O Cromoterapeuta – 1

Glauco estava acostumado a olhar para si mesmo e perdoar aquilo que outros acusariam de torpeza, mas se passar por morador de rua, macaqueando as vestes e modos dessa gente, de início, foi algo que lhe fez se sentir culpado, ou, pelo menos, ligeiramente envergonhado. Mas só de início, já que sua necessidade de manipular as pessoas era maior, sempre maior do que qualquer entrave moral. Depois de desenvolvido a persona e o modus operandi, passou a ser apenas mais um expediente. Apresentava-se como um sujeito manco e corcunda, a grunhir desarticuladamente, que revirava o lixo alheio com celeridade, em busca quase que só de papeis, e seguia adiante. Assumia o disfarce sobretudo nas segunda-feiras, ao cair da noite, quando colocavam quantidades maiores de lixo na rua, todo o lixo do final de semana. Antes do caminhão da coleta passar, misturava-se aos famélicos que peregrinavam pelos bairros de lixeira em lixeira. Apenas essas figuras desesperadas às vezes duvidavam de sua farsa, a avassaladora maioria das pessoas vira os olhos quando vê um sujeito rasgando um saco plástico sob o qual vermezinhos se contorcem. Certa vez, uma catadora de recicláveis, que esperava aquela figura corpulenta ir embora para conferir a lixeira, achou estranho ele ignorar dezenas de latinhas e vários pedaços de papelão. Doutra oportunidade, um jovem esquálido se encantou com o fato daquele revirador rechonchudo ignorar por completo uma pizza pela metade e seca, ainda na caixa de papelão utilizada para a entrega domiciliar. Glauco batia o olho no conteúdo dos sacos, formulando em sua cabeça um padrão de comportamento a partir do que via, e levava consigo tudo o que era papel. Foi assim que ele obteve as cartas que Sérgio escreveu para Lúcia e nunca enviou.

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Às vezes olhamos para a fumaça e ela é uma coisa, assim, boba, imprecisa, como se vivêssemos em uma animação e os animadores tivessem decidido desenhar a fumaça de forma simples, quase preguiçosa, uns tracinhos ondulados que sobem e nada mais. Doutras vezes, olhamos para a fumaça e vemos uma miríade de espirais, intricados arabescos, minuciosas e repetitivas revoluções.

*

Do ponto de vista falocêntrico, ainda que a princípio contraditório, nada é mais broxante do que o gozo.

*

Há como fecharmos em nós mesmos de forma crítica, em contato com a verdade, talvez não a Verdade, mas talvez algumas verdades (muitas delas aferíveis em sua vericidade pelo desconforto que  nos causam); mas o isolamento também pode se transformar em alienação, na criação de um mundo no qual não somos meros mamíferos mortais, mas Demiurgos na tradição platônica ou gnóstica: mentirosos e ególatras.

PEREIRA XIII

— Bem, eu preciso da atenção de vocês agora. — Com as mãos para trás e as pernas bem espaçadas, Aeris envergou uma postura militar —  É muito importante que vocês assistam esse vídeo com o máximo de atenção, mesmo que o já tenham visto várias vezes antes.  Prestem bem atenção. Nós aqui temos um propósito próprio, diferente daquele do mundo lá fora, do mundo que, para nós, é secular. Toda atividade dentro desses muros, dentro da Associação, é guiada por esse propósito. Quem aqui está deve agir em total consonância com esse propósito, seja ele um visitante em sua primeira estadia, movida talvez pela curiosidade, o que nós não repudiamos de forma nenhuma; — o que foi dito com um sorriso protocolar para Pereira — seja ele um visitante habitual, recebido por nós várias vezes antes; seja ele um residente, já com todos os aspectos da sua vida voltados para o nosso propósito. Isso tudo é para dizer que aqui nós temos uma série de regras, que devem ser observadas com muita atenção. Muito do que é considerado normal pelo mundo lá fora aqui pode ser desaconselhado ou até mesmo não permitido. Prestem atenção às regras.

A moça apagou então as luzes da sala e deu inicio à projeção.

Surrupiado de algum documentário estrangeiro, surgiu diante dos espectadores, flutuando contra um fundo negro, uma grande nuvem de poeria, cheia de pedregulhos: representava o Cinturão de Kuiper. Logo veio Plutão, seguido dos demais planetas do Sistema Solar,  figurados numa escala de tamanho de e distância quase que arbitrária, até  chegar à Terra. Nosso planeta foi se aproximando até que, com a câmera imaginária adentrando a atmosfera, nuvens esbranqueceram por completo a tela. As imagens tomadas do documentário foram então deixadas de lado, as nuvens desaparecera dando lugar a  uma tomada aérea do domo de concreto e da vila (sendo  possível  vislumbrar por instantes a sombra do helicóptero utilizado na filmagem). A câmera posicionada no helicóptero ampliou a imagem do domo até o seu limite e então, em mais um corte um tanto quanto porco, apareceu na tela não o domo, mas uma réplica de isopor. A câmera então foi descendo até o branco do domo de isopor preencher toda a tela. Numa rápida piscação, o branco acinzentado foi substituído pelo branco amarelado de uma porta a se descerrar, revelando então um longo corredor, onde estava ao fim; ladeada por  duas longuíssimas estantes, a da esquerda negra e a da direita branca, as duas carregadas de livros e pequenas esculturas; uma mulher sentada. Pereira, mesmo só tendo a visto no desenho na capa do disco Quimeras, reconheceu imediatamente Cármen, ali atendendo por Mestre Intreza. 

Ela tinha a testa ampla, como a de Poe ou Baudelaire; grandes olhos amendoados, de íris vivas e aliciantes;  o nariz que descia perfeitamente linear até acabar numa pontinha triangular, carnuda e ligeiramente arrebitada; maçãs do rosto  bem delineadas, mas não exatamente salientes; a boca magra, transmitindo um ar de estoicismo e intelectualidade e um queixo pequenino que combinava com o suave arredondado de seu maxilar. Essa face, singular e teatralmente empoada, figurava no exato centro da tela, hipnótica. A Mestra usava na cabeça um alto turbante cônico, de pano dourado, adornado com o desenho de jóias azuis, verdes e vermelhas; sobre os ombros, um manto vermelho, ornamentado  com padrões de ramos dourados;  por debaixo do manto o que parecia ser uma espécie de quimono, azul-marinho e muito justo. Suas mãos seguravam, aberto sobre seu colo, um um grosso tomo de páginas amareladas, com escritos em latim em grandes letras góticas. A seus pés jazia uma grande peça de marfim no formato de uma lua crescente, com as duas pontas voltadas para cima. Atrás da mulher estava estendido um véu, tremulando como se tocado por uma leve brisa, no qual se viam os desenhos de romãs seccionados, revelando assim seu interior carmesim, e pequenos sinos dourados. Por trás do véu, banhando toda a cena, emanava uma luz entre o verde e o azul. A face da mulher se manteve impassível enquanto a câmera avançou por entre as estantes, nas quais, apesar de nenhum dos ali presentes ser capaz de identificar, podiam ser vistos de bustos de, dentre outros filósofos, Pitágoras, Platão e Plotino, além de estatuetas representando, dentre outras, as divindades Ísis, Hera e Perséfone. A câmera enfim parou no ponto que a tela ficou preenchida quase que apenas pela imagem da mulher, com apenas as bordas das estantes, uma negra, outra branca, então aparentes. Pereira se retesou todo em excitação: apesar de toda aquela montagem, não pôde deixar de ver ali Cármen e apenas Cármen. Via-a como se em um clip, prestes a começar a cantar, talvez sacando um violão ou uma guitarra de trás do véu (seria melhor uma guitarra, pensava). O Sr. Hidelbrando e Flávia Cláudia a miraram com um temor reverencial enquanto Olímpia deu mais uma demonstração de o quão fleumática conseguia ser, apenas sorrindo.

— Seja bem vindo a Associação Transcendental Amalantrah. Que os Mestres Ancestrais abençoem a sua senda — disse a Mestra, com uma voz grave, poderosa, que parecia brotar da própria terra, mesmo vinda das fraquíssimas caixas de som  embutidas do laptop de Aeris. Concomitantemente, apareceu a sigla A.T.A. na tela, numa tipografia clássica, serifada, em azul celeste.

— Você está prestes a entrar em um local consagrado à superação da condição humana — a Mestra disse assim que as iniciais desapareceram da tela — Todo aquele que adentra o nosso espaço o faz por livre e espontânea vontade e todo aquele que adentra o nosso espaço deve seguir à risca as nossas regras.

A imagem foi então se escurecendo, permanecendo a Mestra estática em seu trono, as mãos ainda por cima do livro de páginas oxidadas, até sua figura perder o contorno e desaparecer no negrume. Começaram a surgir então, na mesma tipografia da sigla de antes e no mesmo tom de azul celeste, escritas sobre o fundo escuro, as normas do regulamento interno da Associação. Além de grafadas com luz, elas eram também lidas em voz alta pela Mestra, atrás, do escuro, com sua voz marcante. A cada item que aparecia na tela soava um um pequeno sino.

As regras eram as seguintes:

1. Foco. Uma vez dentro da Associação, até sua saída, deve-se permanecer, de mente e corpo, efetivamente dentro da Associação, voltando todas as suas atenções para as atividades aqui desenvolvidas. Salvo em casos excepcionais, autorizados diretamente pela Mestra; estão proibidas todas as formas de comunicação com o mundo exterior. Não é permitido o uso de telefones, computadores, aparelhos de rádio ou aparelhos eletrônicos de qualquer sorte. 

2. Mente e corpo. Da mesma forma que sua atenção deve pousar somente sobre as atividades desenvolvidas na Associação, o sustento para seu corpo físico virá também, exclusivamente, da Associação. Existe uma dieta pré-determinada dentro da A.T.A., que deve ser seguida à risca. Não é permitido entrar nas instalações com qualquer tipo de comida, bebida ou substância, exceto medicamentos necessários à saúde do indivíduo, previamente informados na ficha de inscrição e autorizados diretamente pela Mestra.

3. Ordem. Todos os presentes dentro da Associação devem estar vestidos de acordo com o seu grau. Todos os visitantes e aspirantes deverão estar vestidos com as vestes negras do primeiro grau. Os de segundo grau deverão estar vestidos com as vestes brancas dos teóricos. Os de terceiro grau deverão estar vestido com as vestes amarelas dos práticos. Por fim, os de quinto grau deverão estar vestidos com as vestes rubras dos filósofos.

4. Propósito. Todas as atividades dentro da Associação devem seguir os roteiros pré-definidos para cada um pela própria Mestra, sendo necessária a autorização direta de um Adepto para qualquer exceção a essa regra.

Assim que os dizeres desapareceram, a tela foi clareando, voltando a mostrar a Mestra que, levantando a mão direita espalmada, despediu-se dos telespectadores com uma invocação aos Mestres Ancestrais, permanecendo estática então, a cena toda se preenchendo de fumaça (gelo seco?) até ficar branca e, figuradamente, congelar. Os dizeres A.T.A. apareceram mais uma vez, em azul celeste sobre o fundo branco.

Aeris ascendeu as luzes. De uma gaveta instalada debaixo da mesa ela tirou três grandes bolsas feitas de um plástico ao mesmo tempo grosso e transparente. Cada uma das bolsas tinha um adesivo, colocado de forma bem visível na sua frente, que exibia o nome de cada um dos ali recepcionados escritos em branco sobre um fundo preto.

— Bem, todos vocês já fizeram o depósito corretamente antes de chegar aqui, de forma que não temos de discutir valores. Inclusive, o valor depositado cobre todas as necessidades que terão, de tal forma que nesse intervalo vocês não terão de adquirir nada. Na verdade, durante esse intervalo vocês não poderão fazer nenhum tipo de negócio, de transação, todos os valores em espécie, cartões de crédito, cheques e semelhantes ficam comigo aqui.

Sr. Hidelbrando espremeu seus secos lábios, aproximou, com as duas mãos agarradas ao punho, a sua bengala contra o peito, fazendo lentamente não, não, não com a cabeça. Soltou um pigarro ctônico e em seguida sibilou nervosamente que aquilo era um absurdo sem igual. Aeris travou corpo e o olhou com os olhos acusatoriamente arregalados, como se absurdo, realmente, fosse fazer aquela consideração.

— Nós não expulsamos ninguém da Associação e também não convidamos ninguém. Se não convocamos, necessariamente, não forçamos a entrar. Todos que aqui adentram o fazem de acordo com suas vontades, o senhor escutou bem. A questão é binária, senhor. O senhor entra ou sai.  Sim ou não. Se sim… Eu ficarei com esses bens aqui, que serão  então depositados em nossos cofres. Tudo será documentado. E… Bem, o senhor sai quando bem entender… Se não… Bem… Então não.

Hidelbrando, pensando que não havia deslocado até ali para simplesmente voltar sem nada, anui, ainda que a contragosto:

— Olha, filha… Eu vou querer um recibo disso tudo — O que Aeris respondeu que podeira ser providenciado, aproximando-se do homem. 

As bolsas por dentro se assemelhavam a pastas sanfonadas, com diferentes compartimentos. Na primeira parte Aeris colocou a carteira de Hidelbrando, com seus documentos e dinheiro. Passando então para a segunda parte da bolsa, recolheu então o celular do velho:

— Bem, como vocês viram no vídeo, todos os relógios, celulares, computadores e aparelhos eletrônicos de uma forma geral, como máquinas fotográficas, filmadoras, tabletspagers e etc., devem ficar aqui

Recolhidos os pertences do Sr. Hidelbrando, que ficou sem recibo nenhum (nem ali, nem depois), ela se aproximou de Pereira. O moço, levando a mão à testa, tartamudo, tentou se manter na posse de suas ferramentas de trabalho:

— Mas, eu… Nós, ahn, combinamos… A matéria, é… Não… Não tem como eu fazer tudo de cabeça.

Aeris, no mesmo tom sério, rapidamente o acalmou:

— Bem, no seu caso, há uma autorização expressa de Mestra. Poderá ficar com suas anotações e seu gravador. Fotografias serão cedidas por nós. Terá também um computador ao seu dispor, mas sem acesso à internet. O contato com o mundo lá fora, e isso é válido para todos, está suspenso até a saída. Fazer qualquer contato implica em, necessariamente antes sair das nossas instalações… Para voltar, só passando mais uma vez por esse mesmo procedimento…

Flávia Cláudia, de tão solícita, só faltou tirar a bolsa transparente da mão de Aeris e colocar ela mesma os seus pertences dentro dos diferentes compartimentos.  Aeris seguiu reforçando as restrições impostas pela Mestra:

— A alimentação se dará também de acordo com o determinado pela Mestra, respeitando, é claro, as restrições  e condições de saúde de cada um, conforme informado no formulário de inscrição… Não só o conteúdo da alimentação, mas também as horas e os lugares são essenciais, de forma que não é também permitido aqui  entrar com qualquer tipo de alimento, bebida ou substância… Não é permitido consumir nada fora do que é servido aqui, com exceção dos necessários remédios já informados no fichário de inscrição.

Mesmo diante de alocução tão redundante, Pereira tinha de perguntar. Fumar, um careta ou um do verde, era algo do qual ele não conseguia abrir mão. Tinha de pelo menos perguntar:

— Proibido fumar. Proibido álcool, açúcar, cafeina, qualquer droga, lícita ou ilícita — respondeu-lhe Aeris, com um claro olhar de reprovação que para Pereira, e somente para Pereira, tinha algo de decepção, como se a moça tivesse algum tipo de expectativa em relação a ele (ela não tinha).

Aeris retirou três embrulhos de debaixo de outra gaveta, também localizada de baixo da mesa circular:

 — Além disso, há a questão do vestuário, as suas roupas também ficarão aqui comigo e serão devolvidas quando vocês partirem. A partir das informações constantes nos formulários foram feitas vestes para cada um de vocês, nos tamanhos e modelos apropriados a seus corpos, com a cor correspondente à posição de cada um de vocês em nossa hierarquia… Aqui…. — ela disse entregando um dos embrulhos para o Sr. Hildebrando — Nigredo, o posto de entrada… Para o Sr. Hildebrando, ahn, acredito que M seja o tamanho, não é?

— Sim, minha filha.

Aqui, Nigredo também para você, Daniel… Vocês podem se trocar ali, ali, ó, tem um vestiário, um instante só. E, aqui, Flávia Cláudia, Albedo… E aqui, Olímpia, a sua, Citrinitas…

— Ah, se pudesse eu já vinha com a minha na malinha, trazia de casa, mandava fazer…

—  Olímpia, não, tem de ser a veste fornecida aqui, você sabe. 

— Adorei o preto, mas… — caderninho no joelho, tentando aparentar um distanciamento profissional — Olha, essa pergunta é feita de maneira, assim, cem por cento honesta, tá bem? Eu… Eu não quero provocar… É… Tá certo, nós vamos usar essas roupas, beleza. Assim, é como eu disse, preto…. Eu não tenho uma cor favorita, sabe?, mas se eu tivesse, com certeza seria preto… É que… Porque todos nós temos de usar essas roupas aqui?, padronizadas, e você, que, ahn, também está aqui na Associação, assim, muito mais do que a gente, né? Usa…

A moça levantou a mão como quem diz que já entendeu e aceitou a pergunta. Era uma questão que ela tinha prazer em explicar (a bem da verdade, tinha um enorme prazer em elucidar tudo relacionado à Associação e à Mestra):

— Ah, sim, é claro… Aqueles que visitam a Associação ocasionalmente tendem a permanecer no primeiro grau, vestindo-se de preto. A medida que a pessoa vai entendendo, não só racionalmente, mas também com o coração, sentindo também… A medida que os ensinamentos da Mestra são compreendidos e a frequência na Associação vai aumentando, a pessoa passa de grau. Depois do grau de filósofo, no qual se usam vestes vermelhas, vem o grau de Adepto. Para se chegar ao grau de Adepto é necessário passar por um… — Olhos revelando receio — Um ritual, um rito… Um rito no qual se descobre seu nome transcendental e suas vestes transcendentais, definitivas, utilizadas aqui e além…

— Além? — falso tom de surpresa.

— Tudo em seu tempo. Agora você deve se trocar.

Depois de anotar “graduação / formatura = parangolés” em seu bloco de notas, Pereira seguiu para o cômodo que servia de vestiário. Virado para a parede, de forma a não ver o nenhuma parte do corpo nu do Sr. Hidelbrando, Pereira se trocou desajeitadamente. Descobriu que suas vestes consistiam em um par de calças largas, uma camisa de mangas compridas que se assemelhava a uma bata, um pequeno poncho, que ia quase até a cintura e um pequeno barrete. Além disso, havia também um bornal de pano. A capa e a pequena touca, ele foi informado por Aeris assim que retornou à sala anterior, eram de uso opcional (opção claramente desaconselhada, graças ao calor). Ligeiramente envergonhando, ele retirou essas duas peças, deixando-se então de se sentir, nas suas palavras (apenas pensadas, não proferidas), como um duendezinho melancólico. Ficou sentando, as mãozinhas uma sobre a outra, as duas sobre os joelhos, olhando para Aeris com um sorriso tímido e amarelo até que os demais voltassem, quando a moça então entregou folhetos a todos.

Abrindo o seu folheto, Pereira descobriu um pequeno mapa da sede A.T.A. em preto em branco, marcações em caneta vermelha indicava os caminhos, locais e horários que deveria seguir ali dentro. Ficou imaginando, maravilhado, se eram anotações feitas pelo próprio pulso de Cármen? 

— Bem, é isso então, Olímpia, Flávia Cláudia, vocês duas estão liberadas, um carro deve estar chegando para levar vocês. — A mão direita fazendo um V com os dedos, apontando para dupla Hidelbrando e Pereira — Os senhores, por favor, por aqui, uma iniciação é necessária.

*

SILHUETAS

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A ideia de escrever algo cujo fim não se avista, seja pelo próprio tamanho da coisa, seja pela minha morosidade (trata-se do trabalho que vem saindo aqui sob o título provisório de Esdrúxulo e Lúgubre) me chateava, de forma que comecei, seguindo uma ideia de O.  e imitando as epifanias do Joyce, a escrever umas passagens curtas, que a princípio seriam apenas cenas realmente observadas por mim, mas que foram atacadas pela ficção rapidamente (especialmente o próprio narrador, um eu que é um outro, e Isabela, ávida defensora de um ethos faulkneriano.) Esse exercício, originalmente publicado aqui sob o título autoexplicativo (e pedante, e bobo) de à clef, foi escolhido pela querida e independente Editora Calamares para se transformar em SILHUETAS, livro feito desses textos em conjunto com fotografias do excelente Mauro Figa. O lançamento será dia 16.5.2018, às 19h, na Rua Sapucaí, nº 153, Floresta, Belo Horizonte/MG.

Ou, em outras palavras, vamô ali num barzinho?

O livro por vir

Como dito anteriormente, alguns textos publicados aqui sob a rubrica à clef  sairão no formato de livro, pela linda, independente e mineira Editora Calamares. A edição será um mimo e contará com fotografias do talentoso Mauro Figa. Silhuetas é o nome. Seguem abaixo algumas fotos da boneca. Fica aqui, desde já, o meu agradecimento às editoras e editores da Calamares, pessoas muito queridas. Assim que tivermos a data de lançamento e demais informações, informo aqui no blog.

 

 

PEREIRA XII

Olímpia, muito naturalmente, não passou batida. Como poderia? Quando lentamente abriu um sorriso para Pereira, com um muito leve erguer de sobrancelhas, enquanto Aeris tentava descobrir qual cabo funcionaria no projetor, o moço não pôde deixar de reparar nas maçãs agradavelmente proeminentes de seu rosto, acentuadas pela maquilagem dourada sutilmente aplicada (ele mesmo não saberia dizer se haveria maquilagem ali), e no suave castanho claro dos seus olhos, encimados por pálpebras coloridas com sombra verde, de tons metálicos. Interpelá-la era um imperativo.

— E você, — Pereira então acertou, tratando-a por você, não escutando então que “Senhora está lá no céu”— o que te traz até aqui, até Car-, ahn, até a Mestra Intreza?

A socialite morena fechou os olhos por um momento, coisa muito rápida, e então fez um doce meneio de cabeça, em tom afirmativo,  como se tivesse mentalmente repetido a pergunta de Pereira para si mesmo e prontamente encontrado a resposta:

— Beeem. Sabe aquela pessoa?… Que gosta mais da expectativa da festa, não sabem?, de pensar, preparar e coordenar tudo, tu-do, do que, assim, da própria festa? Então, beeem,  meus caros, essa pessoa… —  com uma jogadinha do tronco para a direita, abrindo as mãos lentamente, as palmas quase que votadas para cima, os cotovelos bem próximos à cintura marcada pela calça e jaqueta, sorrindo  — Sou. Eu. E… Bem, festas sim, claro, que a festa é o — soltando quase um agudo no á — ápice da civilização, claro, claro, mas não só festas, porque com frequência eu projeto e promovo eventos, eventos culturais, ou, como eu gosto de chamar… —  gesticulando com os pulsos articulados de forma a expor,  além de suas unhas pintadas de um verde também metálico, os seus vários e coloridos anéis — Realidades possíveis, ainda que… Improváveis e… Temporárias… Entendem?

Àquela altura, depois de relatos de visitas extraterrestres e viagens extraplanares, ninguém demonstrou ter qualquer dificuldade com o conceito. Olímpia continuou, empostando a voz, ainda que levemente:

— E, além disso, eu sou uma grande, aha!,  flâneuse, não sabem? Adoro borboletear, por aí, pelo mundo. Adoro. Mas, assim, não sabem?, o que me agrada não é essa coisa pré-definida, óbvia, chata, do turismo não. Ah, não, não. Sou uma viajante, não uma turista. Sabe? Totalmente diferente…

Ergueu, dramaticamente, apenas a sobrancelha direta:

— Uma coisa, assim, não sabem?… Distinta.

Sendo que a última palavra foi dita com uma súbita e desagradável contração da catadura que ela logo tratou de desfazer, revelando a enorme plasticidade de seu rosto, seguindo, mais uma vez sorrindo:

—  Daí, uni essas duas coisas, esses dois traços meus, sabem?, e aqui, na Associação…  — apontando um indicador para baixo e outro para cima   Aqui eu faço um trabalho com Intreza, com a Mestra… Desde… Desde de logo depois que nós duas nos conhecemos…  Ai, queridos, que episódio… Ah, foi tão… Tão… Ai, fico, assim, sem palavras…

Olímpia inclinou-se para frente ligeiramente, piscando de forma jocosa e como que dedilhando o ar:

— Ah, quase consigo escutar as harpas, não sabem?, como em um flashback de desenho animado. Haha! Foi em um lugar muito especial que nós nos conhecemos, não sabem?, nada mais, nada menos do que na frente da própria Esfinge de Gizé. Sim, ela mesma. Uma coisa assim… Incrível. Não vou dizer que foi, ahn, uma experiência mística, mas, ó!, — levando as mãos ao rosto (os antebraços comprimindo ligeiramente o busto), o queixo caído de maneira exagerada — foi quase, não sabem?, qua-se. Eu estava lá, embasbacada, cheia de… Cheia de maravilhamento e… E temor ao mesmo tempo. Ah, temor, sim. Não é à toa que a Grande Esfinge é chamada pelos falantes de árabe de o Pai do Terror… É sim, não sabiam?

O Sr. Hidelbrando coçou o seu papo bem barbeado (um feito realmente digno de nota, dado o conjunto de pelancas que era seu papo) com sincera perplexidade. Flávia Cláudia encantada com Olímpia, soltava, bem baixinho, consecutivos ós, enquanto, Pereira, indolentemente, rabiscava pirâmidezinhas em seu bloco de anotações.

— Eu fiquei assim, como que paralisada, como uma ratinha diante da cobra, duma, assim, duma naja, não sabem? E vi, assim, vi na minha imaginação, vi e não vi, vi num só relance… — Passando a mão aberta lentamente na frete do rosto, a palma voltada para os espectadores, os dedos bem espaçados, um tanto lânguida, quase como em um passo de dança — A Esfinge completa e… Colorida!… A face no corpo de leão, inteira, assim, de um vermelho terroso, com seu nariz e barba faraônica cerimonial ali, presentes, com aquela coroa listrada de dourado, ah, um dourado muito vivo, e daquele azul plural, intrincado, do lápis-la-zú-li. Gente, nossa, muita emoção, não sabem? E tudo tão súbito. Um frisson, ai, muito forte, uma sensação, assim, celeste, me arrebatou e me deixou sem ar, sabem?, fiquei bamba… Toda solta. 

— Mas e aí? —  inquiriu Flávia, quase aflita, mãozinha mexendo nervosa sobre os joelhos.

— Então menina, atrás de mim, eu percebo, assim, na minha visão periférica, uma mulher, eu me viro e a vejo, ela está envolta num véu púrpura, nossos olhos se encontram e então ela me diz, assim: Encarar a Esfinge seriamente é encarar o transcendental ele mesmo, o arcano ele mesmo. O transcendental e o arcano, gente. Acho que na cabeça dela era até com com maiúscula, em caixa alta . O Transcendental. O Arcano. Que surpresa, não é? E a medida que eu ia me recuperando, a Mestra, que eu então sabia então quem era, não fazia nem ideia, me dava o ombro enquanto nós seguíamos o caminho de volta, ela me contando coisas sobre a Esfinge que eu em absoluto não sabia. Contou, assim, vejam só, que não existem registros da construção da estátua. E que existem marcas de erosão por água em seu dorso, o que indicaria que ela teria sido construída em um tempo em que chovia muito ali, um tempo talvez anterior aos pró-prios egípcios… Ai, meus queridos…

Olímpia silenciou-se brevemente, como que se dando tempo para os presentes considerarem todas essas informações, ainda que jogadas assim, um tanto desconexas. Olhava para o centro da mesa branca, perdida:

— E daí, a partir daquele momento, daquele instante em que ela me ofereceu o ombro, seguimos juntas, foi Karnak, os templos de Ramsés e Nefertari, o Vale dos Reis, o Monte Sinai, enfim, o Egito ele todo juntas…

— Ai, que privilégio! —  Flávia Cláudia, de boca cheia, numa expressão que era ao mesmo tempo uma sincera manifestação de seu juízo de valor acerca daquela viagem com Mestra Intreza e uma verdadeira suma de toda a vida de Olímpia, que, feliz com tal recepção, continuou:

— E no meio nossa recém iniciada convivência, muito agradável, agradabilíssima, foram surgido, assim, naturalmente, inúmeros roteiros para vários passeios, à guisa, inicialmente, de mera especulação, não sabem? E se fossemos a Angkor, no Camboja? E se fossemos a Kyoto? E se fossemos ver a aurora boreal na Finlândia? Daí Intreza, digo, a nossa Mestra, me convidou para a Associação e para, dentro da Associação, ser eu a pessoa encarregada do planejamento, organização e acompanhamento das viagens internacionais… Viagens que eu programo para emular, não sabem?, o mesmo espanto, o mesmo maravilhamento que tive diante da Esfinge, naquela vez…

Olívia olhou demoradamente para cada um, piscando como se sonolenta e envolvendo-os com um sorriso sugestivo:

— Viagens vivenciais, experimentais…

E então quase séria, cerimoniosa:

— E isso é, nada mais, nada menos do que uma maneira de celebrar a vida, não é? Ah, ver as expressões de encantamento na face das pessoas… Como é, assim, gratificante…

— Aí, imagino, estar facilitando, né, esses encontros, apresentando as maravilhas do mundo, ai, gente, que tudo… — Flávia, tiete.

— E, não sabem?, deu certo, é um projeto de, assim, muito sucesso. Começamos por aqui perto, na nossa América Latina mesmo. Fizemos expedições para Machu Picchu, para a Ilha de Páscoa, para o deserto de Guajira, para o Deserto de Sal… Depois começamos a fazer roteiros em Portugal. O Caminho de São Tiago de Compostela, Fátima, a Quinta da Regaleira… Ano passado fizemos Lourdes, na França e Assis, na Itália…

— Olha só, eu não me considero, assim, um beato, mas, olha, eu bem que gostaria de sim… Lourdes e Assis? Ah, vejam, sim… — Hidelbrando murmurando em concordância.

— Mas, assim, gente, é…. Ai, querida, como que?… — Flávia: atônita — como qu’eu faço? Assim, para participar, ai, ir com vocês…

— Ah, sim… Essas viagens, você pode ver que nenhuma delas é divulgada no site, elas são somente para um grupo, assim, mais próximo, não sabe?

Eis que expressão de abandono, completo abandono no rosto de  Flávia condoeu Olímpia:

— Mas, ó, querida, presta atenção aqui, eu te aviso. Ai, queridos, aviso todos você, tá?, com certeza, aviso todos da nossa próxima viagem. Vocês são todos, ai, sem dúvida, distintos. Mas, não vai ser esse ano, sabem?  Esse ano, vai acontecer… 

Aeris, visivelmente preocupada, mirou Olímpia nos olhos. Olímpia tentou não alterar o fluxo da sua fala, continuando, sem esboçar qualquer resposta direta a Aeris:

—  É, bem… Esse ano faríamos toda a Londres ocultista, culminando com uma visita noturna a Stonehenge . Ai, queridos, seria tão, mas tão lindo, iríamos começar na Catedral de São Paulo, não só por conta propriamente de São Paulo, não que eu tenha nada contra Paulo de Tarso, é claro que não gente; e nem só porque no exato lugar da catedral existia, muitos anos antes, ai, incontáveis anos, um importantíssimo templo consagrado a Diana, uma das deusas mais importantes do panteão romano e, ao mesmo tempo, uma das divindades mais influentes no ocultismo, não só por isso queridos; e ainda, não só porque é um  ponto elevado de Londres, uma colina, não é?, e eu imagino que vocês bem saibam que os lugares elevados tem um valor especial para as forças místicas; mas porque estaríamos então em Ludgate Hill, o local onde está enterrado o Rei Lud, o monarca gaélico, descendente do próprio deus celta Nodens, fundador de Londres. Não sabem?, o próprio nome Londres vem dele, vem do latim Londinum que por sua vez vem de Caer Ludein,  a fortaleza de Lud.

A socialite abriu os braços com as mãos espalmadas, como quem, um pintor, um fotógrafo, busca um enquadramento ideal, e, com, os olhos vidrados, piscando excessivamente, sugeria uma cegueira para o que tinha diante dos olhos que lhe permitiria enxergar terras distantes, tudo uma evidente brincadeira:

— Haveria, muito naturalmente, uma visita às igrejas barrocas de Hawksmoor, o arquiteto. Ah, não sabem?, são cheias de curiosos elementos pagãos, suas posições no mapa de Londres formam o que? Nada menos do que um pentagrama, não sabem? A Minha preferida é a St. George, no Bloomsburry, nossa, o que é aquilo, gente, não é mesmo? A torre, uma referência explícita ao Mausoléu de Halicarnasso, e, ai, gente, Bloomsburry, não é mesmo?, ali do lado, ó, temos algumas das estátuas que antes figuravam no Mausoléu Halicarnasso no Museu Britânico… Ah, e é claro, ao Museu Britânico seria dedicado pelo menos um dia inteiro, é claro, não é? De antigos feitiços sumérios escritos em cuneiforme ao espelho negro clarividente de Dr. John Dee, é coisa demais para ver, para sentir… Tem de tomar até cuidado, não sabem?, porque podem ser muitos os arroubos, ah, sim…

— É… — Aeris, entre grave e sem jeito — Olímpia…

 — O que mais não poderia faltar? Ah! A rua na qual Blake morou por quase duas décadas?, a casa onde Madame Blavatsky explanava sua doutrina, pessoalmente, toda terça-feira? Ai, ai…

 — Bem, tudo pronto aqui, prezados — Aeris, as mãos na cintura, dirigindo-se, verbalmente, a todos, mas olhando especificamente para Olímpia, que anuiu em encerrar sua fala, pulando para o final:

— Mas, enfim, queridos, tudo isso para acabar em uma visita a Stonehenge, sim. Mas, ó, meus lindos, vocês não sabem, não sabem não, a dificuldade que é fazer uma visita digna ao monumento que é Stonehenge, as ovelhas, aquelas ovelhas, com números em azul pintados nas laterais de seus corpos nem são o pior, algumas acabam sendo até agradáveis, mas espirituosas do que muita gente que eu conheci por aí… A questão é aquela maldita estrada, cinza, barulhenta, ai, banal, banal, dolorosamente banal, ali do lado, impedindo a fruição do monumento, belíssimo, belíssimo… Eu, na qualidade, ai, meus lindos, qualidade singular de curadora de momentos especiais, curadora de, assim de epifanias, poderia eu apresentar Stonehenge assim, desfigurada assim? De jeito nenhum, não é mesmo? E por isso então que eu consegui uma coisa, assim, super difícil, não sabem?, super. Uma visita ao monumento à noite. É fantástico, meus lindos, fantástico — Olivia então suspirou, catando os olhos de Aeris — Mas… Bem, as atividades desse ano parece que, bem, serão interrompidas…

*

LÚCIA XIV

— De início eu sempre sacava — estalou os dedos — é um sonho!, porque estava habituada aos sonhos e às coisas dos sonhos. E daí fazia experimentos, todos bastante curiosos. Comecei a perder esse poder quando, sonhando, diante de algo estranho, pensava estar chapada. Foi daí que maneirei com álcool e beque, bem antes mesmo de Úrsula nascer. A coisa fica feia, e então é hora de grandes mudanças, quando diante do onírico você não cogita nem um sonho e nem uma onda: mas a loucura. Aí ó: para e pensa tudo de novo.

ISABELA 27

— Ou, simplesmente não engulo essa conversa de que a literatura não serve mesmo para nada. Tá doido?, ela serve, no mínimo, para ser lida. Acho que a literatura é como o rap quando o Sabotage fala que ó rap é que nem bombril. Sabotage, inclusive, que foi um dos melhores versemakers (na concepção poundiana) das últimas décadas, serião, tanto em termos de rima como de cadência.

PEREIRA – XI

— Mas, olha, olha que fantástico. Isso que o senhor está falando tem tudo, tudo mesmo, tudo a ver com questão do controle do padrão vibratório, que é, assim, uma técnica muito, muito importante pra gente da projeção astral — disse a moça da bata bege.

— Ah, é mesmo, minha filha?

Pereira não conseguiu acompanhar imediatamente a continuação da conversa, ainda cativado por aquilo que acabara de escutar. Ficara aterrorizado com a descrição da feminina criatura alienígena, imaginando-a como um híbrido de mulher e taruíra, um ser de pele fina, fria e pegajosa (como também pareciam frias e pegajosas as mãos do velho).  Além disso, compadecia-se com o Sr. Hidelbrando, com a sua dificuldade de conseguir o que Pereira resolveria, várias vezes maquinalmente, com quinze minutos no banheiro, entregue a uma memória ou fantasia libidinosa (quando não a um videozinho tóxico que lhe emporcalharia a cabeça com cenas de sexo bufo).

A dor do velho funcionava ainda como lembrança de que Pereira, caso chegasse a tal idade (tendo o velho algo entre setenta e oitenta anos, estando muito conservado até, aparentemente independente da ajuda dos outros para conduzir sua vida), também teria de lidar com esse e mais problemas, muito provavelmente sem a intervenção de seres vindos do espaço. Olhando para o senhor, tetando não sentir dó, seguindo aquela máxima popular de que o dó é o pior sentimento, Pereira, que não levou a sério nem uma só palavra do relato, desejou imensamente que aquilo fosse verdade, verdade pelo menos para o velho, e que Cármen, ali Mestra Intreza, tivesse alguma forma, a forma que fosse, de ajudá-lo.

Dada a sua repentina loquacidade, pareceu então que era agora a vez da moça de bata bege de expor os seus motivos para estar ali, no que seria o vestíbulo da Associação Transcendental Amalantrah. Com a musculatura do ombro e pescoço visivelmente retesada, inquieta em sua cadeira, piscando em excesso e descerrando um amplo sorriso, ela lembrava uma apresentadora de programa infantil cocainômana:

— Assim, né?, a projeção é uma das técnicas, talvez a principal técnica que eu uso no meu ofício de — inclinando a cabeça levemente para trás e arregalando os olhos, olhos já com branco demais — life coach. O senhor sabe, vocês sabem, o que é um life coach?, o que é coaching?

— Ah… — no que o velho tomou a palavra com um gemido desarticulado, levantando debilmente o dedo indicador ao ar, um gesto perdido entre a criança que anuncia à professora que tem uma contribuição à aula ou um sábio atentando para a importância de sua lição — seria, seria, ahn, um… Técnico para a vida?

— É, exatamente, um técnico, um treinador, né? Um treinador para a vida, exatamente. E ele vai estar o que? Ele vai estar apoiando, assim, proativamente, ele vai estar apoiando o cliente, né?, que é o coachee, né? e então a moça fez um minúsculo intervalo e sorriu, como às vezes sorriem os professores ao discorrer, achando graça de um detalhe ou minúscula reviravolta que, para todos os demais, não poderia ser mais desinteressante ele vai estar apoiando o coachee a contando os verbos nos dedos da mão direita descobrir, criar e sustentar… O que?

Hildebrando produziu som amorfo com o fundo da garganta. A socialite morena disse “Diga-me você, querida”, só com os cílios. Pereira ainda pensando no gozo de origem alienígena do Sr Hildebrando, ignorou a pergunta.

— O que ele mais quer, gente! O que ele, o cliente, né?, mais quer e, assim, mais deseja, deseja profundamente para a sua vida. Assim, o life coach obtém várias informações, né? Pesquisa meeesmo os, assim, valores e crenças do cliente, né? Para estar conseguindo isso. Gente, é difícil, tá? Porque às vezes as pessoas não sabem o que querem. É sério, muita gente não sabe o que quer. Uma coisa é você querer ter um carro assim, assado, né? Mas o que eu quero, assim, da minha vida? Como eu vou desenvolver, como eu vou, assim, investir, investir em mim mesmo, né, empreender, fazer de mim esse empreendimento, se eu mesmo não sei o que eu quero? O life coach também vai estar atuando aí, ajudando a pessoa a des-co-brir o seu sonho… E aí, é um processo, né, gente?, uma caminhada mesmo, partindo de onde a pessoa está até onde ela quer estar, até esse estado desejado. E quem não quer, né?, estar dando esse salto?, quem não sente essa distância, entre o que somos e o que queremos ser…

— Dever ser… disse Hildebrando, solenemente.

— Ah! Claro Sr. Hidelbrando, viver a vida ao máximo é uma obrigação que demos ter conosco, é mesmo, estarmos conseguindo usufruir do má-xi-mo da vida, sim, é um compromisso. É sim um dever ser. E para isso as pessoas precisam… E se não realmente precisam, podem sim se valer muito de alguém que as dê, profissionalmente, profissionalmente, né, gente?, uma pisca, pisca orientação positiva para a vida. Para deixar, ó, deixar, jogar fora, deixar de lado, dizer, isso não me pertence, jogar fora todas as neuroses. É, sim. Deixar de ser medíocre, neurótico, disfuncional. Sabe?, sabe?, é a ação no mundo! A preparação para a ação no mundo! Com esse soquinho na mão espalmada —, com esse objetivo final. O êxtase. Contínuo.

E então a ela fez uma pequena pausa dramática, olhando todos os ali presentes com uma carinha de falsa condescendência.

— Isso mesmo. Êxtase. Contínuo. O êxtase contínuo de se viver de forma plena. Ple-na. Ser na vida um ás. Um ás, sabe? Não ser bom, não ser muito bom, não ser excelente, mas ser um ás.

Ela esperou por expressões e interjeições de admiração. Simplesmente não vieram. Não porque aquela pequena apresentação não funcionasse, funcionava, ou, pelo menos, funcionava na maior parte das vezes: ela de fato vivia disso. A questão era que o Sr. Hidelbrando, um etarista militante, a considerava nova demais para orientar qualquer pessoa acerca de qualquer coisa; Pereira ainda estava meditabundo, pensando em impotência e punhetinhas cerebrais vindas do espaço, enquanto Olímpia, ainda que escondesse, por dentro virava os olhos para qualquer exaltação ao esforço, ao exercício ou à meritocracia, atribuindo tudo o que é essencial à pessoa a uma questão de, essencialmente, berço (berço que ela tinha e a moça não).

O Sr. Hidelbrando, entretanto, ainda que até ali não impressionado, deu continuidade à conversa, porque, em razão de sua solidão contínua, esse era mais ou menos o seu procedimento padrão, interpelar a maior parte das pessoas em seu caminho e tentar arrastar ao máximo a mais insossa das conversas. Além disso, como tratava-se de algo novo para ele, com um nome em inglês, por mais não diretamente interessado que ele estivesse, maiores informações eram necessárias, até mesmo para talvez refutar a coisa toda:

— Tem escola disso, faculdade disso?

A moça da bata bege apertou os lábios brevemente, mas com força o suficiente para que por um instante eles ficassem esbranquiçados, e então falou:

— Então… Eu fiz vários, vários, cursos, sabe? Eu, assim, sou sedenta, sedenta, por conhecimento, ai, minha atividade mental é, ó, — estalando os dedos com as duas mãos — frenética, frenética, então, assim, eu fiz vários cursos… E, assim, eu estou o tempo todo, o tempo todo não, é exagero, claro, mas, eu faço, ó, muitos retiros. Esse ano eu já fiz três retiros. Já se foram mais de seis mil reais, só em retiros. Agora estou no quarto e… Ainda vou fazer um no final do ano também né, gente? Claro. Cla-ro.

— Cursos… — murmurou o velho.

— E assim, muita leitura! — passando as páginas de um enorme tomo imaginário — Nossa, só de autoajuda… Só de autoajuda, hein? Eu li duzentos. Duzentos. Aí, somando com biografias, livros, assim, do lado mais espiritual, né? Dá duzentos e cinquenta. Assim, ler muito é um hábito meu, eu tenho o hábito da leitura. Mas eu sou muito séria, para mim o que importa é o pragmatismo, eu não perco meu tempo não, nunca leio nada, na-da mesmo de, assim, ficção, romance, essas coisas. Eu não quero nada com esses personagens e coisas que nunca aconteceram. Sério. O meu foco é o conhecimento, o conhecimento legítimo… Esses livros, eu construí essa bibliografia conversando com especialistas em várias áreas, experts mesmo, milionários, gente com ph.D, líderes espirituais, líderes empresariais, muita gente da indústria, sabe? Isso porque, assim, eu trabalho com muitos executivos, sabe?, gente de várias, várias, multinacionais… Eu tenho facilidade em lidar com essas pessoas…. Eu tenho isso em mim, sabe?, isso de me conectar com as pessoas, e também isso, de um senso, assim pra negócios, sabe? E é essa questão do… Estilo de vida, né? Eu trabalho no final é com isso, né?, como vocês disseram, estilo de vida. Eu tenho de liderar, fazer a parte de marketing e — quase gritando no e — entregar os resultados, pelo exemplo. Aí, assim, eu tenho facilidade… Empatia. Ah, sim, a parte do marketing, assim, do negócio mesmo, nossa é muito difícil, né? Tem que estar o tempo todo… — aponta com os indicadores para um laudo e depois para o outro — Né?

— Mas, a… Projeção… — a interpelou o Sr. Hidelbrando.

— Ah, claro, né gente? A projeção astral. Assim, não existe isso de ser um life coach genérico, né? Por isso eu me especializei nessa questão, assim, da espiritualidade…. E, assim, convenhamos também que a própria espiritualidade, colocada assim, ai, é também uma coisa muito, muito aberta… É necessária a especialização dentro da especialização, gente. Aí, quando eu conheci a viagem astral, a projeção astral, eu disse, é, tá aí! Esse vai ser o meu nicho.

A graça da moça de bata bege foi então revelada. O nome Flávia Cláudia Buffone brilhava em letras metalizadas no cartão que ela entregou aos presentes. Ao ler, debaixo do nome da mulher, Coach & Projecionista Astral, Pereira começou a se atentar à conversa, permanecendo calado só mesmo porque Hildebrando manifestara a mesma dúvida que lhe acometia:

— Mas… Ahn… Como a senhó- Como você chegou à Projeção Astral? Como se… Como se aprende isso?

— Hoje em dia… Olha, é uma coisa, assim que eu tenho de falar para as pessoas. A projeção astral não é coisa assim, de super-herói, tá?, coisa, ai, de gente dro-ga-da… Hoje em dia existem vários cursos de viagem, de projeção astral, vários livros, DVDs e também, ó, muitos, muitos centros esotéricos trabalhando… Com a viagem astral. Como… Como esse aqui né, gente?

E então Flávia Cláudia levantou os braços e olhou em volta de si de forma artificial e exagerada, apelando para a presença de todos ali, na Associação Transcendental Amalantrah, como um sério indicador que a conversa dela era, afinal, séria. Antes que qualquer consideração pudesse ser feita, retomou:

— Mas, então, gente, o que é a projeção, ou a viagem, astral?

Mas uma pausa dramática, como se um vídeo estivesse sendo gravado e ela fosse inserir, na edição, uma vinheta (música eletrônica misturada com um canto monótono, flautas e tambores) ou um letreiro chamativo naquele intervalo.  O seu pequeno público ficou sem entender aquela demora, mas, como se alguém por detrás de uma câmera digital amadora dissesse “Vai, Flávia!”, Flávia foi:

— Então, gente, a viajem astral, não é nada mais do que o ato de estar conseguindo sair, com o seu corpo energético, do seu corpo físico, só que com consciência, gente, com to-tal, total lucidez! E, assim, uma vez que você sai, pode estar fazendo as suas viagens, ou, assim, qualquer atividade, sabe, nesse sentido…  Estar se desdobrando do próprio corpo… E, gente, não me olhem assim, tá?, porque, assim, sério, gente, todas as pessoas, todas as pessoas se projetam, assim, inconscientemente e sem o controle, sem a lucidez, do projecionista treinado, sabe? Não é assim, uma coisa para pessoas especiais, tá? É uma coisa, é uma habilidade para quem quiser, para quem tiver o com-pro-me-ti-men-to necessário. E, aí vocês perguntam, pra que eu vou tá fazendo a viagem astral, porque eu vou tá projetando, assim, o meu corpo astral, o meu corpo energético, minha alma? Gente, tem infinitas razões, tá?, infinitos porquês. Imagina, essa possibilidade, gente, que possibilidade!, de se desvincilhar — entrelaçando dos dedos das mãos e então os abrindo lentamente, como se fossem pétalas  — ai, de se libertar do corpo físico? Você pode tá visitando seus guais, tá?, seus mentores, você pode tá descobrindo, fazendo uma verdadeira arqueologia pessoal e espiritual, descobrindo coisas muito importantes acerca das suas vidas passadas, e até mesmo alguma coisa sobre a sua missão de vida agora, a missão da sua alma, o que é superinteressante, né?, você pode ainda tá ajudando, assim, no astral, espíritos necessitados, tá?, desencarnados, que precisam de um trabalho, precisam de uma luz ali, né?, você pode tá inclusive viajando, viajando no espaço e no tempo, né?, visitando lugares e fazendo, assim, pesquisas, né?, por exemplo, ai, gente, estudar, imagina?, estudar o Zoroastrismo lá na Pérsia da Antiguidade, conhecer os próprios magi, gente, ai, imagina…

Ao que Sr. Hidelbrando começou a ficar agitado, passando a mão por sobre o lábio superior, alisando o ausente bigode; Pereira anotou “superpoderes” em seu caderninho, fazendo raios infantilóides em volta do escrito, e Olímpia se ateve a, muito lentamente, descruzar e cruzar as pernas, com a mesma naturalidade de um dormente que, ainda bem longe da vigila, troca o ombro sobre o qual dorme.

— Gente, é o instrumento mais poderoso de conhecimento, de crescimento, gente. O mais poderoso, tá? Olha só, gente. Vamos pensar.  O nosso corpo físico, pesado, denso, precisa de muitos cuidados, precisa de comida, e isso, gente, é superimportante também, a gente tem de pensar muito, muito mesmo na nossa dieta, e sono, gente, tá, é essencial dormirmos… Mas, ó, é o corpo físico que precisa desses cuidados… Vocês acham que o nosso corpo energético precisa disso, precisa de dormir? Não, gente, claro que não. E então, que tal estar aproveitando essas seis, sete, oito horas de sono para algo mais? Você pode usar essas horas, projetando sua consciência, para tá aprendendo, para fazer algo realmente, algo prático, útil na sua vida, tá?, é difícil, né?, eu não consigo fazer, assim, tuuudo o que eu quero quando estou acordada, ai, é também um jeito de usar melhor, de tá administrando o seu tempo… Né?

— Mas você, Flávia, já conseguiu isso, viajar no tempo, como é? — Perguntou Pereira, por um instante sinceramente tentando entender a questão.

— Mas, é um desafio gente, eu disse que não é para pessoas especiais, mas assim, em termos, tá?, é pra gente que é guerreira, guerreira. Quem faz projeção astral é guerreiro, tem de ser guerreiro demais, para conseguir dominar a técnica, tá?, tá conseguindo se projetar quando você quiser, onde você estiver, né?, conseguir, assim, tá direcionando a sua viajem, né?, conseguir tá mantendo a sua consciência, a sua lucidez, né?, é difícil atingir, assim, um grau satisfatório dessa técnica… Sabe, conseguir chegar a e manter o mindset necessário e, e depois, seguir naquele flow, sabe?

Ao que Pereira ergueu a mão, como se quisesse repetir a pergunta não respondida, sendo, porém, interrompido por Hidelbrando:

— Também quero fazer uma pergunta!, é… É…  E… E no espaço, você pode fazer uma viagem astral no espaço sideral?

— Ass-

— E! E… E o que você disse, é…. Esse negócio de…  Padrão vibratório?

— Então, gente… Vamos lá, né? Uma coisa de cada vez, né? Ó, sim, a resposta para a primeira pergunta é sim, já consegui, mas foi só uma vez, e, assim, foi muito rápido, muito rápido mesmo, eu fiz minha projeção, né?, eu tava então me projetando, tá?, e aí, gente, eu me vi, assim, andando na rua, em Paris, que assim, é um lugar que eu conheço, né?, que eu conheço Paris, tá?, mas assim gente, olha só, não era a Paris que eu conhecia, tudo parecia assim mais, ai, gente, vintage?, e eis gente, que eu tô Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra, e assim — estala os dedos — assim que eu percebi onde estava, eu perdi o controle da minha projeção, da minha consciência e, gente — jogando a cabeça para trás e virando os olhos artificialmente —, gente, num instante eu estava de volta aqui, sabe?

— Como num sonho? — Pereira perguntou ao mesmo tempo que fingia fazer anotações em sua caderneta, sem levantar os olhos, mas projetando um pouco a voz, um artifício que ele julgava lhe emprestar um ar profissional, o tipo coisa que usava com guitarristas falastrões semi-desconhecidos.

— Sim, um sonho lúcido — subindo tom no , fazendo biquinho —  sabe? Um sonho no qual tudo aparece assim, em alta definição, e você está consciente…

— Ah, então…. —  Pereira olhou para moça, erguendo uma sobrancelha — então o sonho lúcido é a viagem astral?

— Assim, no meu entendimento, assim, sim, por isso que…

Ao que o Sr. Hidelbrando limpou a garganta ruidosamente e disse, estridentemente:

— E no espaço?

— Então, é possível estar sim viajando, pelo astral, no espaço, senhor… É muito difícil, porque conhecer o lugar, tem alguma relação, alguma coisa que, assim, te ligue ao lugar facilita tudo, mas, com muita prática, é sim possível, senhor, estar fazenda uma viagem, assim, no espaço.

Ao que o Sr. Hidelbrando ficou olhando para Flávia Cláudia abobalhado.

— E, bem, é… A questão do padrão vibratório, é a energia que vai fazer com que os seres do astral te enxerguem ou não, eles se comunicam de acordo com a sintonia, se você estiver em baixa frequência vibratória, você vai atrair espíritos baixos, mas, numa frequência vibratória, assim, elevada… No caso do senhor, né?, o senhor estava lá no seu jardinzinho, que deve ser um lugar de muito cuidado do senhor, de muita energia, depois de um dia de vários afazeres, né, de trabalho, e assim, o senhor estava pronto para de deitar, né?, aberto assim para experiências sutis, né?, e assim, o senhor estava lendo, a leitura, a leitura é também uma viagem, né, um ato, assim, mágico, né?, e ai o senhor pode ter elevado o padrão vibratório do senhor, assim, chamando essa criatura…

— Você, você acha ela veio pelo astral?

— Pode sim ter vindo, uma criatura de outro planeta que se projeta no astral, né?, assim, existem várias. Pode muito bem ter sido.

Sr. Hidelbrando, num estado de total maravilhamento, continuou olhando para Flávia Cláudia, agora quase como se ela fosse uma parenta, algo como sobrinha-neta querida.

Pereira, maravilhado por sua vez com a facilidade com a qual os dois encontrara um terreno em comum dentro de suas experiências paranormais, rabiscou “dialetos diferentes da mesma língua” em seu caderninho e, virando a página, mais uma vez de olhos abaixados, perguntou:

— E, ahn, Flávia, você está aqui na Associação para…

— Para fazer um trabalho, né?, de blindagem do corpo astral, assim, blindagem do corpo energético com Mestra Intreza, para que me proteger, né?, nas minhas projeções pelo astral.

— Mas… Assim… Eu não vi isso listado no site

— O que aparece aparece no site é só aquilo oferecido ao público geral, não iniciado…

Aeris, em seu paço soldadesco, reapareceu na sala com uma pasta de couro mole, castanha e bastante surrada, da qual retirou uma duzia de cabos. Antes de começar a testá-los, olhou para os três e, encontrando-os aparentemente relaxados e talvez até mesmo entretidos, sorriu, parecendo então um pouco menos apressada:

— Ah, olha só, que bom, vocês estão se dando bem…

 

*

ISABELA 26

— Já encontrei um tanto de fumantes que só respiravam direito, só inspiravam a plenos pulmões, quando tragando. O que deveria ser uma prática constante só acontece com a gana do vício. Maconheiros são assim também, tem muita gente que se sente melhor não por conta da erva em si, mas porque depois de completar o ritual de dixavar, bolar, pilar e acender começa a respirar propriamente. Os cocainômanos também são assim, de uma forma, naturalmente, muito mais evidente. Todo mundo já viu cheirador se sentindo paradoxalmente, pervertidamente, saudável, estufando o peito, como se o sistema respiratório estivesse revigorado. Essa não é uma fala contra as drogas, claro, eu acordo com café e termino o dia com o meu cigarrinho de artista, drogados todos somos, mas a questão é… E se nós só parássemos um pouco para concentrar e… Respirar? Agora. Não quando passar essa barra. Não quando o pagamento cair. Não com o dedo de gorila manufaturado, não com a linha esticada. Agora.

(Sinto que Isabela e Lúcia se fundirão, ou que Isabela é uma espécie de proto-Lúcia, ou algo talvez mais complexo. Simplificando: hei de usar algumas dessas coisas no romance [com a diferença que talvez Lúcia quebre um só de vez em quando]).