Sérgio – X

— Desídia. Palavra bonita, não é? Descobri quando fui demitido por justa causa. Desídia. É a indolência, a preguiça. Você já leu Bartebly?

— Não. Quem é? — disse o cromoterapeuta, com uma humildade fingida.

— É um conto, não um autor. O autor é o cara de Moby Dick. Mas, bem, esquece a referência. Eu não sou o Bartebly, mas eu sou a desídia, a desídia em pessoa.

— E você quer mudar? — sussurrou o velhinho rechonchudo, cerrando os olhos.

— Quero, é por isso que eu estou aqui. Exatamente por isso. As cores vão me ajudar, não é? Eu estou tentando tudo, eu já te disse, e, ahn, eu estou gostando disso, das cores…

— As cores vão te ajudar sim. Mas… O caso é sério. Você se identifica com o negativo. Muito sério. Há como acelerar o seu processo de cura espiritual. Há um outro jeito. Eu… Eu poderia te apresentar para a Mestra.

— A Mestra?

Desgostos estilísticos

usos da língua que acho feios. nada normativo ou prescritivo, que todos escrevam como quiserem. só tomando nota (para mim mesmo). (provavelmente vou usar na hora de criar o modo de falar de personagens). feias e indesejáveis são as expressões, não (necessariamente) as pessoas que as usam (já há ódio e nojinho suficiente no mundo, não é?).

*

meio que – feio, pós-adolescente. qual é desse que?  parece-me ser um anglicismo, tradução literal de kind of.

tinha esse sujeito – parece-me outro anglicismo. recordo-me imediatamente dos anglófonos dizendo this o tempo todo. por que não “tinha um sujeito”?

ponto fora da curva –

diferenciado –

top –

fora da caixa – a expressão já é feia e boba em inglês, para que trazê-la para o português? que caixa é essa?

um misto de – pão, manteiga, queijo e presunto?

pegada – especialmente quando usado para descrever música popular (sendo música popular toda aquela que não é erudita).

uma espécie de – não tem nada de errado com a expressão, mas me irrita, talvez por ser usada demais.

proativo (ou pró-ativo) – anglicismo feio, temos diligenteprestativoeficienteativoaplicado, zeloso, cuidadoso, despachado, expedito, solícito, etc..

o mesmo – mesmo não é pronome não pessoal.

fora da casinha

zona de conforto – 

pois – não há nada errado com pois, mas me irrita.

enquanto que – o que diabos faz esse “que” aí? http://educacao.uol.com.br/dicas-portugues/ult2781u551.jhtm

PEREIRA – V

Depois de horas de pânico, começou a repetir para si mesmo uma ladainha simples. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Encostou-se na parede e ficou sentando, balançando-se para frente e para trás. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Assim conseguiu dormir. No dia seguinte, voltando do encontro com a Mestra, no jardim, valendo-se de um breve instante de desatenção do Piloto, achou a pedra. Uma linda pedra portuguesa, branca e quadradinha, de oito arestas ferozes. Tinha então uma meia e uma pedra. De volta a sua célula, montou a arma: uma meia com uma pedra dentro. Isso lhe deu coragem. Estava decidido, iria enfrentar todos ali, começando pelo mais odiado.

[…]

O magricela Pereira acertou então o imenso Piloto na cabeça. A pedra, dentro da meia empunhada pelo rapaz, rodopiou violentamente antes do impacto. Por instantes Pereira pareceu determinado e destro. Seu grito (desarticulado) soou até convincente. Havia algo de bíblico naquilo, sem dúvida: um sujeito singelo atacando um brutamontes, na cabeça,  com uma pedra. Mas havia algo de profano, profundamente profano, no Piloto, e o golpe — a pele cortada, o sangue escorrendo  — só serviu para irritá-lo. O homem agarrou Pereira pelos ombros, encaixou-lhe uma joelhada rápida no estômago e, ato contínuo, levou-o ao chão com uma cabeçada.