PEREIRA – XI

— Mas, olha, olha que fantástico. Isso que o senhor está falando tem tudo, tudo mesmo, tudo a ver com questão do controle do padrão vibratório, que é, assim, uma técnica muito, muito importante pra gente da projeção astral — disse a moça da bata bege.

— Ah, é mesmo, minha filha?

Pereira não conseguiu acompanhar imediatamente a continuação da conversa, ainda cativado por aquilo que acabara de escutar. Ficara aterrorizado com a descrição da feminina criatura alienígena, imaginando-a como um híbrido de mulher e taruíra, um ser de pele fina, fria e pegajosa (como também pareciam frias e pegajosas as mãos do velho).  Além disso, compadecia-se com o Sr. Hidelbrando, com a sua dificuldade de conseguir o que Pereira resolveria, várias vezes maquinalmente, com quinze minutos no banheiro, entregue a uma memória ou fantasia libidinosa (quando não a um videozinho tóxico que lhe emporcalharia a cabeça com cenas de sexo bufo). A dor do velho funcionava ainda como lembrança de que Pereira, caso chegasse a tal idade (tendo o velho algo entre setenta e oitenta anos, estando muito conservado até, aparentemente independente da ajuda dos outros para conduzir sua vida), também teria de lidar com esse e mais problemas, muito provavelmente sem a intervenção de seres vindos do espaço. Olhando para o senhor, tetando não sentir dó, seguindo aquela máxima popular de que o dó é o pior sentimento, Pereira, que não levou a sério nem uma só palavra do relato, desejou imensamente que aquilo fosse verdade, verdade pelo menos para o velho, e que Cármen, ali Mestra Intreza, tivesse alguma forma, a forma que fosse, de ajudá-lo.

Dada a sua repentina loquacidade, pareceu então que era agora a vez da moça de bata bege de expor os seus motivos para estar ali, no que seria o vestíbulo da Associação Transcendental Amalantrah. Com a musculatura do ombro e pescoço visivelmente retesada, inquieta em sua cadeira, piscando em excesso e descerrando um amplo sorriso, ela lembrava uma apresentadora de programa infantil cocainômana:

— Assim, né?, a projeção é uma das técnicas, talvez a principal técnica que eu uso no meu ofício de — inclinando a cabeça levemente para trás e arregalando os olhos, olhos já com branco demais — life coach. O senhor sabe, vocês sabem, o que é um life coach?, o que é coaching?

— Ah… — no que o velho tomou a palavra com um gemido desarticulado, levantando debilmente o dedo indicador ao ar, um gesto perdido entre a criança que anuncia à professora que tem uma contribuição à aula ou um sábio atentando para a importância de sua lição — seria, seria, ahn, um… Técnico para a vida?

— É, exatamente, um técnico, um treinador, né? Um treinador para a vida, exatamente. E ele vai estar o que? Ele vai estar apoiando, assim, proativamente, ele vai estar apoiando o cliente, né?, que é o coachee, né? e então a moça fez um minúsculo intervalo e sorriu, como às vezes sorriem os professores ao discorrer, achando graça de um detalhe ou minúscula reviravolta que, para todos os demais, não poderia ser mais desinteressante ele vai estar apoiando o coachee a contando os verbos nos dedos da mão direita descobrir, criar e sustentar… O que?

Hildebrando produziu som amorfo com o fundo da garganta. A socialite morena disse “Diga-me você, querida”, só com os cílios. Pereira ainda pensando no gozo alienígena do Sr Hildebrando, ignorou a pergunta.

— O que ele mais quer, gente! O que ele, o cliente, né?, mais quer e, assim, mais deseja, deseja profundamente para a sua vida. Assim, o life coach obtém várias informações, né? Pesquisa meeesmo os, assim, valores e crenças do cliente, né? Para estar conseguindo isso. Gente, é difícil, tá? Porque às vezes as pessoas não sabem o que querem. É sério, muita gente não sabe o que quer. Uma coisa é você querer ter um carro assim, assado, né? Mas o que eu quero, assim, da minha vida? Como eu vou desenvolver, como eu vou, assim, investir, investir em mim mesmo, né, empreender, fazer de mim esse empreendimento, se eu mesmo não sei o que eu quero? O life coach também vai estar atuando aí, ajudando a pessoa a des-co-brir o seu sonho… E aí, é um processo, né, gente?, uma caminhada mesmo, partindo de onde a pessoa está até onde ela quer estar, até esse estado desejado. E quem não quer, né?, estar dando esse salto?, quem não sente essa distância, entre o que somos e o que queremos ser…

— Dever ser… disse Hildebrando, solenemente.

— Ah! Claro Sr. Hidelbrando, a vida é um imperativo, é mesmo, estarmos conseguindo usufruir do má-xi-mo da vida, sim, é um imperativo. É sim um dever ser. E para isso as pessoas precisam… E se não realmente precisam, podem sim se valer muito de alguém que as dê, profissionalmente, profissionalmente, né, gente?, uma pisca, pisca orientação positiva para a vida. Para deixar, ó, deixar, jogar fora, deixar de lado, dizer, isso não me pertence, jogar fora todas as neuroses. É, sim. Deixar de ser medíocre, neurótico, disfuncional. Sabe?, sabe?, é a ação no mundo! A preparação para a ação no mundo! Com esse soquinho na mão espalmada —, com esse objetivo final. O êxtase. Contínuo.

E então a ela fez uma pequena pausa dramática, olhando todos os ali presentes com uma carinha de falsa condescendência.

— Isso mesmo. Êxtase. Contínuo. O êxtase contínuo de se viver de forma plena. Ple-na. Ser na vida um ás. Um ás, sabe? Não ser bom, não ser muito bom, não ser excelente, mas ser um ás.

Ela esperava expressões e interjeições de admiração que simplesmente não vieram. Não porque aquela pequena apresentação não funcionasse, funcionava, ou, pelo menos, funcionava na maior parte das vezes: ela de fato vivia disso. A questão era que o Sr. Hidelbrando, um etarista militante, a considerava nova demais para orientar qualquer pessoa acerca de qualquer coisa; Pereira ainda estava meditabundo, pensando em impotência e punhetinhas cerebrais vindas do espaço, enquanto Olímpia, ainda que escondesse, por dentro virava os olhos para qualquer exaltação ao esforço, ao exercício ou à meritocracia, atribuindo tudo o que é essencial à pessoa a uma questão de, essencialmente, berço (berço que ela tinha e a moça não).

O Sr. Hidelbrando, entretanto, ainda que não impressionado, deu continuidade à conversa, porque, em razão de sua solidão contínua, esse era mais ou menos o seu procedimento padrão, interpelar a maior parte das pessoas em seu caminho e tentar arrastar ao máximo a mais comezinha das conversas. Além disso, como tratava-se de algo novo para ele, com um nome em inglês, por mais não diretamente interessado que ele estivesse, maiores informações eram necessárias, até mesmo para talvez refutar a coisa toda:

— Tem escola disso, faculdade disso?

A moça da bata bege apertou os lábios brevemente, mas com força o suficiente para que por um átimo eles ficassem esbranquiçados, e então falou:

— Então… Eu fiz vários, vários, cursos, sabe? Eu, assim, sou sedenta, sedenta, por conhecimento, ai, minha atividade mental é, ó, — estalando os dedos — frenética, frenética, então, assim, eu fiz vários cursos… E, assim, eu estou o tempo todo, o tempo todo não, é exagero, claro, mas, eu faço, ó, muitos retiros. Esse ano eu já fiz três retiros. Já se foram mais de seis mil reais, só em retiros. Agora estou no quarto e… Ainda vou fazer um no final do ano também né, gente? Claro. Cla-ro.

— Cursos… — murmurou o velho.

— E assim, muita leitura! — passando as páginas de um enorme tomo imaginário — Nossa, só de autoajuda… Só de autoajuda, hein? Eu li duzentos. Duzentos. Aí, somando com biografias, livros, assim, do lado mais espiritual, né? Dá duzentos e cinquenta. Assim, ler muito é um hábito meu, eu tenho o hábito da leitura. Mas eu sou muito séria, para mim o que importa é o pragmatismo, eu não perco meu tempo não, nunca leio nada, na-da mesmo de, assim, ficção, romance, essas coisas. Eu não quero nada com esses personagens e coisas que nunca aconteceram. Sério. O meu foco é o conhecimento, o conhecimento legítimo… Esses livros, eu construí essa bibliografia conversando com especialistas em várias áreas, experts mesmo, milionários, gente com ph.D, líderes espirituais, líderes empresariais, muita gente da indústria, sabe? Isso porque, assim, eu trabalho com muitos executivos, sabe?, gente de várias, várias, multinacionais… Eu tenho facilidade em lidar com essas pessoas…. Eu tenho isso em mim, sabe?, isso de me conectar com as pessoas, e também isso, de um senso, assim pra negócios, pra business, assim, sabe? E é essa questão do… Estilo de vida, né? Eu trabalho no final é com isso, né?, como vocês disseram, estilo de vida. Eu tenho de liderar, fazer a parte de marketing e — quase gritando no e — entregar os resultados, pelo exemplo. Aí, assim, eu tenho facilidade… Empatia. Ah, sim, a parte do marketing, assim, do negócio mesmo, nossa é muito difícil, né? Tem que estar o tempo todo… — aponta com os indicadores para um laudo e depois para o outro — Né?

— Mas, a… Projeção… — a interpelou o Sr. Hidelbrando.

— Ah, claro, né gente? A projeção astral. Assim, não existe isso de ser um life coach genérico, né? Por isso eu me especializei nessa questão, assim, da espiritualidade…. E, assim, convenhamos também que a própria espiritualidade, colocada assim, ai, é também uma coisa muito, muito aberta… É necessária a especialização dentro da especialização, gente. Aí, quando eu conheci a viagem astral, a projeção astral, eu disse, é, tá aí! Esse vai ser o meu nicho.

A graça da moça de bata bege foi então revelada. O nome Flávia Cláudia Buffone brilhava em letras metalizadas no cartão que ela entregou aos ali presentes. Ao ler, debaixo do nome da mulher, Coach & Projecionista Astral, Pereira começou a se atentar à conversa, permanecendo calado só mesmo porque Hildebrando manifestara a dúvida que lhe acometia:

— Mas… Ahn… Como a senhó- Como você chegou à Projeção Astral? Como se… Como se aprende isso?

— Hoje em dia… Olha, é uma coisa, assim que eu tenho de falar para as pessoas. A projeção astral não é coisa assim, de super-herói, tá?, coisa, ai, de gente dro-ga-da… Hoje em dia existem vários cursos de viagem, de projeção astral, vários livros, DVDs e também, ó, muitos, muitos centros esotéricos trabalhando… Com a viagem astral. Como… Como esse aqui né, gente?

E então Flávia Cláudia levantou os braços e olhou em volta de si de forma artificial e exagerada, apelando para a presença de todos ali, na Associação Transcendental Amalantrah, como um sério indicador que a conversa dela era, afinal, séria. Antes que qualquer consideração pudesse ser feita, retomou:

— Mas, então, gente, o que é a projeção, ou a viagem, astral?

Mas uma pausa dramática, como se um vídeo estivesse sendo gravado e ela fosse inserir, na edição, uma vinheta (música eletrônica misturada com um canto monótono, flautas e tambores) ou um letreiro chamativo naquele intervalo.  O seu pequeno público ficou sem entender aquela demora, mas, como se alguém por detrás de uma câmera digital amadora dissesse “Vai, Flávia!”, Flávia foi:

— Então, gente, a viajem astral, não é nada mais do que o ato de estar conseguindo sair, com o seu corpo energético, do seu corpo físico, só que com consciência, gente, com to-tal, total lucidez! E, assim, uma vez que você sai, pode estar fazendo as suas viagens, ou, assim, qualquer atividade, sabe, nesse sentido…  Estar se desdobrando do próprio corpo… E, gente, não me olhem assim, tá?, porque, assim, sério, gente, todas as pessoas, todas as pessoas se projetam, assim, inconscientemente e sem o controle, sem a lucidez, do projecionista treinado, sabe? Não é assim, uma coisa para pessoas especiais, tá? É uma coisa, é uma habilidade para quem quiser, para quem tiver o com-pro-me-ti-men-to necessário. E, aí vocês perguntam, pra que eu vou tá fazendo a viagem astral, porque eu vou tá projetando, assim, o meu corpo astral, o meu corpo energético, minha alma? Gente, tem infinitas razões, tá?, infinitos porquês. Imagina, essa possibilidade, gente, que possibilidade!, de se desvincilhar — entrelaçando dos dedos das mãos e então os abrindo lentamente, como se fossem pétalas  — ai, de se libertar do corpo físico? Você pode tá visitando seus guais, tá?, seus mentores, você pode tá descobrindo, fazendo uma verdadeira arqueologia pessoal e espiritual, descobrindo coisas muito importantes acerca das suas vidas passadas, e até mesmo alguma coisa sobre a sua missão de vida agora, a missão da sua alma, o que é superinteressante, né?, você pode ainda tá ajudando, assim, no astral, espíritos necessitados, tá?, desencarnados, que precisam de um trabalho, precisam de uma luz ali, né?, você pode tá inclusive viajando, viajando no espaço e no tempo, né?, visitando lugares e fazendo, assim, pesquisas, né?, por exemplo, ai, gente, estudar, imagina?, estudar o Zoroastrismo lá na Pérsia da Antiguidade, conhecer os próprios magi, gente, ai, imagina…

Ao que Sr. Hidelbrando começou a ficar agitado, passando a mão por sobre o lábio superior, alisando o ausente bigode; Pereira anotou “superpoderes” em seu caderninho, fazendo raios infantilóides em volta do escrito, e Olímpia se ateve a, muito lentamente, descruzar e cruzar as pernas, com a mesma naturalidade de um dormente que, ainda bem longe da vigila, vira-se para o outro lado.

— Gente, é o instrumento mais poderoso de conhecimento, de crescimento, gente. O mais poderoso, tá? Olha só, gente. Vamos pensar.  O nosso corpo físico, pesado, denso, precisa de muitos cuidados, precisa de comida, e isso, gente, é superimportante também, a gente tem de pensar muito, muito mesmo na nossa dieta, e sono, gente, tá, é essencial dormirmos… Mas, ó, é o corpo físico que precisa desses cuidados… Vocês acham que o nosso corpo energético precisa disso, precisa de dormir? Não, gente, claro que não. E então, que tal estar aproveitando essas seis, sete, oito horas de sono para algo mais? Você pode usar essas horas, projetando sua consciência, para tá aprendendo, para fazer algo realmente, algo prático, útil na sua vida, tá?, é difícil, né?, eu não consigo fazer, assim, tuuudo o que eu quero quando estou acordada, ai, é também um jeito de usar melhor, de tá administrando o seu tempo… Né?

— Mas você, Flávia, já conseguiu isso, viajar no tempo, como é? — Perguntou Pereira, por um instante sinceramente tentando entender a questão.

— Mas, é um desafio gente, eu disse que não é para pessoas especiais, mas assim, em termos, tá?, é pra gente que é guerreira, guerreira. Quem faz projeção astral é guerreiro, tem de ser guerreiro demais, para conseguir dominar a técnica, tá?, tá conseguindo se projetar quando você quiser, onde você estiver, né?, conseguir, assim, tá direcionando a sua viajem, né?, conseguir tá mantendo a sua consciência, a sua lucidez, né?, é difícil atingir, assim, um grau satisfatório dessa técnica… Sabe, conseguir chegar a e manter o mindset necessário e, e depois, seguir naquele flow, sabe?

Ao que Pereira ergueu a mão, como se quisesse repetir a pergunta não respondida, sendo, porém, interrompido por Hidelbrando:

— Também quero fazer uma pergunta!, é… É…  E… E no espaço, você pode fazer uma viagem astral no espaço sideral?

— Ass-

— E! E… E o que você disse, é…. Esse negócio de…  Padrão vibratório?

— Então, gente… Vamos lá, né? Uma coisa de cada vez, né? Ó, sim, a resposta para a primeira pergunta é sim, já consegui, mas foi só uma vez, e, assim, foi muito rápido, muito rápido mesmo, eu fiz minha projeção, né?, eu tava então me projetando, tá?, e aí, gente, eu me vi, assim, andando na rua, em Paris, que assim, é um lugar que eu conheço, né?, que eu conheço Paris, tá?, mas assim gente, olha só, não era a Paris que eu conhecia, tudo parecia assim mais, ai, gente, vintage?, e eis gente, que eu tô Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra, e assim — estala os dedos — assim que eu percebi onde estava, eu perdi o controle da minha projeção, da minha consciência e, gente — jogando a cabeça para trás e virando os olhos artificialmente —, gente, num instante eu estava de volta aqui, sabe?

— Como num sonho? — Pereira perguntou ao mesmo tempo que fazia anotações em sua caderneta, sem levantar os olhos, mas projetando um pouco a voz, um artifício que ele julgava lhe emprestar um ar profissional, o tipo coisa que usava com guitarristas falastrões semi-desconhecidos.

— Sim, um sonho lúcido — subindo tom no , fazendo biquinho —  sabe? Um sonho no qual tudo aparece assim, em alta definição, e você está consciente…

— Ah, então…. —  Pereira olhou para moça, erguendo uma sobrancelha — então o sonho lúcido é a viagem astral?

— Assim, no meu entendimento, assim, sim, por isso que…

Ao que o Sr. Hidelbrando limpou a garganta ruidosamente e disse, estridentemente:

— E no espaço?

— Então, é possível estar sim viajando, pelo astral, no espaço, senhor… É muito difícil, porque conhecer o lugar, tem alguma relação, alguma coisa que, assim, te ligue ao lugar facilita tudo, mas, com muita prática, é sim possível, senhor, estar fazenda uma viagem, assim, no espaço.

Ao que o Sr. Hidelbrando ficou olhando para Flávia Cláudia abobalhado.

— E, bem, é… A questão do padrão vibratório, é a energia que vai fazer com que os seres do astral te enxerguem ou não, eles se comunicam de acordo com a sintonia, se você estiver em baixa frequência vibratória, você vai atrair espíritos baixos, mas, numa frequência vibratória, assim, elevada… No caso do senhor, né?, o senhor estava lá no seu jardinzinho, que deve ser um lugar de muito cuidado do senhor, de muita energia, depois de um dia de vários afazeres, né, de trabalho, e assim, o senhor estava pronto para de deitar, né?, aberto assim para experiências sutis, né?, e assim, o senhor estava lendo, a leitura, a leitura é também uma viagem, né, um ato, assim, mágico, né?, e ai o senhor pode ter elevado o padrão vibratório do senhor, assim, chamando essa criatura…

— Você, você acha ela veio pelo astral?

— Pode sim ter vindo, uma criatura de outro planeta que se projeta no astral, né?, assim, existem várias. Pode muito bem ter sido.

Sr. Hidelbrando, num estado de total maravilhamento, continuou olhando para Flávia Cláudia, agora quase como se ela fosse uma sobrinha-neta querida.

Pereira, maravilhado por sua vez com a facilidade com a qual os dois encontrara um terreno em comum dentro de suas crenças paranormais, rabiscou “dialetos diferentes da mesma língua” em seu caderninho e, virando a página, mais uma vez de olhos abaixados, perguntou:

— E, ahn, Flávia, você está aqui na Associação para…

— Para fazer um trabalho, né?, de blindagem do corpo astral, assim, blindagem do corpo energético com Mestra Intreza, para que me proteger, né?, nas minhas projeções pelo astral.

Aeris, em seu paço soldadesco, reapareceu na sala com uma pasta de couro mole, castanha e bastante surrada, da qual retirou uma duzia de cabos. Antes de começar a testá-los, olhou para os três e, descobrindo-os aparentemente relaxados e talvez até mesmo entretidos, sorriu, parecendo então um pouco menos apressada:

— Ah, olha só, que bom, vocês estão se dando bem…

 

*

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PEREIRA – X

Apesar da proteção fornecida pelo teto do carrinho de golf  e pela pigmentação escura da íris do moço, a luz do início da tarde fazia com que Pereira mantivesse impressa em sua face uma leve careta. Mirava os arbustos e as pequenas árvores contorcidas do cerrado, crescendo logo depois dos estreitos canteiros às margens da estradinha asfaltada, onde, semeadas e irrigadas artificialmente, plantas de folhagem mais vistosa do que as de suas parceiras naturais desafiavam a secura do sertão.

À frente, aproximavam-se lentamente os prédios da Associação Transcendental Amalantrah, evocando, com seus desenhos arredondados, um cenário de filme de ficção científica ruim qualquer, no qual o futuro aparece familiar, datado. O muro visto antes na entrada se estendia agora abraçando todo o perímetro da vila, feito o de um condomínio fechado.  Em seu caderninho apoiado sobre o joelho, tremendo ligeiramente, Pereira rabiscou cifrões, pensando: esse povo é rico. Por ser acostumado a viver nas áreas centrais de cidades sujas, o ar limpo, ainda que seco e quente, agradava-lhe especialmente, como também lhe agradava o perfume da motorista, moça que, por seu corpo delgado, coluna aprumada e nariz adunco, tinha algo de ornitoídeo. Mas nada galináceo, bicho ao mesmo tempo abobado e nervoso: uma ave esperta, calma e rápida. A jovem conduzia para a primeira construção depois do portão, referida por ela mesma como Câmara de Descompressão, enquanto ia discorrendo, institucionalmente:

— A Associação foi fundada em 88 e inicialmente funcionava em uma chácara lá em Minas, na cidade de São Thomé das Letras. Essa chácara ainda existe, não é mais a sede, mas uma de nossas várias unidades pelo país. Uma de nossas filiais. Em 95 foi adquirido esse espaço, que, além de várias vezes maior, é energeticamente mais potente do que a chácara. O domo foi a primeira construção, servindo para todas as nossas atividades, até que, graças aos Mestres Ancestrais, fomos crescendo, com mais associados optando por uma experiência mais intensa e mais recompensadora, até que em 2000 começarmos a construção da vila, para darmos conta de abrigar todos. São quase noventa casas… Ahn, exatamente 92 com as três que ainda estão em construção, ali ó.

A moça tirou rapidamente a mão do volante e apontou para a esquerda. Pereira fez breves anotações, das quais, além dos cifrões, só os números apareciam, mais ou menos, legíveis. A jovem, depois de uma disfarçada olhadela no caderno do jornalista, continuou:

— Uma grande parte do investimento vem de Mestra Intreza, que nunca mediu esforços, sejam eles recursos materiais, sejam suas próprias energias, vitais e psíquicas, para passar adiante os ensinamentos que os Mestres Ancestrais lhe transmitem. Fora isso, existem as contribuições de todos que participam de nossas atividades. Como você, sua revista, por exemplo. É um investimento duplo, você investe em você, em seu crescimento e aprendizagem, e em nós, nesse coletivo. Já os… Os mais avançados nos estudos, que já residem aqui e estão mais preparados, investiram aqui tudo o que tinham, por uma questão muito lógica: a vida deles é aqui. Aqui, e quando for a hora, além. Mas antes, necessariamente, aqui.

— Você é uma dessas pessoas? — Pereira disse fingindo anotar qualquer coisa, sua vista abaixada.

Ao que Aeris — e esse era o nome usado pela moça dentro da Associação, um nome de personagem de videogame, que Pereira bem sabia, mas preferiu não questionar, nem mesmo comentar, simplesmente repetindo, Aeris, quando ela se apresentou ao moço instantes antes, quando abriu o portão — disse, desembaraçada:

— Sim, eu vim para cá em 2010, com a minha mãe. Minha mãe conheceu a Mestra no início dos noventa, nós sempre participamos de várias atividades. Eu desde criança. Várias. Aí, em 2010, quando ficou evidente para nós que algo, algo enorme, estava prestes a acontecer e que… Que era necessário estarmos preparadas, viemos para cá…

— E deixaram tudo para trás?

— Sim… Deixaram para trás, mas… Eu não diria que era tudo. Deixamos para trás uma vida sem significado.

— Ahn… E o que… O que está prestes acontecer?

— Você é privilegiado Daniel, muito privilegiado — e então a moça, com um ar solene, tirou os olhos da via, que seguia mesmo reta, desacidentada e vazia, e disse, olhando nos olhos de Pereira — A Mestra não só aceitou que você fizesse essa visita e produzisse o seu texto tratando da Associação. ela também quer falar pessoalmente com você….

Fala que causou em Pereira uma curiosa sensação de esperança, indefinida e arrepiada. A moça prosseguiu:

— Já amanhã você vai ter a oportunidade de falar com Mestra Intreza, depois da sua primeira aula. Ela mesma lhe explicará todas essas coisas… 

— …

— Mas… Eu tenho umas explicações mais gerais, vamos só encontrar os outros na Câmara… Para eu não ter de me repetir muito.

Depois de estacionar o carro em uma pequena marginal próxima à construção cilíndrica de teto abobodado, a dita Câmara de Descompressão, a mulher, com seu passo preciso, caminhou em direção da grande porta de ferro da casa.

A moça com seu macacão prateado, como o de um um geólogo intrépido que se aproxima de um vulcão em plena atividade, veste que quebrava a luz chapada da tarde em vários poliedros aluminados de formas intercambiantes, o  portão metálico e a construção minimalista, erigida em uma paisagem que, dependendo do enquadramento, parecia-se com um deserto, compuseram um quadro que, por instantes, breves instantes, tinha algo de extraordinário.

Como se a moça fosse uma exploradora sideral em um planeta hostil.

Imagem que se sustentou até Aeris abrir a porta, revelando um cômodo de piso de ardósia verde escura encerada, mobiliado com uma mesa e  cadeiras, todas brancas e de plástico. Em volta dessa mesa, três pessoas conversavam. Entrando, seguida de perto por Pereira, a moça anunciou o jornalista:

— Pronto, gente, esse é o último. É o Daniel Pereira, que veio nos visitar em nome da revista Palco.

Apresentação que Pereira complementou com um oi muito discreto, um pouco atrapalhado pela súbita mudança na iluminação —  as janelas estavam com as cortinas fechadas, uma lampadazinha débil servia como a única fonte de luz  —  e imediatamente irritado com o odor avinagrado vindo do ar condicionado do recinto, que lhe remetia a salas de cinema cheias de mofo.

— Por favor, sente-se — a moça disse ao jornalista.

Quase na beirada da mesa, havia um projetor ligado a um laptop. Aeris sentou-se diante do computador enquanto Pereira tomou assento do outro lado da mesa, junto com os que ali já estavam: um velho e duas mulheres, uma na casa dos trinta, outra de talvez cinquenta anos. O senhor falava enquanto as mulheres o escutavam atentamente.

Todo rosto nos parece ter uma expressão que lhe é mais natural do que as outras. Mesmo impassível, toda face, pelo seu próprio desenho, sugere-nos uma careta e, pela careta, um estado de espírito do qual, às vezes, fazemos um julgamento moral. Fulano tem cara de irritado, beltrana de preguiçosa, sicrano de arrogante. O velho tinha em seu rosto uma permanente caretinha contida de nojo, como se surpreendesse com algo desagradável, quiçá escatológico, mas tivesse de manter as aparências. De um branco amarelado, seu cabelo era todo eriçado. A pele lisa de suas rosadas bochechas barbeadas contrastava imensamente com as rugas que se cercavam sua boca e olhos e se eriçavam acima de suas sobrancelhas. Seus dentes eram de um amarelo claro, salpicado de pontinhos pretos nos incisivos inferiores, combinando feiamente com o tom acinzentado de suas gengivas amplamente expostas. Olhando para as suas mãos, pousadas sobre o punho de uma bengala de alumínio de quatro pontas, Pereira as imaginou frias e úmidas. Além uma incongruente camisa social toda amassada, o velho vestia calças e jaqueta de treino negras, de material sintético, lembrando a um Fidel Castro glabro.

— É… Ahn… Muitos, não é mesmo?, muitos diriam que a, ahn, a própria forma da figura, a sua própria forma, ahn, antropomóooorfica, não é mesmo?, seria um graaande obstáculo para a ve-ro, verossimilhança de meu relato… — os olhos acompanhando os movimentos de Pereira ao se sentar, tentando em vão arreganhar a boca em um sorriso convidativo — Mas não há nada de verdadeiramente, ahn, literalmente in-crí-vel nessa minha, ahn, nesse meu relato… Porque essa forma — erguendo as mãos, a bengala sobre um dos joelhos — essa nossa forma de cinco pontas, essa forma de estrela, ela não  é uma forma completamente alea… Aleatória, um fruto qualquer de um processo seletivo qualquer, ahn, de seleção natural…

— Design inteligente — murmurou a mulher mais nova, uma moça de cabelos castanhos presos em um coque, trajando uma longa bata indiana bege.  Tinha um pouco de branco demais nos olhos e, inclinada para frente, as mãos espalmadas juntas diante do rosto, quase que como se rezando, mantinha um ar pretensamente reverencial que não conseguia esconder sua, talvez permanente, ansiedade. 

O velho piscou demoradamente e então disse, num gemido agudo e anasalado:

— Não…

Buscou o punho da bengala e, levantando levemente os ombros, retomou sua fala:

— A própria… Não, sem nada necessariamente inteligente… A própria seleção natural, ahn, gera formas… Formas que se repetem… Existem formas que são funcionais, que, portanto, se repetem… Diferentes organismos, seguindo diferentes caminhos evolutivos… Por necessidade… Pela, ahn, interação do seres com a matéria… Chega-se a soluções semelhantes… Ahn, pensemos, ahn, nas formas… No corpo de um tubarão, que é um peixe; no corpo de um de um golfinho, que é um cetáceo e, assim como as baleias, também um mamífero e, ehn, pensemos no corpo de um iqui-ti-o-saaau-ro, ahn, ictiosauro, que foi um um réptil marinho, um réptil…  — e então, demoradamente, o velho, com o indicador (os olhos espremidos seguindo o movimento do indicador), começou a desenhar no ar a silhueta passara a descrever — Comecemos pela cauda, com aquela nadadeira aberta assim, ampla, ahn, depois o corpo, espichado, não é?, mais grosso no meio, as barbatanas, não nos esqueçamos das barbatanas, o ros-, é, o focinho pontudo, assim afunilado…

As duas mulheres observavam atentamente a explicação do senhor. Pereira o escutava e o observava, mas às vezes olhava de relance para Aeris que, entre muxoxos e murmúrios, tentava fazer o projetor funcionar, checando ora o cabo ligado à entrada do próprio projetor, ora o cabo ligado à conectado ao laptop. Concentrado em em sua fala, o senhor continuou:

— Então temos — contando os dedos da mão esquerda com a direita, a bengala apoiada na beirada da mesa — peixe, réptil, mamífero —  mostrando três dedos erguidos —  três seres distintos, internamente muito diferentes, mas apresentando, ainda que su-per-fi-ci-al-men-te, o meeesmo desenho, a meeeesma forma. Ahn, evolução… É… Evolução convergente…  Esse é o nome que a ciência dá, evolução convergente… Então… Vejam, é perfeitamente possível. Então não há nada de estranho, nada de inverossímil na forma do ser que me visitou, por ser ele um extraterrestre hominídeo… Essa forma, essa forma nossa, por sua utilidade, sua funcionalidade, pode muito bem se repetir… Essa forma de estrela, torso membros e cabeça… Estrela, microcosmo, pensem… É uma forma muito apta a se desenvolver por aí… Se repetir por aí, nos imeeensos abismos sideraaais…

O senhor virou-se lentamente para Pereira, lembrando-se de que o jovem não estava lá quando ele começara o assunto.

— Fui visitado, sabe? Contatado — segurando a bengala com as duas mãos e a erguendo lentamente para junto do peito — Um nível muito, muuuito profundo de contato.

Pereira tentou manter o semblante o mais sério possível. Aeris disse saindo do cômodo a passadas largas:

— Esse projetor não presta.

Antes de encostar a porta pela qual entrara com Pereira instantes antes, ela disse, quase gritando:

— Volto já, dez minutos, vocês não terão de esperar mais, dez minutos…

Ao que todos anuíram quase que automaticamente, por interessados na narrativa do senhor de vestes esportivas negras, que prosseguiu, enquanto de lá de fora vinha o som do motor do carrinho de golf  dando partida:

— Eu estava, como que agora, não sabem?, lá em minha casa, preparando-me mentalmente para ir dormir, lendo um pouco… Estava lá, na minha cadeira de vime no jardim, sabem? Todo sossegado já, o dia já corrido, passado, tudo feito. É engraçado… Porque será, hein? Haha. Nas estórias as aparições fan-tás-ti-cas sempre se dão assim, não é mesmo? São preeeceeediiidas desses episódios esquecíveis, comezinhos… Quem me, ahn, visitou não foi um animal, ah… Agourento, a me lembrar de um amor já impossível, mas… Como no poema, não é mesmo? Não foi um corvo, a memória de águas passadas, ai, primaveras, ai, primaveras semi-esquecidas… Não. Mas.. Algo novo… Uma personagem…

O velho parou subitamente, mirando Pereira com o caderninho sobre o joelho:

— Algum problema se eu tomar notas? — disse o jornalista, meio acanhado.

— Não, de forma alguma, esse relato é de fato importante, eu não posso, ahn, não posso escondê-lo, não posso ser pudendo com algo de tamanha magnituuude, por mais que, por mais que, diretamente, eu me exponha… Mas, sabe, eu já… Vocês vão ver, é triste, mas é uma questão de tempo a vocês verem por si mesmos… Eu já me expus tanto nessa vida… Ahn, esperem que vocês verão… Exames, todos os tipos de exames, ser velho é ter o corpo entregue aos médicos… Sr. Hidelbrando, o senhor poderia? E aí vêm todo tipo de pedido, tudo quanto é situação, e então, por qual razão?, pra quê?, pra quê ser pudendo agora? Pode sim tomar notas, meu jovem… É…

— Muito obrigado…

— É, revista, a moça disse agorinha, revista?…

— Palco… — respondeu Pereira coçando nervosamente seu cavanhaquezinho macio,  — É uma revista que trata de… Artes. E… Mas, é… Não só artes, sabe? Artes e estilo de vida.

— Estilo de vida. Unhum. — disse a mulher que até então ficara calada, fazendo em seguida um beicinho que era como um carimbo a validar a sua breve fala, fala que revelara um relâmpago de dentes branquíssimos em contraste com um bronzeado cinematográfico. Sentada na extremidade da cadeira, com as duas mãos pousadas placidamente sobre os joelhos, com a coluna ereta, ela arqueava uma casaca de hipismo estilizada, de veludo azul-marinho, que casava com os seus culotes brancos justíssimos e com as suas botas de montaria marrons, perfeitamente lustradas.  Sua face felina —  toda natural, exceto pelas duas covinhas cavadas meticulosamente por um cirurgião plástico que chegara a assinar um termo prometendo nunca revelar tal intervenção —  era emoldurada por um corte de cabelo a la Louise Brooks e estava o tempo toda direcionada à Pereira, na expectativa de que o jornalista a reconhecesse. Pereira, alheio ao mundo das colunas sociais, não reconheceu, entretanto, Olímpia Magalhães Errenteria, que além de socialite,  fazia também sua parte na formação no excesso de contingente de advogados, jornalistas, escritores e DJs do país, clamando para si tais títulos. 

A fala da suposta amazona acalmou Pereira, que acenou com a cabeça concordando, fechando os olhos de forma veemente: ele não queria ser desmascarado, não queria ser visto ali como quem era, o rock journalist chatinho, esnobe das bandas desconhecidas. Era alguém que escreve sobre o quê? Perfeitamente, estilo de vida.

— Palco? Vocês tratam de ópera também? — Hidelbrando desconcentrou-se por instantes.

— Olha, não… Mas é… É uma boa pauta, uma boa pauta….

— Ah, olha só, eu sou um diletante, quase um leigo… Mas, sabe, já escrevi algumas coisinhas, depois posso lhe mostrar… Mas, sim, estilo de vida —  os braços esticados,  as mãos erguidas abaixo, diante de si, a esquerda sobre a direita, a direita pousada sobre o cabo da bengala, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado — faz sentido, poder-se-iiia falar siiim em um estilo de vida mais propício a aceitar esse tipo de fenômeno, e é claro, indo além, também um estilo de vida novo, que se desenvolve a partir da fruição do fenômeno, do… Do contato.

Pereira rabiscou um pequeno disco voador, escreveu displicentemente em baixo “Contato imediato? Qual grau?”.

Tentando manter um semblante profissional, empunhando a caneta, mirou os olhos do velho, como quem diz, estou pronto:

— Sim…

— Mas, bem, onde eu?… Sim, ah, sim… Estava eu então no meu quintal, não é?, preparaaando-me para em instantes ir dormir, entreeegar-me aos braços de Mooor-feu, não é?, quando acooon-te-ceu. Sim. Tudo começou com uma súbita luz, dourada, que me banhou todo, até me trespassou, eu diria, surgindo acima de mim, sem som nenhum, odor nenhum, nada, só essa luz. Não digo que me paralisou, mas foi quase, não sabem? No que veio a luz fiquei incapaz de me mover normalmente. Era… Era como se o ar tivesse se transformado em um meio muito mais denso, como se ca-da mo-vi-men-to fosse muito mais difícil, arrastado, do que o normal… Assim, limitado, olhei para cima, para de onde vinha a luz… Eis que do alto, no meio mesmo da luz, havia um ponto negro, um objeto, que de início é só um pontinho, só um pontiiinho que leeentameeente foi crescendo, tomando forma, desceeendo… — o velho então voltou a deixar a bengala de alumínio cair sobre os joelhos e olhou para o alto, para o teto do cômodo, como se de fato vissse ali a luz e o corpo que por ela descia — E daí vi uma silhueta, negra contra a luz, silhueta na forma da qual falava antes… Uma forma humanoide, com cabeça, torso e membros… Não caia, entendem? Não acelerava. Essa figura vinha em minha direção, abaixava-se numa velocidade constante, leeenta… Como se a descessem amarrada a uma corda… Corda invisível… E nisso o tempo se estendeu, não sabem? Eu não poderia dizer com certeza o quão demorado foi isso… É tão incrível, não é? Quando essas coisas espetaculares acontecem a nossa reação não é nada parecida com aquela que imaginamos que teríamos… Ah, eu tenho todo tipo de equipamento lá em casa, eu sou um sujeito up to date…  — projetando perdigotos — Eu tenho câmeras ótimas, equipamento de primeira mesmo, sabem? Mas não gravei nada, não é mesmo? Nada além do que ficou aqui… — apontando para a cabeça — Não só aqui, na verdade…

O velho ficou por instantes com os olhos fechados. Por um breve momento a sua distintiva careta se desfez e viu-se em seu rosto um sorriso, como se tivesse sido contemplado com uma graça fugaz.

— E então, pela luz, ungida pela luz dourada, de ponta a cabeça, a cabeça dela vindo como que de encontro a minha, os braços esticados gentilmente em minha direção, veio descendo a cria-tu-ra, ah, nua, nua, alienígena, mas hominídea, antropomórfica,  feminina, feminina, sabem? De silhueta, contorno, feminino, não sabem? Um corpo, assim, esguio, mas não es-quá-li-do, sabem? Mas, pequeno, pequeno, eu diria… Quando se aproximou mais, eu pude ver… Um metro e quarenta… Careca, careca mesmo, sem quaisquer pelos, a pele lisa, quase translúcida, várias veias assim reveladas, visíveis, sombras dos ossos debaixo da carne, manchas escuras indicando os órgãos… A cabeça, tão bela, tão altiva, graaande, ovalada…

Ao que a mulher da bata bege se empinou toda e arregalou os olhos em espanto, a socialite bronzeada sorriu tranquilamente, como se aquilo tudo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto Pereira se conteve para não soltar um muito modulado e sonoro:

— Nuuuooooossa —, restringindo-se a rabiscar em seu caderninho: quinto grau, será?.

Os olhos — prosseguiu o velho — e aqueles olhos, amendoados e enormes, enormes, muito negros, todos negros, todos pupila, estáticos, completamente estáticos… Ah, quando eu vi a-que-les ooolhos… Era como se, sem nenhuma, nenhuma palavra, num silêncio… Um silêncio que só não era silêncio porque havia um leve zumbindo, sabem? Um si-bi-lo contínuuuooo, extremamente agradável… Um zuuumbido divino. Exceto por isso, silêncio, silêncio. Não existiam palavras. Neeem em miiinha mente… Acho que nem em minha mente se formaram então palavras. E nesse silêncio, aqueles olhos… — levantou as duas mãos para cima, espalmadas, os polegares próximos de si, separados pelas imaginárias e minúsculas narinas do alienígena, os mindinhos apontando para cima, as mãos assim marcando onde estariam os descomunais olhos do ser sidérico; o cabo de sua bengala, solto, foi então de encontro à beira da mesa, golpeou-a de levinho e deslizou para a direita, não caindo o instrumento porque ficou encostado na perna do velho, feito um falo falso, metálico, erguendo-se na diagonal — Aqueles olhos se comunicaram comigo, conheceram-me, realmente conheceram-me, perguntaram-me coisas, coisas que eu respondi com o maior prazer, a, ahn, com a maiooor entrega, tudo por meio de imagens, sim, apenas imagens, imagens que eu ia revisitando, abrindo em minha memória e transmitindo àqueles olhos… Momentos de minha vida que ia buscando, reconstruindo, embalando de prazer… Como se meu prazer fosse uma grande folha de papel dourado que eu pudesse cortar e com ela embalar essas imagens, esses instantâneos que com um pouquinho de força, quase que força nenhuma, quase que só uma confirmação de que sim, aquilo era pra aquela criatura miraculosa, aquilo era o que ela queria, eram as respostas para as perguntas informuladas dela… E ela também, por sua vez, não sabem?, foi me enviado mensagens por meio de imagens… Abismos siderais, um comboio de naves errando por céus distantes, frios, desolados, transpotando seres de uma existência em parte orgânica, como nós, e em parte sintética, como já estamos também nos tornando… Seeeres mais antigooos do que nós, mas, parecidos, in-cri-vel-meeen-te, parecidos, não é mesmo? Foi só aí, realmente, que ficou evidente para mim a natureza realmente alienígena de minha visitante, não sabem… Até então, mesmo eu sendo um homem prático, técnico, afeito às ciências, até então eu considerava seriamente minha visitante como, ahn, diii-viii-na… Mas, por meio daquele delicioso cinema mudo telepático ela me revelou ser um ser, apesar de sideral, profano, suscetível aos sortilégios da mooorte, assim como nós… Do amor e da morte.

— Que incrível… — a moça da bata bege.

— O mais incrível, na rea-li-da-de veio depois, depois desse nosso, ahn, digo jooocosamente, mas com muito respeito… —  olhos fechados, levando a mão ao início do nariz, no meio dos olhos, onde se apoiariam os óculos  — Depois desse nosso primeiro contato, no qual nós nos conhecemos muito, muito mais rápido do que se conhecem os… Os jovens, éhn, de agora, na eeera da infooormação, não é mesmo? Foi exatamente depois dessa nossa primeira conversa que se deu o mais digno de nota, o que pode nos espantar, abiiismar verdadeiramente, mas, que, li-te-ral-men-te — dedinho indicador em riste — literalmente nada tem de incrível…

— Claaaro… — mais uma vez, a moça de bata bege, agora passando a mão pela testa nervosamente. A morena continou com um sorriso de catálogo de imagens, Pereira sublinhou duas vezes o escrito quinto grau, na expectativa do clímax do causo.

O homem então inclinou a cabeça para baixo, lentamente, como se fosse colocar a testa contra a mesa. Movimentou-se, antes fechando os olhos, de forma tão lenta, tão harmoniosa, que Pereira pensou talvez o velho, com sua face escondida por abaixada, talvez tivesse conseguido momentaneamente sorrir de verdade mais uma vez.

Voltando a erguer a vista, buscando, e encontrando, um céu ausente, com os braços como que se tentando mover acima de si um pesado cobertor, o velho continuou, agora às vezes esganiçando num falsete estranhíssimo:

— E então veio, veio sim, ah, veio. Ó, aqueles dedos alongados, ó, se prolongando, o que era aquilo?, ó, ela veio, se aproximando de mim, os dedos, alooongados, me tocaram, tocaram o topo, o próooprio topo da minha cabeça, e aí, ó!, algo, eu não digo sobrenatural, mas, ó, algo fantástico, ó, fantástico, ainda que tecnologicamente fantástico, aconteceu, é!, o topo da minha cabeça se efervesceu por completo, efervesceu, e era como se estivesse lá, em uma brasa prazerosa, e como se então também não estivesse, como em sono, mas também um sono de gozo; imagino que aquela criatura celeste, ai, estelar, estivesse vibrando em frequências, frequências especiais, sutilíssimas, por meio das quais ela podia, não, dois corpos não podem permanecer no mesmo espaço ao mesmo tempo, claro, mas ela podia, vibrando, vibrado, efervescer, tomar meu couro cabeludo e então, ó, ir tocando, sem me ferir, sem tirar nada do lugar, ir descendo, tocando meu crânio, trespassando pacificamente meu crânio, ó, afundando aqueles prooolooongados dedos — enquanto agora esfregava os próprios dedos e se mexia na cadeira — ó, aqueles dedos então afundando, ai, no meu cérebro, dois dedos, dois dedos feito uma pinça, uma pinça assim aberta, um compasso, ai, o compasso do criador, ai que blasfêmia, e vão afundando aqueles dois dedos, afundando sensualmente, vibrando, até tocarem minhas amidilas ce-re-be-looo-sas, ai, causando em mim, ai, como eu diria?, aaah…

Tapando o rosto com as mãos espalmadas, a voz ao mesmo tempo empostada e embargada:

— O céu de azul aceso num lampejo, tropel vitorioso a festejar, abismo de vertigens mil a enflorar, translúcido ardor do amor que almejo, uma dança com um demônio benfazejo, nasce o sol do céu e mar a encontrar, são fogos e champanhas a estourar, enfim beijo o bom anjo do desejo, o frêmito incrível, deuses líquidos, e o súbito cessar de todos os ruídos que morno me descobre tão lânguido, no rol dos, oh!, felizes incluído, agora, nada límpido, mas plácido, profano, sou em carne revivido!

Ao que as mãos do velho desceram, revelando seu lábio inferior trêmulo, seus olhos marejados. Levantou-se apenas o suficiente para conseguir retirar um lenço do bolso de trás da calça e, fungando muito, prosseguiu:

—  Ai, vão dizer que homem não chora, não é mesmo? Mas… Vocês me dão essa licença, poé-

— Não, não, mas é claro, o senhor tem de… — não conclui a moça da bata bege.

— Ô, meu caro — Pereira, vacilante — O senhor tem mesmo de…

— Muita emoção. É muita emoção, gente — disse Olímpia com sinceridade.

— Ai, sim, emoção demais. Imaginem? Ai, me esquentei mesmo. Dando até um breve circulaçãozinha lá embaixo, onde eu já ando há muito, ahn, desfalecido mesmo…. E no que foi tirando eu fui tremendo todo, sentindo aquele efervescência diminuindo, ai, aquela coisa fantástica.

Sorriu pela última vez seu raro sorriso?

Antes que alguém fizesse que ia falar, retornando à caretinha usual, quase gemendo:

— Mas… Da mesma forma repentina como veio até a mim, ela… Ela se foi… Não é mesmo? Entre nos dois abismos, abismos —  os olhos baixados, a vista deslizando pelo chão —  Nunca mais fui contatado, com nada… Uma… Uma imagem… Sequer… E, bem, ai, por isso, por isso cá estou, não sabem? Acredito que aqui, aqui vou conseguir entender como… Como fazer contato, poder, sentir…. Sentir mais uma vez.

*

 

Pereira – VIII

 

*

Pereira, quase que só por educação, fez mais algumas perguntas (vagas, bobas) para Luciano, sem se demorar muito mais no escritório do arquiteto. Despediram-se amistosamente, prometendo um reencontro em breve. Luciano traria algumas fotografias e fitas, Pereira daria notícia de sua tentativa de entrar em contato com Cármen. 

O moço voltou para seu apartamento como viera, a pé, agora em meio a centenas de pessoas retornando de seus trabalhos. Caminhando, reafirmava para si quão sem graça fora a entrevista, o quão afastados de suas recém-criadas expectativas estavam os membros da Olho Pineal dos quais se aproximara. Luciano, apesar de muito agradável, pareceu-lhe insosso demais, para não dizer careta, além de afastado da música; enquanto Cármen — não Cármen ela mesma, naturalmente, que continuava desconhecida, mas a Cármen fornecida pela entrevista com Luciano — excêntrica demais, para não dizer doida, e, também, afastada da música.

Antes de subir para seu retiro apertado, Pereira comprou em um supermercado próximo de seu prédio — muito e cheio, forçando-o a se mover muito mais devagar do que gostaria — duas latas de cerveja e uma pizza (de calabresa) congelada, produtos forneceram um pouco mais de matéria orgânica morta às bactérias de seu teclado.

Durante toda a vinda, a tela do monitor de Luciano lampejava na memória de Pereira. Ele tinha de rever o site da A.T.A.. Encontrou-o com facilidade. Lá estava, entre os primeiros resultados da busca, simplório, numa apresentação típica da década de noventa, com uma fotografia do grande domo branco, brilhando ao sol, a receber os visitantes. O seguinte texto aparecia sob o título Que somos nós?:

Associação Transcendental Amalantrah (A.T.A) é um grupo de pessoas dedicadas ao estudo e prática de uma imensa variedade de artes e técnicas destinadas ao engrandecimento do ser humano. Com uma abordagem multidisciplinar para os grandes problemas existenciais, a A.T.A. faculta a todos os interessados em alterar sua visão de mundo a oportunidade de abraçar um estilo de vido pleno de realizações. A partir de uma doutrina que une harmonicamente a ciência, a filosofia e a religião, a A.T.A. buscar levar o indivíduo até à sua manifestação máxima.

Oferecemos uma série de tratamentos e serviços para os sofrimentos da existência (incluindo problemas financeiros) além de promovermos cursos, oficinas e palestras tratando dos temas que nos são caros, tais como A Tradição Hermética, os Chakras e a energia vital, o Karma e as reencarnações, a existência de capacidades extrassensoriais e contato com seres intra e extraterrestres.

Venha já nos visitar e fazer parte dessa luminosa corrente.

A redação, de início vaga e repetitiva, culminando subitamente em poderes paranormais e promessa de comércio com seres subterrâneos e alienígenas causou um leve espanto em Pereira, reforçando a narrativa de Luciano de que Cármen havia se transformado em uma pessoa totalmente dedicada ao sobrenatural. Desnecessária confirmação podia ser encontrada na seção chamada A Mestra:

Os trabalhos desenvolvidos na Associação Transcendental Amalantrah se dão sob a orientação espiritual de Mestra Intreza.

Abaixo listamos os mais importantes títulos e graduações de nossa Mestra:

Mestra Desperta, Conduto Imediato com os Mestres Ancestrais
Formada em História pela USP
Phd em Arqueologia Alternativa pela Miskatonic University
Formada em Terapia Orgônica Avançada
Formada em Imposição de Mãos (escola oriental e ocidental)
Formada em Astrologia Suméria
Shihan (7ª dan) de Kureijigachou-Ryu Kiai-Jutsu
Iniciada no Xamanismo por Mestre Piaga Potoca
Formada em Tarologia pelo Gébelin Institut

Perguntando-se o que seria um Conduto Imediato e quem seriam os Mestres Ancestrais, Pereira correu os olhos pelo sintético currículo, decepcionado por não encontrar ali nenhuma menção àquilo que ele reputava como o grande feito de Cármen, o que ela deveria fazer constar ali, necessariamente, na seguinte ordem: compositora, vocalista e guitarrista da banda Olho Pineal.

Murmurando — não, não, não pode — Pereira continuou clicando pelo site, até encontrar a seguinte lista sob a rubrica Cursos, Palestras, Tratamentos e Serviços:

Cursos:
Meditando com cristais
Meditando com os quarks
O corpo sutil e frequências energéticas
Autodefesa psíquica
Introdução à Magia Cerimonial
Introdução à Viagem Astral
Introdução à Cabala Gnóstica
Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios

Palestras:
Os Extraterrestres Crísticos / Os Extraterrestres Luciferinos
O Fluido Cósmico Universal
Paleocontato e ufoarqueologia
Os Princípios Herméticos

Tratamentos e Serviços:
Equilíbrio dos Chakras pela Cromoterapia e Cromopuntura
Cura por meio da imposição de mãos
Cristaloterapia holística
Orientação profissional, financeira, amorosa e espiritual pelo Tarot
Numerologia aplicada à Contabilidade

Desse curioso rol, Pereira pulou para a página com a galeria de fotografias, já vista no escritório de Luciano. Correu os olhos por várias imagens do domo, externas e internas (o interior do prédio sendo uma coisa retrofuturista com decoração de loja de artigos esotéricos), e da vila de pequenas casas, cilíndricas e de teto convexo, afastadas da nave de concreto, construídas ao redor de uma praça com uma estrutura geodésica enorme no centro.

Uma das legendas dizia que naquelas casas viviam pessoas que, e a redação era exatamente essa, tiveram uma revelação de ordem metafísica e decidiram se dedicar integralmente à obra de suas próprias ascensões. Pereira ficou sinceramente incomodado com essa informação, solta assim, na legenda de uma fotografia, correndo o risco de passar batida. Como dissera Luciano, a A.T.A. parecia realmente ser uma seita. Pereira queria contatar Cármen mesmo assim.

Ele deu mais uma olhada, displicente, no site e depois de alguns minutos parado, mirando a fotografia inicial do domo, murmurou para si mesmo:

— É… Hoje, só amanhã.

Decidiu dar o expediente por encerrado, se é que podemos falar de expediente em se tratando de Pereira, e foi encontrar com conhecidos e amigos em um bar na Augusta.

No dia seguinte, no início da tarde, assim que acordou, ressaqueado, Pereira foi procurar por Dinho Motta, um dos editores da revista Palco. Pereira era um colaborador frequente do periódico e tinha um bom relacionamento com Dinho, que no ano passado havia lhe enviado para cobrir um festival na Espanha.

Sob a garoa — chuva de molhar bobo, como diria Pereira imitando suas parentas do interior — curtindo uma leve dor de cabeça, ele caminhou até o prédio no qual a redação da Palco funcionava. A informalidade de fazer uma visita sem antes marcar um horário não chegou a prejudicar Pereira, que teve apenas de esperar um pouco (propositalmente em pé, encostado no parapeito de uma janela) enquanto Dinho terminava uma conversa com aquele que Pereira sabia ser  a sua orientanda de mestrado.

Ao contrário de Pereira, que tratava exclusivamente, dolorosamente, de rock, Dinho cobria com naturalidade e gosto quase todos os gêneros musicais, com conhecimento e sensibilidade suficientes para abarcar também a música erudita. Escrevia fazendo tantas referências pertinentes e chegando a tantas conclusões válidas (projetando-se para fora do universo da música) que gerava em Pereira a impressão de uma eloquência imensamente livre, como se aquele careca rechonchudo pudesse escrever, com leveza, sobre quase qualquer coisa, dando uma dignidade ao ofício que Pereira julgava ser, pelo menos para ele, ainda inatingível.

Quando Larissa, esse era o nome mestranda, depois de guardar seus papéis e livros em uma grande pasta de plástico, indo embora, levantou-se, Pereira abriu a porta de vidro da saleta de Dinho, segurando-a para a moça, que lhe dirigiu um muito rápido olhar de desdém. Pereira, que pretendia dizer-lhe qualquer coisa, simplesmente para se sentir parte de um grupo de pessoas supostamente interessantes cujo centro seria Dinho, desanimado com essa tênue comunicação, sorriu-lhe um sorriso dourado de tão amarelo, então envergonhadamente consciente de suas roupas coladas ao corpo por molhadas e do seu moptop normalmente meio eriçado agora deformado, com uma franjinha grudenta a ornar a sua esta.

Com um ar protocolar, Dinho se levantou para apertar a mão de Pereira e, por gestos, oferecer-lhe assento. Retornado à sua mesa prazerosamente organizada, educadíssimo, como de costume, Dinho recebeu Pereira:

— E aí, meu caro, o que você conta?

— Tudo bem, Dinho. De boa. E você, cara?

Ao que Dinho deu um leve sorriso e disse cerrando os olhos e balançando levemente a cabeça:

— Não tenho do que reclamar.

— Ótimo, cara, ótimo. Eu queria te perguntar…

— Diga…

— Olho Pineal, cê fraga?

Dinho riu internamente do fraga e acenando agora positivamente, disse:

— Vi no seu blog a resenha. Mas não conheço. Nunca ouvi falar.

Pereira tirou do bolso o pendrive com os arquivos que continham as canções de Quimeras e Tetragrammaton e o ergueu cerimoniosamente à frente de seu rosto, quase como um padre segurando a hóstia sagrada. Dinho estendeu a mão e recebeu o dispositivo de Pereira, espetando-o em seu computador logo em seguida.

O editor colou Quimeras para tocar. Escutou Hecáte impassível, fazendo com que Pereira, nervosíssimo, sentisse nu diante de seu superior. Depois do final da canção, passando a mão pela ampla careca, parou a reprodução e disse, num tom de voz esmaecido:

— Meu caro… Daniel, mas… Mas isso é diluição… E… Nem bem-feito é.

— Cara, você tem de… Tem de escutar com mais atenção.

— …— Sem lhe responder, Dinho fez com que a música continuasse. Ia escutando a introdução de cada canção, pulando para mais para frente, quando surgia o vocal, e então para o final de cada faixa. Dessa maneira, passou por todo o álbum em menos de quinze minutos.

— Dinho, não, cara… É um álbum conceitual, você tem de escutar tudo, as músicas inteiras. Cara, tem valor, isso tem valor.

— Olha, Pereira, eu te entendo muito bem, te entendo perfeitamente. Você gostou dessa banda. Agora você tem de entender também que às vezes nós gostamos de algumas coisas por motivos completamente pessoais… Eu não escutei nada aqui, meu caro. Eu não preciso escutar tudo para fazer um juízo de valor. Eu consigo, a maior parte dos críticos bem treinados consegue, não é um privilégio meu, ter uma visão do todo pela parte. E, meu caro… É só diluição, mesmo. E é mal tocado e mal gravado… E, essas letras, Daniel, que coisa pretensiosa…

— …

— Sério, Pereira. Existem os inventores, os mestres e os diluidores. E esses caras são meros diluidores. De quinta categoria, Pereira. Quinta. Existem diluidores ótimos, necessários, que tornam as coisas mais acessíveis para o público geral. E, cara, não é o caso. Não é o caso.

— Eu discordo, eles são únicos, Dinho, sério mesmo, únicos…

— E… Eu posso estar errado. Mas esses caras me parecem, ahn… Irrelevantes. Em todos os aspectos. Você fala lá na sua resenha que são tributários do Jefferson Airplane. Pereira, eu não preciso te dizer isso, você sabe muito bem, J.A. foi uma das bandas mais engajadas da época deles, umas das bandas mais engajadas do rock. Esses aqui são uns chapadões apolíticos. E não no apolítico no sentido de, você sabe, anarquista, que se fosse assim estaria tudo bem, mas no sentido de, ahn, alienados mesmo. Não tem comparação, meu caro. Não há relação.

— …

— Daniel, eu posso até te prometer que vou escutar com mais atenção — Dinho disse copiando os arquivos para seu disco rígido.

— …

De olho na barra de progresso da operação ele disse, mantendo a mesma voz arrastada — Mas qual é a ideia? Você quer publicar aquela resenha do Noise é Nóis aqui na Palco?

— Não, cara, não… Eu queria fazer um perfil… Ahn, recuperar, ahn, resgatar… Eu queria fazer um perfil da Cármen Valente, que foi a bandleader deles, saca? Vocal, guitarra, composição, saca? Era tudo dela. Queria… Ahn, quero fazer um perfil dela. Eu já conversei com o Luciano Rizla, que era o baixista… E agora eu queria falar com ela…

— Ah…— fez Dinho com uma expressão de quem pede desculpas estampada no rosto.

— Não vai rolar, né?

— Eu não vejo razão… Mas, eu também não quero te podar, meu caro… Por qual motivo você precisa da Palco para ir ter com ela? Você pode publicar esse perfil no Noise é Nóis. Talvez eu possa te ajudar, fazer uns telefonemas, qual é a questão?

— Ah, é só que ela mora perto de Brasília e… Eu não tenho a grana para chegar lá, cara.

— Ah, entendi. Hmmm… Onde ela mora, exatamente? — questionou o editor, ajeitando seus óculos retangulares.

— Bem, tem isso… — e aí Pereira deu um longo suspiro — Ela mora numa… É tipo… Uma, ahn, comunidade mística…

Ao que Dinho fez sons desarticulados com a garganta e o nariz à guisa de risada:

— Comunidade, você disse, mística?

Pereira tentou disfarçar sua falta de paciência. Ele não queria tratar desse assunto:

— É. É um treco muito paia. Ao mesmo tempo, faz sentido. Escutando… Ahn, isso é, se você escutar os dois discos vai perceber que o misticismo, o sobrenatural, são temas caros à Cármen. De acordo com o Luciano, com o qual eu conversei ontem, ela deu… Deu uma pirada e… Passou a viver disso, nessa pira. De ser a líder de um grupo místico. Eu não entendi direito, tem todo tipo de parada new age lá, mas parece que eles fritam muito numa onda transcendental que inclui extraterrestres. Ah, intraterrestres também.

Dinho gargalhou alto, levando a mão à face, levantando os óculos e espremendo de leve os olhos:

— Extraterrestres? Intraterrestres? Será que eles tem alguma ligação com os reptilianos?

O editor deu outra gargalhada, Pereira permaneceu sem graça:

— Eu sei lá, Dinho…

— Mas… Ahn, ai… Ai… Foi esse Luciano quem te disse isso?

— É, mas, bem, eles tem um site. Procura aí, Associação Transcendental Ala… Não… Amalantrah, com no final.

— Associação Transcendental A-ma-lan… Aha!, deu aqui.

— …

Diante de um Pereira visivelmente incomodado, Dinho foi passando o olho pelo site com deleite, soltando uma série de breves interjeições, rindo infantilmente e balançando-se, de levinho, para frente e para trás, com uma ansiedade alegre. Ao fim, estapeou a coxa e disse, debochadamente:

— Pois bem, Sr. Daniel Pereira, ainda que parcialmente, defiro seu pedido.

— Oi?

— Está certo, é mesmo uma boa ideia, é uma boa pauta — Dinho disse sorrindo moderadamente, ainda olhando para o seu monitor. A banda… Não. Mas isso aqui, isso aqui é alguma coisa.

— …

O editor, com um rápido movimento do pé direito contra o chão, fez sua cadeira girar, colocando-se então diante de Pereira. Bateu de levinho as duas mãos contra o s joelhos e olhou nos do moço:

— O que você acha? Escute essa proposta! Estamos agora desenvolvendo a ideia de ampliar o escopo da revista, você sabe… Tratar de mais temas, além de música, teatro e cinema, escrever também crítica de costumes. Nossa, que arcaico isso… É… — Dinho coçou a nuca — Tratar de estilo de vida, sabe? Comportamento. E… Não acho que você escreva mal, Pereira. Acho que pode ser bom para você. O que você acha?

Pereira coçou seu bigodinho ralo, abaixou a cabeça e voltou a olhar para Dinho:

— Não entendi… Eu…

— Você faria uma matéria sobre essas pessoas, sobre esse lugar. Uma coisa maior, extensa mesmo, como se fosse um perfil, sabe? Ahn, nós te colocamos num desses cursos, para você ter uma experiência o mais próxima possível da pessoa que vai lá participar das atividades deles… E bem, você pode tentar uma escrita mais pessoal talvez, fazer algo como um diário…

— Uma coisa meio, ahn, New Jornalism?

— É, exatamente, é bem por aí. Você seria um Hunter S. Thompson um pouco mais careta, ou pelo menos não tão… Porra-louca… Um Tom Wolfe…

— Mal vestido?

— Haha! Não. Bem, não… Você… Você entendeu. É uma ótima. Não é uma ótima? Você pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, escrever contando para o público da Palco a sua experiência na Associação Transcendental Amalantrah e, uma vez lá, entrevistar a Cármen para o seu blog.

Era mesmo um ótima, Pereira reconheceu. Não quis soar ingrato:

— Cara, siiim, siiiim, uma ótima.

— Chegue aqui, meu caro, por favor, vamos dar uma olhada nisso aqui — disse Dinho se colocando mais uma vez diante de sua tela, retornando à página do site da A.T.A. que listava os cursos ministrados na sede da associação — O que disso aqui você acha interessante? É para fazer mesmo, ou pelo menos tentar fazer… Para você ter material para umas seis mil, oito mil palavras… Algo nesse patamar…

O rapaz se levantou e foi até Dinho. Diante dos dois estavam os nomes dos cursos que Pereira vira no dia anterior. Nada lhe parecia realmente cativante, com a exceção do curso de Tarot, que lhe lhe interessava, ainda que  vagamente. Lembrando-se de um professor, de quando ainda frequentava as aulas na faculdade de Psicologia, falando de alguma conexão entre a obra de Jung e o Tarot, de como vários arquétipos trabalhados pelo alemão estariam presentes nas imagens que estampam as cartas, Pereira apontou para a tela do monitor:

— Acho que… Acho que esse aqui, Dinho…

O jornalista mais velho leu o nome do curso numa exclamação brincalhona, pronunciando acertadamente a palavra francesa:

Introdução ao Tarot, o Grimoire Sagrado dos Antigos Egípcios.

— Exatamente…

— Você sabe o que vem a ser um grimoire?

— É um grimório, um livro de magia — disse Pereira lembrando-se das tardes passadas jogando RPG. 

— Pô, meu caro, você está por dentro dessas coisas místicas, hein?

— Nada, sô…

— Quanto custa isso? Investimento, que coisa mais fuleira, chama preço de investimento… Salgado, bem salgado. Estão fazendo dinheiro os seus místicos viu, meu caro? Mas, ó, sem problemas, está dentro do orçamento… Sem problemas. Vamos, vamos ligar para lá — disse então Dinho, levando a mão ao telefone.

Quando a ligação completou, Dinho começou a escutar a gravação de espera, um cântico xamânico sustentado por batidas eletrônicas. O texto de apresentação,  o do site, foi lido pausadamente por uma voz masculina. Logo depois da expressão “manifestação máxima”, Dinho escutou o barulho do fone sendo tirado do gancho, um sútil chiado, e então uma voz de bom moço, que seguiu emendando uma pergunta atrás da outra:

— Oi, tudo bom? Meu nome é Incigaz, tudo bom? Como você se chama?

— Boa tarde. Tudo ótimo, Inci-

— In-ci-gaz

— Incigaz. Sim, meu caro, tudo ótimo. Meu nome é Dinho Motta. Eu… Eu falo aí na Associação Transcedental Ala-

— Ama-lan-trah. Sim, senhor. Bom dia, Sr. Dinho, como vai o senhor? Que lindo, não, senhor? Esse momento, esse encontro, essas possibilidades que se abrem agora, não é, senhor? O senhor quer aprender, senhor? Descobrir-se, senhor? Encantar-se mais uma vez com a vida e com quem o senhor é, senhor?

*

Depois de vários e extensos salamaleques, ficou então combinado entre Dinho e Incigaz que Pereira, a serviço da Palco, iria passar cinco dias na sede da A.T.A, pernoitando na vila inclusive, para fazer o curso de Tarot, participar de sessões de meditações com cristais, assistir uma palestra tratando do Princípios Herméticos e uma outra a respeito de alienígenas presentes em nosso passado e entrevistar Cármen Valente, agora Mestra Intreza, tudo com o objetivo de escrever uma matéria extensa apresentando a Associação aos leitores da revista.

Dinho ficou verdadeiramente irritado com a efusividade dos agradecimentos de Pereira, que só faltou chorar de alegria e beijá-lo. Tinha uma série de conselhos para o moço, a maior parte consistindo em dicas de redação (dentre os quais incluía não adotar pontos de vistas por demais particulares, correndo o risco de escrever para o próprio umbigo), mas os abandonou todos diante da alegre verborragia de Pereira, temendo que ele ficasse ali sonhando em voz alta pelo resto da tarde.

Uma vez fora da redação da Palco, Pereira, extremamente aéreo, de tão feliz, perdeu totalmente o seu (parco) senso de praticidade, descuidando do fato de que, em razão da viagem, além dos preparativos indispensáveis (fazer as malas, comprar passagens, decidir como iria de Brasília até Formosa e então à sede da A.T.A.), teria de adiantar alguns trabalhos cujos prazos de entrega, antes distantes, tornaram-se próximos por conta dessa nova tarefa. Siderado, passou o final da tarde da mesma forma que antes descobrira Olho Pineal, passeando, lentamente, por livrarias, lojas de disco e sebos. Findou a prospecção num bar e só chegou em casa muito mais tarde, chumbado.

No dia seguinte, começou a se preparar para a viagem após acordar, aristocraticamente, lá pelo meio dia. Quanto à mala, passou mais tempo, primeiro, ponderando sobre os riscos de portar maconha em um voo (ainda que nacional) e, depois, manufaturando baseados com papel branco e filtro, quase idênticos a cigarros normais, do que efetivamente preparando a bagagem. Já no que se refere ao deslocamento até à Associação, optou por agendar um táxi, desconsiderando a sugestão de Dinho de alugar um carro e dirigir (Pereira, por livre escolha, nunca trocaria o olhar perdido do passageiro pela atenção do motorista). Resolvidas essas questões (que, atipicamente, não deixou para última hora), comprou comida (agora de verdade) para três dias, tempo que passou sem sair de casa, colocando o trabalho em dia e estudando tanto como iria escrever o texto para a revista quanto quais seriam as perguntas a respeito de Olho Pineal  que faria à Cármen, se ainda existisse algo da artista Cármen nessa estranha  religiosa Mestra Intreza.

O tempo passou velozmente (fazendo, inclusive, Pereira considerar se não era melhor trabalhar assim, focado, com um padrão de sono e refeições pré-definidos, e não no improviso eterno com o qual estava acostumado), logo encontrando o rapaz no aeroporto, de mochila nas costas.

Depois de, com o maço de falsos caretas no bolso da camisa de flanela (peça totalmente desapropriada para o nosso clima tropical), passar em branco pelo único pastor alemão à vista, imerso no clima paranoigênico do lugar, aumentada rodoviária pan-óptica, posicionado próximo ao devido portão de embarque,  Pereira aguardou seu voo cautelosamente, alternando o olhar entre a leitura do jornal sobre os seus joelhos e o painel  acima, anunciando os voos.

Para a alegria geral dos passageiros, o percurso seguiu banal até o fim. O jornalista escutou desinteressado as conversas de parlamentares rumo ao Congresso, que, megafônicos, faziam questão de serem reconhecidos como tais,  e observou, até o pescoço doer um pouquinho (e então parar), as formas geométricas do agronegócio deslizando devagarzinho lá embaixo.

No aeroporto de Brasília ele foi logo recebido pelo taxista, um senhor de ampla barriga, barbudo e careca — lembrando uma versão corpulenta do poeta Allan Ginsberg —, segurando um grande pedaço de papelão onde se lia DANIEL PEREIRA.  Chegaram rápido ao carro, rendendo uma conversa completamente protocolar.

—  Fez boa viagem? Como está o clima em São Paulo? O trânsito agora está legal, a estrada regular, em mais ou menos uma hora e meia chegamos lá, na Associação.

A corrida seguiu em silêncio por meia hora, com Pereira, acostumado com os morros e montanhas de Minas e com os edifícios de São Paulo, mirando o cerrado a secar no plano, até que o taxista puxou conversa:

— Aqui perto, nesse mesmo sentido, Daniel…  Aqui pertinho mesmo, você quebra à direita antes de Planaltina, tem outra… Outra organização, outro centro, muito, muito interessante… Que também tem essa coisa do espiritual… O Vale do Amanhecer, você conhece? Eles fazem lá um trabalho espiritual muito… Muito legal.  Assim, eu acho, né? Assim, pensa só, você vai lá, e o povo fica horas e horas, falando só de coisa boa, só de coisa boa. Paz, amor, perdão, crescimento, tem de ser bom, não tem? Só coisa boa. Paz e luz.

— Não… Vale do Amanhecer? — disse Pereira, que não havia pesquisado acerca dos outros grupos místicos sedeados nos entornos de Brasília, ligeiramente confuso.

— É. Depois você procura saber… Muito legal.

— Claro, claro… — meramente pro forma.

— Onde você está indo, essa Associação, eu já levei muita gente lá, ih, gente famosa, importante, artista, político… Mas eu, eu mesmo nunca fui lá. Mas deve ser bom, né? Do que eles falam lá? É coisa boa também, né?

— Bem, eu imagino que sim. Eu também não os conheço. Ainda. Estou indo para conhecer — Pereira disse, depois explicando que estava ali para escrever a respeito da associação para a Palco, revista que o taxista não conhecia, mas disse ser leitor assíduo.

— Bem, não deixe também de passar por Formosa — disse o motorista, com os olhos na estrada, abrindo a porta do porta-luvas e entregando um folheto expondo as atrações turísticas da cidade, no qual Pereira viu fotografias de pessoas passeando por matinhas e banhando-se em cachoeiras, além de o que pareciam ser marcas pré-históricas feitas em pedras.

— Ó, que legal… — Guardando o folheto na mochila.

[ALTO PARAÍSO]

[Pereira começa a sentir que não pesquisou quase nada].

Voltaram ao silêncio. Chegando próximo de Formosa, Pereira começou a consultar o mapa que indicava como chegar à sede da A.T.A., retirado do site do grupo. Após alguns minutos dirigindo pela zona rural da cidade, chegaram ao seu destino.

Desprovida de qualquer atrativo, o portão de entrada da A.T.A. parecia como a entrada de um condomínio fechado, com muros caiados de três metros de altura encimados por uma cerca elétrica estalando monotonamente. Três câmeras de segurança observavam a entrada,  uma no canto esquerdo do portão, apontando para o exato centro do portal, outra no canto direito, também apontando para o centro e uma voltada para a face de quem estivesse na frente do interfone de um só botão, colocado na muro à direita da entrada. Uma marquise de um metro e meio se projeta para frente, oferecendo proteção do frequente sol escaldante e de eventual chuva. 

Pereira pagou o taxista, dando-lhe uma significativa gorjeta. Só lembrou de pegar uma nota para depois prestar contas a Dinho porque o homem o questionou. Saiu do carro, pegou a mochila que tinha deixado no banco traseiro e então se aproximou, só um pouco ,do portão, tirando um dos cigarros do maço do bolso. Antes de acendê-lo, dispensou o sósia do Ginsberg, que, educadamente, tinha a intenção de somente ir embora depois que Pereira fizesse comunicação com a gente da associação e tivesse sua entrada aceita:

— É…. O… O senhor pode ir… Eu acho que vou parar aqui um pouco… E começar já a pensar no meu texto olhando aqui, para a entrada — gesticulando com o cigarro em mãos.

O taxista o olhou apreensivo por alguns instantes e então anuiu:

— Tá. Qualquer coisa você me liga, hein? — e foi puxando o carro demoradamente até engatar a segunda marcha, então terceira e quarta.

Pereira, que na verdade queria era fumar um dos seus baseados travestidos antes de bater o interfone, esperou o carro se afastar, o que fez levantando uma fina nuvem de poeira roseada na estrada de terra vermelha. Virando o olhar, por entre as grades do portão ele podia ver um caminho, asfaltado, que seguia até a vila, ultrapassando-a e chegando até o domo, lá longe.

Como acontece com os fumantes em ponto de ônibus, assim que o moço deu o terceiro longo e demorado trago, avistou vindo pela via diante de si um carrinho daqueles utilizados em campos de golf.

— Ô, desgrama — ele disse dando rápidas baforadas, antes de então jogar o cigarro no chão, esfarelá-lo contra a sola do seu sapato e, ato continuo, retirar várias balas macias de maçã verde da mochila, que foi logo abrindo e jogando para dentro da boca, na frustrada tentativa de mascarar seu hálito. Quando o carrinho enfim chegou, dirigido por uma moça loira do cabelo puxado para trás, com sombra vermelha nos olhos e vestindo um macacão prateado, Pereira, cheirando a maconha (fedendo, como diriam aqueles que não apreciam a erva), estava agachado, catando o papel das balas do chão, mastigando desajeitadamente a amorfa massa verde na qual os doces haviam se transformado, um filete de baba esticando-se por seu queixo. 

— Seja muito bem vindo! — disse a moça, ainda dentro do carro, abrindo o portão com um controle remoto.

Pereira limpou a saliva do rosto com a manga da camisa de flanela e tentou responder:

— Muh-to oh-bh-gado!

*

 

 

PEREIRA – VII

PSICOPOMPO

 Quando moça, frequentando círculos nos quais era relativamente fácil encontrar pessoas com esse tipo de interesse, conheci um sujeito, moço também, estudante de Engenharia, que criticou com veemência minhas leituras, desenhos, canções, danças, encenações… Praticamente tudo o que eu fazia na época, a bem da verdade. Para ele, essas coisas não passavam de perda de tempo, o mero revirar de concepções gastas, antigas, atrasadas. Todos os esforços intelectuais suportados por aqueles realmente interessados em construir um mundo novo, elevado, superior, deveriam ser direcionados a avanços científicos, ou, bem… Tecnológicos. Isso porque seria, de acordo com esse menino, por meios desses trabalhados que responderíamos as grandes perguntas. Estamos sozinhos nesse universo? Existem seres sencientes, dotados de inteligência, em outros planetas? Seriam irremediavelmente estranhos ou sua condição de alienígenas não os impediria de serem nossos irmãos? Com o estudo da Física, da Matemática, da Química, das ciências exatas, chegaríamos às novas fórmulas e equações necessárias à construção das máquinas fantásticas hábeis a superar as barreiras do espaço; e, quiçá, do tempo; que nos separam dessas criaturas. Todo estudo, toda criatividade, todo o suor deveria ser nesse sentido. Imensa besteira, mas, para mim, valiosa. Foi a provocação necessária para firmar o pé, colocar-me decidida no caminho… Ora, minhas experiências já haviam me mostrado, sem sombra de dúvida, que tais seres extra, ou, como querem alguns, intraterrenos, não só existem, mas estão entre nós, de modo que não é necessário nenhum invento, nenhuma máquina extraordinária, que venha a tornar o contato fisicamente possível. As interações são parcas, insuficientes e de uma forma geral frustrantes não porque carecemos dos equipamentos necessários, eles possuem tais equipamentos, eles dominam a tecnologia, vieram cá e cá estão. Acontece que não existe desejo por parte de tais criaturas de nos contatar com maior frequência e intensidade… Isso eu atribuo a um atraso espiritual, um atraso espiritual nosso, pelo qual nossa civilização passa… Se elevássemos nossos espíritos haveria contato, se fossemos capazes de dos desenvincilhar dos mil nadas que nos circundam e focar nas formas verdadeiras… Haveria contato… Foi o que eu pensei então, o que eu confirmei posteriormente, o que existe aqui, o que fazemos aqui, o que você está vendo agora… Então, não era, àquela época, uma questão de abandonar minhas atividades, a natureza delas, mas intensificar esse trabalho, o trabalho de pavimentar o caminho rumo a uma nova elevação… A elevação por meio da qual nos tornaremos dignos do contato, e, sobretudo, dignos do Arrebatamento, no momento final do nosso planeta. Um momento que se aproxima…

Pereira interrompeu a reprodução da gravação de voz e fitou a tela do monitor, a única fonte de luz do cômodo, onde as palavras da Mestra, recém-digitadas, tremiam negras contra o branco brilhante. A transcrição, horas e horas a fio da mulher discorrendo acerca dos preceitos da seita, arrastava-se lentamente. Nervoso, o jovem sentia fortes dores de estômago que o faziam se encurvar para frente e, às vezes, quase ganir. 

Sozinho em sua cela, perguntava-se como, exatamente, isso pudera acontecer. De que forma um rock journalist (maneira como Pereira, anglófilo e muitas vezes pedante, referia-se à sua profissão) — ofício já definido como pessoas que não sabem escrever entrevistando pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler — poderia descobrir-se ali, aprisionado por fanáticos? Não seria esse um risco a pairar apenas sobre profissionais em outros ramos da imprensa, situação sombria destinada somente àqueles habituados a cobrir os domínios, de fronteiras nem sempre distinguíveis, da política, do crime e da guerra?

As respostas lhe vinham à cabeça cheias de exagerada autodepreciação. Desconsiderava o óbvio: a gritante injustiça de sua prisão, a imprevisibilidade da série de eventos que o reduziram àquele estado e a necessidade de se pensar em alguma saída efetiva. Figurava em sua imaginação como o único e grande culpado por tudo. Estava convencido de que duas, duas, posturas suas diante da vida haviam-no rendido naquele quartinho.

Primeiro, acreditava estar ali por nunca ter efetivamente feito a transição da vida adolescente para a adulta. O que era uma percepção difusa, sempre arredável, tornou-se naquelas circunstâncias uma certeza para o jornalista: a puerilidade era a causa de seus presentes males. Supunha pagar ali por sua falta de vivência.

Apesar de os mais críticos atestarem ser impossível escrever decentemente a respeito de bandas de rock sem viver em uma das cidades nas quais ela surgem (tocando ainda anônimas em estabelecimentos específicos) e sem se misturar entre o público dos grandes festivais (todos havidos nos Estado Unidos e na Europa), Pereira conduzia seu ofício quase que exclusivamente a partir de seu quarto de dormir. Desde a puberdade, passava o grosso do seu tempo conectado à internet, lendo um sem número de resenhas, das mais variadas fontes, e baixando, raramente dentro da lei, arquivos de músicas que enchiam dezenas de discos rígidos. De início, escrevia num blog, de graça, pelo puro prazer de tratar minuciosa e idiossincraticamente de seu assunto favorito. Com o seguir dos anos e o persistir dessa rotina, por meio de contatos feitos também na rede, passou a trabalhar para algumas revistas e jornais, recebendo o suficiente para arcar com suas despesas relativamente modestas. Mudara de estado (de Minas para São Paulo), abandonara a faculdade da qual já não mais gostava (de Psicologia) e passara a pagar as suas contas sem a ajuda da família, decerto, mas continuava a viver a mesmíssima vida de menino, enfurnado sozinho em seu quarto, varando madrugadas a escutar música no volume máximo em seus fones de ouvido.

Assim, nunca passara pelas ordálias das entrevistas de emprego, da marcha das horas do expediente comercial (longas quando se está entediado; curtíssimas quando, angustiado, um prazo fatal se aproxima), da difícil convivência com colegas e chefes, do tempo gasto no trânsito congestionado, do banal caos da cidade. Levara, até ali, uma lida leve.

Lida que, pensava então Pereira, privara-lhe das experiências necessárias à formação do que ele julgava ser uma pessoa de verdade, possibilitando, em sua concepção, a atual posição: patética.

Segundo, entendia ainda o moço que aquele sofrimento poderia ter sido evitado caso — além de ser um sujeito apto a viver sem grandes atribulações apenas dentro da bolha que ele próprio criara — não fosse ele também um esnobe, sempre a se julgar superior ao seu semelhante simplesmente por ouvir determinadas bandas obscuras. Antes, já consciente de tal sentimento, tentava lhe dar outra interpretação, dizendo para si mesmo que seu gosto pelo desconhecido do vulgo advinha da faculdade, rara, de fruir de uma canção sem qualquer expectativa, sem antes ter escutado sequer um acorde, sem ter lido ou ouvido qualquer comentário a respeito, por mais vago que fosse. Assim, de certa forma platônico (sem nunca ter lido Platão), dizia para si mesmo, poderia considerar diretamente o objeto contemplado, sem o intermédio ou interferência das experiências alheias. Essa explicação não se sustentava mais: Pereira reconhecia agora que era mesmo um sentimento mesquinho, uma vontade puramente egoísta de se enxergar destacado da massa, solitário e especial.

A primeira suposição estava equivocada. Mesmo fosse Pereira um verdadeiro herói da classe trabalhadora, não teria melhores chances diante das forças do domo. Outros mais vividos — lidos, conversados e trabalhados — ainda assim correriam sérios riscos caso, desavisados, caíssem nas garras da Mestra. A segunda conjectura, porém, era acertada. Ele estava ali por conta de uma banda obscura. Banda que, de fato, carecia de qualquer qualidade distintiva além de nunca ter se tornado conhecida (motivo pelo qual, diga-se de passagem, com rara justiça, de forma tautológica, a banda nunca se tornou conhecida).

Atrasada, Olho Pineal se apresentou ao mundo como uma banda de rock psicodélico com letras cheias de referências ao ocultismo no ano de 1977, quando a psicodelia, já disseminada por todo o globo, sentia então o baque das primeiras investidas do punk e testemunhava o desenvolver das suas crias: o rock progressivo, o heavy metal e o hard rock. As ciências ocultas, por sua vez, já haviam mais do que iniciado a música brasileira em seus dogmas e rituais: Raul Seixas já conhecera, por meio do místico Marcelo Motta, os ensinamentos de Aleister Crowley, tornando-se um prosélito explícito da Thelema; Os Mutantes já haviam saudado Lúcifer (da floresta); Tim Maia já havia lido os livros da Cultura Racional e Jorge Ben já anunciara a chegada dos alquimistas, formulara a conhecida hipótese lovecraftiana de Erich von Däniken e cantara os enunciados herméticos da Tabula Smaragdina.

Em seu primeiro disco, intitulado QuimerasOlho Pineal, em termos de sonoridade, sem nada da nossa cor local, parecia uma cópia grosseira de Jefferson Airplane, com letras num português truncado, tratando de feitiçaria, entidades mitológicas e cerimonias secretas. Tetragrammaton, lançando dois anos depois, em 1979, repetia a mesma sonoridade, dessa vez com referências ao hermetismo, ao tarô e à cabala. Nas toscas gravações, cheias de chiado, a banda se desencontrava com frequência e a vocalista, apesar de ter uma voz bela, cantava com uma prosódia estranha, forçada, desafinando aqui e ali. Fizeram pouquíssimas apresentações, sem tocar em qualquer lugar de renome e sem abrir para ninguém em evidência.

Pereira conheceu o grupo alguns anos antes quando, numa tarde letárgica de fim de ano, dissipada em andanças e conversas ditadas pela livre associação, encontrou os dois discos, LPs com as capas carcomidas pelo tempo, na bacia das almas, em um sebo sujo no centro de Belo Horizonte, no qual os produtos à venda eram todos expostos com igualitário descaso.

*

— Nossa, ó se não é a pior capa de disco já feita! — disse então o moço, dirigindo-se ao amigo que o acompanhavam naquele passeio à toa, chamando a atenção para o desenho que ilustrava Quimeras: um corpo de leão com três cabeças humanas brotando de seu pescoço e uma quarta surgindo da ponta de seu monstruoso rabo coberto de escamas. O verso indicava que a besta era encabeçada por Cármen Valente (vocal e guitarra), Luciano Rizla (baixo) e Nelsinho Cientista (teclado). A Carlos Volta, o baterista da banda, coube a infelicidade de ser representado com sua cabeça saindo da serpentil cauda da criatura.

— Cara, de quando é isso? — murmurou Pereira na ocasião, folheando o encarte — Ahn, Pineal Discos… Olha só, parece que eles mesmos gravaram. Uma parada absolutamente independente.

O interlocutor de Pereira permaneceu calado. O jornalista separou o álbum dos demais expostos, colocando por cima dos discos enfileirados, e começou a analisar a capa de Tetragrammaton, na qual um pentagrama era apresentado em meio de letras dos alfabetos latino e hebraico, números e símbolos herméticos.

— Bicho… Isso deve ser um treco proglo-fi, safado… — disse baixinho, olhando ao seu redor, buscando por um toca-discos capaz de sanar sua curiosidade. Não encontrou. Levou então os dois discos, sem nenhum (grande) arranhão, por oito reais.

Ficaram esquecidos na sala do apartamento que Pereira dividia com amigos de faculdade até o dia da faxina semanal das áreas comuns (que acontecia, mais ou menos, a cada dois meses). Ao final da limpeza, estavam os dois álbuns em uma pilha em cima da mesinha onde os moços tomavam café e às vezes jantavam, junto a farta correspondência negligenciada, jornais e revistas velhos e amassados, folhetos de todos os tipos (anunciando de pizza a candidato a deputado federal), bilhetinhos apócrifos e frases, supostamente espirituosas, rabiscadas por bêbados em tiras de papel: coisas a serem julgadas sob o quesito: isso é lixo?

A luz do final da tarde refletida nos tacos de madeira a pouco encerados, o perfume artificial dos produtos de limpeza e a ordem, atípica, imposta à sala fizeram com que Pereira se sentisse um estranho em sua própria casa. Aproveitando essa experiência, buscou o disco Quimeras em cima da mesinha, retirou-o da capa e colocou para tocar, rolando, cerimoniosamente, um baseado, longo e gordo, em seguida.

A música o afetou antes do fumo.

O excesso de ruído o agradou desde aquela primeira audição. Anacronicamente (ainda que consciente disso), por acostumado com uma grande quantidade de bandas que de fato optaram por gravações precárias, Pereira tomou o defeito por efeito: chiados, estalos, distorções e os sons escutados ao fundo evocavam em sua mente uma atmosfera ao mesmo tempo fantasmagórica e amigável.

O fato de os membros da banda estarem tecnicamente aquém de suas próprias pretensões também não o incomodava. Escrevia a respeito de música em parte por ser um músico frustrado, incapaz de cantar qualquer coisa ou tocar a mais boba canção de três acordes; razão pela qual nutria imensa simpatia por artistas de execução grosseira. Em várias de suas resenhas — textos cuja maior qualidade era a ausência do termo pegada, um vício muito comum no ramo — Pereira costumava repetir, de diferentes formas, criativas até, o lugar comum (um ranço do Romantismo, quiçá) que associa a crueza de estilo à espontaneidade e à autenticidade do artista.

A ortoépia às vezes estranha de Cármen Valente, associada às letras pedantescas (que por semanas depois daquela primeira exposição ainda enviavam Pereira ao dicionário) não foram recebidas de forma diferente. Além de soar estranha (e ele era um desses que aprovam o estranho pelo estranho), a vocalista, aos ouvidos do rapaz, tinha algo de aristocrática e estrangeira, afetação que foi como o último passe da mágica que o ascendeu a um estado de espírito especial que — de tão feliz, tão isolado das experiências cotidianas — era quase, quase, como um outro estado de consciência.

Quando os 37 minutos e 23 segundos de Quimeras acabaram, Pereira, que enquanto escutava o álbum tinha coado uma garrafa de café, bebido metade, fumado um cigarro de palha e dois terços de um segundo baseado, colocou Tetragrammaton para rodar.

Sua metade que desejava o prolongamento daquele prazer, oposta à que supunha um segundo acerto da turma do Olho Pineal algo muito difícil (afinal, Quimeras era tão singular), saiu vitoriosa. Tetragrammaton era apenas ligeiramente mais sombrio, sem maiores diferenças.

Ainda escutando o disco, tratou de buscar o computador em seu quarto. Para o espanto de Pereira, a internet não dava notícia da banda, discos e componentes. De acordo com a sua visão de mundo, era quase como se tudo aquilo não existisse.

Quando o segundo disco acabou, Pereira quis ficar em silêncio. Tanto silêncio que colocou os tampões de ouvido que comprou quando, em vão, tentou por um tempo se preparar para concursos públicos cujos editais não exigiam graduação no Ensino Superior. De noite, assim que seus companheiros de apartamento chegaram, rapida e discretamente, tratou de recolher os discos e guardá-los em seu quarto, junto à sua pequena e arbitrária coleção de vinis, sentindo-se imediatamente culpado por ter ignorado o que agora considerava preciosidades, deixando-as ao deus-dará na terra de ninguém que era aquela saleta.

No dia seguinte, assim que seus amigos saíram para o trabalho, converteu os álbuns para um formato digital (FLAC) de forma que pudesse escutá-los em qualquer lugar sem ter de manusear os discos, aquele frágil e raro substrato físico. Cármen Valente e sua banda passaram a acompanhá-lo em várias atividades solitárias, até que Pereira se familiarizou com cada detalhe dos dois álbuns.

Egoísta à sua maneira, manteve Olho Pineal em segredo por quase três anos. Quebrou o silêncio apenas quando, já morando em São Paulo, considerou-se forçado pelas circunstâncias. Mudando maquinalmente os canais da televisão, ouviu a introdução de Hecáte, a canção que abria Quimeras, na vinheta de um programa no qual um modelo fingia passar pelas felicidades e agruras de viajar sozinho, como se não estivesse o tempo todo acompanhado, pelo menos, pela equipe de filmagem. Se fossem apenas os acordes, apenas o riff do início, Pereira não se importaria, a simplicidade desse tipo de música implica em um número limitado de combinações, resultando em vários fragmentos semelhantes, se não idênticos: poderia ser qualquer outra coisa. Não era algo parecido, porém, era Olho Pineal, no registro que Pereira conhecia tão bem e tinha como algo para poucos (dos seus conhecidos, só ele), tocando na T.V., esse grande agente da vulgarização.

O moço ficou por minutos assistindo ao modelo emular ares cosmopolitas errando calculadamente por uma cidade europeia. Sentia que o seu segredo estava prestes a ser perdido: em breve todos falariam do seu achado e seu feito não seria mais nada.

Aquilo era um sinal.

Quando o quadro que assistia acabou, antes de entrarem os comerciais, a vinheta se repetiu.

Um sinal, decerto.

Pereira então pensou: vai banalizar, garantido, que eu seja então o vetor. Como não tinha nenhum compromisso no dia, pôs-se de imediato a escrever uma resenha — impressionista, um tanto vaga, como eram todas as suas resenhas — a ser publicada em seu blog (para o qual nunca parou de escrever, mesmo depois de começar a fazê-lo profissionalmente em outros meios). No meio do texto considerou ligar para Paulinho — seu melhor amigo, apto a identificar de pronto, apenas pelo som, o modelo de qualquer instrumento, pedal ou amplificador (ou pelo menos dar uns chutes muito bons) — mostrar-lhe os discos e pedir ajuda na importantíssima apresentação da banda, mas não, pensou logo em seguida, isso é muito, muito, pessoal, é o trabalho de um só.

Sua redação foi a seguinte:

Olho Pineal

Quimeras, Pineal Discos, 1977 – •••••

Tetragrammaton, Pineal Discos, 1979 – •••••

O cânone da música pop é formado por um processo que tem muito pouco a ver com qualidade. Vários fatores impróprios concorrem em maior peso. Jabá, publicidade, sorte, aparência dos performers por si só, uso das músicas em filmes, programas de TV e comerciais, o generalizado mal gosto dos consumidores… É uma lista longa.

Provas disso não faltam. A que apresento aqui é o trabalho da banda Olho Pineal. Seus dois discos, Quimeras (1977) e Tetragrammaton (1979), são chaves para um universo sônico paralelo. Mesmo assim, nada é dito a respeito da banda. Absolutamente nada. Procure pelo nome do grupo: aprenderá algo relacionado ao olho parietal dos lagartos e lampreias, encontrará textos, pros lados da ciência e pros lados do misticismo, tratando da glândula pineal e, se resolver ir um pouco mais fundo, talvez lerá um ensaio (um tanto quanto perturbador) de Georges Battaille. Encontrará todas essas coisas, mas nada que indique que esses incríveis psiconautas brasileiros passaram pela Terra. É uma riqueza restrita a umas pouquíssimas coleções privadas, que até os mais esforçados arqueólogos dedicados aos vinis sofrem horrores para encontrar.

Em termos de referências, nada poderia estar mais claro: são estudiosos atentos daquilo que se convencionou chamar de San Francisco Sound. Trocando o inglês pelo português, emulam com criatividade essa variedade do rock psicodélico americano cujos expoentes foram o Jefferson Airplane, o Grateful Dead e a sempre saudosa Sra. Janis Joplin.

Tocam de maneira solta e corajosa, evocando uma sensação de liberdade que casa perfeitamente com o clima sonhador das canções. Tudo é devaneio. As músicas soam como se não existisse obrigação nenhuma. Nada a ser seguido. É um modo de lidar com a técnica que abre a porta pela qual todos os deslizes entram como revelações. Há uma tessitura orgânica, que aceita o ruído como elemento essencial, uma unidade que supera a banda. Olho Pineal não é formada por voz, guitarra, baixo, teclado (às vezes piano) e bateria. São esses instrumentos e o barulho dos carros na rua, piados, miados, latidos, pessoas conversando em um cômodo próximo, passos, risos abafados, mil barulhinhos estranhos. E tudo se encaixa. Tudo, de uma forma largada, natural, está em seu devido lugar.

Hecáte, a faixa que abre Quimeras, começa com um riff de guitarra simples e sujo, copiado pelo baixo que entra segundos depois. A bateria, com uma batida de caixa magnética, quase uma marcha militar, chega, com o teclado, depois da curta introdução, dando peso. E aí entra o vocal, dramático desde o primeiro verso:

Na escura madrugada,
Diante do invisível,
A cainçalha toda late
Anunciando a sagrada,
Tríplice e invencível,
Divina sitônia, Hecáte:

É possível escutar ao fundo uma porta batendo e um grito indecifrável. A guitarra abandona o baixo e segue mais violenta e ligeiramente mais trabalhada, enquanto Cármen Valente canta, como se realmente diante da deusa grega:

Traz em mãos o lume,
Serpentes e ervas,
Das chaves a chave,
E aço de afiado gume.
É o brandão das trevas,
Que as trilhas abre.

Por um instante toda banda para, apenas para retornar mais firme e empolgada, acompanhando Valente que então não propriamente canta, mas entoa o refrão, como se em transe:

Encontrarei na encruzilhada
A Deusa da maior Arte
Prostrar-me-ei ajoelhada
Aos pés de Salvadora Hecáte

Em Anti-Orfeu, a mesma guitarra rasgada agora parece chorar, acompanhando um vocal telefônico, cujo efeito hipnótico é reforçado por um teclado monótono. Ao fundo, no meio da música, um carro dá partida e segue para fora da canção, soando quase proposital diante da letra da música, que é breve e dolorosa:

Não quedes à margem,
Como se moribundo.
Nem prepares viagem
Ao escuro submundo.

Foi assim, foi isso.
Para o n’água escrito
Não há nada prescrito.

Foi assim, é isso.
Natural é nosso oaristo
Para sempre no aoristo.

O tema do amor conflituoso retorna, também associado à mitologia grega em Medeia, quando fica claro que Valente pode ser mágica e misteriosa, mas nunca frágil. Como sua guitarra estrepitosa e alucinada, ela é uma força a ser temida. Sons de talheres e louça evocam a vida em família e Panis et Circenses enquanto Valente canta:

Ó, não me enganes não,
Não te chamas Jasão,
Mas não fazes ideia,
Se me vens com traição
E fere-me o coração,
Descubro-me deia.

E rápida, num arroubo,
Armo logo meu logro,
O pior tipo de jogo:
Deixo-te triste e louco
E ainda fujo em carro de fogo

Um improvável solo de bateria antecede o refrão ameaçador:

Ao infiel, o fel; ao falso amigo, castigo
Ai, ai! Que caia o céu de quem errar comigo

E esse é tom que se mantém por toda a música:

Nem virgem e nem santa,
Elisabetana e suicida,
Como infeliz Ofélia.
Quando a ira minha se levanta,
A briosa cabeça erguida
Outro papel espelha

Se me trazes injúria,
Percebes minha sabedoria
Toda feita de fúria
Quando ataco em euforia
Na minha destruidora estreia,
Feiticeira e cruel, vestida de Medeia

A verdade é que são nessas canções nas quais Valente apresenta seu eu lírico cheio de sex appeal macabro que Quimeras encontra sua força. Assim, Homem Suíno, uma faixa brincalhona (na qual os homens da banda tomam os vocais, harmonizando suas vozes em uma só), funciona como a abertura de um breve intervalo, seguida da balada folk Esfinge e do blues viajado, cheio de termos do que parece ser grego antigo, de Katabasis e Kteís. O intervalo tem ainda a instrumental Paracusia, uma faixa que alguém mais dado a rótulos poderia chamar de proto-post-rock, e a enigmática Nimitta, na qual o baixo de Luciano Rizla, tributário de Jack Cassady, soa caracteristicamente destacado. São canções eficazes, deliciosas, valorosas por si só, que funcionam perfeitamente como um descanso até que Valente volte a sua melhor forma, diabólica, agressiva, finalizando o disco com Circe. A progressão de acordes de guitarra é explosiva, a honestidade suja da técnica de Valente faz com que a faixa soe um pouco como uma canção de stoner rock avant la lettre. A letra é a seguinte:

Marinheiro, lasso e trabalhado,
Não hesites, junte-se a mim,
Venha deitar ao meu lado,
Em meio a comes e bebes sem fim,
Divãs para te largares sossegado,
Dóceis lobos e leões no jardim.

Esqueças guerras, pátria e família,
Alheie-se a todo e qualquer problema,
Desdenhes de proa, popa, velas e quilha,
Está tudo já resolvido, nada mais tema:
Perca-se em minha obscura ilha,
Onde reino só, senhora suprema.

Por que errar pelos mares de novo?
Se acertas encerrando aqui a história.
Por que com suor e sangue chegar à glória?
Se aqui tens infinito e gratuito gozo?
Quede com feiticeira da mais fina estirpe,
Sucumba a mim, filha do Sol, poderosa Circe.

E assim acaba o álbum, em grande estilo , colocando a banda naquela conhecida e dificílima posição de ter de superar o seu disco de estreia.

Dois anos depois, porém, dois anos sem qualquer reconhecimento ou divulgação, eles voltam com Tetragrammaton, em nada inferiores, se bem que mais sombrios e lentos e com gravações ligeiramente melhores. Valente não mais desfila suas personae diante de nós: já sagrada como figura mística, ela agora leciona. O álbum se inicia com Prima materia, uma jam session longuíssima que se inicia com uma pluralidade de sons amorfos que vão sutilmente se organizando até formar uma toada de blues psicodélico. A faixa parece ser puramente instrumental até que há uma súbita virada e, acompanhando um sintetizador que emula um órgão, dando um inquestionável e destoante ar gospel a tudo, Valente surge, primeiro num canto límpido e depois numa complexa superposição de distorções, repetindo os versos:

Do luxo à miséria
Tudo, tudo, é mera distorção
(Mera distorção)
Da prima materia

A faixa vai findando com um fade out do vocal e de todos os instrumentos, exceto pelo teclado debochadamente litúrgico que permanece até a faixa seguinte, Do uno ao quaternário, na qual Valente fica entre a recitação e o cantar, marcando os intervalos entre as estrofes com um riff grave que cresce progressivamente mais rebuscado, até estourar numa coda que remete à jam inicial de Prima materia. A letra é de uma abstração quase incompreensível:

No princípio,

o ente, ponto uno,

Por sozinho, achou oportuno
Espelhar-se, alinhando-se no binário

E, concebida no dual, a fertilidade,
Invenção da síntese, do plano, da natalidade,
Sagrou-se vencedora na concepção da trindade

O uno, então, somado a si mesmo triplicado,
Gerou pontos, linhas e planos, para todos os lados
E assim, pelo quaternário, foram todos os mundos criados
Tendo forte, em suas bases, o poder do símbolo do quadrado

Assim como a primeira faixa que, graças ao teclado de Nelsinho Cientista, emenda-se à segunda, a segunda emenda-se na terceira, a canção De plano, formando a suíte que abre Tetragrammaton. Aqui as vozes de Luciano Rizla e de Nelsinho se harmonizam à de Valente, que pela primeira vez aparece se valendo da técnica da slide guitar. Os três, com leveza, ensinam então o básico da viagem astral:

O bom e o mal, o bonito e feio,
Pensamentos do mundo inteiro,
Tudo deságua no plano astral.

Em poucos lugares
Percebes tais ares,
O existir todo espelhado
Num desfile plural,
Caleidoscópio bagunçado,
De luz transcendental

Quando chega o refrão ficam então evidente as influências, com as vozes dos três remetendo diretamente à Grateful Dead Crosby, Stills and Nash:

Vamos, logo, de plano
Para outro astral
Outro astral (x2)

Há alguma coisa do tom ameaçador de Quimeras na estrofe seguinte, mas sem um personagem feminino, como antes. Digno de temor aqui é esse o próprio plano:

Não deixe amigo, que se parta
Esse, sutil, fio fino de prata
Não se percas, cá não é o céu
Não é lugar para errar ao léu
A qualquer instante, do divino
Descemos para o infernal
Cuidado, ó, místico peregrino,
Quando viajas por esse agente natural

As lições esotéricas continuam em Do Tolo ao Pelotiqueiro, uma balada, redondinha, diga-se de passagem, toda calcada na simbologia do Tarô, e n’A Grande Obra, na qual, assim como Prima materia, retorna-se à alquimia. Em Lilin a banda experimenta um arranjo acústico, com Valente tocando gaita. Paraguay, um alívio cômico da mesma natureza de Homem Suíno, é praticamente uma versão de Mexico do Jefferson Airplane, com uma letra que lamenta uma batida policial que colocou fora de circulação quantidades absurdas de erva. Curiosamente, é nessa canção que temos, tirando a língua portuguesa, o único elemento verdadeiramente brasileiro de Olho Pineal: uma cuíca, de som abafado e ligeiramente distorcido, segue frenética por toda a faixa. Já em A psilocibina oxida azul o que se destaca é o mellotron de Nelsinho Cientista, colorido, de uma alegria que de outro mundo.

O disco termina com a marcante Abraxas. Acompanhada somente pelos sons de violões, um piano e uma flauta, Valente canta, misteriosa:

De regresso de Jerusalém
Vieram a mim os mortos
Almas soltas de rotos corpos
Julgando o além muito aquém

Sedentos por instrução
Vieram a mim os mortos
Todos frustrações e juízos tortos
Vieram para meu sermão

A bateria acelera o ritmo, as estrofes de antes, agora abafadas e cheia de eco, são escutadas ao fundo. O vocal prossegue:

Revelei-lhes o deus escondido
Que todos os céus habita
A divindade hermafrodita
Cujo poder é desmedido

Revelei-lhes o sol e o sal
Agente que tudo leva e traz
Contra quem resistir é ineficaz
O deus do bem e do mau

Há então vários trechos de gravações de peças de música clássica superpostos de maneira caótica, acrescidos das quatro estrofes anteriores, também misturadas, quase incompreensíveis. O efeito parece um pouco com aquele interlúdio que separa a parte de John Lennon da parte de Paul McCartney em A Day in the Life ou com a cacofonia de Revolution 9, também dos Beatles. Um longo uivo encerra a algazarra e quando ele morre surge a banda na sua configuração padrão: baixo, guitarra, bateria e teclado, repetindo o tema da suíte que abre o disco, com Valente literalmente esgoelando:

E como névoa
Os mortos ascenderam

E como névoa
Os mortos ascenderam

Tu também!
Arrastando-se pelo mundo
Na rotina absorto
É um corpo morto!

Tu também!
Abandone tudo
O que pensas e achas
E abra-te à obra de Abraxas!

E assim acaba a experiência proporcionada por Tetragrammaton o segundo e último disco da Olho Pineal. Depois disso a banda desaparece, quase que magicamente, sem deixar nenhum rastro.

Qualidade, como eu dizia, não é garantia de sucesso.

Fica aqui esse convite aos exploradores: em suas buscas, lembrem-se de Olho Pineal! Seus dois discos são um tesouro a ser perseguido. Faço também um apelo: quem pode fornecer mais dados acerca desse grupo? Qualquer informação é bem-vinda.

O texto recebeu três comentários no dia que foi publicado. FabioVedder89, um já conhecido frequentador do blog de Pereira, perguntou, um tanto irritado, qual seria o motivo para o próprio jornalista não colocar o álbum online, questionamento que foi respondido por Pereira com uma hipócrita defesa dos direitos autorais. O supracitado Paulinho reclamou: Não põe para tocar nem entre os amigos?, e um anônimo duvidou da existência da coisa toda, considerando a resenha saída diretamente da imaginação do jornalista. Depois dessas breves interações, silêncio até meses depois, quando, assinando Rizla, um leitor fez o seguinte comentário:

Não é uma cuíca, cara. É uma botija, uma garrafa de barro, com um microfone dentro. Uma eletric jug, muito parecida com a dos caras dos 13th Floor Elevators. Ficou curioso? Olha aí seu e-mail.

Assim que o leu, Pereira, imediatamente envergonhado pelo aparente deslize e impressionado com a alcunha do comentador, abriu sua caixa de e-mails, onde, em meio ao spam e notificações de vários sites (que ele ignorava metodicamente), esperava-lhe uma curta mensagem de um tal Luciano Angoulême:

E aí, cara?

Não conhecia seu blog. Curti muito o seu trabalho. Fiquei muito feliz quando achei os seus escritos, jurava que não ia encontrar nenhuma palavra tratando da Olho Pineal em lugar nenhum.

A sua bio confere? Você está mesmo aqui em São Paulo? Não quer marcar um café? Acho que seria legal. Eu tenho um bocado de informação do seu interesse.

Abraço, Luciano

Na assinatura do e-mail, logo abaixo do nome, estava escrito arquiteto, seguido por um endereço em Pinheiros e um número de telefone fixo. Pereira imediatamente buscou pelo relógio no canto inferior esquerdo de seu monitor e então pelo seu telefone celular. Cinco horas, ainda era possível encontrar o sujeito em seu escritório. Ligou naquele instante, não sem antes pegar lápis e papel e começar a rabiscar a esmo.

— Angoulême Arquitetura, boa tarde — disse uma voz masculina em um tom ligeiramente interrogativo.

— Boa tarde, tudo certo? Meu nome é Daniel Pereira. E… Eu queria falar com o senhor Luciano… — disse o moço desenhando um rosto, muito canhestro, um rabisco oval com uns tracinhos servindo de boca e nariz, com um terceiro olho saltado no alto da testa.

— Daniel de Pereira de onde?

— Ahn, do Noise é Nóis… — ele disse, mencionando nem um dos jornais nem uma das revistas para os quais trabalhava, mas o seu blog, ao mesmo tempo que fazia círculos concêntricos emanarem do terceiro olho da face desenhada às pressas.

O atendente pediu um minuto e Pereira ficou escutando Bach desfigurado pela transposição para MIDI, ampliando o propagar das ondas mentais da cabeça flutuante rabiscada, até que Luciano, antes Rizla, agora Angoulême, atendesse dizendo:

— Fala, Daniel! Que prazer falar com você, cara! — a voz era clara e grave.

— Ô, Luciano, o prazer é meu… Então, Luciano… O senhor…

— Pode chamar de você, Daniel, sem essa de senhor, cara…

— Sim, então…. Você, é claro, você é o Luciano Rizla, né? O baixista da Olho Pineal.

— Eu fui, meu caro, hahaha, eu fui…

Pereira sorriu sozinho em seu quarto, desenhando um corpinho de palitinhos, desproporcionalmente pequeno, para a cabeça flutuante. Escreveu o nome de Luciano abaixo da figura.

— Legal. É… Então, eu vou aceitar seu convite, Luciano. Ele está de pé? Eu quero escutar… Eu quero escutar tudo o que você quiser falar sobre a banda, os discos, esse rô- Essa fase toda da sua vida… Quero mesmo.

— Com o maior prazer, com o maior prazer, cara! Hoje está difícil, estou fechando um projeto aqui, mas amanhã é tranquilo, tranquilo. Como você está sua agenda? Ahn, como está a sua agenda para amanhã de tarde? Tipo umas quatro?

Pereira, que tinha poucos trabalhos para entregar naquela semana e, portanto, estava com tempo, confirmou o compromisso para o dia seguinte. Transcreveu o endereço de Luciano para o pedaço de papel onde havia feito o desenho tosco e escreveu 16h embaixo, com letras grandes. Passou o finalzinho daquela tarde e da noite escutando os dois discos e elaborando uma lista de perguntas. O trabalho começou sério, pé no chão, mas de madrugada, um pouco antes de ir dormir, o jornalista já fantasiava com o retorno de Olho Pineal à ativa, agora experimentando o sucesso, graças aos trabalhos dele, recém-transformado em um salvador de talentos injustamente negligenciados.

*

No dia seguinte, preparou sua bolsa à tira colo com cuidado, garantindo a presença dos itens indispensáveis: perguntas escritas em cartões pautados e numerados, um pequeno bloco de anotações, dois lápis, duas canetas, duas borrachas e um pequeno gravador, com fitas e pilhas extras. Vestiu-se com um tênis de lona, vermelho e surrado, jeans azuis novos e uma camisa de botão amarela que combinava muito bem com sua pele escura. A vasta cabeleireira castanha, despenteada, e o cavanhaque penugento, após uma breve olhada no espelho, permaneceram como estavam.

Pereira saiu do apartamento que dividia com um amigo diagramador e um conhecido programador, na Rua Augusta, não muito distante da Avenida Paulista, uma hora antes do horário marcado para a entrevista com Luciano. Foi caminhando despreocupadamente até o escritório daquele foi o baixista da Olho Pineal. Fazia sol e ventava. Ele se sentiu leve, como se fosse de novo criança e fosse o primeiro dia de férias ou a manhã da véspera de Natal. Sua visão, ao contrário da do deprimido, que escolhe e se demora sobre o que há de pior ao seu redor, inconscientemente, esquiava-se de tudo que a cidade tem de feio e absurdo: Pereira seguiu, quarteirão depois de quarteirão, impelido por recortes de céu, saltitantes criancinhas sapecas, casais de dedos entrelaçados em suas mãos dadas, passantes que por motivos a ele desconhecidos sorriam e uma série de vira-latas simpáticos.

Chegando ao escritório de Luciano, instalado numa casa alterada para atender as necessidades do arquiteto e sua pequena equipe, Pereira, que foi atendido por um jovem de poucas palavras, vestido com justas roupas negras e exibindo relógios nos dois pulsos, ficou impressionado com a imensa quantidade de superfícies lisas, brancas, completamente vazias por todos os lados, além do tanto de vidro ao seu redor. Tudo arrumado demais, claro demais, o que lhe deixou ligeiramente sem lugar.

Assim que se sentou, antes que pudesse começar a folhear a grossa revista de capa brilhante que acabara de pegar na mesinha de centro, Luciano entrou na recepção a passos largos, oferecendo-lhe a mão com um amplo sorriso. Alto, de ombros largos e braços fortes, cabelo castanho levemente grisalho e pele bronzeada, ele lembrava a Pereira um surfista experiente. A rapidez de seus olhos cinzentos e sua face perfeitamente barbeada lhe davam um ar jovial reafirmado pela informalidade das roupas: uma camiseta branca que parecia passada naquele instante — a camiseta branca mais digna que Pereira já viu—, calças verdes-esmeralda e tênis de camurça azul. Pereira conseguiu com facilidade imaginá-lo, da forma como se apresentava ali, ainda tocando baixo em uma banda.

— Vamos entrando, cara…— ele disse enquanto atravessava a sala posterior à recepção, na qual seis funcionários trabalhavam diante de seus Macs de monitores enormes. O jornalista seguiu seu anfitrião acanhadamente, acenando com a mão e fazendo meneios com a cabeça para aqueles que ergueram a vista em sua direção. Luciano, uma vez em sua sala, um recinto ainda mais asséptico do que a recepção, com paredes decoradas com projetos de prédios fabulosos mas nunca construídos, tratou de preparar um café expresso numa máquina instalada dentro de um armário embutido, imperceptível até que sua porta fosse aberta.

— Cara, você aceita um café? Normalmente eu te chamaria para uma cerveja depois do expediente, mas… Eu estou parando com a cerveja… E o expediente hoje anda meio parado — disse o agora arquiteto.

Pereira respondeu que sim automaticamente. Luciano serviu-o, sem oferecer açúcar ou adoçante, e em seguida preparou uma xícara para sim mesmo. Sentaram-se de frente um para o outro. Pereira, sorrindo para Luciano, colocou sua bolsa sobre os joelhos, da qual tirou o gravador, suas notas, um bloco de anotação e uma caneta. Com seus instrumentos de trabalhado timidamente próximos de si, sobre a bolsa apoiada em seus joelhos (e não colocados na mesa do entrevistado), ele pegou o gravador e, aproximando o dedão do botão vermelho, como se pronto a começar a registrar a qualquer momento, ensaiou dizer — Mas… Então, vamos lá? —, sendo, entretanto, antecedido por Luciano:

— Deixa eu te contar como eu te achei, e aí eu quero que você me conte como você achou a banda. Pode ser? — disse o músico aposentado, erguendo as mãos espalmadas energicamente, sem realmente deixar que Pereira tivesse tempo para dizer qualquer coisa — Beleza, cara. Pô, a internet, né? É… Eu… Eu contratei um serviço pra cuidar da imagem online do escritório, saca? Tipo, como aparece, de acordo com o que você busca. Saca?

— …— Pereira fez que sim com a cabeça e ligou o gravador.

— Daí, no início, para me mostrar que é um serviço realmente importante, eles me mostraram o que aparece quando você busca por Luciano Angoulême. Que é o meu pseudônimo de agora. Mostraram também o que aparece quando você busca Luciano Ferreira Seda, que é meu nome mesmo, como tá no RG, saca? E aí eu fui vendo e tal. O negócio deles é fazer todas essas buscas apontarem para o escritório… E fazer o escritório aparecer como a coisa mais profissional e confiável possível. O que é verdade, cara. Daí, depois, em casa, eu fui revendo o que eles tinham me mostrado, só que com mais calma… Lá pelas tantas, já que não custa absolutamente nada mesmo, eu fui olhar o que aparece quando você busca por Luciano Rizla. E, cara, eu fiquei impressionado, completamente impressionado… Porque, você sabe, o que eu encontrei foi a sua resenha, no seu blog.

— …— Pereira sorriu, começando a se relaxar na presença de Luciano. Respondeu mentalmente — Legal, cara, que legal —, mas, efetivamente, nada disse.

— Fiquei impressionado com você, um cara que vive disso, né? Isso é o seu trabalho, né?

Pereira balançou o tronco para frente e acenou com veemência com a cabeça:

— Sim, sim… Tem um tempo que eu trabalho com isso.

— Pois é, um cara que trabalha com isso, tratando de nós como uma banda mesmo, analisando o que fizemos do mesmo jeito que escreve tratando de todas essas figuras famosas da música…— Luciano balançou as mãos expressivamente e girou os olhos para cima, como se mirando os céus — Como se nosso trabalho fosse uma coisa, ahn… Pública? Toda essa história, para mim, sempre foi uma coisa tremendamente íntima, era só sobre eu, Cármen, Nelsinho e o Carlos, sabe?

— Entendo…

— Era uma coisa mais nossa. Tinha os amigos todos, claro, que iam aos nossos shows e compraram, ahn, compraram não, a maior parte ganhou, os nossos discos. Mas era isso, para mim sempre foi isso. O que sobrou foi isso, a nossa convivência, naquela época, a amizade que a gente tinha lá, naquela época… Daí eu fico muito encantado com você nos dando esse tratamento. Cara, fiquei feliz demais.

— Que bom…— disse Pereira, ainda mantendo o mesmo sorriso, segurando os cartões sobre os joelhos com as duas mãos. Luciano ficou um pouco olhando para o nada e então o perguntou:

— Mas, e aí, sua vez, como você nos achou?

— Ah, é… — Pereira ergueu as sobrancelhas e abriu bem os olhos — Então… Ahn, eu vou muito a sebos e… Lojas de discos usados e… Sempre, eu sempre procuro coisas desconhecidas. Tento fugir do óbvio… E aí, um dia, com o Mocó… O Mocó é um amigo meu, de Belo Horizonte… Ele não tem nada a ver com a história… Um dia nós achamos, ahn… Eu achei os dois discos da Olho Pineal num sebo do Maletta, o Maletta é um prédio, meio decrépito, no Centro de BH… E… Eu, eu não tinha nem ouvido falar de vocês… Quando percebi que eram gravações independentes fiquei muito curioso, quis levar para casa… Pô, parecia um treco, e… E depois eu vi que era mesmo… Parecia um treco mais underground do que as coisas da Barato e afins, da Cogumelo…E, pô, escutando, achei um trabalho maravilhoso, fantástico mesmo… E… E depois de um tempo quis falar a respeito… O que foi ótimo… Porque agora estamos aqui, né?

— Pô, que legal, cara. Eu nunca esbarrei com os nossos discos em lojas… Cê sabe que cada disco não teve mais do que duzentas cópias?

— Não… — Pereira disse sem abrir direito a boca, preparando-se para dizer —Então…— e aí começar com sua bateria de interrogações. Luciano foi mais rápido mais uma vez:

— Claro, né? É pra isso que estamos aqui. — disse o homem antes de soltar uma gargalhada explosiva. Em um tom mais ameno, com algo de melancólico, emendou —Bem, como você pode imaginar, tudo começa e termina com Cármen Valente.

— Sim…— disse Pereira, quando, em verdade, queria ter dito — Não, não imagino nada, conte-me tudo.

[MUITO DENSO, INFORMAÇÃO DEMAIS AO MESMO TEMPO]

— Nós nos conhecemos em uma festa em… 1975. A história é assim. Rolou uma inversão total das coisas. Inversão total… Eu estava procurando um baixista para a nossa banda, Os Huxleys. Daí a Cármen apareceu e assumiu o vocal e a guitarra da banda — e Luciano riu ruidosamente mais uma vez — Ela me mandou para o baixo e tomou de mim a guitarra e o vocal, saca? Ela também alterou o nome da banda, passamos ser a Olho Pineal. Éramos uma banda cover, passamos a ser autorais. Olho Pineal. A verdade é que… Depois que ela chegou e nós vimos quem ela era, sabe?, quem tinha chegado, nós ficamos muito felizes com esse nome, estávamos com medo de nos transformar numa banda de apoio. Saca? Cármen Valente e os Taumaturgos, Cármen Valente e os Necromantes, ou — e aqui Luciano gargalhou com ainda mais força, chegando a ficar por instantes avermelhado — Cármen Valente e os seus Asseclas Acéfalos.

Pereira, antes de olho nas questões em seus cartões, agora, como pequeno bloco aberto, tomava notas, mesmo com o gravador ligado. Luciano prosseguiu:

— Mas… Cármen sempre foi incrível, incrível… Incrível em todos os sentidos, mas… Mas sempre foi muito bonita. Então, foi nessa festa… Rapaz, tem tempo demais, em 1975, foi nessa festa que eu a conheci. Eu a vi e fiquei inquieto, eu tinha de saber quem era aquela menina, aquela mulher. Eu tinha de fazer alguma coisa, né? Tentar a minha sorte. Tinha. Todos nós, cara… Eu, Nelsinho e Carlos, todos nós fomos, em algum grau, em algum momento, apaixonados por ela… Apaixonados. Todos dispensados, tudo não correspondido. Passou, passou, e não deu em nada, acabamos amigos e é isso aí. Isso aí. Passou. Mas… Tudo começou com esse xaveco meu. Ela tava com um violão a tira colo, foi a minha deixa.

Luciano ficou um instante parado, como sorriso estático no rosto. Pereira se valeu da deixa:

— Você disse, oi, eu tenho uma banda?

— Pô, é, oi, eu tenho uma banda e… E a gente está precisando de um baixista… Cara, eu nem sabia o que eu ia falar depois, eu só precisava de uma coisa, uma coisa qualquer para poder andar até lá, falar com ela…

— E o que vocês tocavam?

— Cara, nos éramos os Huxleys, uma banda cover de The Doors. Ela perguntou isso, inclusive, logo em seguida. Eu respondi, ela riu do nome da banda, achou bobo… Falei que ainda naquela semana nos iríamos ensaiar, na casa do Carlos, expliquei onde era… Mas… O xaveco não deu certo, né? Não peguei nem na mão, cara. Não rolou aquela, ahn, química da atração. Nem na mão. Ficamos conversando mais um pouco, mas aí nos separamos… Festa: um chama aqui, outro chama ali, aquela coisa… Bagunça, né? Quando fui embora, ahn, antes de ir embora, não encontrei Cármen. Fiquei pensando então nela, claro, mas sabendo não ia aceitar o convite, de que não ia aparecer lá na casa do Carlos. Pô, ensaio na casa do Carlos? Fiquei comigo: nem eu lembrava direito o que disse, ela muito menos, né? Você imagina o meu espanto quando, uns dias depois, ela apareceu na casa do Carlinhos, num Chevette azul-claro, trazendo guitarra, baixo, pedais, amplificador, uma parafernália imensa, cara…

— E… Como foi esse ensaio?

— Foi um grande encontro, cara. Nosso com ela. Ela foi imediatamente aceita na banda, tudo mundo ficou maravilhado. Ela encaixava muito bem na turma, a gente escutava mais ou menos as mesmas coisas, rock psicodélico, tinha uma energia parecida, um senso de humor parecido, sabe? Começamos a encontrar uma vez no meio da semana e nos finais de semana para tocar. Acontecia também da gente sair para beber com frequência. Nesse iniciozinho, estávamos juntos durante a maior parte do nosso tempo livre.

— Mas… Vocês ainda eram uma banda cover?

— Sim, mas mudou pouco depois… De início ela ficou com o baixo mesmo, até que um dia, uns dois meses depois, de noite, depois de passarmos um bom tempo ensaiando, ela perguntou se a gente queria ouvir umas músicas que ela tinha escrito. A gente falou, pô, claro, mostra aí. A Cármen tinha uma música para gente, cara. Se a gente queria ouvir? E aí, cara… Tudo mudou. Cara, ela tocou Hecáte para gente, só no vocal e na guitarra. Foi o que precisava. Só uma vez. Foi a primeira vez que nós escutávamos algo dela, ela cantando e ela tocando guitarra. Só uma vez. Cara…  Ficou, assim… Ficou muito evidente que ela deveria cantar sempre… E tocar guitarra também… Como todo mundo gostou, achou bom, foda, muito foda mesmo — disse Luciano fazendo beicinho — ela foi mostrando mais coisas, outras músicas dela… O nível de empolgação, cara… Imenso. A gente aprendeu a tocar as músicas todas bem rápido, coisa de menos de um mês… Isso virou Quimeras. Nós gravamos no sótão da casa os pais dela. Ela tinha um estudiozinho lá. Assim, ela sempre teve muita grana, o pai dela era, ou é, eu não sei, dono de uma empreiteira…  Assim, até hoje ela tem muita grana…

— O que ela faz hoje?

— É, pois é, a história chega nessa parte… —  com uma careta de desgosto antes de continuar — Daí, gravamos o disco. Com muito custo. Foi nessa gravação que a gente começou a brigar.

— …

— O negócio, cara, é que eu e os meninos… Há, é foda, você fica velho e ainda chama os caras de meninos, foda… Mas, eu e os meninos tínhamos banda para tirar onda, saca? Era pra tirar onda, exclusivamente… A gente estudava e trabalhava, não existia a menor pretensão de vir a viver de música, ter uma carreira sendo músico, com banda… A gente tocava, ahn, a gente não tocava bem não… Eu aceito os seus elogios, cara, mas… A gente não tocava bem. A hora de tocar era a hora de tomar cerveja, queimar fumo, brincar… Era uma onda. Era para relaxar. Os Huxleys eram isso…

— Era uma banda de zoeira.

— Pô, é, tinha muita palhaçada… Eu não chegava a ser um imitador do Jim Morrison, mas às vezes, nos poucos shows, nos nossos showzinhos, eu tirava a camisa, ficava dançando de um jeito que, à época, eu achava que era muito sensual, gritava que era o Rei Lagarto, uma besteira infinita, cara… Onda, onda… Como você diz, zoeira.

— E a abordagem dela era diferente?

— E Cármen já pensava diferente, ela queria estourar, queria que a banda estourasse. Daí… Ela tinha um padrão de qualidade e a gente tinha outro, bem inferior… Ela reclamava disso, bastante… Dizia, pô, esse teclado tá porco, essa bateria tá porca… Enquanto a gente aprendia e ensaiava as músicas… Tudo ia mais ou menos na toada de antes, dos Huxleys, na brincadeira, mas, aí… Na gravação começou… Brigas e brigas. Desse troço dela chamar tudo de porco, depois de gravar Circe, nós, eu e os meninos, como uma brincadeira e como um pedido de desculpas, uma forma de fazer as pazes, escrevemos o Lamento do Homem Suíno. É a única coisa da Olho Pineal que não foi escrita por ela.

— Mas ela gostou, né? Foi parar no disco.

— Foi parar no disco, com os porcos cantando todos juntos — disse Luciano sorrindo. Endireitou o corpo sobre a cadeira e então cantou, com uma voz grave, impostada, a primeira estrofe da canção:

Por qual pecado
Carrego tal fardo?
Só por tolo, descuidado,
fui em besta transformado?
É por mero capricho
Que sou mudado em bicho?

Ficou sorrindo por segundo e então retomou:

— É…. Mas, é… Ai, ai… Fizemos uns showzinhos. A turnê do Quimeras passou por todo tipo de D.C.E, D.A., grêmio, república, esses ambientes, assim… Hehe, insalubres. Teve também festa de aniversário, uns poucos bares, uma boate. E cara, pra gente tava bom demais. Era só isso e estava ótimo. Além da conta até.

— Mas para Cármen estava ruim…

— É, para ela estava muito ruim, cara. Ela queria, sei lá, competir com gente grande. Então, quando o trabalho de Quimeras não foi muito longe da repercussão que a gente tinha com os Huxleys, ela ficou muito desanimada. Muito desanimada… Aconteceu dela viajar então, foi para os Estados Unidos com a família, ficou uns meses lá. Acho que uns três meses, cara. Quando voltou, estava animada de novo, muito determinada. Conheceu um terapeuta lá nos Estados Unidos, cara… Ela sempre falou muito de Freud e de terapia… Mas esse cara tinha um papo místico pesado, muito pesado. Pô, ela já tinha toda aquela onda de mitologia, que, né, encaixa com o som viajado que a gente tirava, aí conheceu esse cara, do misticismo mesmo, do ocultismo… Ela voltou então, sem antes nos avisar de quando voltava, sem ligar de lá, mandar carta, postal, qualquer coisa, ela voltou então cheia dessas novas ideias, com Tetragrammaton todo escrito, algumas das canções até já gravadas, umas só com um rascunho em violão e voz, outras com guitarra já, os riffs todos…

— E… Luciano, vocês então voltaram para o estúdio caseiro dela, mesmo com as brigas de antes?

— E bem, aí houve um erro das duas partes. Todo mundo mentiu. Eu e os caras mentimos quando dissemos que estávamos dispostos a gravar outro disco, que dessa vez iríamos nos dedicar mais, que seríamos mais sérios, profissionais. Cármen mentiu quando disse quer seria menos incisiva, menos implicante… Deu na mesma, boas sessões de ensaio, divertidas, até pegarmos todas as músicas… E depois, na hora de gravar, aquela coisa muito puxada… Era como um namoro ruim, discussão o tempo todo, a cada momento uma coisa decisivo… Foi nessa época que, no meio de uma briga, a gente veio com o nome Asseclas Acéfalos, porquê era isso que estava acontecendo, cara… A Cármen às vezes ficava tão mandona, tão determinada a fazer tudo e-xa-ta-men-te do jeito dela, cara, que… Que a gente não se sentia como nada, éramos uns paus mandados, brincamos então com isso, e chamávamos a banda, debochadamente, de Cármen Valente e os seus Asseclas Acéfalos. Mas, saiu também o disco. Outro fruto de noites, finais de semana e feriados no sótão da família Valente…

— E montaram então uma turnê como a de antes?

— Os shows foram a mesma coisa. Tudo no underground, assim, sendo elogioso. A única coisa que mudou, além dos D.A.s, das repúblicas, desse cenário, foi que uma vez tocamos em uma loja maçônica… O que não deu assim tão certo, porque no meio da apresentação Cármen fez um protesto contra o machismo dos maçons, que não aceitam mulheres dentro da organização deles, e aí tivemos de terminar mais cedo… Rolou um bate-boca com o pessoal da loja, teve até um momento no qual eu levantei o meu baixo, segurando pelo braço como se fosse a merda de um tacape… Mas, de resto, o mesmo esquema de antes, cara… Eu tava satisfeito, sério. Eu achava legal mesmo.

— …

— E, cara, durante os shows ela se entregava, dava o melhor dela. Podia ter três gatos pingados na plateia, ela realmente se entregava. Na hora, na hora. Depois era puro desânimo.

— E o que ela fazia?

— Ela insistiu muito, cara. Mandou os discos para tudo quanto é gravadora. Dizia que com um estúdio melhor nos teríamos resultados superiores, que aquelas eram nossas demos. Caçou agente, show em todos lugares da cidade, jeitos da banda tocar no rádio, da banda aparece na T.V… Mas nada demais acontecia e ela ficava péssima, péssima. E aí foi cada vez mais para o lado do ocultismo, da magia… Ela estava triste demais. Foi por isso, para alegrá-la, porque ela estava mal demais, que concordamos em gravara um terceiro disco…

— Terceiro disco?

— Sim, era para ter um terceiro, mas não aconteceu. Ia chamar Canções da Experiência. Só que agora, para dar certo, Cármen tinha decidido que tudo deveria ser ainda mais rigoroso. Ela queria todo o processo de ensaio e gravação ritualizado. Era um fetichismo danado, cara. Tinha as roupas que eram permitidas e as roupas que eram proibidas, o jeito certo de entrar no sótão, gestos e coisas que nós tínhamos de dizer antes e depois de começar a tocar cada música, assim, mil maluquices, maluquices mesmo, cara… Uma combinação errada, era essa obsessão em fazer a banda acontecer mesmo, estourar, essa coisa quase mágica, ritual, com a música e, cara… — Luciano olhou para baixo — Ácido demais. Era muito difícil arrumar ácido naquela época, cara, você não faz ideia, não faz. Mas ela descolava, ela viajava e tal. Cara, errado, tudo errado. Ácido demais. E eu penso, era claro que ia dar errado, óbvio, era óbvio. Se pirou um Brian Wilson, pirou um Arnaldo Baptista, por quê a Cármen não ia pirar? Ela ficava regravando tudo sem parar, fazendo colagens, alterando tudo, transformando tudo. Como nós ainda tínhamos nossas coisas para fazer, ao contrário dela, que agora estava pensando só no disco, a coisa foi virando um trabalho dela…

— Nó…— soltou Pereira, abismado.

— Até que um dia ela veio nos dizer que para a coisa realmente acontecer nós deveríamos nos dedicar ainda mais, fazer uma dieta específica, não beber dada de álcool, só usar maconha e ácido para fins, de acordo com ela, espirituais… A coisa, ensaiar e gravar o disco, virou uma coisa totalmente religiosa. Totalmente, cara. E para mim, para os meninos, insuportável… Essa noite, do dia no qual ela veio falar isso com a gente, cara… Durou, arrastou madrugada adentro e terminou com a banda separada, com o Olho Pineal fechado, acabado. Isso porque chegamos a um consenso: nós não queríamos nada daquilo, aquela coisa toda cheia de rigor e mistério, e Cármen não nos queria mais nos projetos dela, porquê… Porquê, nas palavras dela… Nós éramos ineptos. E, eu não sei, cara… Esperávamos esse término, sério mesmo, depois de um tanto de chão… Asseclas Acéfalos, cara, essa questão… Essa questão.

— Mas, e aí, ela terminou o disco sem vocês?

— É. E acabou que um pouco depois desse término todos se afastaram da música. Eu, Nelsinho e Carlos voltamos a tocar como os Huxleys algumas vezes, mas se foram cinco foram muitas. Cármen fez uma gravação dessas músicas, dessas Canções da Experiência, sozinha, sem o nome Olho Pineal, mas também não conseguiu muita coisa…  Tanto que, nunca foi lançado nada disso…. Ahn. Mas, essa coisa de ocultismo… Cara…

— Você acha que foi isso? O ocultismo que… Que deu fim a tudo?

— É… Aí ela entrou mesmo nessa de ocultismo, cara… Assim, a família dela sempre a deu uma ótima condição. Ela estudou História na USP, graduou, tudo certinho, mas nunca trabalhou. Recebia uma mesada considerável do pai. A única coisa que ela tinha de fazer era assinar alguns documentos para ele… Ele colocou uma pá de coisas no nome dela… Ela não precisava de trabalhar, de fazer nada além de dar umas canetadas uma vez por mês, e olhe lá… Eu não diria que ela seria uma laranja, mas era quase, quase.. E então, cara, ela entrou com tudo no ocultismo. Isso virou a vida dela, em tempo integral. E cara, vou te dizer, tem gente demais nessa, muita gente… Durante os primeiros anos depois da separação, nós ainda falávamos com ela, sabe? Isso era início dos anos oitenta. Cara, ela viajou o país inteiro visitando gente do espiritismo, ocultismo, xamanismo, magia, ufologia… O Brasil inteiro. Tem muita coisa acontecendo aqui cara, a gente é forte nesse esquema. Muita coisa acontecendo. Tinha então e eu tenho certeza que ainda tem muita coisa acontecendo… Ela conheceu gente demais, cara… Fez contatos, muitos contatos… Um networking danado… Até que ali no final da década, 88, 89, ela fundou um… Cara, eu sei lá o que é aquilo, ela chama de centro de estudos, mas, para mim, aquilo é uma… Assim, começou com o lugar no qual essas pessoas do ocultismo, do misticismo, se reuniam, era palestra, curso, oficina… Mas logo virou uma seita. Não sei quando virou, mas hoje é uma seita. Associação Transcendental Amalantrah é o nome, A.T.A. na sigla.

— É sério isso?

— É sério. Sério. Aqui, cara, eles tem uma página na internet… — Luciano se colocou diante de seu computador, mexeu com o mouse displicentemente e depois digitou algo no teclado, virando então a base do monitor para que Pereira pudesse enxergar a tela, na qual aparecia o site da A.T.A, com o nome da associação em um tipo futurista sem serifas, acima de uma grande foto do prédio sede do grupo, o domo branco — Essa, ahn, coisa… Plágio do Niemeyer… Olha, que coisa horrível, é como a Oca, só que menor e… Erguida por essas colunas. É um Niemeyer falso sobre palafitas. Essa, nave… Cara, é quase a nave da Xuxa… Isso é o centro da A.T.A. Hoje eles são bem grandes.

— Nossa Senhora…

— Olha aqui… Nessa foto você tem uma ideia, é uma cidade, cara… Hoje a coisa é uma cidade. Uma vila, na verdade. Mas uma vilinha toda de gente nessa onda dela, de magia e ufologia…— disse Luciano pulando para a galeria de fotos.

— Incrível…

— Cara, uma, assim… Nada pessoal, nada pessoal, mas, assim… Uma… Merda, eu acho uma merda completa. 

— E… A música? Ela, você disse, abandonou a música?

— Não, cara, não… Nada de música, nada… Cara… Ela mudou de nome, ela nem chama Cármen Valente mais. Hoje em dia o nome dela é Mestra Intreza. Mestra, saca só. Uma coisa de doido mesmo. Ela não se interessa mais por música. O único assunto agora é misticismo. Eu, inclusive, parei de falar com conversar com ela tem anos já, mais de dez, se bobear. É, isso mesmo, mais de dez. Porque não havia sentido, cara. Você vai conversar com a pessoa e tudo que ela faz é, insistentemente, tentar te converter…

— Eu… — disse Pereira, acanhando — Nossa, como eu gostaria de… Ahn, de… Falar com ela.

— Não, eu não acho que você vá conseguir tirar nada dela. Vai ser um desperdício do seu tempo. Mas, falar com ela é relativamente fácil, a sede da coisa fica em Goiás, nos arredores de Formosa, relativamente perto de Brasília. Tem o endereço no site, telefone também.

— Mas, Luciano… E os outros caras?

— Cara, Carlos morreu num acidente de carro em 84. Carlinhos… Uma coisa horrível. Um susto que dura até hoje. Assim, eu sempre me esforço para me lembrar bem dele, de só reviver a amizade. Mas foi uma coisa… Deixa. É… Nelsinho tá aí, trabalha com áudio e vídeo, publicidade, coisas para a T.V. — e aí Pereira entendeu de onde vinha o riff de Hecáte como vinheta do programa de turismo.

— Fraguei…

— O que acontece, cara… É que o tempo vai passando e… Você pode dar às costas para tudo, esquecer, dizer para você mesmo que você esqueceu, que não mais importa… Ou você pode, Daniel, guardar o que foi bom… E eu fiz essa segunda escolha. Estou começando a chegar, cara… Começando a chegar naquela fase na qual o sujeito tem mais memórias do que expectativas. E… Eu poderia me lembrar desgostoso disso tudo, por conta do jeito que terminou… Poderia ficar lembrando das palavras de Cármen dispensando a gente, da nossa raiva, das coisas que dissemos em resposta… Mas, cara… E o outro lado? Foram tantas tardes e noites de amizade… Tanto tempo um com outro, fazendo a mesma coisa, por vontade, só por vontade de estar juntos… Não deu errado. Nada deu errado. Deu certo durante um tempo, de um jeito bem específico, e aí…. Acabou. Uma coisa finita, como qualquer experiência.

Veio então um momento de silêncio. Pereira se valeu dele para sopesar o conteúdo da conversa até então. Sentiu-se frustrado. Luciano não era o destinatário ideal de nenhuma de suas perguntas. Não era ali. Ainda não. Era como se um pequeno cogumelo antropomórfico lhe dissesse:

— A princesa está em outro castelo.

Com a diferença que a princesa era uma Mestra e o castelo um disco voador de concreto armado plantado no interior de Goiás.

PEREIRA – V

Depois de horas de pânico, começou a repetir para si mesmo uma ladainha simples. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Encostou-se na parede e ficou sentando, balançando-se para frente e para trás. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Assim conseguiu dormir. No dia seguinte, voltando do encontro com a Mestra, no jardim, valendo-se de um breve instante de desatenção do Piloto, achou a pedra. Uma linda pedra portuguesa, branca e quadradinha, de oito arestas ferozes. Tinha então uma meia e uma pedra. De volta a sua célula, montou a arma: uma meia com uma pedra dentro. Isso lhe deu coragem. Estava decidido, iria enfrentar todos ali, começando pelo mais odiado.

[…]

O magricela Pereira acertou então o imenso Piloto na cabeça. A pedra, dentro da meia empunhada pelo rapaz, rodopiou violentamente antes do impacto. Por instantes Pereira pareceu determinado e destro. Seu grito (desarticulado) soou até convincente. Havia algo de bíblico naquilo, sem dúvida: um sujeito singelo atacando um brutamontes, na cabeça,  com uma pedra. Mas havia algo de profano, profundamente profano, no Piloto, e o golpe — a pele cortada, o sangue escorrendo  — só serviu para irritá-lo. O homem agarrou Pereira pelos ombros, encaixou-lhe uma joelhada rápida no estômago e, ato contínuo, levou-o ao chão com uma cabeçada.

Pereira – IV

Sem título

Daniel Pereia, 23, rock journalist

Attributes:
STR 8, CON 9, POW 9, DEX 8, APP 12, SIZ 13, INT 15, EDU 12, SAN 45, LUCK 45, IDEA 75, KNOW 60

Damage Bonus: 0

Hit Points: 11
Magic Points: 9
Sanity points: 45

Skills:
Art, Eletric guitar 5%;
Bargain 15%;
Craf, Write 25%;
Computer use: 45%;
Drive Auto 25%;
Eletronics 5%;
History 20%;
Library Use 35%;
Listen 45%;
Obscure indie bands 65%;
Other Language, English 40%;
Own Language, Portuguese 60%;
Pharmacy 10%;
Psychoanalysis 10%;
Psychology 25%;
Ride bike 40%;
Sneak 30%

Weapons:
Fist/Punch 60%;
Kick 35%;
Rock in the sock 50%

PEREIRA – III

Ficaram esquecidos na sala do apartamento que Pereira dividia com amigos de faculdade até o dia da faxina semanal das áreas comuns (que acontecia, mais ou menos, a cada dois meses). Ao final da limpeza, estavam os dois álbuns numa pilha em cima da mesinha onde os moços tomavam café e às vezes jantavam, junto a farta correspondência negligenciada, jornais e revistas velhos e amassados, folhetos de todos os tipos (anunciando de pizza a candidato a deputado federal), bilhetinhos apócrifos e frases, supostamente espirituosas, rabiscadas por bêbados em tiras de papel; coisas a serem julgadas sob o quesito: isso é lixo?

A luz do final da tarde refletida nos tacos de madeira a pouco encerados, o perfume artificial dos produtos de limpeza e a ordem, atípica, imposta à sala fizeram com que Pereira se sentisse um estranho em sua própria casa. Aproveitando essa experiência, buscou o disco Quimeras em cima da mesinha, retirou-o da capa e colocou para tocar, rolando, cerimoniosamente, um baseado longo e gordo em seguida.

A música o afetou antes do fumo. O excesso de ruído o agradou desde aquela primeira audição. Anacronicamente (ainda que consciente disso), por acostumado com uma grande quantidade de bandas que de fato optavam por gravações precárias, Pereira tomou o defeito por efeito: chiados, estalos, distorções e sons alheios à música escutados ao fundo evocavam em sua mente uma atmosfera ao mesmo tempo amigável e fantasmagórica.

O fato de os membros da banda estarem tecnicamente aquém de suas próprias pretensões também não o incomodava. Escrevia a respeito de música em parte por ser um músico frustrado, incapaz de cantar qualquer coisa ou tocar a mais boba canção de três acordes, razão pela qual nutria imensa simpatia por artistas de execução grosseira. Em várias de suas resenhas — textos cuja maior qualidade era a ausência do termo “pegada”, um vício comum no ramo — Pereira costumava repetir o lugar comum (quiçá um ranço do Romantismo) que associa essa crueza de estilo à espontaneidade e autenticidade do artista.

A ortoépia às vezes estranha de Carmen Valente, associada às letras pedantescas (que por semanas depois daquela primeira exposição ainda mandavam Pereira ao dicionário) não foram recebidas de forma diferente. Além de soar estranha (e ele era um desses que aprovam o estranho pelo estranho), a vocalista, aos ouvidos do rapaz, tinha algo de aristocrática e estrangeira, afetação que foi como o último passe da mágica que o ascendeu a um estado de espírito especial que — de tão feliz, tão isolado das experiências cotidianas — era quase como um outro estado de consciência.

Quando os 37 minutos e 23 segundos de Quimeras acabaram, Pereira, que enquanto escutava o álbum tinha coado uma garrafa de café, bebido metade, fumado dois cigarros de palha e dois terços de um segundo baseado, colocou Tetragrammaton para rodar.

Sua metade que desejava o prolongamento daquele prazer, oposta a que supunha um segundo acerto da turma do Olho Pineal algo muito difícil (afinal, Quimeras era tão singular), saiu vitoriosa. Tetragrammaton era apenas ligeiramente mais sombrio, sem maiores diferenças.

Ainda escutando o disco, tratou de buscar o computador em seu quarto. Para o espanto de Pereira, a internet não dava notícia da banda Olho Pineal, de nenhum de seus discos ou de de seus componentes. De acordo com a visão de mundo do rapaz, era quase como se tudo aquilo não existisse.

Quando o segundo disco acabou, Pereira quis ficar em silêncio. Tanto silêncio que colocou os tampões de ouvido que comprou quando, em vão, tentou por um tempo se preparar para concursos públicos cujos editais não exigiam graduação no Ensino Superior. De noite, assim que seus companheiros de apartamento chegaram, rapida e discretamente tratou de recolher os discos e guardá-los em seu quarto, junto à sua pequena coleção de vinis, sentindo-se imediatamente culpado por ter ignorado o que agora considerava preciosidades, deixando-as ao Deus dará na terra de ninguém que era aquela saleta.

No dia seguinte, assim que seus amigos saíram para o trabalho, converteu os álbuns para um formato digital (FLAC) de forma que pudesse escutá-los em qualquer lugar sem ter de manusear os discos, aquele frágil e raro substrato físico. Carmen Valente e sua banda passaram a o acompanhar em várias atividades solitárias, até que Pereira se familiarizou com cada minúsculo detalhe dos dois álbuns.

Egoísta à sua maneira, manteve Olho Pineal  em segredo por quase três anos. Quebrou o silêncio apenas quando, já morando em São Paulo, considerou-se forçado pelas circunstâncias. Mudando maquinalmente os canais da televisão, ouviu a introdução de Hecáte, a canção que abria Quimeras, na vinheta de um programa no qual um modelo fingia passar pelas felicidades e agruras de viajar sozinho (como se não estivesse o tempo todo acompanhado pela equipe de filmagem). Se fossem apenas os acordes, apenas o riff do início, Pereira não se importaria, a simplicidade desse tipo de música implica em um número limitado de combinações, resultando em vários fragmentos semelhantes, se não idênticos: poderia ser qualquer outra coisa. Não era algo parecido, porém, era Olho Pineal, no registro que Pereira conhecia tão bem e tinha como algo para poucos (dos seus conhecidos, só ele), tocando na T.V., esse grande agente da vulgarização.

O moço ficou por instantes assistindo ao modelo emular ares cosmopolitas errando calculadamente por uma cidade europeia. Sentia que o seu segredo estava prestes a ser profanado: em breve todos falariam do seu achado, seu feito não seria mais nada: aquilo era um sinal. Quando o quadro que assistia acabou, antes de entrarem os comerciais, a vinheta se repetiu. Um sinal. Pereira então pensou: se essa banda vai ser banalizada, que pelo menos seja por mim. Como não tinha nenhum compromisso no dia, pôs-se de imediato a escrever uma resenha — impressionista, como eram todas a suas resenhas —  a ser publicada em seu blog (para o qual nunca parou de escrever, mesmo depois de começar a fazê-lo profissionalmente em outros lugares). No meio do texto considerou ligar para Paulinho, seu melhor amigo, apto a identificar de pronto o modelo de instrumentos, pedais e  amplificadores, mostrar-lhe os discos e pedir ajuda na importantíssima apresentação da banda, mas não, pensou logo em seguida, isso é muito, muito, pessoal, o trabalho de um só. A redação foi a seguinte:

Olho Pineal
Quimeras, Pineal Discos, 1977 – •••••
Tetragrammaton, Pineal Discos, 1979 – •••••

O cânone da música pop é formado por um processo que tem muito pouco a ver com qualidade. Vários fatores impróprios concorrem em maior peso: jabá, publicidade, sorte, mera aparência dos performers, uso das músicas em filmes, programas de TV e comerciais, o generalizado mal gosto dos consumidores e por aí vai, é uma lista longa.

Provas disso não faltam. A que apresento aqui é o trabalho da banda Olho Pineal. Seus dois discos, Quimeras (1977) e Tetragrammaton (1979) são chaves para um universo sônico paralelo. Mesmo assim, nada é dito sobre a banda. Na-da. Procure pelo nome do grupo: aprenderá algo relacionado ao olho parietal dos lagartos e lampreias, encontrará textos, pros lados da ciência e pros lados do misticismo,  tratando da glândula pineal e, se resolver ir um pouco mais fundo, talvez lerá um ensaio um tanto quanto perturbador de Georges Battaille. Encontrará todas essas coisas, mas nada que indique que esses incríveis psiconautas brasileiros passaram pela Terra. É uma riqueza restrita a umas pouquíssimas coleções privadas, que até os mais esforçados arqueólogos dedicados aos vinis custam horrores para encontrar.

Em termos de referências, nada poderia estar mais claro: são estudiosos atentos daquilo que se convencionou chamar de San Francisco Sound. Trocando o inglês pelo português, emulam, com criatividade essa variedade do rock psicodélico americano cujos expoente são o Jefferson Airplane, Grateful Dead e a sempre saudosa Sra. Janis Jopplin.

Tocam de maneira solta, corajosa. Evocam uma sensação de liberdade que casa perfeitamente com o clima sonhador das canções. Tudo é devaneio: as músicas são executadas como se não existisse  obrigação nenhuma, nada a ser seguido. É um modo de lidar com a técnica que abre a porta pela qual todos os deslizes entram como revelações. Há uma tessitura orgânica, aberta ao ruído como elemento essencial, há uma unidade que supera a banda. Olho Pineal não é formada por voz, guitarra, baixo, teclado (às vezes piano) e bateria. São esses instrumentos e o barulho dos carros na rua, piados de pássaros, latidos, pessoas conversando em um cômodo próximo, passos, risos abafados, mil barulhinhos estranhos. E tudo se encaixa. Tudo, de uma forma largada, está em seu devido lugar.

Hecáte, a faixa que abre Quimeras, começa com um riff de guitarra simplíssimo e sujo, copiado pelo baixo que entra segundos depois. A bateria, com uma batida de caixa magnética, quase uma marcha militar, chega, com o teclado, depois da curta introdução, dando peso. Entra  aí o vocal, dramático desde o primeiro verso:

Na escura madrugada,
Diante do invisível,
A cainçalha toda late
Anunciando a sagrada,

Tríplice e invencível,
Divina sitônia, Hecáte:

É possível escutar ao fundo uma porta batendo e um grito indecifrável. A guitarra abandona o baixo e segue mais violenta e ligeiramente mais trabalhada, enquanto Carmen Valente canta, como se realmente diante da deusa grega:

Traz em mãos o lume,
Serpentes e ervas,
Das chaves a chave,
E aço de afiado gume.
É o brandão das trevas,
Que as trilhas abre.

Por um breve instante toda banda para, apenas para retornar mais firme e empolgada, acompanhando Valente que então não propriamente canta, mas entoa o refrão, como se um transe:

Encontrarei na encruzilhada
A Deusa da maior Arte
Prostrarei-me ajoelhada
Aos pés de Salvadora Hecáte

Em Anti-Orfeu a mesma guitarra rasgada agora parece chorar, acompanhando um vocal telefônico, hipnótico, reforçado por um teclado monótono. Ao fundo, no meio da música, um carro da partida e segue para fora da canção, soando quase proposital diante da letra da música, que é breve e dolorosa:

Não quedes à margem,
Como se moribundo.
Nem prepares viagem
Ao escuro submundo.

Foi assim, foi isso.
Para o n’água escrito
Não há nada prescrito.

Foi assim, é isso.
Natural é nosso oaristo
Para sempre no aoristo.

O tema do amor conflituoso retorna, também associado à mitologia grega em Médeia, quando fica claro que Valente pode ser mágica, mas nunca frágil. Assim como sua guitarra estrepitosa e alucinada, ela é uma força a ser temida. Sons de talheres e louça evocam a vida em família e Panis et Circenses enquanto Valente canta:

Ó, não me enganes não,
Não te chamas Jasão,
Mas não fazes ideia,
Se me vens com traição
E fere-me o coração,
Descubro-me deia.

E rápida, num arroubo,
Armo logo meu logro,
O pior tipo de jogo:
Deixo-te triste e louco
E  ainda fujo em carro de fogo

Um improvável solo de bateria antecede o refrão ameaçador:

Ao infiel, o fel; ao falso amigo, castigo
Ai, ai! Que caia o céu de quem errar comigo

E esse é tom que se mantem por toda a música:

Nem virgem e nem santa,
Elisabetana e suicida,
Como infeliz Ofélia.
Quando a ira minha se levanta,
A briosa cabeça erguida
Outro papel espelha

Se me trazes injúria,
Percebes minha sabedoria
Toda feita de fúria
Quando ataco em euforia
Na minha destruidora estreia,

Feiticeira e cruel, vestida de Medeia

A verdade é que são nessas canções nas quais Valente apresenta seu eu-lírico cheio de sex appeal macabro que Quimeras encontra sua força. Assim, Homem Suíno, uma faixa brincalhona (na qual os homens da banda tomam os vocais, harmonizando suas vozes em uma só), funciona como a abertura de um breve intervalo, seguida da balada folk Esfinge e do blues viajado, cheio de termos do que parece ser grego antigo, de KatabasisKteís. O intervalo, sonoro e temático, comporta ainda a instrumental Paracusia, uma faixa que alguém mais dado a rótulos poderia chamar de proto-post-rock, e a enigmática Nimitta, na qual o baixo de Luciano Rizla, tributário de Jack Cassady, soa caracteristicamente destacado. São canções eficazes, deliciosas, valorosas por si só, que funcionam perfeitamente como um descanso até que Valente volte a sua melhor forma, diabólica, agressiva, em Circe. A progressão de acordes de guitarra é explosiva, a honestidade suja da técnica de Valente, faz com que a faixa soe um pouco como uma canção de stoner rock avant la lettre.  Na letra, Valente volta a dar voz a uma figura feminina e fantástica:

Marinheiro, lasso e trabalhado,
Não hesites, junte-se a mim,
Venha deitar ao meu lado,
Em meio a comes e bebes sem fim,
Divãs para te largares sossegado,
Dóceis lobos e leões no jardim.

Esqueças guerras, pátria e família,
Alheie-se a todo e qualquer problema,
Desdenhes de proa, popa, velas e quilha,
Está tudo já resolvido, nada mais tema:
Perca-se em minha obscura ilha,
Onde reino só, senhora suprema.

Por que errar pelos mares de novo?
Se acertas encerrando aqui a história.
Por que com suor e sangue chegar à glória?
Se aqui tens infinito e gratuito gozo?
Quede com feiticeira da mais fina estirpe,
Sucumba a mim, filha do Sol, poderosa Circe.

Tetragrammaton está no mesmo patamar de Quimeras em termos de qualidade. É, no entanto, um álbum mais lento, taciturno.

cliché da dificuldade do segundo disco

electric jug

mexico / paraguai

suite, teclado pesado, alto, gospel, crescendo até de plano

 

Pereira – II

A primeira suposição estava equivocada. Mesmo fosse Pereira um verdadeiro herói da classe trabalhadora, não teria melhores chances diante das forças do domo. Outros mais vividos — lidos, conversados e trabalhados — ainda assim correriam sérios riscos caso, desavisados, caíssem nas graças da Mestra. A segunda conjectura, porém, era acertada. Ele estava ali em razão de uma banda obscura. Banda que, de fato, carecia de qualquer qualidade distintiva além de nunca ter se tornado conhecida (motivo pelo qual, diga-se de passagem, com rara justiça, de forma tautológica, a banda nunca se tornou conhecida).

Atrasada, Olho Pineal se apresentou ao mundo como uma banda de rock psicodélico com letras que flertavam com o ocultismo no ano de 1977, quando a psicodelia, já disseminada por todo o globo, sentia então o baque das primeiras investidas do punk e testemunhava o desenvolver da sua cria, o rock progressivo. As ciências ocultas, por sua vez, já haviam mais do que iniciado a música brasileira em seus dogmas e rituais: Raul Seixas já conhecera, por meio do místico Marcelo Motta, os ensinamentos de Aleister Crowley, tornando-se um prosélito explícito da Thelema; Os Mutantes já haviam saudado Lúcifer; Tim Maia já havia lido os livros da Cultura Racional e Jorge Ben já anunciara a chegada dos alquimistas, formulara a conhecida pergunta lovecraftiana de Erich von Däniken e cantara os enunciados herméticos da Tabula Smaragdina.

Em seu primeiro disco, intitulado Quimeras, Olho Pineal, sem nada da nossa cor local, parecia uma cópia grosseira de Jefferson Airplane, com letras num português truncado que tratavam de feitiçaria, entidades mitológicas e cerimonias secretas. Tetragrammaton, lançando dois anos depois, em 1979, repetia a mesma sonoridade, dessa vez com referências à maçonaria, a textos herméticos, ao tarô e à cabala. As gravações, de fundo de quintal, eram cheias de chiado; a banda desencontrava-se com frequência e a vocalista, apesar de ter uma voz de fato bela, cantava com uma prosódia estranha, forçada, além de desafinar aqui e ali. Fizeram pouquíssimas apresentações, entre 1975 e 1979, sem tocar em qualquer lugar de renome e sem abrir para ninguém em evidência.

Pereira conheceu o grupo alguns anos antes quando, numa tarde letárgica de fim de ano, dissipada em andanças e conversas ditadas pela livre associação, encontrou os dois discos, LPs com as capas carcomidas pelo tempo, na bacia das almas, em um sebo sujo no centro de Belo Horizonte, no qual os produtos à venda eram todos expostos com igualitário descaso.

Nossa, ó se não é a pior capa de disco já feita! — disse então o moço, dirigindo-se ao amigo que o acompanhavam naquele passeio à toa, chamando a atenção para o desenho que ilustrava Quimeras: um corpo de leão com três cabeças humanas brotando de seu pescoço e uma quarta surgindo da ponta de seu monstruoso rabo coberto de escamas. O verso indicava que a besta era encabeçada por Cármen Valente (vocal e guitarra), Luciano Rizla (baixo) e Chiquinho Cientista (teclado). A Carlos Volta, o baterista da banda, coube a infelicidade de ser representado com sua cabeça saindo da serpentil cauda da criatura.

Cara, de quando é isso? — murmurou Pereira na ocasião, folheando o encarte — Ahn, Pineal Discos… Olha só, parece que eles mesmos gravaram. Uma parada absolutamente independente.

O interlocutor de Pereira permaneceu calado. O jornalista separou o álbum dos demais expostos, colocando por cima dos discos enfileirados, e começou a analisar a capa de Tetragrammaton, na qual a um pentagrama era apresentado em meio de letras do alfabeto latino e hebraico, números e símbolos herméticos.

Bicho Isso deve ser um treco prog, lo-fi, safado — disse baixinho o moço, olhando ao seu redor, buscando por um toca-discos capaz de sanar sua curiosidade. Não encontrou. Levou então os dois discos, sem nenhum (grande) arranhão, por oito reais.