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Irritado, Rosa coçou a barba. Era um sinal, uma maneira de me responder não respondendo.  Isso porquê acreditava que a padaria não era lugar adequado para aquele tipo de conversa. De outras vezes havia repetido uma frase do Poderoso Chefão, alguma coisa parecida com não se discute questões de família na presença de gente estranha. Para mim, entretanto, tratava-se de uma conversa nossa e, ao mesmo tempo, de ninguém (de todo o mundo). Que era? Qualquer coisa abstrata: o tempo, a matéria, a história (não me recordo do exato conteúdo). Não havia motivo nenhum para privar a  mulher do caixa de breves instantes daquela prosa.

Encontrei, desde então, nos modos de Rosa um fetiche pelo tablado, pelo gabinete, pela cátedra — ou, ainda, pela conversa de compadres em volta do fogão de lenha. Nada peripatético. Um péssimo jeito de helenizar a ilha.

ISABELA5.TXT

— E então…

— …

— Então eu percebi que grande parte da coisa vinha desse sentimento de comunhão.

— …

— Desse falso sentimento de comunhão, que desaparece de uma hora para outra, fazendo você se sentir a pessoa mais estúpida do mundo. A boba, correndo de um lado para outro, irremediavelmente incongruente. E… Bem, eu não devia fazer isso, eu devia estar… Ahn… — e então ela suspirou e colocou a cabeça entre os joelhos.

— Devia?

— Ahn. Agora… Agora eu realmente devia ir para a casa.

RUA1.TXT

Bahia com Afonso Pena, uma hora da tarde, domingo. Um homem, de mãos dadas com um menino de menos de seis anos, vem pelo passeio, em direção oposta a minha. O menino — com um sorriso trivial, dolorosamente inocente — aponta para um canto (sujo) da calçada e diz:

— Olha, pai, é ali que a vovó ficava.

O homem nada fala:  franze o cenho, segura a mão da criança com um pouco mais de força, aperta o passo. Seguem, desaparecem entre os transeuntes.

— Olha, pai, é ali que a vovó ficava.