PEREIRA XII

Olímpia, muito naturalmente, não passou batida. Como poderia? Quando lentamente abriu um sorriso para Pereira, com um muito leve erguer de sobrancelhas, enquanto Aeris tentava descobrir qual cabo funcionaria no projetor, o moço não pôde deixar de reparar nas maçãs agradavelmente proeminentes de seu rosto, acentuadas pela maquilagem dourada sutilmente aplicada (ele mesmo não saberia dizer se haveria maquilagem ali), e no suave castanho claro dos seus olhos, encimados por pálpebras coloridas com sombra verde, de tons metálicos. Interpelá-la era um imperativo.

— E você, — Pereira então acertou, tratando-a por você, não escutando então que “Senhora está lá no céu”— o que te traz até aqui, até Car-, ahn, até a Mestra Intreza?

A socialite morena fechou os olhos por um momento, coisa muito rápida, e então fez um doce meneio de cabeça, em tom afirmativo,  como se tivesse mentalmente repetido a pergunta de Pereira para si mesmo e prontamente encontrado a resposta:

— Beeem. Sabe aquela pessoa?… Que gosta mais da expectativa da festa, não sabem?, de pensar, preparar e coordenar tudo, tu-do, do que, assim, da própria festa? Então, beeem,  meus caros, essa pessoa… —  com uma jogadinha do tronco para a direita, abrindo as mãos lentamente, as palmas quase que votadas para cima, os cotovelos bem próximos à cintura marcada pela calça e jaqueta, sorrindo  — Sou. Eu. E… Bem, festas sim, claro, que a festa é o — soltando quase um agudo no á — ápice da civilização, claro, claro, mas não só festas, porque com frequência eu projeto e promovo eventos, eventos culturais, ou, como eu gosto de chamar… —  gesticulando com os pulsos articulados de forma a expor,  além de suas unhas pintadas de um verde também metálico, os seus vários e coloridos anéis — Realidades possíveis, ainda que… Improváveis e… Temporárias… Entendem?

Àquela altura, depois de relatos de visitas extraterrestres e viagens extraplanares, ninguém demonstrou ter qualquer dificuldade com o conceito. Olímpia continuou, empostando a voz, ainda que levemente:

— E, além disso, eu sou uma grande, aha!,  flâneuse, não sabem? Adoro borboletear, por aí, pelo mundo. Adoro. Mas, assim, não sabem?, o que me agrada não é essa coisa pré-definida, óbvia, chata, do turismo não. Ah, não, não. Sou uma viajante, não uma turista. Sabe? Totalmente diferente…

Ergueu, dramaticamente, apenas a sobrancelha direta:

— Uma coisa, assim, não sabem?… Distinta.

Sendo que a última palavra foi dita com uma súbita e desagradável contração da catadura que ela logo tratou de desfazer, revelando a enorme plasticidade de seu rosto, seguindo, mais uma vez sorrindo:

—  Daí, uni essas duas coisas, esses dois traços meus, sabem?, e aqui, na Associação…  — apontando um indicador para baixo e outro para cima   Aqui eu faço um trabalho com Intreza, com a Mestra… Desde… Desde de logo depois que nós duas nos conhecemos…  Ai, queridos, que episódio… Ah, foi tão… Tão… Ai, fico, assim, sem palavras…

Olímpia inclinou-se para frente ligeiramente, piscando de forma jocosa e como que dedilhando o ar:

— Ah, quase consigo escutar as harpas, não sabem?, como em um flashback de desenho animado. Haha! Foi em um lugar muito especial que nós nos conhecemos, não sabem?, nada mais, nada menos do que na frente da própria Esfinge de Gizé. Sim, ela mesma. Uma coisa assim… Incrível. Não vou dizer que foi, ahn, uma experiência mística, mas, ó!, — levando as mãos ao rosto (os antebraços comprimindo ligeiramente o busto), o queixo caído de maneira exagerada — foi quase, não sabem?, qua-se. Eu estava lá, embasbacada, cheia de… Cheia de maravilhamento e… E temor ao mesmo tempo. Ah, temor, sim. Não é à toa que a Grande Esfinge é chamada pelos falantes de árabe de o Pai do Terror… É sim, não sabiam?

O Sr. Hidelbrando coçou o seu papo bem barbeado (um feito realmente digno de nota, dado o conjunto de pelancas que era seu papo) com sincera perplexidade. Flávia Cláudia encantada com Olímpia, soltava, bem baixinho, consecutivos ós, enquanto, Pereira, indolentemente, rabiscava pirâmidezinhas em seu bloco de anotações.

— Eu fiquei assim, como que paralisada, como uma ratinha diante da cobra, duma, assim, duma naja, não sabem? E vi, assim, vi na minha imaginação, vi e não vi, vi num só relance… — Passando a mão aberta lentamente na frete do rosto, a palma voltada para os espectadores, os dedos bem espaçados, um tanto lânguida, quase como em um passo de dança — A Esfinge completa e… Colorida!… A face no corpo de leão, inteira, assim, de um vermelho terroso, com seu nariz e barba faraônica cerimonial ali, presentes, com aquela coroa listrada de dourado, ah, um dourado muito vivo, e daquele azul plural, intrincado, do lápis-la-zú-li. Gente, nossa, muita emoção, não sabem? E tudo tão súbito. Um frisson, ai, muito forte, uma sensação, assim, celeste, me arrebatou e me deixou sem ar, sabem?, fiquei bamba… Toda solta. 

— Mas e aí? —  inquiriu Flávia, quase aflita, mãozinha mexendo nervosa sobre os joelhos.

— Então menina, atrás de mim, eu percebo, assim, na minha visão periférica, uma mulher, eu me viro e a vejo, ela está envolta num véu púrpura, nossos olhos se encontram e então ela me diz, assim: Encarar a Esfinge seriamente é encarar o transcendental ele mesmo, o arcano ele mesmo. O transcendental e o arcano, gente. Acho que na cabeça dela era até com com maiúscula, em caixa alta . O Transcendental. O Arcano. Que surpresa, não é? E a medida que eu ia me recuperando, a Mestra, que eu então sabia então quem era, não fazia nem ideia, me dava o ombro enquanto nós seguíamos o caminho de volta, ela me contando coisas sobre a Esfinge que eu em absoluto não sabia. Contou, assim, vejam só, que não existem registros da construção da estátua. E que existem marcas de erosão por água em seu dorso, o que indicaria que ela teria sido construída em um tempo em que chovia muito ali, um tempo talvez anterior aos pró-prios egípcios… Ai, meus queridos…

Olímpia silenciou-se brevemente, como que se dando tempo para os presentes considerarem todas essas informações, ainda que jogadas assim, um tanto desconexas. Olhava para o centro da mesa branca, perdida:

— E daí, a partir daquele momento, daquele instante em que ela me ofereceu o ombro, seguimos juntas, foi Karnak, os templos de Ramsés e Nefertari, o Vale dos Reis, o Monte Sinai, enfim, o Egito ele todo juntas…

— Ai, que privilégio! —  Flávia Cláudia, de boca cheia, numa expressão que era ao mesmo tempo uma sincera manifestação de seu juízo de valor acerca daquela viagem com Mestra Intreza e uma verdadeira suma de toda a vida de Olímpia, que, feliz com tal recepção, continuou:

— E no meio nossa recém iniciada convivência, muito agradável, agradabilíssima, foram surgido, assim, naturalmente, inúmeros roteiros para vários passeios, à guisa, inicialmente, de mera especulação, não sabem? E se fossemos a Angkor, no Camboja? E se fossemos a Kyoto? E se fossemos ver a aurora boreal na Finlândia? Daí Intreza, digo, a nossa Mestra, me convidou para a Associação e para, dentro da Associação, ser eu a pessoa encarregada do planejamento, organização e acompanhamento das viagens internacionais… Viagens que eu programo para emular, não sabem?, o mesmo espanto, o mesmo maravilhamento que tive diante da Esfinge, naquela vez…

Olívia olhou demoradamente para cada um, piscando como se sonolenta e envolvendo-os com um sorriso sugestivo:

— Viagens vivenciais, experimentais…

E então quase séria, cerimoniosa:

— E isso é, nada mais, nada menos do que uma maneira de celebrar a vida, não é? Ah, ver as expressões de encantamento na face das pessoas… Como é, assim, gratificante…

— Aí, imagino, estar facilitando, né, esses encontros, apresentando as maravilhas do mundo, ai, gente, que tudo… — Flávia, tiete.

— E, não sabem?, deu certo, é um projeto de, assim, muito sucesso. Começamos por aqui perto, na nossa América Latina mesmo. Fizemos expedições para Machu Picchu, para a Ilha de Páscoa, para o deserto de Guajira, para o Deserto de Sal… Depois começamos a fazer roteiros em Portugal. O Caminho de São Tiago de Compostela, Fátima, a Quinta da Regaleira… Ano passado fizemos Lourdes, na França e Assis, na Itália…

— Olha só, eu não me considero, assim, um beato, mas, olha, eu bem que gostaria de sim… Lourdes e Assis? Ah, vejam, sim… — Hidelbrando murmurando em concordância.

— Mas, assim, gente, é…. Ai, querida, como que?… — Flávia: atônita — como qu’eu faço? Assim, para participar, ai, ir com vocês…

— Ah, sim… Essas viagens, você pode ver que nenhuma delas é divulgada no site, elas são somente para um grupo, assim, mais próximo, não sabe?

Eis que expressão de abandono, completo abandono no rosto de  Flávia condoeu Olímpia:

— Mas, ó, querida, presta atenção aqui, eu te aviso. Ai, queridos, aviso todos você, tá?, com certeza, aviso todos da nossa próxima viagem. Vocês são todos, ai, sem dúvida, distintos. Mas, não vai ser esse ano, sabem?  Esse ano, vai acontecer… 

Aeris, visivelmente preocupada, mirou Olímpia nos olhos. Olímpia tentou não alterar o fluxo da sua fala, continuando, sem esboçar qualquer resposta direta a Aeris:

—  É, bem… Esse ano faríamos toda a Londres ocultista, culminando com uma visita noturna a Stonehenge . Ai, queridos, seria tão, mas tão lindo, iríamos começar na Catedral de São Paulo, não só por conta propriamente de São Paulo, não que eu tenha nada contra Paulo de Tarso, é claro que não gente; e nem só porque no exato lugar da catedral existia, muitos anos antes, ai, incontáveis anos, um importantíssimo templo consagrado a Diana, uma das deusas mais importantes do panteão romano e, ao mesmo tempo, uma das divindades mais influentes no ocultismo, não só por isso queridos; e ainda, não só porque é um  ponto elevado de Londres, uma colina, não é?, e eu imagino que vocês bem saibam que os lugares elevados tem um valor especial para as forças místicas; mas porque estaríamos então em Ludgate Hill, o local onde está enterrado o Rei Lud, o monarca gaélico, descendente do próprio deus celta Nodens, fundador de Londres. Não sabem?, o próprio nome Londres vem dele, vem do latim Londinum que por sua vez vem de Caer Ludein,  a fortaleza de Lud.

A socialite abriu os braços com as mãos espalmadas, como quem, um pintor, um fotógrafo, busca um enquadramento ideal, e, com, os olhos vidrados, piscando excessivamente, sugeria uma cegueira para o que tinha diante dos olhos que lhe permitiria enxergar terras distantes, tudo uma evidente brincadeira:

— Haveria, muito naturalmente, uma visita às igrejas barrocas de Hawksmoor, o arquiteto. Ah, não sabem?, são cheias de curiosos elementos pagãos, suas posições no mapa de Londres formam o que? Nada menos do que um pentagrama, não sabem? A Minha preferida é a St. George, no Bloomsburry, nossa, o que é aquilo, gente, não é mesmo? A torre, uma referência explícita ao Mausoléu de Halicarnasso, e, ai, gente, Bloomsburry, não é mesmo?, ali do lado, ó, temos algumas das estátuas que antes figuravam no Mausoléu Halicarnasso no Museu Britânico… Ah, e é claro, ao Museu Britânico seria dedicado pelo menos um dia inteiro, é claro, não é? De antigos feitiços sumérios escritos em cuneiforme ao espelho negro clarividente de Dr. John Dee, é coisa demais para ver, para sentir… Tem de tomar até cuidado, não sabem?, porque podem ser muitos os arroubos, ah, sim…

— É… — Aeris, entre grave e sem jeito — Olímpia…

 — O que mais não poderia faltar? Ah! A rua na qual Blake morou por quase duas décadas?, a casa onde Madame Blavatsky explanava sua doutrina, pessoalmente, toda terça-feira? Ai, ai…

 — Bem, tudo pronto aqui, prezados — Aeris, as mãos na cintura, dirigindo-se, verbalmente, a todos, mas olhando especificamente para Olímpia, que anuiu em encerrar sua fala, pulando para o final:

— Mas, enfim, queridos, tudo isso para acabar em uma visita a Stonehenge, sim. Mas, ó, meus lindos, vocês não sabem, não sabem não, a dificuldade que é fazer uma visita digna ao monumento que é Stonehenge, as ovelhas, aquelas ovelhas, com números em azul pintados nas laterais de seus corpos nem são o pior, algumas acabam sendo até agradáveis, mas espirituosas do que muita gente que eu conheci por aí… A questão é aquela maldita estrada, cinza, barulhenta, ai, banal, banal, dolorosamente banal, ali do lado, impedindo a fruição do monumento, belíssimo, belíssimo… Eu, na qualidade, ai, meus lindos, qualidade singular de curadora de momentos especiais, curadora de, assim de epifanias, poderia eu apresentar Stonehenge assim, desfigurada assim? De jeito nenhum, não é mesmo? E por isso então que eu consegui uma coisa, assim, super difícil, não sabem?, super. Uma visita ao monumento à noite. É fantástico, meus lindos, fantástico — Olivia então suspirou, catando os olhos de Aeris — Mas… Bem, as atividades desse ano parece que, bem, serão interrompidas…

*

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LÚCIA XIV

— De início eu sempre sacava — estalou os dedos — é um sonho!, porque estava habituada aos sonhos e às coisas dos sonhos. E daí fazia experimentos, todos bastante curiosos. Comecei a perder esse poder quando, sonhando, diante de algo estranho, pensava estar chapada. Foi daí que maneirei com álcool e beque, bem antes mesmo de Úrsula nascer. A coisa fica feia, e então é hora de grandes mudanças, quando diante do onírico você não cogita nem um sonho e nem uma onda: mas a loucura. Aí ó: para e pensa tudo de novo.