difícil, né? Tem que estar o tempo todo… — aponta com os indicadores para um laudo e depois para o outro — Né?

— Mas, a… Projeção… — a interpelou o Sr. Hidelbrando.

— Ah, claro, né gente? A projeção astral. Assim, não existe isso de ser um life coach genérico, né? Por isso eu me especializei nessa questão, assim, da espiritualidade…. E, assim, convenhamos também que a própria espiritualidade, colocada assim, ai, é também uma coisa muito, muito aberta… É necessária a especialização dentro da especialização, gente. Aí, quando eu conheci a viagem astral, a projeção astral, eu disse, é, tá aí! Esse vai ser o meu nicho.

A graça da moça de bata bege foi então revelada. O nome Flávia Cláudia Buffone brilhava em letras metalizadas no cartão que ela entregou aos ali presentes. Ao ler, debaixo do nome da mulher, Coach & Projecionista Astral, Pereira começou a se atentar à conversa, permanecendo calado só mesmo porque Hildebrando manifestara a dúvida que lhe acometia:

— Mas… Ahn… Como a senhó- Como você chegou à Projeção Astral? Como se… Como se aprende isso?

— Hoje em dia… Olha, é uma coisa, assim que eu tenho de falar para as pessoas. A projeção astral não é coisa assim, de super-herói, tá?, coisa, ai, de gente dro-ga-da… Hoje em dia existem vários cursos de viagem, de projeção astral, vários livros, DVDs e também, ó, muitos, muitos centros esotéricos trabalhando… Com a viagem astral. Como… Como esse aqui né, gente?

E então Flávia Cláudia levantou os braços e olhou em volta de si de forma artificial e exagerada, apelando para a presença de todos ali, na Associação Transcendental Amalantrah, como um sério indicador que a conversa dela era, afinal, séria. Antes que qualquer consideração pudesse ser feita, retomou:

— Mas, então, gente, o que é a projeção, ou a viagem, astral?

Mas uma pausa dramática, como se um vídeo estivesse sendo gravado e ela fosse inserir, na edição, uma vinheta (música eletrônica misturada com um canto monótono, flautas e tambores) ou um letreiro chamativo naquele intervalo.  O seu pequeno público ficou sem entender aquela demora, mas, como se alguém por detrás de uma câmera digital amadora dissesse “Vai, Flávia!”, Flávia foi:

— Então, gente, a viajem astral, não é nada mais do que o ato de estar conseguindo sair, com o seu corpo energético, do seu corpo físico, só que com consciência, gente, com to-tal, total lucidez! E, assim, uma vez que você sai, pode estar fazendo as suas viagens, ou, assim, qualquer atividade, sabe, nesse sentido…  Estar se desdobrando do próprio corpo… E, gente, não me olhem assim, tá?, porque, assim, sério, gente, todas as pessoas, todas as pessoas se projetam, assim, inconscientemente e sem o controle, sem a lucidez, do projecionista treinado, sabe? Não é assim, uma coisa para pessoas especiais, tá? É uma coisa, é uma habilidade para quem quiser, para quem tiver o com-pro-me-ti-men-to necessário. E, aí vocês perguntam, pra que eu vou tá fazendo a viagem astral, porque eu vou tá projetando, assim, o meu corpo astral, o meu corpo energético, minha alma? Gente, tem infinitas razões, tá?, infinitos porquês. Imagina, essa possibilidade, gente, que possibilidade!, de se desvincilhar — entrelaçando dos dedos das mãos e então os abrindo lentamente, como se fossem pétalas  — ai, de se libertar do corpo físico? Você pode tá visitando seus guais, tá?, seus mentores, você pode tá descobrindo, fazendo uma verdadeira arqueologia pessoal e espiritual, descobrindo coisas muito importantes acerca das suas vidas passadas, e até mesmo alguma coisa sobre a sua missão de vida agora, a missão da sua alma, o que é superinteressante, né?, você pode ainda tá ajudando, assim, no astral, espíritos necessitados, tá?, desencarnados, que precisam de um trabalho, precisam de uma luz ali, né?, você pode tá inclusive viajando, viajando no espaço e no tempo, né?, visitando lugares e fazendo, assim, pesquisas, né?, por exemplo, ai, gente, estudar, imagina?, estudar o Zoroastrismo lá na Pérsia da Antiguidade, conhecer os próprios magi, gente, ai, imagina…

Ao que Sr. Hidelbrando começou a ficar agitado, passando a mão por sobre o lábio superior, alisando o ausente bigode; Pereira anotou “superpoderes” em seu caderninho, fazendo raios infantilóides em volta do escrito, e Olímpia se ateve a, muito lentamente, descruzar e cruzar as pernas, com a mesma naturalidade de um dormente que, ainda bem longe da vigila, vira-se para o outro lado.

— Gente, é o instrumento mais poderoso de conhecimento, de crescimento, gente. O mais poderoso, tá? Olha só, gente. Vamos pensar.  O nosso corpo físico, pesado, denso, precisa de muitos cuidados, precisa de comida, e isso, gente, é superimportante também, a gente tem de pensar muito, muito mesmo na nossa dieta, e sono, gente, tá, é essencial dormirmos… Mas, ó, é o corpo físico que precisa desses cuidados… Vocês acham que o nosso corpo energético precisa disso, precisa de dormir? Não, gente, claro que não. E então, que tal estar aproveitando essas seis, sete, oito horas de sono para algo mais? Você pode usar essas horas, projetando sua consciência, para tá aprendendo, para fazer algo realmente, algo prático, útil na sua vida, tá?, é difícil, né?, eu não consigo fazer, assim, tuuudo o que eu quero quando estou acordada, ai, é também um jeito de usar melhor, de tá administrando o seu tempo… Né?

— Mas você, Flávia, já conseguiu isso, viajar no tempo, como é? — Perguntou Pereira, por um instante sinceramente tentando entender a questão.

— Mas, é um desafio gente, eu disse que não é para pessoas especiais, mas assim, em termos, tá?, é pra gente que é guerreira, guerreira. Quem faz projeção astral é guerreiro, tem de ser guerreiro demais, para conseguir dominar a técnica, tá?, tá conseguindo se projetar quando você quiser, onde você estiver, né?, conseguir, assim, tá direcionando a sua viajem, né?, conseguir tá mantendo a sua consciência, a sua lucidez, né?, é difícil atingir, assim, um grau satisfatório dessa técnica… Sabe, conseguir chegar a e manter o mindset necessário e, e depois, seguir naquele flow, sabe?

Ao que Pereira ergueu a mão, como se quisesse repetir a pergunta não respondida, sendo, porém, interrompido por Hidelbrando:

— Também quero fazer uma pergunta!, é… É…  E… E no espaço, você pode fazer uma viagem astral no espaço sideral?

— Ass-

— E! E… E o que você disse, é…. Esse negócio de…  Padrão vibratório?

— Então, gente… Vamos lá, né? Uma coisa de cada vez, né? Ó, sim, a resposta para a primeira pergunta é sim, já consegui, mas foi só uma vez, e, assim, foi muito rápido, muito rápido mesmo, eu fiz minha projeção, né?, eu tava então me projetando, tá?, e aí, gente, eu me vi, assim, andando na rua, em Paris, que assim, é um lugar que eu conheço, né?, que eu conheço Paris, tá?, mas assim gente, olha só, não era a Paris que eu conhecia, tudo parecia assim mais, ai, gente, vintage?, e eis gente, que eu tô Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra, e assim — estala os dedos — assim que eu percebi onde estava, eu perdi o controle da minha projeção, da minha consciência e, gente — jogando a cabeça para trás e virando os olhos artificialmente —, gente, num instante eu estava de volta aqui, sabe?

— Como num sonho? — Pereira perguntou ao mesmo tempo que fazia anotações em sua caderneta, sem levantar os olhos, mas projetando um pouco a voz, um artifício que ele julgava lhe emprestar um ar profissional, o tipo coisa que usava com guitarristas falastrões semi-desconhecidos.

— Sim, um sonho lúcido — subindo tom no , fazendo biquinho —  sabe? Um sonho no qual tudo aparece assim, em alta definição, e você está consciente…

— Ah, então…. —  Pereira olhou para moça, erguendo uma sobrancelha — então o sonho lúcido é a viagem astral?

— Assim, no meu entendimento, assim, sim, por isso que…

Ao que o Sr. Hidelbrando limpou a garganta ruidosamente e disse, estridentemente:

— E no espaço?

— Então, é possível estar sim viajando, pelo astral, no espaço, senhor… É muito difícil, porque conhecer o lugar, tem alguma relação, alguma coisa que, assim, te ligue ao lugar facilita tudo, mas, com muita prática, é sim possível, senhor, estar fazenda uma viagem, assim, no espaço.

Ao que o Sr. Hidelbrando ficou olhando para Flávia Cláudia abobalhado.

— E, bem, é… A questão do padrão vibratório, é a energia que vai fazer com que os seres do astral te enxerguem ou não, eles se comunicam de acordo com a sintonia, se você estiver em baixa frequência vibratória, você vai atrair espíritos baixos, mas, numa frequência vibratória, assim, elevada… No caso do senhor, né?, o senhor estava lá no seu jardinzinho, que deve ser um lugar de muito cuidado do senhor, de muita energia, depois de um dia de vários afazeres, né, de trabalho, e assim, o senhor estava pronto para de deitar, né?, aberto assim para experiências sutis, né?, e assim, o senhor estava lendo, a leitura, a leitura é também uma viagem, né, um ato, assim, mágico, né?, e ai o senhor pode ter elevado o padrão vibratório do senhor, assim, chamando essa criatura…

— Você, você acha ela veio pelo astral?

— Pode sim ter vindo, uma criatura de outro planeta que se projeta no astral, né?, assim, existem várias. Pode muito bem ter sido.

Sr. Hidelbrando, num estado de total maravilhamento, continuou olhando para Flávia Cláudia, agora quase como se ela fosse uma sobrinha-neta querida.

Pereira, maravilhado por sua vez com a facilidade com a qual os dois encontrara um terreno em comum dentro de suas crenças paranormais, rabiscou “dialetos diferentes da mesma língua” em seu caderninho e, virando a página, mais uma vez de olhos abaixados, perguntou:

— E, ahn, Flávia, você está aqui na Associação para…

— Para fazer um trabalho, né?, de blindagem do corpo astral, assim, blindagem do corpo energético com Mestra Intreza, para que me proteger, né?, nas minhas projeções pelo astral.

Aeris, em seu paço soldadesco, reapareceu na sala com uma pasta de couro mole, castanha e bastante surrada, da qual retirou uma duzia de cabos. Antes de começar a testá-los, olhou para os três e, descobrindo-os aparentemente relaxados e talvez até mesmo entretidos, sorriu, parecendo então um pouco menos apressada:

— Ah, olha só, que bom, vocês estão se dando bem…

 

*

ISABELA 26

— Já encontrei um tanto de fumantes que só respiravam direito, só inspiravam a plenos pulmões, quando tragando. O que deveria ser uma prática constante só acontece com a gana do vício. Maconheiros são assim também, tem muita gente que se sente melhor não por conta da erva em si, mas porque depois de completar o ritual de dixavar, bolar, pilar e acender começa a respirar propriamente. Os cocainômanos também são assim, de uma forma, naturalmente, muito mais evidente. Todo mundo já viu cheirador se sentindo paradoxalmente, pervertidamente, saudável, estufando o peito, como se o sistema respiratório estivesse revigorado. Essa não é uma fala contra as drogas, claro, eu acordo com café e termino o dia com o meu cigarrinho de artista, drogados todos somos, mas a questão é… E se nós só parássemos um pouco para concentrar e… Respirar? Agora. Não quando passar essa barra. Não quando o pagamento cair. Não com o dedo de gorila manufaturado, não com a linha esticada. Agora.

(Sinto que Isabela e Lúcia se fundirão, ou que Isabela é uma espécie de proto-Lúcia, ou algo talvez mais complexo. Simplificando: hei de usar algumas dessas coisas no romance [com a diferença que talvez Lúcia quebre um só de vez em quando]).

PEREIRA – X

Apesar da proteção fornecida pelo teto do carrinho de golf  e pela pigmentação escura da íris do moço, a luz do início da tarde fazia com que Pereira mantivesse impressa em sua face uma leve careta. Mirava os arbustos e as pequenas árvores contorcidas do cerrado, crescendo logo depois dos estreitos canteiros às margens da estradinha asfaltada, onde, semeadas e irrigadas artificialmente, plantas de folhagem mais vistosa do que as de suas parceiras naturais desafiavam a secura do sertão.

À frente, aproximavam-se lentamente os prédios da Associação Transcendental Amalantrah, evocando, com seus desenhos arredondados, um cenário de filme de ficção científica ruim qualquer, no qual o futuro aparece familiar, datado. O muro visto antes na entrada se estendia agora abraçando todo o perímetro da vila, feito o de um condomínio fechado.  Em seu caderninho apoiado sobre o joelho, tremendo ligeiramente, Pereira rabiscou cifrões, pensando: esse povo é rico. Por ser acostumado a viver nas áreas centrais de cidades sujas, o ar limpo, ainda que seco e quente, agradava-lhe especialmente, como também lhe agradava o perfume da motorista, moça que, por seu corpo delgado, coluna aprumada e nariz adunco, tinha algo de ornitoídeo. Mas nada galináceo, bicho ao mesmo tempo abobado e nervoso: uma ave esperta, calma e rápida. A jovem conduzia para a primeira construção depois do portão, referida por ela mesma como Câmara de Descompressão, enquanto ia discorrendo, institucionalmente:

— A Associação foi fundada em 88 e inicialmente funcionava em uma chácara lá em Minas, na cidade de São Thomé das Letras. Essa chácara ainda existe, não é mais a sede, mas uma de nossas várias unidades pelo país. Uma de nossas filiais. Em 95 foi adquirido esse espaço, que, além de várias vezes maior, é energeticamente mais potente do que a chácara. O domo foi a primeira construção, servindo para todas as nossas atividades, até que, graças aos Mestres Ancestrais, fomos crescendo, com mais associados optando por uma experiência mais intensa e mais recompensadora, até que em 2000 começarmos a construção da vila, para darmos conta de abrigar todos. São quase noventa casas… Ahn, exatamente 92 com as três que ainda estão em construção, ali ó.

A moça tirou rapidamente a mão do volante e apontou para a esquerda. Pereira fez breves anotações, das quais, além dos cifrões, só os números apareciam, mais ou menos, legíveis. A jovem, depois de uma disfarçada olhadela no caderno do jornalista, continuou:

— Uma grande parte do investimento vem de Mestra Intreza, que nunca mediu esforços, sejam eles recursos materiais, sejam suas próprias energias, vitais e psíquicas, para passar adiante os ensinamentos que os Mestres Ancestrais lhe transmitem. Fora isso, existem as contribuições de todos que participam de nossas atividades. Como você, sua revista, por exemplo. É um investimento duplo, você investe em você, em seu crescimento e aprendizagem, e em nós, nesse coletivo. Já os… Os mais avançados nos estudos, que já residem aqui e estão mais preparados, investiram aqui tudo o que tinham, por uma questão muito lógica: a vida deles é aqui. Aqui, e quando for a hora, além. Mas antes, necessariamente, aqui.

— Você é uma dessas pessoas? — Pereira disse fingindo anotar qualquer coisa, sua vista abaixada.

Ao que Aeris — e esse era o nome usado pela moça dentro da Associação, um nome de personagem de videogame, que Pereira bem sabia, mas preferiu não questionar, nem mesmo comentar, simplesmente repetindo, Aeris, quando ela se apresentou ao moço instantes antes, quando abriu o portão — disse, desembaraçada:

— Sim, eu vim para cá em 2010, com a minha mãe. Minha mãe conheceu a Mestra no início dos noventa, nós sempre participamos de várias atividades. Eu desde criança. Várias. Aí, em 2010, quando ficou evidente para nós que algo, algo enorme, estava prestes a acontecer e que… Que era necessário estarmos preparadas, viemos para cá…

— E deixaram tudo para trás?

— Sim… Deixaram para trás, mas… Eu não diria que era tudo. Deixamos para trás uma vida sem significado.

— Ahn… E o que… O que está prestes acontecer?

— Você é privilegiado Daniel, muito privilegiado — e então a moça, com um ar solene, tirou os olhos da via, que seguia mesmo reta, desacidentada e vazia, e disse, olhando nos olhos de Pereira — A Mestra não só aceitou que você fizesse essa visita e produzisse o seu texto tratando da Associação. ela também quer falar pessoalmente com você….

Fala que causou em Pereira uma curiosa sensação de esperança, indefinida e arrepiada. A moça prosseguiu:

— Já amanhã você vai ter a oportunidade de falar com Mestra Intreza, depois da sua primeira aula. Ela mesma lhe explicará todas essas coisas… 

— …

— Mas… Eu tenho umas explicações mais gerais, vamos só encontrar os outros na Câmara… Para eu não ter de me repetir muito.

Depois de estacionar o carro em uma pequena marginal próxima à construção cilíndrica de teto abobodado, a dita Câmara de Descompressão, a mulher, com seu passo preciso, caminhou em direção da grande porta de ferro da casa.

A moça com seu macacão prateado, como o de um um geólogo intrépido que se aproxima de um vulcão em plena atividade, veste que quebrava a luz chapada da tarde em vários poliedros aluminados de formas intercambiantes, o  portão metálico e a construção minimalista, erigida em uma paisagem que, dependendo do enquadramento, parecia-se com um deserto, compuseram um quadro que, por instantes, breves instantes, tinha algo de extraordinário.

Como se a moça fosse uma exploradora sideral em um planeta hostil.

Imagem que se sustentou até Aeris abrir a porta, revelando um cômodo de piso de ardósia verde escura encerada, mobiliado com uma mesa e  cadeiras, todas brancas e de plástico. Em volta dessa mesa, três pessoas conversavam. Entrando, seguida de perto por Pereira, a moça anunciou o jornalista:

— Pronto, gente, esse é o último. É o Daniel Pereira, que veio nos visitar em nome da revista Palco.

Apresentação que Pereira complementou com um oi muito discreto, um pouco atrapalhado pela súbita mudança na iluminação —  as janelas estavam com as cortinas fechadas, uma lampadazinha débil servia como a única fonte de luz  —  e imediatamente irritado com o odor avinagrado vindo do ar condicionado do recinto, que lhe remetia a salas de cinema cheias de mofo.

— Por favor, sente-se — a moça disse ao jornalista.

Quase na beirada da mesa, havia um projetor ligado a um laptop. Aeris sentou-se diante do computador enquanto Pereira tomou assento do outro lado da mesa, junto com os que ali já estavam: um velho e duas mulheres, uma na casa dos trinta, outra de talvez cinquenta anos. O senhor falava enquanto as mulheres o escutavam atentamente.

Todo rosto nos parece ter uma expressão que lhe é mais natural do que as outras. Mesmo impassível, toda face, pelo seu próprio desenho, sugere-nos uma careta e, pela careta, um estado de espírito do qual, às vezes, fazemos um julgamento moral. Fulano tem cara de irritado, beltrana de preguiçosa, sicrano de arrogante. O velho tinha em seu rosto uma permanente caretinha contida de nojo, como se surpreendesse com algo desagradável, quiçá escatológico, mas tivesse de manter as aparências. De um branco amarelado, seu cabelo era todo eriçado. A pele lisa de suas rosadas bochechas barbeadas contrastava imensamente com as rugas que se cercavam sua boca e olhos e se eriçavam acima de suas sobrancelhas. Seus dentes eram de um amarelo claro, salpicado de pontinhos pretos nos incisivos inferiores, combinando feiamente com o tom acinzentado de suas gengivas amplamente expostas. Olhando para as suas mãos, pousadas sobre o punho de uma bengala de alumínio de quatro pontas, Pereira as imaginou frias e úmidas. Além uma incongruente camisa social toda amassada, o velho vestia calças e jaqueta de treino negras, de material sintético, lembrando a um Fidel Castro glabro.

— É… Ahn… Muitos, não é mesmo?, muitos diriam que a, ahn, a própria forma da figura, a sua própria forma, ahn, antropomóooorfica, não é mesmo?, seria um graaande obstáculo para a ve-ro, verossimilhança de meu relato… — os olhos acompanhando os movimentos de Pereira ao se sentar, tentando em vão arreganhar a boca em um sorriso convidativo — Mas não há nada de verdadeiramente, ahn, literalmente in-crí-vel nessa minha, ahn, nesse meu relato… Porque essa forma — erguendo as mãos, a bengala sobre um dos joelhos — essa nossa forma de cinco pontas, essa forma de estrela, ela não  é uma forma completamente alea… Aleatória, um fruto qualquer de um processo seletivo qualquer, ahn, de seleção natural…

— Design inteligente — murmurou a mulher mais nova, uma moça de cabelos castanhos presos em um coque, trajando uma longa bata indiana bege.  Tinha um pouco de branco demais nos olhos e, inclinada para frente, as mãos espalmadas juntas diante do rosto, quase que como se rezando, mantinha um ar pretensamente reverencial que não conseguia esconder sua, talvez permanente, ansiedade. 

O velho piscou demoradamente e então disse, num gemido agudo e anasalado:

— Não…

Buscou o punho da bengala e, levantando levemente os ombros, retomou sua fala:

— A própria… Não, sem nada necessariamente inteligente… A própria seleção natural, ahn, gera formas… Formas que se repetem… Existem formas que são funcionais, que, portanto, se repetem… Diferentes organismos, seguindo diferentes caminhos evolutivos… Por necessidade… Pela, ahn, interação do seres com a matéria… Chega-se a soluções semelhantes… Ahn, pensemos, ahn, nas formas… No corpo de um tubarão, que é um peixe; no corpo de um de um golfinho, que é um cetáceo e, assim como as baleias, também um mamífero e, ehn, pensemos no corpo de um iqui-ti-o-saaau-ro, ahn, ictiosauro, que foi um um réptil marinho, um réptil…  — e então, demoradamente, o velho, com o indicador (os olhos espremidos seguindo o movimento do indicador), começou a desenhar no ar a silhueta passara a descrever — Comecemos pela cauda, com aquela nadadeira aberta assim, ampla, ahn, depois o corpo, espichado, não é?, mais grosso no meio, as barbatanas, não nos esqueçamos das barbatanas, o ros-, é, o focinho pontudo, assim afunilado…

As duas mulheres observavam atentamente a explicação do senhor. Pereira o escutava e o observava, mas às vezes olhava de relance para Aeris que, entre muxoxos e murmúrios, tentava fazer o projetor funcionar, checando ora o cabo ligado à entrada do próprio projetor, ora o cabo ligado à conectado ao laptop. Concentrado em em sua fala, o senhor continuou:

— Então temos — contando os dedos da mão esquerda com a direita, a bengala apoiada na beirada da mesa — peixe, réptil, mamífero —  mostrando três dedos erguidos —  três seres distintos, internamente muito diferentes, mas apresentando, ainda que su-per-fi-ci-al-men-te, o meeesmo desenho, a meeeesma forma. Ahn, evolução… É… Evolução convergente…  Esse é o nome que a ciência dá, evolução convergente… Então… Vejam, é perfeitamente possível. Então não há nada de estranho, nada de inverossímil na forma do ser que me visitou, por ser ele um extraterrestre hominídeo… Essa forma, essa forma nossa, por sua utilidade, sua funcionalidade, pode muito bem se repetir… Essa forma de estrela, torso membros e cabeça… Estrela, microcosmo, pensem… É uma forma muito apta a se desenvolver por aí… Se repetir por aí, nos imeeensos abismos sideraaais…

O senhor virou-se lentamente para Pereira, lembrando-se de que o jovem não estava lá quando ele começara o assunto.

— Fui visitado, sabe? Contatado — segurando a bengala com as duas mãos e a erguendo lentamente para junto do peito — Um nível muito, muuuito profundo de contato.

Pereira tentou manter o semblante o mais sério possível. Aeris disse saindo do cômodo a passadas largas:

— Esse projetor não presta.

Antes de encostar a porta pela qual entrara com Pereira instantes antes, ela disse, quase gritando:

— Volto já, dez minutos, vocês não terão de esperar mais, dez minutos…

Ao que todos anuíram quase que automaticamente, por interessados na narrativa do senhor de vestes esportivas negras, que prosseguiu, enquanto de lá de fora vinha o som do motor do carrinho de golf  dando partida:

— Eu estava, como que agora, não sabem?, lá em minha casa, preparando-me mentalmente para ir dormir, lendo um pouco… Estava lá, na minha cadeira de vime no jardim, sabem? Todo sossegado já, o dia já corrido, passado, tudo feito. É engraçado… Porque será, hein? Haha. Nas estórias as aparições fan-tás-ti-cas sempre se dão assim, não é mesmo? São preeeceeediiidas desses episódios esquecíveis, comezinhos… Quem me, ahn, visitou não foi um animal, ah… Agourento, a me lembrar de um amor já impossível, mas… Como no poema, não é mesmo? Não foi um corvo, a memória de águas passadas, ai, primaveras, ai, primaveras semi-esquecidas… Não. Mas.. Algo novo… Uma personagem…

O velho parou subitamente, mirando Pereira com o caderninho sobre o joelho:

— Algum problema se eu tomar notas? — disse o jornalista, meio acanhado.

— Não, de forma alguma, esse relato é de fato importante, eu não posso, ahn, não posso escondê-lo, não posso ser pudendo com algo de tamanha magnituuude, por mais que, por mais que, diretamente, eu me exponha… Mas, sabe, eu já… Vocês vão ver, é triste, mas é uma questão de tempo a vocês verem por si mesmos… Eu já me expus tanto nessa vida… Ahn, esperem que vocês verão… Exames, todos os tipos de exames, ser velho é ter o corpo entregue aos médicos… Sr. Hidelbrando, o senhor poderia? E aí vêm todo tipo de pedido, tudo quanto é situação, e então, por qual razão?, pra quê?, pra quê ser pudendo agora? Pode sim tomar notas, meu jovem… É…

— Muito obrigado…

— É, revista, a moça disse agorinha, revista?…

— Palco… — respondeu Pereira coçando nervosamente seu cavanhaquezinho macio,  — É uma revista que trata de… Artes. E… Mas, é… Não só artes, sabe? Artes e estilo de vida.

— Estilo de vida. Unhum. — disse a mulher que até então ficara calada, fazendo em seguida um beicinho que era como um carimbo a validar a sua breve fala, fala que revelara um relâmpago de dentes branquíssimos em contraste com um bronzeado cinematográfico. Sentada na extremidade da cadeira, com as duas mãos pousadas placidamente sobre os joelhos, com a coluna ereta, ela arqueava uma casaca de hipismo estilizada, de veludo azul-marinho, que casava com os seus culotes brancos justíssimos e com as suas botas de montaria marrons, perfeitamente lustradas.  Sua face felina —  toda natural, exceto pelas duas covinhas cavadas meticulosamente por um cirurgião plástico que chegara a assinar um termo prometendo nunca revelar tal intervenção —  era emoldurada por um corte de cabelo a la Louise Brooks e estava o tempo toda direcionada à Pereira, na expectativa de que o jornalista a reconhecesse. Pereira, alheio ao mundo das colunas sociais, não reconheceu, entretanto, Olímpia Magalhães Errenteria, que além de socialite,  fazia também sua parte na formação no excesso de contingente de advogados, jornalistas, escritores e DJs do país, clamando para si tais títulos. 

A fala da suposta amazona acalmou Pereira, que acenou com a cabeça concordando, fechando os olhos de forma veemente: ele não queria ser desmascarado, não queria ser visto ali como quem era, o rock journalist chatinho, esnobe das bandas desconhecidas. Era alguém que escreve sobre o quê? Perfeitamente, estilo de vida.

— Palco? Vocês tratam de ópera também? — Hidelbrando desconcentrou-se por instantes.

— Olha, não… Mas é… É uma boa pauta, uma boa pauta….

— Ah, olha só, eu sou um diletante, quase um leigo… Mas, sabe, já escrevi algumas coisinhas, depois posso lhe mostrar… Mas, sim, estilo de vida —  os braços esticados,  as mãos erguidas abaixo, diante de si, a esquerda sobre a direita, a direita pousada sobre o cabo da bengala, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado — faz sentido, poder-se-iiia falar siiim em um estilo de vida mais propício a aceitar esse tipo de fenômeno, e é claro, indo além, também um estilo de vida novo, que se desenvolve a partir da fruição do fenômeno, do… Do contato.

Pereira rabiscou um pequeno disco voador, escreveu displicentemente em baixo “Contato imediato? Qual grau?”.

Tentando manter um semblante profissional, empunhando a caneta, mirou os olhos do velho, como quem diz, estou pronto:

— Sim…

— Mas, bem, onde eu?… Sim, ah, sim… Estava eu então no meu quintal, não é?, preparaaando-me para em instantes ir dormir, entreeegar-me aos braços de Mooor-feu, não é?, quando acooon-te-ceu. Sim. Tudo começou com uma súbita luz, dourada, que me banhou todo, até me trespassou, eu diria, surgindo acima de mim, sem som nenhum, odor nenhum, nada, só essa luz. Não digo que me paralisou, mas foi quase, não sabem? No que veio a luz fiquei incapaz de me mover normalmente. Era… Era como se o ar tivesse se transformado em um meio muito mais denso, como se ca-da mo-vi-men-to fosse muito mais difícil, arrastado, do que o normal… Assim, limitado, olhei para cima, para de onde vinha a luz… Eis que do alto, no meio mesmo da luz, havia um ponto negro, um objeto, que de início é só um pontinho, só um pontiiinho que leeentameeente foi crescendo, tomando forma, desceeendo… — o velho então voltou a deixar a bengala de alumínio cair sobre os joelhos e olhou para o alto, para o teto do cômodo, como se de fato vissse ali a luz e o corpo que por ela descia — E daí vi uma silhueta, negra contra a luz, silhueta na forma da qual falava antes… Uma forma humanoide, com cabeça, torso e membros… Não caia, entendem? Não acelerava. Essa figura vinha em minha direção, abaixava-se numa velocidade constante, leeenta… Como se a descessem amarrada a uma corda… Corda invisível… E nisso o tempo se estendeu, não sabem? Eu não poderia dizer com certeza o quão demorado foi isso… É tão incrível, não é? Quando essas coisas espetaculares acontecem a nossa reação não é nada parecida com aquela que imaginamos que teríamos… Ah, eu tenho todo tipo de equipamento lá em casa, eu sou um sujeito up to date…  — projetando perdigotos — Eu tenho câmeras ótimas, equipamento de primeira mesmo, sabem? Mas não gravei nada, não é mesmo? Nada além do que ficou aqui… — apontando para a cabeça — Não só aqui, na verdade…

O velho ficou por instantes com os olhos fechados. Por um breve momento a sua distintiva careta se desfez e viu-se em seu rosto um sorriso, como se tivesse sido contemplado com uma graça fugaz.

— E então, pela luz, ungida pela luz dourada, de ponta a cabeça, a cabeça dela vindo como que de encontro a minha, os braços esticados gentilmente em minha direção, veio descendo a cria-tu-ra, ah, nua, nua, alienígena, mas hominídea, antropomórfica,  feminina, feminina, sabem? De silhueta, contorno, feminino, não sabem? Um corpo, assim, esguio, mas não es-quá-li-do, sabem? Mas, pequeno, pequeno, eu diria… Quando se aproximou mais, eu pude ver… Um metro e quarenta… Careca, careca mesmo, sem quaisquer pelos, a pele lisa, quase translúcida, várias veias assim reveladas, visíveis, sombras dos ossos debaixo da carne, manchas escuras indicando os órgãos… A cabeça, tão bela, tão altiva, graaande, ovalada…

Ao que a mulher da bata bege se empinou toda e arregalou os olhos em espanto, a socialite bronzeada sorriu tranquilamente, como se aquilo tudo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto Pereira se conteve para não soltar um muito modulado e sonoro:

— Nuuuooooossa —, restringindo-se a rabiscar em seu caderninho: quinto grau, será?.

Os olhos — prosseguiu o velho — e aqueles olhos, amendoados e enormes, enormes, muito negros, todos negros, todos pupila, estáticos, completamente estáticos… Ah, quando eu vi a-que-les ooolhos… Era como se, sem nenhuma, nenhuma palavra, num silêncio… Um silêncio que só não era silêncio porque havia um leve zumbindo, sabem? Um si-bi-lo contínuuuooo, extremamente agradável… Um zuuumbido divino. Exceto por isso, silêncio, silêncio. Não existiam palavras. Neeem em miiinha mente… Acho que nem em minha mente se formaram então palavras. E nesse silêncio, aqueles olhos… — levantou as duas mãos para cima, espalmadas, os polegares próximos de si, separados pelas imaginárias e minúsculas narinas do alienígena, os mindinhos apontando para cima, as mãos assim marcando onde estariam os descomunais olhos do ser sidérico; o cabo de sua bengala, solto, foi então de encontro à beira da mesa, golpeou-a de levinho e deslizou para a direita, não caindo o instrumento porque ficou encostado na perna do velho, feito um falo falso, metálico, erguendo-se na diagonal — Aqueles olhos se comunicaram comigo, conheceram-me, realmente conheceram-me, perguntaram-me coisas, coisas que eu respondi com o maior prazer, a, ahn, com a maiooor entrega, tudo por meio de imagens, sim, apenas imagens, imagens que eu ia revisitando, abrindo em minha memória e transmitindo àqueles olhos… Momentos de minha vida que ia buscando, reconstruindo, embalando de prazer… Como se meu prazer fosse uma grande folha de papel dourado que eu pudesse cortar e com ela embalar essas imagens, esses instantâneos que com um pouquinho de força, quase que força nenhuma, quase que só uma confirmação de que sim, aquilo era pra aquela criatura miraculosa, aquilo era o que ela queria, eram as respostas para as perguntas informuladas dela… E ela também, por sua vez, não sabem?, foi me enviado mensagens por meio de imagens… Abismos siderais, um comboio de naves errando por céus distantes, frios, desolados, transpotando seres de uma existência em parte orgânica, como nós, e em parte sintética, como já estamos também nos tornando… Seeeres mais antigooos do que nós, mas, parecidos, in-cri-vel-meeen-te, parecidos, não é mesmo? Foi só aí, realmente, que ficou evidente para mim a natureza realmente alienígena de minha visitante, não sabem… Até então, mesmo eu sendo um homem prático, técnico, afeito às ciências, até então eu considerava seriamente minha visitante como, ahn, diii-viii-na… Mas, por meio daquele delicioso cinema mudo telepático ela me revelou ser um ser, apesar de sideral, profano, suscetível aos sortilégios da mooorte, assim como nós… Do amor e da morte.

— Que incrível… — a moça da bata bege.

— O mais incrível, na rea-li-da-de veio depois, depois desse nosso, ahn, digo jooocosamente, mas com muito respeito… —  olhos fechados, levando a mão ao início do nariz, no meio dos olhos, onde se apoiariam os óculos  — Depois desse nosso primeiro contato, no qual nós nos conhecemos muito, muito mais rápido do que se conhecem os… Os jovens, éhn, de agora, na eeera da infooormação, não é mesmo? Foi exatamente depois dessa nossa primeira conversa que se deu o mais digno de nota, o que pode nos espantar, abiiismar verdadeiramente, mas, que, li-te-ral-men-te — dedinho indicador em riste — literalmente nada tem de incrível…

— Claaaro… — mais uma vez, a moça de bata bege, agora passando a mão pela testa nervosamente. A morena continou com um sorriso de catálogo de imagens, Pereira sublinhou duas vezes o escrito quinto grau, na expectativa do clímax do causo.

O homem então inclinou a cabeça para baixo, lentamente, como se fosse colocar a testa contra a mesa. Movimentou-se, antes fechando os olhos, de forma tão lenta, tão harmoniosa, que Pereira pensou talvez o velho, com sua face escondida por abaixada, talvez tivesse conseguido momentaneamente sorrir de verdade mais uma vez.

Voltando a erguer a vista, buscando, e encontrando, um céu ausente, com os braços como que se tentando mover acima de si um pesado cobertor, o velho continuou, agora às vezes esganiçando num falsete estranhíssimo:

— E então veio, veio sim, ah, veio. Ó, aqueles dedos alongados, ó, se prolongando, o que era aquilo?, ó, ela veio, se aproximando de mim, os dedos, alooongados, me tocaram, tocaram o topo, o próooprio topo da minha cabeça, e aí, ó!, algo, eu não digo sobrenatural, mas, ó, algo fantástico, ó, fantástico, ainda que tecnologicamente fantástico, aconteceu, é!, o topo da minha cabeça se efervesceu por completo, efervesceu, e era como se estivesse lá, em uma brasa prazerosa, e como se então também não estivesse, como em sono, mas também um sono de gozo; imagino que aquela criatura celeste, ai, estelar, estivesse vibrando em frequências, frequências especiais, sutilíssimas, por meio das quais ela podia, não, dois corpos não podem permanecer no mesmo espaço ao mesmo tempo, claro, mas ela podia, vibrando, vibrado, efervescer, tomar meu couro cabeludo e então, ó, ir tocando, sem me ferir, sem tirar nada do lugar, ir descendo, tocando meu crânio, trespassando pacificamente meu crânio, ó, afundando aqueles prooolooongados dedos — enquanto agora esfregava os próprios dedos e se mexia na cadeira — ó, aqueles dedos então afundando, ai, no meu cérebro, dois dedos, dois dedos feito uma pinça, uma pinça assim aberta, um compasso, ai, o compasso do criador, ai que blasfêmia, e vão afundando aqueles dois dedos, afundando sensualmente, vibrando, até tocarem minhas amidilas ce-re-be-looo-sas, ai, causando em mim, ai, como eu diria?, aaah…

Tapando o rosto com as mãos espalmadas, a voz ao mesmo tempo empostada e embargada:

— O céu de azul aceso num lampejo, tropel vitorioso a festejar, abismo de vertigens mil a enflorar, translúcido ardor do amor que almejo, uma dança com um demônio benfazejo, nasce o sol do céu e mar a encontrar, são fogos e champanhas a estourar, enfim beijo o bom anjo do desejo, o frêmito incrível, deuses líquidos, e o súbito cessar de todos os ruídos que morno me descobre tão lânguido, no rol dos, oh!, felizes incluído, agora, nada límpido, mas plácido, profano, sou em carne revivido!

Ao que as mãos do velho desceram, revelando seu lábio inferior trêmulo, seus olhos marejados. Levantou-se apenas o suficiente para conseguir retirar um lenço do bolso de trás da calça e, fungando muito, prosseguiu:

—  Ai, vão dizer que homem não chora, não é mesmo? Mas… Vocês me dão essa licença, poé-

— Não, não, mas é claro, o senhor tem de… — não conclui a moça da bata bege.

— Ô, meu caro — Pereira, vacilante — O senhor tem mesmo de…

— Muita emoção. É muita emoção, gente — disse Olímpia com sinceridade.

— Ai, sim, emoção demais. Imaginem? Ai, me esquentei mesmo. Dando até um breve circulaçãozinha lá embaixo, onde eu já ando há muito, ahn, desfalecido mesmo…. E no que foi tirando eu fui tremendo todo, sentindo aquele efervescência diminuindo, ai, aquela coisa fantástica.

Sorriu pela última vez seu raro sorriso?

Antes que alguém fizesse que ia falar, retornando à caretinha usual, quase gemendo:

— Mas… Da mesma forma repentina como veio até a mim, ela… Ela se foi… Não é mesmo? Entre nos dois abismos, abismos —  os olhos baixados, a vista deslizando pelo chão —  Nunca mais fui contatado, com nada… Uma… Uma imagem… Sequer… E, bem, ai, por isso, por isso cá estou, não sabem? Acredito que aqui, aqui vou conseguir entender como… Como fazer contato, poder, sentir…. Sentir mais uma vez.

*

 

ISABELA 25

— Ah, Cláudio, sinceramente, é necessário que você tenha um pouco mais de empatia pela, ahn, pessoa comum. (Você mesmo é comum, desgraçadamente comum, tenta muito não ser, mas é). Sua literatura é muito chatinha, metidinha. Eu estava quase gostando desse último protagonista, mas isso dele ficar acampado lendo Blanchot… Assim… Que merda, né? Você conseguiria escrever um conto no qual o protagonista é um vendedor? Um camelô? Um engenheiro?

Na semana seguinte Cláudio apareceu com um conto no qual a protagonista era uma contadora.

Ela se chamava Nefertiti,  sofria de porfiria, era obcecada pela segunda fase do Wittgenstein e tinha uma gêmea idêntica estelionatária.

Olivenbaum – 15

Ele impostou a voz, assumindo um jocoso ar oficial:

— Assim, por todo o exposto, fica o Sr. Paisano Gentil  desclassificado do certame literário em tela, eis que os exames médicos o revelaram um cidadão completamente apto para a vida em sociedade, falha grave majorada pelo seu exame toxicológico desprovido de qualquer indicativo de substâncias capazes de alterar estados de espírito, sejam elas lícitas ou ilícitas.

ISABELA – 24

(Algo que eu talvez incorpore à Lúcia de Esdrúxulo e Lúgubre)

— Quem é você? Não, é sério. É preciso saber. Quem são seus vários eus? O seu eu que tem preguiça de lavar louça, esse preguiçosinho inocente, não é o seu mesmo eu, tirânico, que se imagina no gozo de privilégios?… Eu ia adjetivar, infundados, indevidos, mas, ahn: privilégios, ponto.

[…]

— Ele disse ter visto o demônio.
— O demônio, tipo, O Demônio?
— Sim, O Demônio, O Demônio
— Não, não…. O quê ele viu? Como é?
— O Capeta, O Chifrudo!
— Pô, por favor, a descrição, o que o homem viu afinal?
— Um homem com chifres na testa!
— Um homem com chifres na testa? Um homem com chifres na testa? De onde você tirou a ideia de que está preparado para esse trabalho? Um homem com chifres na testa! Pf! Seu amadorismo me dá nojo, no-jo. Já ouviu falar em Pan, Baal Hamom, Cernunnos, sátiros, faunos? Chifres na testa podem ser mil coisas diferentes! Até na cabeça de Moisés!, de Alexandre o Grande!, já inventaram de por chifres!