ISABELA – 24

(Algo que eu talvez incorpore à Lúcia de Esdrúxulo e Lúgubre)

— Quem é você? Não, é sério. É preciso saber. Quem são seus vários eus? O seu eu que tem preguiça de lavar louça, esse preguiçosinho inocente, não é o seu mesmo eu, tirânico, que se imagina no gozo de privilégios?… Eu ia adjetivar, infundados, indevidos, mas, ahn: privilégios, ponto.

ISABELA – 23

Estávamos eu, Olivenbaum e Isabela sentados na praça dos leitões,  suspensos num ponto indefinível entre a onda e a lombra, quando Fernandinho dobrou a esquina. Como dizem os cariocas: ele brotou. Todos nós o vimos e não conseguimos desvê-lo.  Lépido como um suíno n’água, monstrando todas as suas sessenta e quatro canjicas, Fernandinho em instantes já estava plantado na nossa frente.

Lançou a mão à frente estalando os dedos,  finta barata. Vocalizou:

— Ou. Literalmente, cês fragam? Todo mundo fala literalmente errado, bota fé? Trudia amigo meu falou: véi, a fessôra vai literalmente comer meu cu com essa prova. Daí um carinha foi zuar ele perguntando se a professora ia fazer um maço de provas, um dildo de maço de prova, e chuchar no rabo dele, e eu, haha, eu fiquei pensando, que literalmente, literalmente mesmo, nem isso era, ela teria de tipo, preparar o rabo dele com a prova, de algum jeito, cara, seja lá qual for, e comer, com a boca, tipo, morder, mastigar, engolir. Literalmente. Não me olhem com essa cara de nojinho, eu tenho a imaginação fértil, o cara falou isso e pan!, já me veio a coisa toda na cabeça.

— …

— …

— …

— Mas, ou, Isabela, sabe quem manda mó mal nessa? De literalmente?

— Quem?

— Seu Chames Choyce. Eu fui lá ler o que dizem ser o melhor conto dele, que brincou que eu vou encarar aqueles tijolões se o cara escreveu contos. Os mortos. The Dead. Começa com um literalmente, pan!, logo na primeira frase. Há! Achei que era da tradução, cacei o inglês na interntet e pan!, literally.

Isabela abriu a bolsa, rabiscou discurso indireto livre num caderninho, rasgou a folha e a entregou para Fernadinho:

— Vai estudar, Ferdinaaando.

O que nem de perto abalou o ânimo do rapaz.

ISABELA – 22

— A avassaladora maioria dos leitores gosta de descrições. Desde criança, inclusive. As crianças querem saber exatamente como foi isso e aquilo, como era a cara de fulano, como era a casa de sicrano. Não tudo, é claro, porque tu-do é impossível e… Até mesmo antes do tudo, no muito, já há um problema. Imagine se o Monk não parasse para que os caras da banda pudessem fazer seus solos. Então, nada de tudo, nem de muito, vamos deixar as lacunas para o leitor ter o seu espaço, mas descrições, sim, um tanto bom de descrições. Do clima também, sim. Sol, chuva, nuvens e vento, sim. Descrições. E adjetivos. Uma pá de adjetivos. Um grande foda-se para as dicas de jornalistas para escritores iniciantes. O que seria de um Eça (o cristo atlético da abertura dos Maias assombra a minha imaginação), de um Tolstói, sem descrições? Two Gallants, lembra desse conto?

— Do Dubliners?

— Isso, Joyce. Lembra do primeiro parágrafo?

— Ahn, não…

— Eu decorei. The grey warm evening of August had descended upon the city and a mild warm air, a memory of summer, circulated in the streets. The streets, shuttered for the repose of Sunday, swarmed with a gaily coloured crowd. Like illumined pearls the lamps shone from the summits of their tall poles upon the living texture below which, changing shape and hue unceasingly, sent up into the warm grey evening air an unchanging unceasing murmur. Isso é ruim?

— É ótimo.

— Descrição. Descrição do clima. Adjetivos. James Augustine Aloysius fucking Joyce.

—Mas, ou, só o Joyce é o Joyce.

— É, garantido. Mas imitatio et emulatio ainda é um princípio. Pareado com o make it new do Pound.

ISABELA – 21

—  A Literatura pode até partir de uma egotrip, o estalo inicial pode ser qualquer coisa, mas não é espaço para se fantasiar com o desenvolvimento de potencialidades não realizadas no mundo. A Literatura não é uma segunda chance para os obliterati, é o campo no qual se realizam as coisas, muito tautologicamente, da própria Literatura. O poema sobre o, ahn, beijo nunca dado, por exemplo, não será esse beijo, nem um simulacro precário, será, porém, em sua plenitude, um poema.

ISABELA – 20

— Da mesma forma que começamos a estudar artes marciais pelos motivos errados, nos imaginando futuras máquinas de dar porrada, estilosas e malvadas, mas depois percebemos que o valor desse caminho é outro, outro completamente diferente, devemos continuar escrevendo, mas não com mesmos os objetivos, semi-secretos e escusos, que nos colocaram na empreitada. (Está certo, alminha pura, nem todos os  seus objetivos são escusos, eu acredito, acredito). Não vamos sair pela noite resolvendo os problemas do mundo na mão. Da mesma forma, vamos abandonar as fantasias com entrevistas, convites para eventos, adaptações para o cinema, essa punheta (de bêbado). E os penduricalhos também, você não precisa de óculos de casca de tartaruga (pobres tartarugas), de um paletó tweed (não diga blazer, blazer é outra coisa), de moleskines, de um MacBook, de nada disso. Também não precisa conhecer ninguém, ficar amigo de ninguém, fazer o curso de ninguém. Porque isso é o que a atividade tem de mais mesquinho, mais vazio, mais triste. E… Da mesma forma que, depois de um tempo, de alguma experiência, um soco deve ser apenas um soco, um livro é apenas um livro. Existe um mundo dentro desse apenas, mas mesmo assim, apenas.

ISABELA18.TXT

– As justificativas que se é forçado a construir para conseguir um pouco de tempo em paz, alguma solidão. Não, eu não estou trabalhando demais, não eu não estou passando por uma fase difícil, não eu não preciso de um tempo para mim, como se tivesse sofrido algum trauma e necessitasse de isolamento e repouso. Eu quero ficar sozinha, eu gosto de ficar sozinha, sinto falta de ficar sozinha. Mas as pessoas tem horror ao tempo verdadeiramente livre, ao ócio e à solidão, para elas é perda de tempo, é estranho, sentem-se culpadas. São as mesmas pessoas que dizem ter medo de ficarem loucas depois de aposentar. Elas não sentam-se em suas salas, acendem um cigarro e entregam-se às  suas vidas interiores (elas não receberam nenhuma educação para isso, elas não cuidaram de se educar para isso). Elas não pegam um livro na prateleira ou retomam as várias leituras em curso. Elas não escutam um disco do início ao fim. Elas não entendem nada disso. Não querem isso. São pessoas que acham que correr de um lado para outro significa produzir alguma coisa; que movimento, agitação, é sinônimo de vida. Para elas eu vou estar para sempre franzindo o senho, fazendo uma cara de triste e cansada, com o olhar pedido no horizonte, pedindo desculpas por ter de ir. Tadinha da Isabela, ela precisa de um tempo para ela. Porque é o único jeito de se conseguir o que se quer, muito infelizmente.

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– Livros não são pessoas, eles não mudam de cidade, não se filiam a algum partido abjeto, não vão presos, não te abandonam, e, acima de tudo, Cláudio, eles não morrem. Eles vão estar sempre ali. Não gostou do livro? Guarde-o, largue-o, haverá o dia dele. Ele pode ficar ali, para sempre, até o dia que você resolver lê-lo no embalo. Sabe quem vai estar sempre te esperando? Esperando o dia em que você vai finalmente se encantar por ele, Cláudio? Gógol, é. O Gógol vai sempre estar lá. Sem leituras mornas, sério. Se o texto não te cativou de primeira você pode deixá-lo para depois, tranquilamente. Existem livros o suficiente, sabendo procurar haverá sempre algo para ser lido em um arroubo, haverá sempre algo para ser lido no embalo.

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— Mas, então, um romance. Você há de concordar que o romance, o objeto estético em si, é uma abstração. O substrato físico dele é o livro. Então, vamos supor que exista um só exemplar desse livro e eu o destrua. Eu o tenho, é minha propriedade, e eu o destruo. O romance não existe mais? A destruição do livro acaba com o romance?

— Eu não sei. Mas… As símiles e metáforas têm limite. Você não é um romance, Cláudio. Você é uma pessoa, que vai morrer assim que seu corpo parar de funcionar. Você é o concreto, mundano e mortal; como todos nós.