LÚCIA XIV

— De início eu sempre sacava — estalou os dedos — é um sonho!, porque estava habituada aos sonhos e às coisas dos sonhos. E daí fazia experimentos, todos bastante curiosos. Comecei a perder esse poder quando, sonhando, diante de algo estranho, pensava estar chapada. Foi daí que maneirei com álcool e beque, bem antes mesmo de Úrsula nascer. A coisa fica feia, e então é hora de grandes mudanças, quando diante do onírico você não cogita nem um sonho e nem uma onda: mas a loucura. Aí ó: para e pensa tudo de novo.

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NENHURES

I.

Planeta ermo:
rochas, poças e miasmas.
Estaríamos sozinhos
se não trouxéssemos
sempre conosco
nossos fantasmas.

Nenhum dia
nasce puro,
rastros de escuro
tracejam a luz.

(a necessária aporia
pela qual,
……………….ainda que obscuro,
qualquer futuro
o morto aduz).

Isso aqui é lugar nenhum:
isso aqui é tudo de novo.

Já não é mais nenhures

(e não é a negação,
e nem
a negação
da negação).

II.

Houve, porém, uma figura errante.
Que não fui eu e não foi você.
E ninguém que conheçamos.
Uma figura errante.
Com nenhures no coração,
errando pelo coração de nenhures.

III.

Sombra sem pés
Raio escuro
Veloz
Vulto corpulento

(Credo de mil fés
Serafim impuro
Atroz
Arauto virulento)

IV.

E alguns, que pensavam em ir embora voando:

Haverá uma fresta
na pedra, uma senda
na floresta, um fio
no rio?

Rumo aos destroços?

E uma vez lá…

Por meio de qual magia
chamaremos essa
…………….suja
pouca, porca, gasta
feia, falsa, fraca
…………..matéria

…………………………de prima?

É desmemória a alegria?
É o saber que arrasta?
Vamos então…
Esmurrar esquecendo a faca?
Repetir como se fosse a estreia?

 
Mas

………a sucata não arrima.

A BALADA DO VEÍCULO AUXILIAR DE TRANSPORTE

I.

Abandonada a programação:
civilização, ciência?;
………………………………..na-da.
Queima azul a astronave:
chave quebrada, teima
aziaga, seta sem direção.

II.

Assistimos de longe,
é outra a nossa sorte
No veículo auxiliar de transporte

Agora a excelência humana
é um mito de valor muito inferior
a qualquer coisa útil, concreta
como, por exemplo, uma banana

III.

E o transporte vai
E a nave mãe cai

Dia atroz
Dia do mal
E o transporte a queimar
Atritando contra o ar
Tudo é malsão
Tudo desfaz
No desafiar
Da atmosfera encontrar

E o transporte vai
E a nave mãe cai

IV.

Eis que agora estamos salvos
Eis que estamos entregues à culpa

 

 

A ASTRONAVE CAI

I.

Cenas que vão
rápidas e vazias
Se bem que…
……………………. Não
Antes fossem vazias
E antes tudo fosse rápido
(não insistindo em se repetir, estúpidas
historiúnculas despedaçadas,
meio sem sentido, meio ferradas)

Cenas que vêm e vão
em rápida repetição

Ele vê essas cenas
e muito lixo

Monturos e monturos

II.

Por que estaria ele jogado,
bêbado, quase pelado,
num canto desconfortável,
com cara de inconsolável,
lendo as instruções,
longe de suas funções,
o leme no manual
em abandono total?

III. 

Não haveria um descontento, assim, arranjado,
(Por que o descantar tão irado?)

que seguisse manso, talvez acompanhado de… Guitarras e violinos?

Guinchos de metal em torção,  o alarme esganiçado,
A astronave agora cai, entre silvos e hinos,

Contagem regressiva
e apelos ao transcendental,

até que com a nave mãe estragada
venha o clichê do final:
queimar na reentrada

IV.

Haveria de cuidar de cada sol,
deixar-se reger pelos sois
Comer (como remédio para a úlcera):
os pomos de prata da lua,
os pomos de ouro do sol.

V.

E astronave cai
Feito estrela
………………….despenhada
Ou pior: ideia nunca anotada

 

Olivenbaum 16

Às vezes,
passando pela rua
………………………………que é só sua

escuto seu piano.

mas não penso te em visitar
(porque) é também a mim prazeroso
imaginar-te e te deixar estar
(o quê?) em ócio operoso

(e de estar você assim,
tão sutil, tão abstrato,
de qual emoção, enfim,
teremos um
…………………….concreto
……………………………………retrato?,
sua destra marcará
prosa, poesia,
riff de guitarra,
grifo ou carcará,
gozo ou azia,
fossa ou algazarra?)

e às vezes eu não quero te encontrar
por banal, não ter nadar para lhe mostrar

ISABELA 27

— Ou, simplesmente não engulo essa conversa de que a literatura não serve mesmo para nada. Tá doido?, ela serve, no mínimo, para ser lida. Acho que a literatura é como o rap quando o Sabotage fala que ó rap é que nem bombril. Sabotage, inclusive, que foi um dos melhores versemakers (na concepção poundiana) das últimas décadas, serião, tanto em termos de rima como de cadência.

Lúcia – XII

— Eu sei lá. Acho melhor sempre evitar essas ladainhas, esses pensamentos repetitivos,  essas racionalizações compulsivas do… Medo? Acho que simplificando, sim, é tudo medo mesmo. É melhor não ficar repetindo essas… Merdas.  Mantras do mal. Repetindo rotineiramente esse reza rançosa não há tempo e nem espaço para o novo. Sabe? De onde surgirá então o novo?