Não em brancas nuvens

Ocaso
num céu de outono
desenhado por brisas,
uma nuvem sozinha,
central,
brilha laranja.

Fernando
agora
é memória.

A grave voz amiga
A barba ibérica e branca
As gentis trocas de golpes
(às vezes não tão gentis)
Viagens e cervejas

Memória.

Nemure, Fernando, nemure.

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A VITÓRIA DOS FUTURISTAS

I. 

Dedinhos nervosos
Dedinhos nervosos

Antes, o rigor da pedra
Estilo preciso
Hoje, dedinhos nervosos

Isso não te dá um cagaço?

— Você vai por cagaço no seu poema?

— Não te dá um cagaço?

II. 

Diuturnamente
(como na dicção
dum delegado pesporrente)
helicópteros
espancam as manhãs,
britadeiras empreendem
contra as tardes
e as noites
ai,
……(ai, o que se espera das noites…)
não sustentam mais
qual
quer
ilusão

Ao final das contas
sonha-se apenas com um
nada consta.
Mas, agora
que são
(só)
contas,
as contas,
as contas não fecham.
O que é

b   a   n   a   l

 

Banal
Como um transformador
explodindo de madrugada
em um bairro de classe-média baixa

(Sem um crescendo de explosões
Cem voleios de canhões sinfônicos
Nada assim tão épico, tão russo,
tão

……………………………………………………….escapista.

Os canhões, inclusive, isso é bem sabido,
Estão todos investidos na guerra contra o gozo).

Explode um transformador
E agora você
Medita sobre,
literalmente sobre,
As contas.

Elas não fecham.

NENHURES

I.

Planeta ermo:
rochas, poças e miasmas.
Estaríamos sozinhos
se não trouxéssemos
sempre conosco
nossos fantasmas.

Nenhum dia
nasce puro,
rastros de escuro
tracejam a luz.

(a necessária aporia
pela qual,
……………….ainda que obscuro,
qualquer futuro
o morto aduz).

Isso aqui é lugar nenhum:
isso aqui é tudo de novo.

Já não é mais nenhures

(e não é a negação,
e nem
a negação
da negação).

II.

Houve, porém, uma figura errante.
Que não fui eu e não foi você.
E ninguém que conheçamos.
Uma figura errante.
Com nenhures no coração,
errando pelo coração de nenhures.

III.

Sombra sem pés
Raio escuro
Veloz
Vulto corpulento

(Credo de mil fés
Serafim impuro
Atroz
Arauto virulento)

IV.

E alguns, que pensavam em ir embora voando:

Haverá uma fresta
na pedra, uma senda
na floresta, um fio
no rio?

Rumo aos destroços?

E uma vez lá…

Por meio de qual magia
chamaremos essa
…………….suja
pouca, porca, gasta
feia, falsa, fraca
…………..matéria

…………………………de prima?

É desmemória a alegria?
É o saber que arrasta?
Vamos então…
Esmurrar esquecendo a faca?
Repetir como se fosse a estreia?

 
Mas

………a sucata não arrima.

A ASTRONAVE CAI

I.

Cenas que vão
rápidas e vazias
Se bem que…
……………………. Não
Antes fossem vazias
E antes tudo fosse rápido
(não insistindo em se repetir, estúpidas
historiúnculas despedaçadas,
meio sem sentido, meio ferradas)

Cenas que vêm e vão
em rápida repetição

Ele vê essas cenas
e muito lixo

Monturos e monturos

II.

Por que estaria ele jogado,
bêbado, quase pelado,
num canto desconfortável,
com cara de inconsolável,
lendo as instruções,
longe de suas funções,
o leme no manual
em abandono total?

III. 

Não haveria um descontento, assim, arranjado,
(Por que o descantar tão irado?)

que seguisse manso, talvez acompanhado de… Guitarras e violinos?

Guinchos de metal em torção,  o alarme esganiçado,
A astronave agora cai, entre silvos e hinos,

Contagem regressiva
e apelos ao transcendental,

até que com a nave mãe estragada
venha o clichê do final:
queimar na reentrada

IV.

Haveria de cuidar de cada sol,
deixar-se reger pelos sois
Comer (como remédio para a úlcera):
os pomos de prata da lua,
os pomos de ouro do sol.

V.

E astronave cai
Feito estrela
………………….despenhada
Ou pior: ideia nunca anotada

 

Olivenbaum 16

Às vezes,
passando pela rua
………………………………que é só sua

escuto seu piano.

mas não penso te em visitar
(porque) é também a mim prazeroso
imaginar-te e te deixar estar
(o quê?) em ócio operoso

(e de estar você assim,
tão sutil, tão abstrato,
de qual emoção, enfim,
teremos um
…………………….concreto
……………………………………retrato?,
sua destra marcará
prosa, poesia,
riff de guitarra,
grifo ou carcará,
gozo ou azia,
fossa ou algazarra?)

e às vezes eu não quero te encontrar
por banal, não ter nadar para lhe mostrar

Versos de ocasião de Cláudio Tropigo – V

Vai

O desejo se afasta,
E uma névoa embaça
Os particulares traços:
Agora são falsos abraços,
Sorrisos que vão, um por um,
Apagados por esse cinza comum

E volta?

Voto que visa o trágico,
se morno.
Como aquele pássaro mágico,
só renasce do fogo.

*
Sussurros do Pierrot andante

O coração é uma bomba
Um músculo com pompa

Memórias são estórias
Que o tempo leva embora

A luz vem do Sol
Quando não, artificial

O chão é a terra
Que sempre te espera

E, porto seguro, minha filha
Uma cidade na Bahia

 

 

 

Versos de ocasião de Cláudio Tropigo – IV

Comentário: Cláudio Tropigo é um personagem. Estou legal. Valheu.

O ano

avança com brutalidade
transformando promessas em mentiras.
Arrastando tudo
pr’aquele ontem
que hoje mesmo
(um pouco mais cedo,
talvez de manhã)
eu
você
jurava que não
mais
existia.

Dormir.

Sério?
Pra quê dormir?

Dormir traz um outro não-dia.

*

Olá, senhor (a)

Olá, senhor (a).
O (a) senhor (a) deseja:

a. sofrer
b. registrar seu sofrimento

*

Não sei respirar

Alterno esse rigor mortis
Cuja mera imagem já te aflige
Com suspiros horrorosos
De intoxicada esfinge