O Cromoterapeuta – 1

Glauco estava acostumado a olhar para si mesmo e perdoar aquilo que outros acusariam de torpeza, mas se passar por morador de rua, macaqueando as vestes e modos dessa gente, de início, foi algo que lhe fez se sentir culpado, ou, pelo menos, ligeiramente envergonhado. Mas só de início, já que sua necessidade de manipular as pessoas era maior, sempre maior do que qualquer entrave moral. Depois de desenvolvido a persona e o modus operandi, passou a ser apenas mais um expediente. Apresentava-se como um sujeito manco e corcunda, a grunhir desarticuladamente, que revirava o lixo alheio com celeridade, em busca quase que só de papeis, e seguia adiante. Assumia o disfarce sobretudo nas segunda-feiras, ao cair da noite, quando colocavam quantidades maiores de lixo na rua, todo o lixo do final de semana. Antes do caminhão da coleta passar, misturava-se aos famélicos que peregrinavam pelos bairros de lixeira em lixeira. Apenas essas figuras desesperadas às vezes duvidavam de sua farsa, a avassaladora maioria das pessoas vira os olhos quando vê um sujeito rasgando um saco plástico sob o qual vermezinhos se contorcem. Certa vez, uma catadora de recicláveis, que esperava aquela figura corpulenta ir embora para conferir a lixeira, achou estranho ele ignorar dezenas de latinhas e vários pedaços de papelão. Doutra oportunidade, um jovem esquálido se encantou com o fato daquele revirador rechonchudo ignorar por completo uma pizza pela metade e seca, ainda na caixa de papelão utilizada para a entrega domiciliar. Glauco batia o olho no conteúdo dos sacos, formulando em sua cabeça um padrão de comportamento a partir do que via, e levava consigo tudo o que era papel. Foi assim que ele obteve as cartas que Sérgio escreveu para Lúcia e nunca enviou.

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PEREIRA XII

Olímpia, muito naturalmente, não passou batida. Como poderia? Quando lentamente abriu um sorriso para Pereira, com um muito leve erguer de sobrancelhas, enquanto Aeris tentava descobrir qual cabo funcionaria no projetor, o moço não pôde deixar de reparar nas maçãs agradavelmente proeminentes de seu rosto, acentuadas pela maquilagem dourada sutilmente aplicada (ele mesmo não saberia dizer se haveria maquilagem ali), e no suave castanho claro dos seus olhos, encimados por pálpebras coloridas com sombra verde, de tons metálicos. Interpelá-la era um imperativo.

— E você, — Pereira então acertou, tratando-a por você, não escutando então que “Senhora está lá no céu”— o que te traz até aqui, até Car-, ahn, até a Mestra Intreza?

A socialite morena fechou os olhos por um momento, coisa muito rápida, e então fez um doce meneio de cabeça, em tom afirmativo,  como se tivesse mentalmente repetido a pergunta de Pereira para si mesmo e prontamente encontrado a resposta:

— Beeem. Sabe aquela pessoa?… Que gosta mais da expectativa da festa, não sabem?, de pensar, preparar e coordenar tudo, tu-do, do que, assim, da própria festa? Então, beeem,  meus caros, essa pessoa… —  com uma jogadinha do tronco para a direita, abrindo as mãos lentamente, as palmas quase que votadas para cima, os cotovelos bem próximos à cintura marcada pela calça e jaqueta, sorrindo  — Sou. Eu. E… Bem, festas sim, claro, que a festa é o — soltando quase um agudo no á — ápice da civilização, claro, claro, mas não só festas, porque com frequência eu projeto e promovo eventos, eventos culturais, ou, como eu gosto de chamar… —  gesticulando com os pulsos articulados de forma a expor,  além de suas unhas pintadas de um verde também metálico, os seus vários e coloridos anéis — Realidades possíveis, ainda que… Improváveis e… Temporárias… Entendem?

Àquela altura, depois de relatos de visitas extraterrestres e viagens extraplanares, ninguém demonstrou ter qualquer dificuldade com o conceito. Olímpia continuou, empostando a voz, ainda que levemente:

— E, além disso, eu sou uma grande, aha!,  flâneuse, não sabem? Adoro borboletear, por aí, pelo mundo. Adoro. Mas, assim, não sabem?, o que me agrada não é essa coisa pré-definida, óbvia, chata, do turismo não. Ah, não, não. Sou uma viajante, não uma turista. Sabe? Totalmente diferente…

Ergueu, dramaticamente, apenas a sobrancelha direta:

— Uma coisa, assim, não sabem?… Distinta.

Sendo que a última palavra foi dita com uma súbita e desagradável contração da catadura que ela logo tratou de desfazer, revelando a enorme plasticidade de seu rosto, seguindo, mais uma vez sorrindo:

—  Daí, uni essas duas coisas, esses dois traços meus, sabem?, e aqui, na Associação…  — apontando um indicador para baixo e outro para cima   Aqui eu faço um trabalho com Intreza, com a Mestra… Desde… Desde de logo depois que nós duas nos conhecemos…  Ai, queridos, que episódio… Ah, foi tão… Tão… Ai, fico, assim, sem palavras…

Olímpia inclinou-se para frente ligeiramente, piscando de forma jocosa e como que dedilhando o ar:

— Ah, quase consigo escutar as harpas, não sabem?, como em um flashback de desenho animado. Haha! Foi em um lugar muito especial que nós nos conhecemos, não sabem?, nada mais, nada menos do que na frente da própria Esfinge de Gizé. Sim, ela mesma. Uma coisa assim… Incrível. Não vou dizer que foi, ahn, uma experiência mística, mas, ó!, — levando as mãos ao rosto (os antebraços comprimindo ligeiramente o busto), o queixo caído de maneira exagerada — foi quase, não sabem?, qua-se. Eu estava lá, embasbacada, cheia de… Cheia de maravilhamento e… E temor ao mesmo tempo. Ah, temor, sim. Não é à toa que a Grande Esfinge é chamada pelos falantes de árabe de o Pai do Terror… É sim, não sabiam?

O Sr. Hidelbrando coçou o seu papo bem barbeado (um feito realmente digno de nota, dado o conjunto de pelancas que era seu papo) com sincera perplexidade. Flávia Cláudia encantada com Olímpia, soltava, bem baixinho, consecutivos ós, enquanto, Pereira, indolentemente, rabiscava pirâmidezinhas em seu bloco de anotações.

— Eu fiquei assim, como que paralisada, como uma ratinha diante da cobra, duma, assim, duma naja, não sabem? E vi, assim, vi na minha imaginação, vi e não vi, vi num só relance… — Passando a mão aberta lentamente na frete do rosto, a palma voltada para os espectadores, os dedos bem espaçados, um tanto lânguida, quase como em um passo de dança — A Esfinge completa e… Colorida!… A face no corpo de leão, inteira, assim, de um vermelho terroso, com seu nariz e barba faraônica cerimonial ali, presentes, com aquela coroa listrada de dourado, ah, um dourado muito vivo, e daquele azul plural, intrincado, do lápis-la-zú-li. Gente, nossa, muita emoção, não sabem? E tudo tão súbito. Um frisson, ai, muito forte, uma sensação, assim, celeste, me arrebatou e me deixou sem ar, sabem?, fiquei bamba… Toda solta. 

— Mas e aí? —  inquiriu Flávia, quase aflita, mãozinha mexendo nervosa sobre os joelhos.

— Então menina, atrás de mim, eu percebo, assim, na minha visão periférica, uma mulher, eu me viro e a vejo, ela está envolta num véu púrpura, nossos olhos se encontram e então ela me diz, assim: Encarar a Esfinge seriamente é encarar o transcendental ele mesmo, o arcano ele mesmo. O transcendental e o arcano, gente. Acho que na cabeça dela era até com com maiúscula, em caixa alta . O Transcendental. O Arcano. Que surpresa, não é? E a medida que eu ia me recuperando, a Mestra, que eu então sabia então quem era, não fazia nem ideia, me dava o ombro enquanto nós seguíamos o caminho de volta, ela me contando coisas sobre a Esfinge que eu em absoluto não sabia. Contou, assim, vejam só, que não existem registros da construção da estátua. E que existem marcas de erosão por água em seu dorso, o que indicaria que ela teria sido construída em um tempo em que chovia muito ali, um tempo talvez anterior aos pró-prios egípcios… Ai, meus queridos…

Olímpia silenciou-se brevemente, como que se dando tempo para os presentes considerarem todas essas informações, ainda que jogadas assim, um tanto desconexas. Olhava para o centro da mesa branca, perdida:

— E daí, a partir daquele momento, daquele instante em que ela me ofereceu o ombro, seguimos juntas, foi Karnak, os templos de Ramsés e Nefertari, o Vale dos Reis, o Monte Sinai, enfim, o Egito ele todo juntas…

— Ai, que privilégio! —  Flávia Cláudia, de boca cheia, numa expressão que era ao mesmo tempo uma sincera manifestação de seu juízo de valor acerca daquela viagem com Mestra Intreza e uma verdadeira suma de toda a vida de Olímpia, que, feliz com tal recepção, continuou:

— E no meio nossa recém iniciada convivência, muito agradável, agradabilíssima, foram surgido, assim, naturalmente, inúmeros roteiros para vários passeios, à guisa, inicialmente, de mera especulação, não sabem? E se fossemos a Angkor, no Camboja? E se fossemos a Kyoto? E se fossemos ver a aurora boreal na Finlândia? Daí Intreza, digo, a nossa Mestra, me convidou para a Associação e para, dentro da Associação, ser eu a pessoa encarregada do planejamento, organização e acompanhamento das viagens internacionais… Viagens que eu programo para emular, não sabem?, o mesmo espanto, o mesmo maravilhamento que tive diante da Esfinge, naquela vez…

Olívia olhou demoradamente para cada um, piscando como se sonolenta e envolvendo-os com um sorriso sugestivo:

— Viagens vivenciais, experimentais…

E então quase séria, cerimoniosa:

— E isso é, nada mais, nada menos do que uma maneira de celebrar a vida, não é? Ah, ver as expressões de encantamento na face das pessoas… Como é, assim, gratificante…

— Aí, imagino, estar facilitando, né, esses encontros, apresentando as maravilhas do mundo, ai, gente, que tudo… — Flávia, tiete.

— E, não sabem?, deu certo, é um projeto de, assim, muito sucesso. Começamos por aqui perto, na nossa América Latina mesmo. Fizemos expedições para Machu Picchu, para a Ilha de Páscoa, para o deserto de Guajira, para o Deserto de Sal… Depois começamos a fazer roteiros em Portugal. O Caminho de São Tiago de Compostela, Fátima, a Quinta da Regaleira… Ano passado fizemos Lourdes, na França e Assis, na Itália…

— Olha só, eu não me considero, assim, um beato, mas, olha, eu bem que gostaria de sim… Lourdes e Assis? Ah, vejam, sim… — Hidelbrando murmurando em concordância.

— Mas, assim, gente, é…. Ai, querida, como que?… — Flávia: atônita — como qu’eu faço? Assim, para participar, ai, ir com vocês…

— Ah, sim… Essas viagens, você pode ver que nenhuma delas é divulgada no site, elas são somente para um grupo, assim, mais próximo, não sabe?

Eis que expressão de abandono, completo abandono no rosto de  Flávia condoeu Olímpia:

— Mas, ó, querida, presta atenção aqui, eu te aviso. Ai, queridos, aviso todos você, tá?, com certeza, aviso todos da nossa próxima viagem. Vocês são todos, ai, sem dúvida, distintos. Mas, não vai ser esse ano, sabem?  Esse ano, vai acontecer… 

Aeris, visivelmente preocupada, mirou Olímpia nos olhos. Olímpia tentou não alterar o fluxo da sua fala, continuando, sem esboçar qualquer resposta direta a Aeris:

—  É, bem… Esse ano faríamos toda a Londres ocultista, culminando com uma visita noturna a Stonehenge . Ai, queridos, seria tão, mas tão lindo, iríamos começar na Catedral de São Paulo, não só por conta propriamente de São Paulo, não que eu tenha nada contra Paulo de Tarso, é claro que não gente; e nem só porque no exato lugar da catedral existia, muitos anos antes, ai, incontáveis anos, um importantíssimo templo consagrado a Diana, uma das deusas mais importantes do panteão romano e, ao mesmo tempo, uma das divindades mais influentes no ocultismo, não só por isso queridos; e ainda, não só porque é um  ponto elevado de Londres, uma colina, não é?, e eu imagino que vocês bem saibam que os lugares elevados tem um valor especial para as forças místicas; mas porque estaríamos então em Ludgate Hill, o local onde está enterrado o Rei Lud, o monarca gaélico, descendente do próprio deus celta Nodens, fundador de Londres. Não sabem?, o próprio nome Londres vem dele, vem do latim Londinum que por sua vez vem de Caer Ludein,  a fortaleza de Lud.

A socialite abriu os braços com as mãos espalmadas, como quem, um pintor, um fotógrafo, busca um enquadramento ideal, e, com, os olhos vidrados, piscando excessivamente, sugeria uma cegueira para o que tinha diante dos olhos que lhe permitiria enxergar terras distantes, tudo uma evidente brincadeira:

— Haveria, muito naturalmente, uma visita às igrejas barrocas de Hawksmoor, o arquiteto. Ah, não sabem?, são cheias de curiosos elementos pagãos, suas posições no mapa de Londres formam o que? Nada menos do que um pentagrama, não sabem? A Minha preferida é a St. George, no Bloomsburry, nossa, o que é aquilo, gente, não é mesmo? A torre, uma referência explícita ao Mausoléu de Halicarnasso, e, ai, gente, Bloomsburry, não é mesmo?, ali do lado, ó, temos algumas das estátuas que antes figuravam no Mausoléu Halicarnasso no Museu Britânico… Ah, e é claro, ao Museu Britânico seria dedicado pelo menos um dia inteiro, é claro, não é? De antigos feitiços sumérios escritos em cuneiforme ao espelho negro clarividente de Dr. John Dee, é coisa demais para ver, para sentir… Tem de tomar até cuidado, não sabem?, porque podem ser muitos os arroubos, ah, sim…

— É… — Aeris, entre grave e sem jeito — Olímpia…

 — O que mais não poderia faltar? Ah! A rua na qual Blake morou por quase duas décadas?, a casa onde Madame Blavatsky explanava sua doutrina, pessoalmente, toda terça-feira? Ai, ai…

 — Bem, tudo pronto aqui, prezados — Aeris, as mãos na cintura, dirigindo-se, verbalmente, a todos, mas olhando especificamente para Olímpia, que anuiu em encerrar sua fala, pulando para o final:

— Mas, enfim, queridos, tudo isso para acabar em uma visita a Stonehenge, sim. Mas, ó, meus lindos, vocês não sabem, não sabem não, a dificuldade que é fazer uma visita digna ao monumento que é Stonehenge, as ovelhas, aquelas ovelhas, com números em azul pintados nas laterais de seus corpos nem são o pior, algumas acabam sendo até agradáveis, mas espirituosas do que muita gente que eu conheci por aí… A questão é aquela maldita estrada, cinza, barulhenta, ai, banal, banal, dolorosamente banal, ali do lado, impedindo a fruição do monumento, belíssimo, belíssimo… Eu, na qualidade, ai, meus lindos, qualidade singular de curadora de momentos especiais, curadora de, assim de epifanias, poderia eu apresentar Stonehenge assim, desfigurada assim? De jeito nenhum, não é mesmo? E por isso então que eu consegui uma coisa, assim, super difícil, não sabem?, super. Uma visita ao monumento à noite. É fantástico, meus lindos, fantástico — Olivia então suspirou, catando os olhos de Aeris — Mas… Bem, as atividades desse ano parece que, bem, serão interrompidas…

*

Lúcia – XII

— Eu sei lá. Acho melhor sempre evitar essas ladainhas, esses pensamentos repetitivos,  essas racionalizações compulsivas do… Medo? Acho que simplificando, sim, é tudo medo mesmo. É melhor não ficar repetindo essas… Merdas.  Mantras do mal. Repetindo rotineiramente esse reza rançosa não há tempo e nem espaço para o novo. Sabe? De onde surgirá então o novo?

PEREIRA – XI

— Mas, olha, olha que fantástico. Isso que o senhor está falando tem tudo, tudo mesmo, tudo a ver com questão do controle do padrão vibratório, que é, assim, uma técnica muito, muito importante pra gente da projeção astral — disse a moça da bata bege.

— Ah, é mesmo, minha filha?

Pereira não conseguiu acompanhar imediatamente a continuação da conversa, ainda cativado por aquilo que acabara de escutar. Ficara aterrorizado com a descrição da feminina criatura alienígena, imaginando-a como um híbrido de mulher e taruíra, um ser de pele fina, fria e pegajosa (como também pareciam frias e pegajosas as mãos do velho).  Além disso, compadecia-se com o Sr. Hidelbrando, com a sua dificuldade de conseguir o que Pereira resolveria, várias vezes maquinalmente, com quinze minutos no banheiro, entregue a uma memória ou fantasia libidinosa (quando não a um videozinho tóxico que lhe emporcalharia a cabeça com cenas de sexo bufo).

A dor do velho funcionava ainda como lembrança de que Pereira, caso chegasse a tal idade (tendo o velho algo entre setenta e oitenta anos, estando muito conservado até, aparentemente independente da ajuda dos outros para conduzir sua vida), também teria de lidar com esse e mais problemas, muito provavelmente sem a intervenção de seres vindos do espaço. Olhando para o senhor, tetando não sentir dó, seguindo aquela máxima popular de que o dó é o pior sentimento, Pereira, que não levou a sério nem uma só palavra do relato, desejou imensamente que aquilo fosse verdade, verdade pelo menos para o velho, e que Cármen, ali Mestra Intreza, tivesse alguma forma, a forma que fosse, de ajudá-lo.

Dada a sua repentina loquacidade, pareceu então que era agora a vez da moça de bata bege de expor os seus motivos para estar ali, no que seria o vestíbulo da Associação Transcendental Amalantrah. Com a musculatura do ombro e pescoço visivelmente retesada, inquieta em sua cadeira, piscando em excesso e descerrando um amplo sorriso, ela lembrava uma apresentadora de programa infantil cocainômana:

— Assim, né?, a projeção é uma das técnicas, talvez a principal técnica que eu uso no meu ofício de — inclinando a cabeça levemente para trás e arregalando os olhos, olhos já com branco demais — life coach. O senhor sabe, vocês sabem, o que é um life coach?, o que é coaching?

— Ah… — no que o velho tomou a palavra com um gemido desarticulado, levantando debilmente o dedo indicador ao ar, um gesto perdido entre a criança que anuncia à professora que tem uma contribuição à aula ou um sábio atentando para a importância de sua lição — seria, seria, ahn, um… Técnico para a vida?

— É, exatamente, um técnico, um treinador, né? Um treinador para a vida, exatamente. E ele vai estar o que? Ele vai estar apoiando, assim, proativamente, ele vai estar apoiando o cliente, né?, que é o coachee, né? e então a moça fez um minúsculo intervalo e sorriu, como às vezes sorriem os professores ao discorrer, achando graça de um detalhe ou minúscula reviravolta que, para todos os demais, não poderia ser mais desinteressante ele vai estar apoiando o coachee a contando os verbos nos dedos da mão direita descobrir, criar e sustentar… O que?

Hildebrando produziu som amorfo com o fundo da garganta. A socialite morena disse “Diga-me você, querida”, só com os cílios. Pereira ainda pensando no gozo de origem alienígena do Sr Hildebrando, ignorou a pergunta.

— O que ele mais quer, gente! O que ele, o cliente, né?, mais quer e, assim, mais deseja, deseja profundamente para a sua vida. Assim, o life coach obtém várias informações, né? Pesquisa meeesmo os, assim, valores e crenças do cliente, né? Para estar conseguindo isso. Gente, é difícil, tá? Porque às vezes as pessoas não sabem o que querem. É sério, muita gente não sabe o que quer. Uma coisa é você querer ter um carro assim, assado, né? Mas o que eu quero, assim, da minha vida? Como eu vou desenvolver, como eu vou, assim, investir, investir em mim mesmo, né, empreender, fazer de mim esse empreendimento, se eu mesmo não sei o que eu quero? O life coach também vai estar atuando aí, ajudando a pessoa a des-co-brir o seu sonho… E aí, é um processo, né, gente?, uma caminhada mesmo, partindo de onde a pessoa está até onde ela quer estar, até esse estado desejado. E quem não quer, né?, estar dando esse salto?, quem não sente essa distância, entre o que somos e o que queremos ser…

— Dever ser… disse Hildebrando, solenemente.

— Ah! Claro Sr. Hidelbrando, viver a vida ao máximo é uma obrigação que demos ter conosco, é mesmo, estarmos conseguindo usufruir do má-xi-mo da vida, sim, é um compromisso. É sim um dever ser. E para isso as pessoas precisam… E se não realmente precisam, podem sim se valer muito de alguém que as dê, profissionalmente, profissionalmente, né, gente?, uma pisca, pisca orientação positiva para a vida. Para deixar, ó, deixar, jogar fora, deixar de lado, dizer, isso não me pertence, jogar fora todas as neuroses. É, sim. Deixar de ser medíocre, neurótico, disfuncional. Sabe?, sabe?, é a ação no mundo! A preparação para a ação no mundo! Com esse soquinho na mão espalmada —, com esse objetivo final. O êxtase. Contínuo.

E então a ela fez uma pequena pausa dramática, olhando todos os ali presentes com uma carinha de falsa condescendência.

— Isso mesmo. Êxtase. Contínuo. O êxtase contínuo de se viver de forma plena. Ple-na. Ser na vida um ás. Um ás, sabe? Não ser bom, não ser muito bom, não ser excelente, mas ser um ás.

Ela esperou por expressões e interjeições de admiração. Simplesmente não vieram. Não porque aquela pequena apresentação não funcionasse, funcionava, ou, pelo menos, funcionava na maior parte das vezes: ela de fato vivia disso. A questão era que o Sr. Hidelbrando, um etarista militante, a considerava nova demais para orientar qualquer pessoa acerca de qualquer coisa; Pereira ainda estava meditabundo, pensando em impotência e punhetinhas cerebrais vindas do espaço, enquanto Olímpia, ainda que escondesse, por dentro virava os olhos para qualquer exaltação ao esforço, ao exercício ou à meritocracia, atribuindo tudo o que é essencial à pessoa a uma questão de, essencialmente, berço (berço que ela tinha e a moça não).

O Sr. Hidelbrando, entretanto, ainda que até ali não impressionado, deu continuidade à conversa, porque, em razão de sua solidão contínua, esse era mais ou menos o seu procedimento padrão, interpelar a maior parte das pessoas em seu caminho e tentar arrastar ao máximo a mais insossa das conversas. Além disso, como tratava-se de algo novo para ele, com um nome em inglês, por mais não diretamente interessado que ele estivesse, maiores informações eram necessárias, até mesmo para talvez refutar a coisa toda:

— Tem escola disso, faculdade disso?

A moça da bata bege apertou os lábios brevemente, mas com força o suficiente para que por um instante eles ficassem esbranquiçados, e então falou:

— Então… Eu fiz vários, vários, cursos, sabe? Eu, assim, sou sedenta, sedenta, por conhecimento, ai, minha atividade mental é, ó, — estalando os dedos com as duas mãos — frenética, frenética, então, assim, eu fiz vários cursos… E, assim, eu estou o tempo todo, o tempo todo não, é exagero, claro, mas, eu faço, ó, muitos retiros. Esse ano eu já fiz três retiros. Já se foram mais de seis mil reais, só em retiros. Agora estou no quarto e… Ainda vou fazer um no final do ano também né, gente? Claro. Cla-ro.

— Cursos… — murmurou o velho.

— E assim, muita leitura! — passando as páginas de um enorme tomo imaginário — Nossa, só de autoajuda… Só de autoajuda, hein? Eu li duzentos. Duzentos. Aí, somando com biografias, livros, assim, do lado mais espiritual, né? Dá duzentos e cinquenta. Assim, ler muito é um hábito meu, eu tenho o hábito da leitura. Mas eu sou muito séria, para mim o que importa é o pragmatismo, eu não perco meu tempo não, nunca leio nada, na-da mesmo de, assim, ficção, romance, essas coisas. Eu não quero nada com esses personagens e coisas que nunca aconteceram. Sério. O meu foco é o conhecimento, o conhecimento legítimo… Esses livros, eu construí essa bibliografia conversando com especialistas em várias áreas, experts mesmo, milionários, gente com ph.D, líderes espirituais, líderes empresariais, muita gente da indústria, sabe? Isso porque, assim, eu trabalho com muitos executivos, sabe?, gente de várias, várias, multinacionais… Eu tenho facilidade em lidar com essas pessoas…. Eu tenho isso em mim, sabe?, isso de me conectar com as pessoas, e também isso, de um senso, assim pra negócios, sabe? E é essa questão do… Estilo de vida, né? Eu trabalho no final é com isso, né?, como vocês disseram, estilo de vida. Eu tenho de liderar, fazer a parte de marketing e — quase gritando no e — entregar os resultados, pelo exemplo. Aí, assim, eu tenho facilidade… Empatia. Ah, sim, a parte do marketing, assim, do negócio mesmo, nossa é muito difícil, né? Tem que estar o tempo todo… — aponta com os indicadores para um laudo e depois para o outro — Né?

— Mas, a… Projeção… — a interpelou o Sr. Hidelbrando.

— Ah, claro, né gente? A projeção astral. Assim, não existe isso de ser um life coach genérico, né? Por isso eu me especializei nessa questão, assim, da espiritualidade…. E, assim, convenhamos também que a própria espiritualidade, colocada assim, ai, é também uma coisa muito, muito aberta… É necessária a especialização dentro da especialização, gente. Aí, quando eu conheci a viagem astral, a projeção astral, eu disse, é, tá aí! Esse vai ser o meu nicho.

A graça da moça de bata bege foi então revelada. O nome Flávia Cláudia Buffone brilhava em letras metalizadas no cartão que ela entregou aos presentes. Ao ler, debaixo do nome da mulher, Coach & Projecionista Astral, Pereira começou a se atentar à conversa, permanecendo calado só mesmo porque Hildebrando manifestara a mesma dúvida que lhe acometia:

— Mas… Ahn… Como a senhó- Como você chegou à Projeção Astral? Como se… Como se aprende isso?

— Hoje em dia… Olha, é uma coisa, assim que eu tenho de falar para as pessoas. A projeção astral não é coisa assim, de super-herói, tá?, coisa, ai, de gente dro-ga-da… Hoje em dia existem vários cursos de viagem, de projeção astral, vários livros, DVDs e também, ó, muitos, muitos centros esotéricos trabalhando… Com a viagem astral. Como… Como esse aqui né, gente?

E então Flávia Cláudia levantou os braços e olhou em volta de si de forma artificial e exagerada, apelando para a presença de todos ali, na Associação Transcendental Amalantrah, como um sério indicador que a conversa dela era, afinal, séria. Antes que qualquer consideração pudesse ser feita, retomou:

— Mas, então, gente, o que é a projeção, ou a viagem, astral?

Mas uma pausa dramática, como se um vídeo estivesse sendo gravado e ela fosse inserir, na edição, uma vinheta (música eletrônica misturada com um canto monótono, flautas e tambores) ou um letreiro chamativo naquele intervalo.  O seu pequeno público ficou sem entender aquela demora, mas, como se alguém por detrás de uma câmera digital amadora dissesse “Vai, Flávia!”, Flávia foi:

— Então, gente, a viajem astral, não é nada mais do que o ato de estar conseguindo sair, com o seu corpo energético, do seu corpo físico, só que com consciência, gente, com to-tal, total lucidez! E, assim, uma vez que você sai, pode estar fazendo as suas viagens, ou, assim, qualquer atividade, sabe, nesse sentido…  Estar se desdobrando do próprio corpo… E, gente, não me olhem assim, tá?, porque, assim, sério, gente, todas as pessoas, todas as pessoas se projetam, assim, inconscientemente e sem o controle, sem a lucidez, do projecionista treinado, sabe? Não é assim, uma coisa para pessoas especiais, tá? É uma coisa, é uma habilidade para quem quiser, para quem tiver o com-pro-me-ti-men-to necessário. E, aí vocês perguntam, pra que eu vou tá fazendo a viagem astral, porque eu vou tá projetando, assim, o meu corpo astral, o meu corpo energético, minha alma? Gente, tem infinitas razões, tá?, infinitos porquês. Imagina, essa possibilidade, gente, que possibilidade!, de se desvincilhar — entrelaçando dos dedos das mãos e então os abrindo lentamente, como se fossem pétalas  — ai, de se libertar do corpo físico? Você pode tá visitando seus guais, tá?, seus mentores, você pode tá descobrindo, fazendo uma verdadeira arqueologia pessoal e espiritual, descobrindo coisas muito importantes acerca das suas vidas passadas, e até mesmo alguma coisa sobre a sua missão de vida agora, a missão da sua alma, o que é superinteressante, né?, você pode ainda tá ajudando, assim, no astral, espíritos necessitados, tá?, desencarnados, que precisam de um trabalho, precisam de uma luz ali, né?, você pode tá inclusive viajando, viajando no espaço e no tempo, né?, visitando lugares e fazendo, assim, pesquisas, né?, por exemplo, ai, gente, estudar, imagina?, estudar o Zoroastrismo lá na Pérsia da Antiguidade, conhecer os próprios magi, gente, ai, imagina…

Ao que Sr. Hidelbrando começou a ficar agitado, passando a mão por sobre o lábio superior, alisando o ausente bigode; Pereira anotou “superpoderes” em seu caderninho, fazendo raios infantilóides em volta do escrito, e Olímpia se ateve a, muito lentamente, descruzar e cruzar as pernas, com a mesma naturalidade de um dormente que, ainda bem longe da vigila, troca o ombro sobre o qual dorme.

— Gente, é o instrumento mais poderoso de conhecimento, de crescimento, gente. O mais poderoso, tá? Olha só, gente. Vamos pensar.  O nosso corpo físico, pesado, denso, precisa de muitos cuidados, precisa de comida, e isso, gente, é superimportante também, a gente tem de pensar muito, muito mesmo na nossa dieta, e sono, gente, tá, é essencial dormirmos… Mas, ó, é o corpo físico que precisa desses cuidados… Vocês acham que o nosso corpo energético precisa disso, precisa de dormir? Não, gente, claro que não. E então, que tal estar aproveitando essas seis, sete, oito horas de sono para algo mais? Você pode usar essas horas, projetando sua consciência, para tá aprendendo, para fazer algo realmente, algo prático, útil na sua vida, tá?, é difícil, né?, eu não consigo fazer, assim, tuuudo o que eu quero quando estou acordada, ai, é também um jeito de usar melhor, de tá administrando o seu tempo… Né?

— Mas você, Flávia, já conseguiu isso, viajar no tempo, como é? — Perguntou Pereira, por um instante sinceramente tentando entender a questão.

— Mas, é um desafio gente, eu disse que não é para pessoas especiais, mas assim, em termos, tá?, é pra gente que é guerreira, guerreira. Quem faz projeção astral é guerreiro, tem de ser guerreiro demais, para conseguir dominar a técnica, tá?, tá conseguindo se projetar quando você quiser, onde você estiver, né?, conseguir, assim, tá direcionando a sua viajem, né?, conseguir tá mantendo a sua consciência, a sua lucidez, né?, é difícil atingir, assim, um grau satisfatório dessa técnica… Sabe, conseguir chegar a e manter o mindset necessário e, e depois, seguir naquele flow, sabe?

Ao que Pereira ergueu a mão, como se quisesse repetir a pergunta não respondida, sendo, porém, interrompido por Hidelbrando:

— Também quero fazer uma pergunta!, é… É…  E… E no espaço, você pode fazer uma viagem astral no espaço sideral?

— Ass-

— E! E… E o que você disse, é…. Esse negócio de…  Padrão vibratório?

— Então, gente… Vamos lá, né? Uma coisa de cada vez, né? Ó, sim, a resposta para a primeira pergunta é sim, já consegui, mas foi só uma vez, e, assim, foi muito rápido, muito rápido mesmo, eu fiz minha projeção, né?, eu tava então me projetando, tá?, e aí, gente, eu me vi, assim, andando na rua, em Paris, que assim, é um lugar que eu conheço, né?, que eu conheço Paris, tá?, mas assim gente, olha só, não era a Paris que eu conhecia, tudo parecia assim mais, ai, gente, vintage?, e eis gente, que eu tô Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra, e assim — estala os dedos — assim que eu percebi onde estava, eu perdi o controle da minha projeção, da minha consciência e, gente — jogando a cabeça para trás e virando os olhos artificialmente —, gente, num instante eu estava de volta aqui, sabe?

— Como num sonho? — Pereira perguntou ao mesmo tempo que fingia fazer anotações em sua caderneta, sem levantar os olhos, mas projetando um pouco a voz, um artifício que ele julgava lhe emprestar um ar profissional, o tipo coisa que usava com guitarristas falastrões semi-desconhecidos.

— Sim, um sonho lúcido — subindo tom no , fazendo biquinho —  sabe? Um sonho no qual tudo aparece assim, em alta definição, e você está consciente…

— Ah, então…. —  Pereira olhou para moça, erguendo uma sobrancelha — então o sonho lúcido é a viagem astral?

— Assim, no meu entendimento, assim, sim, por isso que…

Ao que o Sr. Hidelbrando limpou a garganta ruidosamente e disse, estridentemente:

— E no espaço?

— Então, é possível estar sim viajando, pelo astral, no espaço, senhor… É muito difícil, porque conhecer o lugar, tem alguma relação, alguma coisa que, assim, te ligue ao lugar facilita tudo, mas, com muita prática, é sim possível, senhor, estar fazenda uma viagem, assim, no espaço.

Ao que o Sr. Hidelbrando ficou olhando para Flávia Cláudia abobalhado.

— E, bem, é… A questão do padrão vibratório, é a energia que vai fazer com que os seres do astral te enxerguem ou não, eles se comunicam de acordo com a sintonia, se você estiver em baixa frequência vibratória, você vai atrair espíritos baixos, mas, numa frequência vibratória, assim, elevada… No caso do senhor, né?, o senhor estava lá no seu jardinzinho, que deve ser um lugar de muito cuidado do senhor, de muita energia, depois de um dia de vários afazeres, né, de trabalho, e assim, o senhor estava pronto para de deitar, né?, aberto assim para experiências sutis, né?, e assim, o senhor estava lendo, a leitura, a leitura é também uma viagem, né, um ato, assim, mágico, né?, e ai o senhor pode ter elevado o padrão vibratório do senhor, assim, chamando essa criatura…

— Você, você acha ela veio pelo astral?

— Pode sim ter vindo, uma criatura de outro planeta que se projeta no astral, né?, assim, existem várias. Pode muito bem ter sido.

Sr. Hidelbrando, num estado de total maravilhamento, continuou olhando para Flávia Cláudia, agora quase como se ela fosse uma parenta, algo como sobrinha-neta querida.

Pereira, maravilhado por sua vez com a facilidade com a qual os dois encontrara um terreno em comum dentro de suas experiências paranormais, rabiscou “dialetos diferentes da mesma língua” em seu caderninho e, virando a página, mais uma vez de olhos abaixados, perguntou:

— E, ahn, Flávia, você está aqui na Associação para…

— Para fazer um trabalho, né?, de blindagem do corpo astral, assim, blindagem do corpo energético com Mestra Intreza, para que me proteger, né?, nas minhas projeções pelo astral.

— Mas… Assim… Eu não vi isso listado no site

— O que aparece aparece no site é só aquilo oferecido ao público geral, não iniciado…

Aeris, em seu paço soldadesco, reapareceu na sala com uma pasta de couro mole, castanha e bastante surrada, da qual retirou uma duzia de cabos. Antes de começar a testá-los, olhou para os três e, encontrando-os aparentemente relaxados e talvez até mesmo entretidos, sorriu, parecendo então um pouco menos apressada:

— Ah, olha só, que bom, vocês estão se dando bem…

 

*

PEREIRA – X

Apesar da proteção fornecida pelo teto do carrinho de golf  e pela pigmentação escura da íris do moço, a luz do início da tarde fazia com que Pereira mantivesse impressa em sua face uma leve careta.

Mirava os arbustos e as pequenas árvores contorcidas do cerrado, crescendo logo depois dos estreitos canteiros às margens da estradinha asfaltada, onde, semeadas e irrigadas artificialmente, plantas de folhagem mais vistosa do que as de suas parceiras naturais desafiavam a secura do sertão.

À frente, aproximavam-se lentamente os prédios da Associação Transcendental Amalantrah, evocando, com seus desenhos arredondados, um cenário de filme de ficção científica ruim qualquer, no qual o futuro aparece datado. O muro antes visto  na entrada se estendia agora abraçando todo o amplo perímetro da vila, como o de um condomínio fechado.  Em seu caderninho apoiado sobre o joelho, tremendo ligeiramente, Pereira rabiscou cifrões, pensando então o muito óbvio: esse povo é rico.

Por ser acostumado a viver nas áreas centrais de cidades sujas, o ar limpo, ainda que seco e quente, agradava-lhe especialmente, como lhe agradava também o perfume cítrico da motorista, moça que, por seu nariz adunco, coluna aprumada e corpo delgado, tinha algo de ornitoídeo. Mas nada galináceo, bicho ao mesmo tempo abobado e nervoso; uma ave esperta, calma e rápida. De rapina.

A jovem conduzia para a primeira construção depois do portão, referida por ela mesma como Câmara de Descompressão, enquanto ia discorrendo, institucionalmente:

— A Associação foi fundada em 88. Inicialmente funcionava em uma chácara lá em Minas, na cidade de São Thomé das Letras. Essa chácara ainda existe, mas não é mais a sede, é agora uma de nossas várias unidades espalhadas pelo país. Uma de nossas filiais. Em 95 foi adquirido esse espaço, que, além de várias vezes maior, é energeticamente mais potente do que a chácara. O domo foi a primeira construção, servindo para todas as nossas atividades, até que, graças aos Mestres Ancestrais, — expressão que ela usou com a maior naturalidade — fomos crescendo, com mais associados optando por uma experiência mais…. Intensa e mais recompensadora… Até que em 2000 começarmos a construção da vila, para darmos conta de abrigar todos. São quase noventa casas… Ahn, exatamente 92 com as três que ainda estão em construção, ali ó.

A moça tirou rapidamente a mão do volante e apontou para a esquerda. Pereira fez breves anotações, das quais, além dos cifrões, só os números apareciam mais ou menos legíveis. A jovem, depois de uma disfarçada olhadela no caderno do jornalista, continuou:

— Uma grande parte do investimento vem de Mestra Intreza ela mesma, que nunca mediu esforços, sejam eles recursos materiais, sejam suas próprias energias, vitais e psíquicas, para passar adiante os ensinamentos que os Mestres Ancestrais lhe transmitem. Fora isso, existem as contribuições de todos que participam de nossas atividades. Como você, sua revista, por exemplo. É um investimento duplo, você investe em você, em seu crescimento e aprendizagem, e em nós, nesse nosso coletivo. Já os… Os mais avançados nos estudos, que já residem aqui e estão mais preparados, investiram aqui tudo o que tinham, por uma questão muito lógica: a vida deles é aqui. Aqui, e quando for a hora, além. Mas antes, necessariamente, aqui.

— Você é uma dessas pessoas? — Pereira disse fingindo anotar qualquer coisa, cabeça abaixada.

Ao que Aeris — e esse era o nome usado pela moça dentro da Associação, um nome de personagem de videogame, que Pereira bem sabia, mas preferiu não questionar, nem mesmo comentar, simplesmente repetindo, Aeris, quando ela se apresentou ao moço instantes antes, quando abriu o portão — disse, desembaraçada:

— Sim, eu vim para cá em 2010, com a minha mãe. É… Minha mãe conheceu a Mestra no início dos anos noventa. Nós sempre participamos de várias atividades. Várias. Eu desde criança.  Aí, em 2010, quando ficou evidente para nós que algo, algo enorme, estava prestes a acontecer e que… Que seria necessário estarmos preparadas, viemos para cá…

— E deixaram tudo para trás?

— Sim… Deixaram para trás, mas… Eu não diria que era tudo. Deixamos para trás uma vida sem significado.

— Ahn… E o que… O que está prestes acontecer?

— Você é privilegiado Daniel, muito privilegiado — e então a moça, com um ar solene, tirou os olhos da via, que seguia mesmo reta, desacidentada e vazia, e disse, olhando nos olhos de Pereira — A Mestra não só aceitou que você fizesse essa visita e produzisse o seu texto tratando da Associação. Ela também quer tratar pessoalmente com você….

Fala que causou em Pereira uma curiosa sensação de esperança, ainda que indefinida e arrepiada.

Aeris prosseguiu:

— Ainda hoje você vai ter a oportunidade de falar com Mestra Intreza, depois da sua primeira aula. Ela mesma lhe explicará todas essas coisas… 

— …

— Mas… Eu tenho umas explicações mais gerais, vamos só encontrar os outros na Câmara… Para eu não ter de me repetir muito.

Depois de estacionar o carro em uma pequena marginal próxima à construção cilíndrica de teto abobodado, a dita Câmara de Descompressão, Aeris, com seu passo preciso, caminhou em direção da grande porta de ferro da casa, marcado por um curioso padrão ocre ferruginoso.

A moça com seu macacão prateado (como se fosse uma intrépida geóloga prestes a se aproximar de um vulcão em plena erupção), veste que quebrava a luz chapada do início da tarde em vários poliedros aluminados de formas intercambiantes, o grande portão metálico e a construção minimalista, erigida em uma paisagem que, dependendo do enquadramento, parecia-se com um deserto, compuseram um quadro que, por instantes, breves instantes, teve algo de extraordinário.

Imagem que se sustentou até Aeris abrir a porta, revelando um cômodo de piso de ardósia verde escura encerada, mobiliado com uma mesa circular e meia dúzia de cadeiras, tudo branco e de plástico. Em volta dessa mesa, três pessoas conversavam. 

Logo depois de entrar, seguida de perto por Pereira, a moça anunciou o jornalista:

— Pronto, gente, esse é o último. É o Daniel Pereira, que veio nos visitar em nome da revista Palco.

Apresentação que Pereira complementou com um oi muito tímido, um pouco atrapalhado pela súbita mudança na iluminação —  as janelas estavam com as cortinas fechadas e uma lampadazinha débil servia como a única fonte de luz  —  e imediatamente irritado com o odor avinagrado vindo do ar condicionado dali.

— Por favor, sente-se — a moça disse ao jornalista.

Quase na beirada da mesa, havia um projetor ligado a um laptop. Aeris sentou-se diante do computador enquanto Pereira tomou assento do outro lado da mesa, junto com os que ali já estavam: um velho e duas mulheres, uma na casa dos trinta, outra de talvez cinquenta anos.

O senhor falava enquanto as mulheres o escutavam atentamente.

Todo rosto nos parece ter uma expressão que lhe é mais natural do que as outras. Mesmo impassível, toda face, pelo seu próprio desenho, sugere-nos uma careta, essa careta, um estado de espírito. Fulano tem cara de irritado, beltrana de preguiçosa, sicrano de arrogante.

O velho tinha em seu rosto uma permanente caretinha de nojo mal contido — os olhos semicerrados,  as abas das narinas levemente  erguidas —, como se,  surpreendido com algo desagradável, quiçá escatológico, tivesse de manter as aparências. Seu cabelo, todo eriçado, era de um branco amarelado. A pele ainda lisa de suas rosadas bochechas barbeadas contrastava imensamente com as rugas que se cercavam sua boca e olhos e emanavam acima de suas sobrancelhas. Seus dentes eram de um amarelo claro, salpicado de pontinhos pretos nos incisivos inferiores, o que combinava feiamente com o tom acinzentado de suas gengivas amplamente expostas. Suas mãos, pousadas sobre o punho de uma bengala de alumínio de quatro pontas, reluziam sutilmente, sugerindo-se frias e úmidas. Além uma incongruente camisa social toda amassada, o velho vestia calças e jaqueta de treino negras, de material sintético, lembrando a um Fidel Castro glabro.

— É… Ahn… Muitos, não é mesmo?, muitos diriam que a, ahn, a própria forma da figura, a sua própria forma, ahn, antropomóooorfica, não é mesmo?, seria um graaande obstáculo para a ve-ro, verossimilhança de meu relato… — os olhos acompanhando os movimentos de Pereira ao se sentar, tentando em vão arreganhar a boca em um sorriso convidativo — Mas não há nada de verdadeiramente, ahn, literalmente in-crí-vel nessa minha, ahn, nesse meu relato… Porque essa forma — erguendo as mãos, a bengala sobre um dos joelhos — essa nossa forma de cinco pontas, essa forma de estrela, ela não  é uma forma completamente alea… Aleatória, um fruto qualquer de um processo seletivo qualquer, ahn, de seleção natural…

— Design inteligente — murmurou a mulher mais nova, uma moça de cabelos castanhos presos em um coque, trajando uma longa bata indiana bege.  Tinha um pouco de branco demais nos olhos e, inclinada para frente, as mãos espalmadas juntas diante do rosto, quase que como se rezando, mantinha um ar pretensamente reverencial que não conseguia esconder sua, talvez permanente, ansiedade. 

O velho piscou demoradamente e então disse, num gemido agudo e anasalado:

— Não…

Buscou o punho da bengala e, levantando levemente os ombros, retomou sua fala:

— A própria… Não, sem nada necessariamente inteligente… A própria seleção natural, ahn, gera formas… Formas que se repetem… Existem formas que são funcionais, que, portanto, se repetem… Diferentes organismos, seguindo diferentes caminhos evolutivos… Por necessidade… Pela, ahn, interação do seres com a matéria… Chega-se a soluções semelhantes… Ahn, pensemos, ahn, nas formas… No corpo de um tubarão, que é um peixe; no corpo de um de um golfinho, que é um cetáceo e, assim como as baleias, também um mamífero e, ehn, pensemos no corpo de um iqui-ti-o-saaau-ro, ahn, ictiosauro, que foi um um réptil marinho, um réptil…  — e então, demoradamente, o velho, com o indicador (os olhos espremidos seguindo o movimento do dedo em riste), começou a desenhar no ar a silhueta passara a descrever — Comecemos pela cauda, com aquela nadadeira aberta assim, ampla, ahn, depois o corpo, espichado, não é?, mais grosso no meio, as barbatanas, não nos esqueçamos das barbatanas, o ros-, é, o focinho pontudo, assim afunilado…

As duas mulheres observavam atentamente a explicação do senhor. Pereira o escutava e o observava, mas às vezes olhava de relance para Aeris que, entre muxoxos e murmúrios, tentava fazer o projetor funcionar, checando ora a extremidade do cabo ligado à entrada do próprio projetor, ora a extremidade do cabo conectada ao computador. Concentrado em em sua fala, o senhor continuou:

— Então temos — contando os dedos da mão esquerda com a direita, a bengala apoiada na beirada da mesa — peixe, réptil, mamífero —  mostrando três dedos erguidos —  três seres distintos, internamente muito diferentes, mas apresentando, ainda que su-per-fi-ci-al-men-te, o meeesmo desenho, a meeeesma forma. Ahn, evolução… É… Evolução convergente…  Esse é o nome que a ciência dá, evolução convergente… Então… Vejam, é perfeitamente possível. Então não há nada de estranho, nada de inverossímil na forma do ser que me visitou, por ser ele um extraterrestre hominídeo… Essa forma, essa forma nossa, por sua utilidade, sua funcionalidade, pode muito bem se repetir… Essa forma de estrela, torso membros e cabeça… Estrela, microcosmo, pensem… É uma forma muito apta a se desenvolver por aí… Se repetir por aí, nos imeeensos abismos sideraaais…

O senhor virou-se lentamente para Pereira, lembrando-se de que o jovem não estava lá quando ele começara o assunto.

— Fui visitado, sabe? Contatado — segurando a bengala com as duas mãos e a erguendo lentamente para junto do peito — Um nível muito, muuuito profundo de contato.

Pereira tentou manter o semblante o mais sério possível. Aeris disse saindo do cômodo a passadas largas:

— Esse projetor não presta. Ou… Não sei…

Antes de encostar a porta pela qual entrara com Pereira instantes antes, ela disse, quase gritando:

— Volto já, dez minutos. Vocês não terão de esperar mais, só mais um pouco,.

Ao que todos anuíram quase que automaticamente, por interessados na narrativa do senhor de vestes esportivas negras, que prosseguiu, enquanto de lá de fora vinha o som do motor do carrinho de golf  dando partida:

— Eu estava, como que agora, não sabem?, normal, bem sóbrio… Estava lá em minha casa, preparando-me mentalmente para ir dormir, lendo um pouco… Estava lá, na minha cadeira de vime no jardim, sabem? Todo sossegado já, o dia já corrido, passado, tudo feito. É engraçado… Porque será, hein? Haha. Nas estórias as aparições fan-tás-ti-cas sempre se dão assim, não é mesmo? São preeeceeediiidas desses episódios tão esquecíveis, comezinhos… Quem me, ahn, visitou não foi um animal, ah… Agourento, a me lembrar de um amor já impossível, mas… Como no poema, não é mesmo? Não foi um corvo, a memória de águas passadas… Ou, primaveras, ai, primaveras semi-esquecidas… Não. Mas.. Algo novo… Uma personagem…

O velho parou subitamente, mirando Pereira com o caderninho sobre o joelho:

— Algum problema se eu tomar notas? — disse o jornalista, meio acanhado.

— Não, de forma alguma, esse relato é de fato importante, eu não posso, ahn, não posso escondê-lo, não posso ser pudendo com algo de tamanha magnituuude, por mais que, por mais que, diretamente, eu me exponha… Mas, sabe, eu já… Vocês vão ver, é triste, mas é só uma questão de tempo até vocês verem por si mesmos… Eu já me expus tanto nessa vida… Ahn, esperem que vocês verão… Exames, todos os tipos de exames, ser velho muitas vezes é ter o corpo entregue aos médicos… Sr. Hidelbrando, o senhor poderia? E aí vêm todo tipo de pedido, tudo quanto é situação, e então, por qual razão?, pra quê?, pra quê ser pudendo agora? Pode sim tomar notas, meu jovem… É…

— Muito obrigado…

— É, revista, a moça disse agorinha, revista?…

— Palco… — respondeu Pereira coçando nervosamente seu cavanhaquezinho macio,  — É uma revista que trata de… Artes. E… Mas, é… Não só artes, sabe? Artes e estilo de vida.

— Estilo de vida. Unhum. — disse a mulher que até então ficara calada, fazendo em seguida um beicinho que era como um carimbo a validar a sua breve fala, que embora curta revelara um relâmpago de dentes branquíssimos em contraste com seu bronzeado cinematográfico. 

Sentada na extremidade da cadeira, com as duas mãos pousadas placidamente sobre os joelhos, com a coluna ereta e ombros erguidos, ela arqueava uma casaca de hipismo estilizada, de veludo azul-marinho, que casava com os seus culotes brancos justíssimos e com as suas botas de montaria marrons, perfeitamente lustradas.  Sua face um tanto felina —  toda natural, exceto pelas duas covinhas cavadas meticulosamente por um cirurgião plástico que chegara a assinar um termo prometendo nunca revelar tal intervenção —  era emoldurada por um corte de cabelo à la Louise Brooks.  Lançava breves olhares a Pereira, na expectativa de que o jornalista a reconhecesse. Pereira, alheio ao mundo das colunas sociais, não identificou, entretanto, Olímpia Magalhães Errenteria, que além de socialite,  fazia também sua parte na formação no excesso de contingente de advogados, jornalistas, escritores e DJs do país, clamando para si tais mundanos epítetos com certa frequência.

A fala da mulher acalmou Pereira, que acenou com a cabeça concordando, fechando os olhos de forma veemente: ele não queria ser desmascarado, não queria ser visto ali como quem era, o rock journalist chatinho, o esnobe das bandinhas desconhecidas. Era alguém que escreve sobre o quê? Perfeitamente, estilo de vida.

— Palco? Vocês tratam de ópera também? — Hidelbrando desconcentrou-se por instantes.

— Olha, não… Mas é… É uma possibilidade.

— Ah, olha só, eu sou um diletante, quase um leigo… Mas, sabe, já escrevi algumas coisinhas, depois posso lhe mostrar… Mas, sim, estilo de vida —  os braços esticados,  as mãos erguidas abaixo, diante de si, a esquerda sobre a direita, a direita pousada sobre o cabo da bengala, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado — faz sentido, poder-se-iiia falar siiim em um estilo de vida mais propício a aceitar esse tipo de fenômeno, e é claro, indo além, também um estilo de vida novo, que se desenvolve a partir da fruição do fenômeno, do… Do contato.

Pereira rabiscou um pequeno disco voador, escreveu displicentemente em baixo “Contato imediato? Qual grau?”.

Tentando manter um semblante profissional, empunhando a caneta, mirou os olhos do velho, como quem diz, estou pronto:

— Sim…

— Mas, bem, onde eu?… Sim, ah, sim… Estava eu então no meu quintal, não é?, preparaaando-me para em instantes ir dormir, entreeegar-me aos braços de Mooor-feu, não é?, quando acooon-te-ceu. Sim. Tudo começou com uma súbita luz, dourada, que me banhou todo, até me trespassou, eu diria, surgindo acima de mim, sem som nenhum, odor nenhum, nada, só essa luz. Não digo que me paralisou, mas foi quase, foi quase… No que veio a luz fiquei incapaz de me mover normalmente. Era… Era como se o ar tivesse se transformado em um meio muito mais denso, como se ca-da mo-vi-men-to fosse muito mais difícil, mais arrastado, do que o normal… Assim, limitado, olhei para cima, para de onde vinha a luz… Eis que do alto, no meio mesmo da luz, havia um ponto negro, um objeto, que de início era só um pontinho, só um pontiiinho que leeentameeente foi crescendo, tomando forma, desceeendo… — o velho então voltou a deixar a bengala de alumínio cair sobre os joelhos e olhou para o alto, para o teto do cômodo, como se de fato pudesse divisar ali a luz e o corpo que por ela descia — E daí vi uma silhueta, negra contra a luz, silhueta na forma da qual falava antes… Uma forma humanoide, com cabeça, torso e membros… Não caia, entendem? Não acelerava. Essa figura vinha em minha direção, abaixava-se numa velocidade constante, leeenta… Como se a descessem amarrada a uma corda… Corda invisível… E nisso o tempo se estendeu, não sabem? Eu não poderia dizer com certeza o quão demorado foi isso… É tão incrível, não é? Quando essas coisas espetaculares acontecem a nossa reação não é nada parecida com aquela que imaginamos que teríamos… Ah, eu tenho todo tipo de equipamento lá em casa, eu sou um sujeito up to date…  — projetando perdigotos — Eu tenho câmeras ótimas, equipamento de primeira mesmo, sabem? Mas não gravei nada, não é mesmo? Nada além do que ficou aqui… — apontando para a cabeça — Não só aqui, na verdade…

O velho ficou por instantes com os olhos fechados. Por um breve momento a sua distintiva careta se desfez e viu-se em seu rosto um sorriso, como se tivesse sido contemplado com uma graça fugaz.

— E então, pela luz, ungida pela luz dourada, de ponta a cabeça, a cabeça dela vindo como que de encontro a minha, os braços esticados gentilmente em minha direção, veio descendo a cria-tu-ra, ah, nua, nua, alienígena, mas hominídea, antropomórfica,  feminina, feminina, sabem? De silhueta, contorno, feminino, compreendem? Um corpo, assim, esguio, mas não es-quá-li-do, sabem? Mas, pequeno, pequeno, eu diria… Quando se aproximou mais, eu pude ver… Um metro e quarenta… Careca, careca mesmo, sem quaisquer pelos, a pele lisa, quase translúcida, várias veias assim reveladas, visíveis, sombras dos ossos debaixo da carne, manchas escuras indicando os órgãos… A cabeça, tão bela, tão altiva, graaande, ovalada…

Ao que a mulher da bata bege se empinou toda e arregalou os olhos em espanto, a socialite bronzeada sorriu tranquilamente, como se aquilo tudo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto Pereira se conteve para não soltar um muito modulado e sonoro:

— Nuuuooooossa —, restringindo-se a rabiscar em seu caderninho: quinto grau, será?.

Os olhos — prosseguiu o velho — e aqueles olhos, amendoados e enormes, enormes, muito negros, todos negros, todos pupila, estáticos, completamente estáticos… Ah, quando eu vi a-que-les ooolhos… Era como se, sem nenhuma, nenhuma palavra, num silêncio… Um silêncio que só não era silêncio porque havia um leve zumbindo, sabem? Um si-bi-lo contínuuuooo, extremamente agradável… Um zuuumbido divino. Exceto por isso, silêncio, silêncio. Não existiam palavras. Neeem em miiinha mente… Acho que nem em minha mente se formaram então palavras. E nesse silêncio, aqueles olhos… — levantou as duas mãos para cima, espalmadas, os polegares próximos de si, separados pelas imaginárias e minúsculas narinas do alienígena, os mindinhos apontando para cima, as mãos assim marcando onde estariam os descomunais olhos do ser sidérico; o cabo de sua bengala, solto, foi então de encontro à beira da mesa, golpeou-a de levinho e deslizou para a direita, não caindo o instrumento porque ficou encostado na perna do velho, feito um falo falso, metálico, erguendo-se na diagonal — Aqueles olhos se comunicaram comigo, conheceram-me, realmente conheceram-me, perguntaram-me coisas, coisas que eu respondi com o maior prazer, a, ahn, com a maiooor entrega, tudo por meio de imagens, sim, apenas imagens, imagens que eu ia revisitando, abrindo em minha memória e transmitindo àqueles olhos… Momentos de minha vida que ia buscando, reconstruindo, embalando de prazer… Como se meu prazer fosse uma grande folha de papel dourado que eu pudesse cortar e com ela embalar essas imagens, esses instantâneos que com um pouquinho de força, quase que força nenhuma, quase que só uma confirmação de que sim, aquilo era pra aquela criatura miraculosa, aquilo era o que ela queria, eram as respostas para as perguntas informuladas dela… E ela também, por sua vez, compreendem?, foram me enviadas mensagens por meio de imagens… Abismos siderais, um comboio de naves errando por céus distantes, céus frios, céus desolados, as astronaves transportando seres de uma existência em parte orgânica, como nós, e em parte sintética, como já estamos também nos tornando… Seeeres mais antigooos do que nós, mas, parecidos, in-cri-vel-meeen-te, parecidos, não é mesmo? Foi só aí, realmente, que ficou evidente para mim a natureza realmente alienígena de minha visitante, compreendem?… Até então, mesmo eu sendo um homem prático, técnico, afeito às ciências, até então eu considerava seriamente minha visitante como, ahn, diii-viii-na… Mas, por meio daquele delicioso cinema mudo telepático ela me revelou ser um ser, apesar de sideral, profano, suscetível aos sortilégios da mooorte, assim como nós… Da morte… E do amor.

— Que incrível… — a moça da bata bege.

— O mais incrível, na rea-li-da-de veio depois, depois desse nosso, ahn, digo jooocosamente, mas com muito respeito… —  olhos fechados, levando a mão em pinça ao início do nariz, no meio dos olhos, onde se apoiariam os óculos  — Depois desse nosso primeiro contato, no qual nós nos conhecemos muito, muito mais rápido do que se conhecem os… Os jovens, éhn, de agora, na eeera da infooormação, não é mesmo? Foi exatamente depois dessa nossa primeira conversa que se deu o mais digno de nota, o que pode nos espantar, abiiismar verdadeiramente, mas, que, li-te-ral-men-te — dedinho indicador em riste — literalmente nada tem de incrível…

— Claaaro… — mais uma vez, a moça de bata bege, agora passando a mão pela testa nervosamente. A morena continou com um sorriso de catálogo de imagens, Pereira sublinhou duas vezes o escrito quinto grau, na expectativa do clímax do causo.

O homem então inclinou a cabeça para baixo, lentamente, como se fosse colocar a testa contra a mesa. Movimentou-se, antes fechando os olhos, de forma tão lenta, tão harmoniosa, que Pereira pensou talvez o velho, com sua face escondida por abaixada, talvez tivesse conseguido momentaneamente sorrir de verdade mais uma vez.

Voltando a erguer a vista, olhando para o teto, com os braços como que se tentando mover acima de si um pesado cobertor, o velho continuou, agora às vezes esganiçando num falsete estranhíssimo:

— E então veio, veio sim, ah, veio. Ó, aqueles dedos alongados, ó, se prolongando, o que era aquilo?, ó, ela veio, se aproximando de mim, os dedos, alooongados, me tocaram, tocaram o topo, o próooprio topo da minha cabeça, e aí, ó!, algo, eu não digo sobrenatural, mas, ó, algo fantástico, ó, fantástico, ainda que tecnologicamente fantástico, aconteceu, é!, o topo da minha cabeça se efervesceu por completo, efervesceu, e era como se estivesse lá, em uma brasa prazerosa, e como se então também não estivesse, como em sono, mas também um sono de gozo; imagino que aquela criatura celeste, ai, estelar, estivesse vibrando em frequências, frequências especiais, sutilíssimas, por meio das quais ela podia, não, dois corpos não podem permanecer no mesmo espaço ao mesmo tempo, claro, mas ela podia, vibrando, vibrado, efervescer, tomar meu couro cabeludo e então, ó, ir tocando, sem me ferir, sem tirar nada do lugar, ir descendo, tocando meu crânio, trespassando pacificamente meu crânio, ó, afundando aqueles prooolooongados dedos — enquanto agora esfregava os próprios dedos e se mexia na cadeira — ó, aqueles dedos então afundando, ai, no meu cérebro, dois dedos, dois dedos feito uma pinça, uma pinça assim aberta, um compasso, ai, o compasso do criador, ai que blasfêmia, e vão afundando aqueles dois dedos, afundando sensualmente, vibrando, até tocarem minhas amidilas ce-re-be-looo-sas, ai, causando em mim, ai, como eu diria?, aaah…

Tapando o rosto com as mãos espalmadas, a voz ao mesmo tempo empostada e embargada:

— O céu de azul aceso num lampejo, tropel vitorioso a festejar, abismo de vertigens mil a enflorar, translúcido ardor do amor que almejo, uma dança com um demônio benfazejo, nasce o sol do céu e mar a encontrar, são fogos e champanhas a estourar, enfim beijo o bom anjo do desejo, o frêmito incrível, deuses líquidos, e o súbito cessar de todos os ruídos… Que… Que morno me descobre tão lânguido, no rol dos, oh!, felizes incluído, agora, nada límpido, mas plácido, profano, sou… Em carne revivido!

Ao que as mãos do velho desceram, revelando seu lábio inferior trêmulo, seus olhos marejados. Levantou-se apenas o suficiente para conseguir retirar um lenço do bolso de trás da calça e, fungando muito, prosseguiu:

—  Ai, vão dizer aí que homem não chora, não é mesmo? Mas… Vocês me dão essa licença, poé-

— Não, não, mas é claro, o senhor tem de… — não conclui a moça da bata bege.

— Ô, meu caro… — Pereira, vacilante — O senhor tem mesmo de…

— Muita emoção. É muita emoção, gente — disse Olímpia com sinceridade.

— Ai, sim, emoção demais. Imaginem? Ai, me esquentei mesmo. Dando até um breve circulaçãozinha lá embaixo, onde eu já ando há muito, ahn, desfalecido mesmo…. E no que foi tirando eu fui tremendo todo, sentindo aquele efervescência diminuindo, ai, aquela coisa fantástica.

Sorriu pela última vez seu raro sorriso?

Antes que alguém fizesse que ia falar, retornando à caretinha usual, quase gemendo:

— Mas… Da mesma forma repentina como veio até a mim, ela… Ela se foi… Não é mesmo? Entre nos dois abismos, abismos —  os olhos baixados, a vista deslizando pelo chão —  Nunca mais fui contatado, com nada… Uma… Uma imagem… Sequer… E, bem, ai, por isso, por isso cá estou, não sabem? Acredito que aqui, aqui vou conseguir entender como… Como fazer contato, poder, sentir…. Sentir mais uma vez.

*

 

ISABELA – 24

(Algo que eu talvez incorpore à Lúcia de Esdrúxulo e Lúgubre)

— Quem é você? Não, é sério. É preciso saber. Quem são seus vários eus? O seu eu que tem preguiça de lavar louça, esse preguiçosinho inocente, não é o seu mesmo eu, tirânico, que se imagina no gozo de privilégios?… Eu ia adjetivar, infundados, indevidos, mas, ahn: privilégios, ponto.

Segunda nota sobre Esdrúxulo e Lúgubre

Apesar das constantes atribulações, continuamos (trata-se do plural majestático, é claro, essa é uma operação de uma só pessoa) cometendo o que eventualmente há de ser uma novela ou um romance, por enquanto com o nome de trabalho de Esdrúxulo e Lúgubre (o nome definitivo teremos só ao final). Os interessados em ir acompanhando o progresso da escrita, muito por favor, atentem-se à seguinte ordem de posts:

1. Incigaz e Zandroso – I
2. Pereira – VII
3. Pereira – VIII

Pereira – VIII

 

*

Pereira, quase que só por educação, fez mais algumas perguntas (vagas, bobas) para Luciano, sem se demorar muito mais no escritório do arquiteto. Despediram-se amistosamente, prometendo um reencontro em breve. Luciano traria algumas fotografias e fitas, Pereira daria notícia de sua tentativa de entrar em contato com Cármen. 

O moço voltou para seu apartamento como viera, a pé, agora em meio a centenas de pessoas retornando de seus trabalhos. Caminhando, reafirmava para si quão sem graça fora a entrevista, o quão afastados de suas recém-criadas expectativas estavam os membros da Olho Pineal dos quais se aproximara. Luciano, apesar de muito agradável, pareceu-lhe insosso demais, para não dizer careta, além de afastado da música; enquanto Cármen — não Cármen ela mesma, naturalmente, que continuava desconhecida, mas a Cármen fornecida pela entrevista com Luciano — excêntrica demais, para não dizer doida, e, também, afastada da música.

Antes de subir para seu retiro apertado, Pereira comprou em um supermercado próximo de seu prédio — muito e cheio, forçando-o a se mover muito mais devagar do que gostaria — duas latas de cerveja e uma pizza (de calabresa) congelada, produtos forneceram um pouco mais de matéria orgânica morta às bactérias de seu teclado.

Durante toda a vinda, a tela do monitor de Luciano lampejava na memória de Pereira. Ele tinha de rever o site da A.T.A.. Encontrou-o com facilidade. Lá estava, entre os primeiros resultados da busca, simplório, numa apresentação típica da década de noventa, com uma fotografia do grande domo branco, brilhando ao sol, a receber os visitantes. O seguinte texto aparecia sob o título Que somos nós?:

Associação Transcendental Amalantrah (A.T.A) é um grupo de pessoas dedicadas ao estudo e prática de uma imensa variedade de artes e técnicas destinadas ao engrandecimento do ser humano. Com uma abordagem multidisciplinar para os grandes problemas existenciais, a A.T.A. faculta a todos os interessados em alterar sua visão de mundo a oportunidade de abraçar um estilo de vido pleno de realizações. A partir de uma doutrina que une harmonicamente a ciência, a filosofia e a religião, a A.T.A. buscar levar o indivíduo até à sua manifestação máxima.

Oferecemos uma série de tratamentos e serviços para os sofrimentos da existência (incluindo problemas financeiros) além de promovermos cursos, oficinas e palestras tratando dos temas que nos são caros, tais como A Tradição Hermética, os Chakras e a energia vital, o Karma e as reencarnações, a existência de capacidades extrassensoriais e contato com seres intra e extraterrestres.

Venha já nos visitar e fazer parte dessa luminosa corrente.

A redação, de início vaga e repetitiva, culminando subitamente em poderes paranormais e promessa de comércio com seres subterrâneos e alienígenas causou um leve espanto em Pereira, reforçando a narrativa de Luciano de que Cármen havia se transformado em uma pessoa totalmente dedicada ao sobrenatural. Desnecessária confirmação podia ser encontrada na seção chamada A Mestra:

Os trabalhos desenvolvidos na Associação Transcendental Amalantrah se dão sob a orientação espiritual de Mestra Intreza.

Abaixo listamos os mais importantes títulos e graduações de nossa Mestra:

Mestra Desperta, Conduto Imediato com os Mestres Ancestrais
Formada em História pela USP
Phd em Arqueologia Alternativa pela Miskatonic University
Formada em Terapia Orgônica Avançada
Formada em Imposição de Mãos (escola oriental e ocidental)
Formada em Astrologia Suméria
Shihan (7ª dan) de Kureijigachou-Ryu Kiai-Jutsu
Iniciada no Xamanismo por Mestre Piaga Potoca
Formada em Tarologia pelo Gébelin Institut

Perguntando-se o que seria um Conduto Imediato e quem seriam os Mestres Ancestrais, Pereira correu os olhos pelo sintético currículo, decepcionado por não encontrar ali nenhuma menção àquilo que ele reputava como o grande feito de Cármen, o que ela deveria fazer constar ali, necessariamente, na seguinte ordem: compositora, vocalista e guitarrista da banda Olho Pineal.

Murmurando — não, não, não pode — Pereira continuou clicando pelo site, até encontrar a seguinte lista sob a rubrica Cursos, Palestras, Tratamentos e Serviços:

Cursos:
Meditando com cristais
Meditando com os quarks
O corpo sutil e frequências energéticas
Autodefesa psíquica
Introdução à Magia Cerimonial
Introdução à Viagem Astral
Introdução à Cabala Gnóstica
Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios

Palestras:
Os Extraterrestres Crísticos / Os Extraterrestres Luciferinos
O Fluido Cósmico Universal
Paleocontato e ufoarqueologia
Os Princípios Herméticos

Tratamentos e Serviços:
Equilíbrio dos Chakras pela Cromoterapia e Cromopuntura
Cura por meio da imposição de mãos
Cristaloterapia holística
Orientação profissional, financeira, amorosa e espiritual pelo Tarot
Numerologia aplicada à Contabilidade

Desse curioso rol, Pereira pulou para a página com a galeria de fotografias, já vista no escritório de Luciano. Correu os olhos por várias imagens do domo, externas e internas (o interior do prédio sendo uma coisa retrofuturista com decoração de loja de artigos esotéricos), e da vila de pequenas casas, cilíndricas e de teto convexo, afastadas da nave de concreto, construídas ao redor de uma praça com uma estrutura geodésica enorme no centro.

Uma das legendas dizia que naquelas casas viviam pessoas que, e a redação era exatamente essa, tiveram uma revelação de ordem metafísica e decidiram se dedicar integralmente à obra de suas próprias ascensões. Pereira ficou sinceramente incomodado com essa informação, solta assim, na legenda de uma fotografia, correndo o risco de passar batida. Como dissera Luciano, a A.T.A. parecia realmente ser uma seita. Pereira queria contatar Cármen mesmo assim.

Ele deu mais uma olhada, displicente, no site e depois de alguns minutos parado, mirando a fotografia inicial do domo, murmurou para si mesmo:

— É… Hoje, só amanhã.

Decidiu dar o expediente por encerrado, se é que podemos falar de expediente em se tratando de Pereira, e foi encontrar com conhecidos e amigos em um bar na Augusta.

No dia seguinte, no início da tarde, assim que acordou, ressaqueado, Pereira foi procurar por Dinho Motta, um dos editores da revista Palco. Pereira era um colaborador frequente do periódico e tinha um bom relacionamento com Dinho, que no ano passado havia lhe enviado para cobrir um festival na Espanha.

Sob a garoa — chuva de molhar bobo, como diria Pereira imitando suas parentas do interior — curtindo uma leve dor de cabeça, ele caminhou até o prédio no qual a redação da Palco funcionava. A informalidade de fazer uma visita sem antes marcar um horário não chegou a prejudicar Pereira, que teve apenas de esperar um pouco (propositalmente em pé, encostado no parapeito de uma janela) enquanto Dinho terminava uma conversa com aquele que Pereira sabia ser  a sua orientanda de mestrado.

Ao contrário de Pereira, que tratava exclusivamente, dolorosamente, de rock, Dinho cobria com naturalidade e gosto quase todos os gêneros musicais, com conhecimento e sensibilidade suficientes para abarcar também a música erudita. Escrevia fazendo tantas referências pertinentes e chegando a tantas conclusões válidas (projetando-se para fora do universo da música) que gerava em Pereira a impressão de uma eloquência imensamente livre, como se aquele careca rechonchudo pudesse escrever, com leveza, sobre quase qualquer coisa, dando uma dignidade ao ofício que Pereira julgava ser, pelo menos para ele, ainda inatingível.

Quando Larissa, esse era o nome mestranda, depois de guardar seus papéis e livros em uma grande pasta de plástico, indo embora, levantou-se, Pereira abriu a porta de vidro da saleta de Dinho, segurando-a para a moça, que lhe dirigiu um muito rápido olhar de desdém. Pereira, que pretendia dizer-lhe qualquer coisa, simplesmente para se sentir parte de um grupo de pessoas supostamente interessantes cujo centro seria Dinho, desanimado com essa tênue comunicação, sorriu-lhe um sorriso dourado de tão amarelo, então envergonhadamente consciente de suas roupas coladas ao corpo por molhadas e do seu moptop normalmente meio eriçado agora deformado, com uma franjinha grudenta a ornar a sua esta.

Com um ar protocolar, Dinho se levantou para apertar a mão de Pereira e, por gestos, oferecer-lhe assento. Retornado à sua mesa prazerosamente organizada, educadíssimo, como de costume, Dinho recebeu Pereira:

— E aí, meu caro, o que você conta?

— Tudo bem, Dinho. De boa. E você, cara?

Ao que Dinho deu um leve sorriso e disse cerrando os olhos e balançando levemente a cabeça:

— Não tenho do que reclamar.

— Ótimo, cara, ótimo. Eu queria te perguntar…

— Diga…

— Olho Pineal, cê fraga?

Dinho riu internamente do fraga e acenando agora positivamente, disse:

— Vi no seu blog a resenha. Mas não conheço. Nunca ouvi falar.

Pereira tirou do bolso o pendrive com os arquivos que continham as canções de Quimeras e Tetragrammaton e o ergueu cerimoniosamente à frente de seu rosto, quase como um padre segurando a hóstia sagrada. Dinho estendeu a mão e recebeu o dispositivo de Pereira, espetando-o em seu computador logo em seguida.

O editor colou Quimeras para tocar. Escutou Hecáte impassível, fazendo com que Pereira, nervosíssimo, sentisse nu diante de seu superior. Depois do final da canção, passando a mão pela ampla careca, parou a reprodução e disse, num tom de voz esmaecido:

— Meu caro… Daniel, mas… Mas isso é diluição… E… Nem bem-feito é.

— Cara, você tem de… Tem de escutar com mais atenção.

— …— Sem lhe responder, Dinho fez com que a música continuasse. Ia escutando a introdução de cada canção, pulando para mais para frente, quando surgia o vocal, e então para o final de cada faixa. Dessa maneira, passou por todo o álbum em menos de quinze minutos.

— Dinho, não, cara… É um álbum conceitual, você tem de escutar tudo, as músicas inteiras. Cara, tem valor, isso tem valor.

— Olha, Pereira, eu te entendo muito bem, te entendo perfeitamente. Você gostou dessa banda. Agora você tem de entender também que às vezes nós gostamos de algumas coisas por motivos completamente pessoais… Eu não escutei nada aqui, meu caro. Eu não preciso escutar tudo para fazer um juízo de valor. Eu consigo, a maior parte dos críticos bem treinados consegue, não é um privilégio meu, ter uma visão do todo pela parte. E, meu caro… É só diluição, mesmo. E é mal tocado e mal gravado… E, essas letras, Daniel, que coisa pretensiosa…

— …

— Sério, Pereira. Existem os inventores, os mestres e os diluidores. E esses caras são meros diluidores. De quinta categoria, Pereira. Quinta. Existem diluidores ótimos, necessários, que tornam as coisas mais acessíveis para o público geral. E, cara, não é o caso. Não é o caso.

— Eu discordo, eles são únicos, Dinho, sério mesmo, únicos…

— E… Eu posso estar errado. Mas esses caras me parecem, ahn… Irrelevantes. Em todos os aspectos. Você fala lá na sua resenha que são tributários do Jefferson Airplane. Pereira, eu não preciso te dizer isso, você sabe muito bem, J.A. foi uma das bandas mais engajadas da época deles, umas das bandas mais engajadas do rock. Esses aqui são uns chapadões apolíticos. E não no apolítico no sentido de, você sabe, anarquista, que se fosse assim estaria tudo bem, mas no sentido de, ahn, alienados mesmo. Não tem comparação, meu caro. Não há relação.

— …

— Daniel, eu posso até te prometer que vou escutar com mais atenção — Dinho disse copiando os arquivos para seu disco rígido.

— …

De olho na barra de progresso da operação ele disse, mantendo a mesma voz arrastada — Mas qual é a ideia? Você quer publicar aquela resenha do Noise é Nóis aqui na Palco?

— Não, cara, não… Eu queria fazer um perfil… Ahn, recuperar, ahn, resgatar… Eu queria fazer um perfil da Cármen Valente, que foi a bandleader deles, saca? Vocal, guitarra, composição, saca? Era tudo dela. Queria… Ahn, quero fazer um perfil dela. Eu já conversei com o Luciano Rizla, que era o baixista… E agora eu queria falar com ela…

— Ah…— fez Dinho com uma expressão de quem pede desculpas estampada no rosto.

— Não vai rolar, né?

— Eu não vejo razão… Mas, eu também não quero te podar, meu caro… Por qual motivo você precisa da Palco para ir ter com ela? Você pode publicar esse perfil no Noise é Nóis. Talvez eu possa te ajudar, fazer uns telefonemas, qual é a questão?

— Ah, é só que ela mora perto de Brasília e… Eu não tenho a grana para chegar lá, cara.

— Ah, entendi. Hmmm… Onde ela mora, exatamente? — questionou o editor, ajeitando seus óculos retangulares.

— Bem, tem isso… — e aí Pereira deu um longo suspiro — Ela mora numa… É tipo… Uma, ahn, comunidade mística…

Ao que Dinho fez sons desarticulados com a garganta e o nariz à guisa de risada:

— Comunidade, você disse, mística?

Pereira tentou disfarçar sua falta de paciência. Ele não queria tratar desse assunto:

— É. É um treco muito paia. Ao mesmo tempo, faz sentido. Escutando… Ahn, isso é, se você escutar os dois discos vai perceber que o misticismo, o sobrenatural, são temas caros à Cármen. De acordo com o Luciano, com o qual eu conversei ontem, ela deu… Deu uma pirada e… Passou a viver disso, nessa pira. De ser a líder de um grupo místico. Eu não entendi direito, tem todo tipo de parada new age lá, mas parece que eles fritam muito numa onda transcendental que inclui extraterrestres. Ah, intraterrestres também.

Dinho gargalhou alto, levando a mão à face, levantando os óculos e espremendo de leve os olhos:

— Extraterrestres? Intraterrestres? Será que eles tem alguma ligação com os reptilianos?

O editor deu outra gargalhada, Pereira permaneceu sem graça:

— Eu sei lá, Dinho…

— Mas… Ahn, ai… Ai… Foi esse Luciano quem te disse isso?

— É, mas, bem, eles tem um site. Procura aí, Associação Transcendental Ala… Não… Amalantrah, com no final.

— Associação Transcendental A-ma-lan… Aha!, deu aqui.

— …

Diante de um Pereira visivelmente incomodado, Dinho foi passando o olho pelo site com deleite, soltando uma série de breves interjeições, rindo infantilmente e balançando-se, de levinho, para frente e para trás, com uma ansiedade alegre. Ao fim, estapeou a coxa e disse, debochadamente:

— Pois bem, Sr. Daniel Pereira, ainda que parcialmente, defiro seu pedido.

— Oi?

— Está certo, é mesmo uma boa ideia, é uma boa pauta — Dinho disse sorrindo moderadamente, ainda olhando para o seu monitor. A banda… Não. Mas isso aqui, isso aqui é alguma coisa.

— …

O editor, com um rápido movimento do pé direito contra o chão, fez sua cadeira girar, colocando-se então diante de Pereira. Bateu de levinho as duas mãos contra o s joelhos e olhou nos do moço:

— O que você acha? Escute essa proposta! Estamos agora desenvolvendo a ideia de ampliar o escopo da revista, você sabe… Tratar de mais temas, além de música, teatro e cinema, escrever também crítica de costumes. Nossa, que arcaico isso… É… — Dinho coçou a nuca — Tratar de estilo de vida, sabe? Comportamento. E… Não acho que você escreva mal, Pereira. Acho que pode ser bom para você. O que você acha?

Pereira coçou seu bigodinho ralo, abaixou a cabeça e voltou a olhar para Dinho:

— Não entendi… Eu…

— Você faria uma matéria sobre essas pessoas, sobre esse lugar. Uma coisa maior, extensa mesmo, como se fosse um perfil, sabe? Ahn, nós te colocamos num desses cursos, para você ter uma experiência o mais próxima possível da pessoa que vai lá participar das atividades deles… E bem, você pode tentar uma escrita mais pessoal talvez, fazer algo como um diário…

— Uma coisa meio, ahn, New Jornalism?

— É, exatamente, é bem por aí. Você seria um Hunter S. Thompson um pouco mais careta, ou pelo menos não tão… Porra-louca… Um Tom Wolfe…

— Mal vestido?

— Haha! Não. Bem, não… Você… Você entendeu. É uma ótima. Não é uma ótima? Você pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, escrever contando para o público da Palco a sua experiência na Associação Transcendental Amalantrah e, uma vez lá, entrevistar a Cármen para o seu blog.

Era mesmo um ótima, Pereira reconheceu. Não quis soar ingrato:

— Cara, siiim, siiiim, uma ótima.

— Chegue aqui, meu caro, por favor, vamos dar uma olhada nisso aqui — disse Dinho se colocando mais uma vez diante de sua tela, retornando à página do site da A.T.A. que listava os cursos ministrados na sede da associação — O que disso aqui você acha interessante? É para fazer mesmo, ou pelo menos tentar fazer… Para você ter material para umas seis mil, oito mil palavras… Algo nesse patamar…

O rapaz se levantou e foi até Dinho. Diante dos dois estavam os nomes dos cursos que Pereira vira no dia anterior. Nada lhe parecia realmente cativante, com a exceção do curso de Tarot, que lhe lhe interessava, ainda que  vagamente. Lembrando-se de um professor, de quando ainda frequentava as aulas na faculdade de Psicologia, falando de alguma conexão entre a obra de Jung e o Tarot, de como vários arquétipos trabalhados pelo alemão estariam presentes nas imagens que estampam as cartas, Pereira apontou para a tela do monitor:

— Acho que… Acho que esse aqui, Dinho…

O jornalista mais velho leu o nome do curso numa exclamação brincalhona, pronunciando acertadamente a palavra francesa:

Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios.

— Exatamente…

— Você sabe o que vem a ser um grimoire?

— É um grimório, um livro de magia — disse Pereira lembrando-se das tardes passadas jogando RPG. 

— Pô, meu caro, você está por dentro dessas coisas místicas, hein?

— Nada, sô…

— Quanto custa isso? Investimento, que coisa mais fuleira, chama preço de investimento… Salgado, bem salgado. Estão fazendo dinheiro os seus místicos viu, meu caro? Mas, ó, sem problemas, está dentro do orçamento… Sem problemas. Vamos, vamos ligar para lá — disse então Dinho, levando a mão ao telefone.

Quando a ligação completou, Dinho começou a escutar a gravação de espera, um cântico xamânico sustentado por batidas eletrônicas. O texto de apresentação,  o do site, foi lido pausadamente por uma voz masculina. Logo depois da expressão “manifestação máxima”, Dinho escutou o barulho do fone sendo tirado do gancho, um sútil chiado, e então uma voz de bom moço, que seguiu emendando uma pergunta atrás da outra:

— Oi, tudo bom? Meu nome é Incigaz, tudo bom? Como você se chama?

— Boa tarde. Tudo ótimo, Inci-

— In-ci-gaz

— Incigaz. Sim, meu caro, tudo ótimo. Meu nome é Dinho Motta. Eu… Eu falo aí na Associação Transcedental Ala-

— Ama-lan-trah. Sim, senhor. Bom dia, Sr. Dinho, como vai o senhor? Que lindo, não, senhor? Esse momento, esse encontro, essas possibilidades que se abrem agora, não é, senhor? O senhor quer aprender, senhor? Descobrir-se, senhor? Encantar-se mais uma vez com a vida e com quem o senhor é, senhor?

*

Depois de vários e extensos salamaleques, ficou então combinado entre Dinho e Incigaz que Pereira, a serviço da Palco, iria passar cinco dias na sede da A.T.A, pernoitando na vila inclusive, para fazer o curso de Tarot, participar de sessões de meditações com cristais, assistir uma palestra tratando do Princípios Herméticos e uma outra a respeito de alienígenas presentes em nosso passado e entrevistar Cármen Valente, agora Mestra Intreza, tudo com o objetivo de escrever uma matéria extensa apresentando a Associação aos leitores da revista.

Dinho ficou verdadeiramente irritado com a efusividade dos agradecimentos de Pereira, que só faltou chorar de alegria e beijá-lo. Tinha uma série de conselhos para o moço, a maior parte consistindo em dicas de redação (dentre os quais incluía não adotar pontos de vistas por demais particulares, correndo o risco de escrever para o próprio umbigo), mas os abandonou todos diante da alegre verborragia de Pereira, temendo que ele ficasse ali sonhando em voz alta pelo resto da tarde.

Uma vez fora da redação da Palco, Pereira, extremamente aéreo, de tão feliz, perdeu totalmente o seu (parco) senso de praticidade, descuidando do fato de que, em razão da viagem, além dos preparativos indispensáveis (fazer as malas, comprar passagens, decidir como iria de Brasília até Formosa e então à sede da A.T.A.), teria de adiantar alguns trabalhos cujos prazos de entrega, antes distantes, tornaram-se próximos por conta dessa nova tarefa. Siderado, passou o final da tarde da mesma forma que antes descobrira Olho Pineal, passeando, lentamente, por livrarias, lojas de disco e sebos. Findou a prospecção num bar e só chegou em casa muito mais tarde, chumbado.

No dia seguinte, começou a se preparar para a viagem após acordar, aristocraticamente, lá pelo meio dia. Quanto à mala, passou mais tempo, primeiro, ponderando sobre os riscos de portar maconha em um voo (ainda que nacional) e, depois, manufaturando baseados com papel branco e filtro, quase idênticos a cigarros normais, do que efetivamente preparando a bagagem. Já no que se refere ao deslocamento até à Associação, optou por agendar um táxi, desconsiderando a sugestão de Dinho de alugar um carro e dirigir (Pereira, por livre escolha, nunca trocaria o olhar perdido do passageiro pela atenção do motorista). Resolvidas essas questões (que, atipicamente, não deixou para última hora), comprou comida (agora de verdade) para três dias, tempo que passou sem sair de casa, colocando o trabalho em dia e estudando tanto como iria escrever o texto para a revista quanto quais seriam as perguntas a respeito de Olho Pineal  que faria à Cármen, se ainda existisse algo da artista Cármen nessa estranha  religiosa Mestra Intreza.

O tempo passou velozmente (fazendo, inclusive, Pereira considerar se não era melhor trabalhar assim, focado, com um padrão de sono e refeições pré-definidos, e não no improviso eterno com o qual estava acostumado), logo encontrando o rapaz no aeroporto, de mochila nas costas.

Depois de, com o maço de falsos caretas no bolso da camisa de flanela (peça totalmente desapropriada para o nosso clima tropical), passar em branco pelo único pastor alemão à vista, imerso no clima paranoigênico do lugar, aumentada rodoviária pan-óptica, posicionado próximo ao devido portão de embarque,  Pereira aguardou seu voo cautelosamente, alternando o olhar entre a leitura do jornal sobre os seus joelhos e o painel  acima, anunciando os voos.

Para a alegria geral dos passageiros, o percurso seguiu banal até o fim. O jornalista escutou desinteressado as conversas de parlamentares rumo ao Congresso, que, megafônicos, faziam questão de serem reconhecidos como tais,  e observou, até o pescoço doer um pouquinho (e então parar), as formas geométricas do agronegócio deslizando devagarzinho lá embaixo.

No aeroporto de Brasília ele foi logo recebido pelo taxista, um senhor de ampla barriga, barbudo e careca — lembrando uma versão corpulenta do poeta Allan Ginsberg —, segurando um grande pedaço de papelão onde se lia DANIEL PEREIRA.  Chegaram rápido ao carro, rendendo uma conversa completamente protocolar.

—  Fez boa viagem? Como está o clima em São Paulo? O trânsito agora está legal, a estrada regular, em mais ou menos uma hora e meia chegamos lá, na Associação.

A corrida seguiu em silêncio por meia hora, com Pereira, acostumado com os morros e montanhas de Minas e com os edifícios de São Paulo, mirando o cerrado a secar no plano, até que o taxista puxou conversa:

— Aqui perto, nesse mesmo sentido, Daniel…  Aqui pertinho mesmo, você quebra à direita antes de Planaltina, tem outra… Outra organização, outro centro, muito, muito interessante… Que também tem essa coisa do espiritual… O Vale do Amanhecer, você conhece? Eles fazem lá um trabalho espiritual muito… Muito legal.  Assim, eu acho, né? Assim, pensa só, você vai lá, e o povo fica horas e horas, falando só de coisa boa, só de coisa boa. Paz, amor, perdão, crescimento, tem de ser bom, não tem? Só coisa boa. Paz e luz.

— Não… Vale do Amanhecer? — disse Pereira, que não havia pesquisado acerca dos outros grupos místicos sedeados nos entornos de Brasília, ligeiramente confuso.

— É. Depois você procura saber… Muito legal.

— Claro, claro… — meramente pro forma.

— Onde você está indo, essa Associação, eu já levei muita gente lá, ih, gente famosa, importante, artista, político… Mas eu, eu mesmo nunca fui lá. Mas deve ser bom, né? Do que eles falam lá? É coisa boa também, né?

— Bem, eu imagino que sim. Eu também não os conheço. Ainda. Estou indo para conhecer — Pereira disse, depois explicando que estava ali para escrever a respeito da associação para a Palco, revista que o taxista não conhecia, mas disse ser leitor assíduo.

— Bem, não deixe também de passar por Formosa — disse o motorista, com os olhos na estrada, abrindo a porta do porta-luvas e entregando um folheto expondo as atrações turísticas da cidade, no qual Pereira viu fotografias de pessoas passeando por matinhas e banhando-se em cachoeiras, além de o que pareciam ser marcas pré-históricas feitas em pedras.

— Ó, que legal… — Guardando o folheto na mochila.

[ALTO PARAÍSO]

[Pereira começa a sentir que não pesquisou quase nada].

Voltaram ao silêncio. Chegando próximo de Formosa, Pereira começou a consultar o mapa que indicava como chegar à sede da A.T.A., retirado do site do grupo. Após alguns minutos dirigindo pela zona rural da cidade, chegaram ao seu destino.

Desprovida de qualquer atrativo, o portão de entrada da A.T.A. parecia como a entrada de um condomínio fechado, com muros caiados de três metros de altura encimados por uma cerca elétrica estalando monotonamente. Três câmeras de segurança observavam a entrada,  uma no canto esquerdo do portão, apontando para o exato centro do portal, outra no canto direito, também apontando para o centro e uma voltada para a face de quem estivesse na frente do interfone de um só botão, colocado na muro à direita da entrada. Uma marquise de um metro e meio se projeta para frente, oferecendo proteção do frequente sol escaldante e de eventual chuva. 

Pereira pagou o taxista, dando-lhe uma significativa gorjeta. Só lembrou de pegar uma nota para depois prestar contas a Dinho porque o homem o questionou. Saiu do carro, pegou a mochila que tinha deixado no banco traseiro e então se aproximou, só um pouco ,do portão, tirando um dos cigarros do maço do bolso. Antes de acendê-lo, dispensou o sósia do Ginsberg, que, educadamente, tinha a intenção de somente ir embora depois que Pereira fizesse comunicação com a gente da associação e tivesse sua entrada aceita:

— É…. O… O senhor pode ir… Eu acho que vou parar aqui um pouco… E começar já a pensar no meu texto olhando aqui, para a entrada — gesticulando com o cigarro em mãos.

O taxista o olhou apreensivo por alguns instantes e então anuiu:

— Tá. Qualquer coisa você me liga, hein? — e foi puxando o carro demoradamente até engatar a segunda marcha, então terceira e quarta.

Pereira, que na verdade queria era fumar um dos seus baseados travestidos antes de bater o interfone, esperou o carro se afastar, o que fez levantando uma fina nuvem de poeira roseada na estrada de terra vermelha. Virando o olhar, por entre as grades do portão ele podia ver um caminho, asfaltado, que seguia até a vila, ultrapassando-a e chegando até o domo, lá longe.

Como acontece com os fumantes em ponto de ônibus, assim que o moço deu o terceiro longo e demorado trago, avistou vindo pela via diante de si um carrinho daqueles utilizados em campos de golf.

— Ô, desgrama — ele disse dando rápidas baforadas, antes de então jogar o cigarro no chão, esfarelá-lo contra a sola do seu sapato e, ato continuo, retirar várias balas macias de maçã verde da mochila, que foi logo abrindo e jogando para dentro da boca, na frustrada tentativa de mascarar seu hálito. Quando o carrinho enfim chegou, dirigido por uma moça loira do cabelo puxado para trás, com sombra vermelha nos olhos e vestindo um macacão prateado, Pereira, cheirando a maconha (fedendo, como diriam aqueles que não apreciam a erva), estava agachado, catando o papel das balas do chão, mastigando desajeitadamente a amorfa massa verde na qual os doces haviam se transformado, um filete de baba esticando-se por seu queixo. 

— Seja muito bem vindo! — disse a moça, ainda dentro do carro, abrindo o portão com um controle remoto.

Pereira limpou a saliva do rosto com a manga da camisa de flanela e tentou responder:

— Muh-to oh-bh-gado!

*