O livro da Menina Lua

A MENINA LUA NO
OASIS ARTIFICIAL

Não está previsto no contrato
Mas ela não pode deixar que
simplesmente
aconteça

(Como se a manutenção das
Cores e formas
Não fosse trabalho suficiente)

Alguém tem de impedir
Que os visitantes
Coloquem uma Máquina do Tempo dentro da outra
Liguem o Inversor de Gravidade com as janelas abertas
Ou cuspam seus chicletes no chão

E a Menina Lua então se cansa
Quer ficar o resto do dia

Estática
Como um mergulhão secando as asas

*

ILUMINURAS

Às vezes passo os olhos pelo papel
E as letras não são nem letras:
Meras marquinhas negras, coisinhas insossas

De outras  vezes, entendo os escritos superficialmente:
Ditos ocos, que minha memória carrega, não sem razão
À espera da eventual iluminação

(Na dúvida entre você e os clássicos
Duvide de você,
Não é?)

Para minha sorte,
Nem todas dúvidas levarei até a morte
A leitura não é um ato solitário
Quando ela, com imensa ternura
Traça suas precisas iluminuras
Apontando no mundo
Cotidiano, bruto, material
Muito naturalmente
Os necessários correspondentes

Aqui: os róseos dedos da Manhã

Aqui: o verde mais verde do que a relva

*

A MENINA LUA
NA FRENTE DA CASA DAS TREVAS

As pessoas vem e vão
(Não, não falam de Michelangelo
e, mesmo se falassem,
nós não gostaríamos de escutar)
E a Menina Lua, com justiça
Se irrita:
— Essas pessoas, de onde saem
tantas pessoas?
(A crowd flo-, não, para)

É de fato arriscado
São necessárias fantasias
Indumentárias do privilégio
Para baforar impune
( — Ô, doutor delegado, me salva aí
Disse, certa vez, um guarda carros)
Saímos então desse bairro
nem lux nem burgo
para ruas mais conhecidas
(conhecidas minhas)

Minhas ruas de antes
ruas de manhãs cinzas
e fumaça branca

E a Menina Lua então
brilha calma
e acha graça
da Casa das Trevas

Casa das Trevas…

Às vezes eu queria
só repetir o dia
de ficar parado
imaginando estórias
(Estórias mesmo
A História é um…, vocês sabem)
na frente da Casa das Trevas

Até a polícia chegar
E eu ter de mostrar
o meu bloquinho
uns rabiscos
e apontar
a Casa das Trevas

E às vezes eu queria
Só levar a Menina Lua
num dia de céu cinza
para fumar
na frente

da Casa das Trevas.

*

NO CORAÇÃO DE JESUS

vizinhos malditos,
ubíqua musica de rodeio,
perseguição e gritos,
parece tiroteio,
preguiça: um elefante
contra a luz rasante,
um objeto voador
que talvez fosse um drone,
cuja lembrança, no calor,
me deixa insone,
uma coruja de origami
que sabe seu nome.

 

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3 comentários sobre “O livro da Menina Lua

  1. Cara, muito, muito bom seu “Iluminuras”. Tema metalinguístico abraçado com criatividade, porções equilibradas de uma linguagem despojada e de descrições precisas, com dicção e abordagem quase eliotiana (“Apontando no mundo/Cotidiano, bruto, material/Muito naturalmente/Os necessários correspondentes”). Arrisco a dizer que já consigo entrever um estilo nascente, que eu poderia supor “direto”, no sentido de não se imbuir de toda uma vestimenta simbólica e carregada (como os meus, talvez), mas trabalha numa proposta mais dialogal, com uma discursividade mais desenvolvida, menos sintética. E há ainda o cuidado com a musicalidade, com o ritmo, não poderia deixar de mencionar. Em suma, gostei bastante.

  2. Queria (e ainda vou) te ligar pra te parabenizar por este seu último poema, “A menina lua na frente da casa das trevas”. Nem sei por onde começar. A inserção da casa das trevas como símbolo da tensão entre a cidade e os personagens (o Eu e sua anima, a menina lua) foi muito acertada, tanto no que diz respeito ao apelo nostálgico de uma lembrança pessoal tornada universal no poema (Bandeira, Plath, tantos outros fizeram muito isso) quanto no que tange a um realismo caro a seu estilo. Aliás, as referências ao bairro Luxemburgo, principalmente na desconstrução do nome, além de aspectos da paisagem específica do bairro, são bem joycianas, como também atesta a referência a Eliot, logo no início (que me agradou particularmente, rs). Há bastante prosa nos seus versos, o que os tornam únicos, originais, e dá uma dinamicidade extraordinária. Eles equilibram de maneira exemplar o prosaísmo cotidiano e o pensamento aguçado (“indumentárias do privilégio / para baforar impune / […]”), eles sugerem muito mais do que podemos ler, como uma conversa interessante que apenas ouvimos rapidamente antes de virarmos a esquina e deixarmos de ouvir. Isso os tornam enigmáticos sem serem obscuros, líricos sem serem piegas, naturais sem serem desleixados. Algumas rimas toantes precisas destacam a melopeia cotidiana do poema. Aguardo mais poemas assim.

    Guardarei críticas para algum outro poema seu.

    P.S.: Acredito que “O livro da menina lua” é uma das ideias mais surreais que vi ultimamente em poesia.

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