Versos de ocasião de Cláudio Tropigo – IV

Comentário: Cláudio Tropigo é um personagem. Eu estou legal. Valheu.

O ano

avança com brutalidade
transformando promessas em mentiras.
Arrastando tudo
pr’aquele ontem
que hoje mesmo
(um pouco mais cedo,
talvez de manhã)
eu
você
jurava que não
mais
existia.

Dormir.

Sério?
Pra quê dormir?

Dormir ira traz um outro não-dia.

*

Olá, senhor (a)

Olá, senhor (a).
O (a) senhor (a) deseja:

a. sofrer
b. registrar seu sofrimento

Rascunhos para a RESINA

Resina é uma revista literária que um dia virá à luz. Por ora é um projeto meu e de Pedro Furtado (aceitamos outros colaboradores!). Cada edição terá textos (pode ser qualquer coisa, mas por agora pensamos em poesia) gerados a partir de uma palavra sorteada dentre várias escolhidas minutos antes. A palavra da vez é sombra.

Quase

corre pelo chão,
na horizontal
(projeção
quase
igual),
de encontro
à original,
a sombra
da folha
que cai:
(quase)
como o filho
pequeno
(e aflito)
aos braços
do pai.

 

Philip Larkin

(Estava procurando um dele que trata especificamente de como a vida adulta fode o tempo que seria normalmente dedicado à leitura, mas só achei esse, que toca um tema semelhante. Gostei especialmente de the sky grows dark with invitation-cards)

Wants

Beyond all this, the wish to be alone:
However the sky grows dark with invitation-cards
However we follow the printed directions of sex
However the family is photographed under the flag-staff –
Beyond all this, the wish to be alone.

Beneath it all, the desire for oblivion runs:
Despite the artful tensions of the calendar,
The life insurance, the tabled fertility rites,
The costly aversion of the eyes away from death –
Beneath it all, the desire for oblivion runs.

A era de M.

I. Dedinhos nervosos

(feat. Menina Lua)

Dedinhos nervosos
Dedinhos nervosos

Antes, o rigor da pedra
Estilo preciso e forte
Hoje, dedinhos nervosos

Isso não te dá um cagaço?

— Você vai por cagaço no seu poema?

— Não te dá um cagaço?

 

II. Disque M para Filippo Tommaso Emilio M.

[…]

O livro da Menina Lua

A MENINA LUA NO
OASIS ARTIFICIAL

Não está previsto no contrato
Mas ela não pode deixar que
simplesmente
aconteça

(Como se a manutenção das
Cores e formas
Não fosse trabalho suficiente)

Alguém tem de impedir
Que os visitantes
Coloquem uma Máquina do Tempo dentro da outra
Liguem o Inversor de Gravidade com as janelas abertas
Ou cuspam seus chicletes no chão

E a Menina Lua então se cansa
Quer ficar o resto do dia

Estática
Como um mergulhão secando as asas

*

ILUMINURAS

Às vezes passo os olhos pelo papel
E as letras não são nem letras:
Meras marquinhas negras, coisinhas insossas

De outras  vezes, entendo os escritos superficialmente:
Ditos ocos, que minha memória carrega, não sem razão
À espera da eventual iluminação

(Na dúvida entre você e os clássicos
Duvide de você,
Não é?)

Para minha sorte,
Nem todas dúvidas levarei até a morte
A leitura não é um ato solitário
Quando ela, com imensa ternura
Traça suas precisas iluminuras
Apontando no mundo
Cotidiano, bruto, material
Muito naturalmente
Os necessários correspondentes

Aqui: os róseos dedos da Manhã

Aqui: o verde mais verde do que a relva

*

A MENINA LUA
NA FRENTE DA CASA DAS TREVAS

As pessoas vem e vão
(Não, não falam de Michelangelo
e, mesmo se falassem,
nós não gostaríamos de escutar)
E a Menina Lua, com justiça
Se irrita:
— Essas pessoas, de onde saem
tantas pessoas?
(A crowd flo-, não, para)

É de fato arriscado
São necessárias fantasias
Indumentárias do privilégio
Para baforar impune
( — Ô, doutor delegado, me salva aí
Disse, certa vez, um guarda carros)
Saímos então desse bairro
nem lux nem burgo
para ruas mais conhecidas
(conhecidas minhas)

Minhas ruas de antes
ruas de manhãs cinzas
e fumaça branca

E a Menina Lua então
brilha calma
e acha graça
da Casa das Trevas

Casa das Trevas…

Às vezes eu queria
só repetir o dia
de ficar parado
imaginando estórias
(Estórias mesmo
A História é um…, vocês sabem)
na frente da Casa das Trevas

Até a polícia chegar
E eu ter de mostrar
o meu bloquinho
uns rabiscos
e apontar
a Casa das Trevas

E às vezes eu queria
Só levar a Menina Lua
num dia de céu cinza
para fumar
na frente

da Casa das Trevas.

*

NO CORAÇÃO DE JESUS

vizinhos malditos,
ubíqua musica de rodeio,
perseguição e gritos,
parece tiroteio,
preguiça: um elefante
contra a luz rasante,
um objeto voador
que talvez fosse um drone,
cuja lembrança, no calor,
me deixa insone,
uma coruja de origami
que sabe seu nome.