PEREIRA – VII

PSICOPOMPO

 Quando moça, frequentando círculos nos quais era relativamente fácil encontrar pessoas com esse tipo de interesse, conheci um sujeito, moço também, estudante de Engenharia, que criticou com veemência minhas leituras, desenhos, canções, danças, encenações… Praticamente tudo o que eu fazia na época, a bem da verdade. Para ele, essas coisas não passavam de perda de tempo, o mero revirar de concepções gastas, antigas, atrasadas. Todos os esforços intelectuais suportados por aqueles realmente interessados em construir um mundo novo, elevado, superior, deveriam ser direcionados a avanços científicos, ou, bem… Tecnológicos. Isso porque seria, de acordo com esse menino, por meios desses trabalhados que responderíamos as grandes perguntas. Estamos sozinhos nesse universo? Existem seres sencientes, dotados de inteligência, em outros planetas? Seriam irremediavelmente estranhos ou sua condição de alienígenas não os impediria de serem nossos irmãos? Com o estudo da Física, da Matemática, da Química, das ciências exatas, chegaríamos às novas fórmulas e equações necessárias à construção das máquinas fantásticas hábeis a superar as barreiras do espaço; e, quiçá, do tempo; que nos separam dessas criaturas. Todo estudo, toda criatividade, todo o suor deveria ser nesse sentido. Imensa besteira, mas, para mim, valiosa. Foi a provocação necessária para firmar o pé, colocar-me decidida no caminho… Ora, minhas experiências já haviam me mostrado, sem sombra de dúvida, que tais seres extra, ou, como querem alguns, intraterrenos, não só existem, mas estão entre nós, de modo que não é necessário nenhum invento, nenhuma máquina extraordinária, que venha a tornar o contato fisicamente possível. As interações são parcas, insuficientes e de uma forma geral frustrantes não porque carecemos dos equipamentos necessários, eles possuem tais equipamentos, eles dominam a tecnologia, vieram cá, e cá estão. Acontece que não existe desejo por parte de tais criaturas de nos contatar com maior frequência e intensidade… Isso eu atribuo a um atraso espiritual, um atraso espiritual nosso, pelo qual nossa civilização passa… Se elevássemos nossos espíritos haveria contato, se fossemos capazes de dos desenvincilhar dos mil nadas que nos circundam e focar nas formas verdadeiras… Haveria contato… Foi o que eu pensei então, o que eu confirmei posteriormente, o que existe aqui, o que fazemos aqui, o que você está vendo agora… Então, não era, àquela época, uma questão de abandonar minhas atividades, a natureza delas, mas intensificar esse trabalho, o trabalho de pavimentar o caminho rumo a uma nova elevação… A elevação por meio da qual nos tornaremos dignos do contato, e, sobretudo, dignos do Arrebatamento, no momento final do nosso planeta. Um momento que se aproxima…

Pereira interrompeu a reprodução da gravação de voz e fitou a tela do monitor, a única fonte de luz do cômodo, onde as palavras da Mestra, recém-digitadas, tremiam negras contra o branco brilhante. A transcrição, horas e horas a fio da mulher discorrendo acerca dos preceitos da seita, arrastava-se lentamente. Desesperado, o jovem sentia fortes dores de estômago que o faziam se encurvar para frente e, às vezes, quase ganir. 

Sozinho em sua cela, perguntava-se como, exatamente, isso pudera acontecer. De que forma um rock journalist (maneira como Pereira, anglófilo, referia-se à sua profissão) — ofício já definido como pessoas que não sabem escrever entrevistando pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler — poderia descobrir-se ali, aprisionado por fanáticos? Não seria esse um risco a pairar apenas sobre profissionais em outros ramos da imprensa, situação tétrica destinada somente àqueles habituados a cobrir os domínios, de fronteiras nem sempre distinguíveis, da política, do crime e da guerra?

As respostas lhe vinham à cabeça cheias de exagerada autodepreciação. Desconsiderava o óbvio: a gritante injustiça de sua prisão, a imprevisibilidade da série de eventos que o reduziram àquele estado e a necessidade de se pensar em alguma efetiva saída. Figurava em sua imaginação como o único e grande culpado por tudo. Estava convencido de que duas, duas, posturas suas diante da vida haviam-no rendido naquele quartinho.

Primeiro, acreditava estar ali por nunca ter efetivamente feito a transição da vida adolescente para a adulta. O que era uma percepção difusa, sempre arredável, tornou-se naquelas circunstâncias uma certeza para o jornalista: a puerilidade era a causa de seus presentes males. Supunha pagar ali por sua falta de vivência.

Apesar de os mais críticos atestarem ser impossível escrever decentemente a respeito de bandas de rock sem viver em uma das cidades nas quais ela surgem (tocando ainda anônimas em estabelecimentos específicos) e sem se misturar entre o público dos grandes festivais (todos havidos nos Estado Unidos e na Europa), Pereira conduzia seu ofício quase que exclusivamente a partir de seu quarto de dormir. Desde a puberdade, passava o grosso do seu tempo conectado à internet, lendo um sem número de resenhas, das mais variadas fontes, e baixando, raramente dentro da lei, arquivos de músicas que enchiam dezenas de discos rígidos. De início, escrevia num blog, de graça, pelo puro prazer de tratar minuciosa e idiossincraticamente de seu assunto favorito. Com o seguir dos anos e o persistir dessa rotina, por meio de contatos feitos também na rede, passou a trabalhar para algumas revistas e jornais, recebendo o suficiente para arcar com suas despesas relativamente modestas. Mudara de estado (de Minas para São Paulo), abandonara a faculdade da qual já não mais gostava (de Psicologia) e passara a pagar as suas contas sem a ajuda da família, decerto, mas continuava a viver a mesmíssima vida de menino, enfurnado sozinho em seu quarto, varando madrugadas a escutar música no volume máximo em seus fones de ouvido.

Assim, nunca passara pelas ordálias das entrevistas de emprego, da marcha das horas do expediente comercial (longas quando se está entediado; curtíssimas quando, angustiado, um prazo fatal se aproxima), da difícil convivência com colegas e chefes, do tempo gasto no trânsito congestionado, do banal caos da cidade. Levara, até ali, uma lida leve.

Lida que, pensava então Pereira, privara-lhe das experiências necessárias à formação do que ele julgava ser uma pessoa de verdade, possibilitando, em sua concepção, a atual posição: patética.

Segundo, entendia ainda o moço que aquele sofrimento poderia ter sido evitado caso — além de ser um sujeito apto a viver sem grandes atribulações apenas dentro da bolha que ele próprio criara — não fosse ele também um esnobe, sempre a se julgar superior ao seu semelhante simplesmente por ouvir determinadas bandas obscuras. Antes, já consciente de tal sentimento, tentava lhe dar outra interpretação, dizendo para si mesmo que seu gosto pelo desconhecido do vulgo advinha da faculdade, rara, de fruir de uma canção sem qualquer expectativa, sem antes ter escutado sequer um acorde, sem ter lido ou ouvido qualquer comentário a respeito, por mais vago que fosse. Assim, de certa forma platônico (sem nunca ter lido Platão), dizia para si mesmo, poderia considerar diretamente o objeto contemplado, sem o intermédio ou interferência das experiências alheias. Essa explicação não se sustentava mais: Pereira reconhecia agora que era mesmo um sentimento mesquinho, uma vontade puramente egoísta de se enxergar destacado da massa, solitário e especial.

A primeira suposição estava equivocada. Mesmo fosse Pereira um verdadeiro herói da classe trabalhadora, não teria melhores chances diante das forças do domo. Outros mais vividos — lidos, conversados e trabalhados — ainda assim correriam sérios riscos caso, desavisados, caíssem nas garras da Mestra. A segunda conjectura, porém, era acertada. Ele estava ali por conta de uma banda obscura. Banda que, de fato, carecia de qualquer qualidade distintiva além de nunca ter se tornado conhecida (motivo pelo qual, diga-se de passagem, com rara justiça, de forma tautológica, a banda nunca se tornou conhecida).

Atrasada, Olho Pineal se apresentou ao mundo como uma banda de rock psicodélico com letras cheias de referências ao ocultismo no ano de 1977, quando a psicodelia, já disseminada por todo o globo, sentia então o baque das primeiras investidas do punk e testemunhava o desenvolver das suas crias: o rock progressivo, o heavy metal e o hard rock. As ciências ocultas, por sua vez, já haviam mais do que iniciado a música brasileira em seus dogmas e rituais: Raul Seixas já conhecera, por meio do místico Marcelo Motta, os ensinamentos de Aleister Crowley, tornando-se um prosélito explícito da Thelema; Os Mutantes já haviam saudado Lúcifer (da floresta); Tim Maia já havia lido os livros da Cultura Racional e Jorge Ben já anunciara a chegada dos alquimistas, formulara a conhecida pergunta lovecraftiana de Erich von Däniken e cantara os enunciados herméticos da Tabula Smaragdina.

Em seu primeiro disco, intitulado QuimerasOlho Pineal, em termos de sonoridade, sem nada da nossa cor local, parecia uma cópia grosseira de Jefferson Airplane, com letras num português truncado, tratando de feitiçaria, entidades mitológicas e cerimonias secretas. Tetragrammaton, lançando dois anos depois, em 1979, repetia a mesma sonoridade, dessa vez com referências ao hermetismo, ao tarô e à cabala. Nas toscas gravações, cheias de chiado, a banda se desencontrava com frequência e a vocalista, apesar de ter uma voz bela, cantava com uma prosódia estranha, forçada, desafinando aqui e ali. Fizeram pouquíssimas apresentações, sem tocar em qualquer lugar de renome e sem abrir para ninguém em evidência.

Pereira conheceu o grupo alguns anos antes quando, numa tarde letárgica de fim de ano, dissipada em andanças e conversas ditadas pela livre associação, encontrou os dois discos, LPs com as capas carcomidas pelo tempo, na bacia das almas, em um sebo sujo no centro de Belo Horizonte, no qual os produtos à venda eram todos expostos com igualitário descaso.

*

— Nossa, ó se não é a pior capa de disco já feita! — disse então o moço, dirigindo-se ao amigo que o acompanhavam naquele passeio à toa, chamando a atenção para o desenho que ilustrava Quimeras: um corpo de leão com três cabeças humanas brotando de seu pescoço e uma quarta surgindo da ponta de seu monstruoso rabo coberto de escamas. O verso indicava que a besta era encabeçada por Cármen Valente (vocal e guitarra), Luciano Rizla (baixo) e Nelsinho Cientista (teclado). A Carlos Volta, o baterista da banda, coube a infelicidade de ser representado com sua cabeça saindo da serpentil cauda da criatura.

— Cara, de quando é isso? — murmurou Pereira na ocasião, folheando o encarte — Ahn, Pineal Discos… Olha só, parece que eles mesmos gravaram. Uma parada absolutamente independente.

O interlocutor de Pereira permaneceu calado. O jornalista separou o álbum dos demais expostos, colocando por cima dos discos enfileirados, e começou a analisar a capa de Tetragrammaton, na qual um pentagrama era apresentado em meio de letras dos alfabetos latino e hebraico, números e símbolos herméticos.

— Bicho… Isso deve ser um treco proglo-fi, safado… — disse baixinho, olhando ao seu redor, buscando por um toca-discos capaz de sanar sua curiosidade. Não encontrou. Levou então os dois discos, sem nenhum (grande) arranhão, por oito reais.

Ficaram esquecidos na sala do apartamento que Pereira dividia com amigos de faculdade até o dia da faxina semanal das áreas comuns (que acontecia, mais ou menos, a cada dois meses). Ao final da limpeza, estavam os dois álbuns em uma pilha em cima da mesinha onde os moços tomavam café e às vezes jantavam, junto a farta correspondência negligenciada, jornais e revistas velhos e amassados, folhetos de todos os tipos (anunciando de pizza a candidato a deputado federal), bilhetinhos apócrifos e frases, supostamente espirituosas, rabiscadas por bêbados em tiras de papel; coisas a serem julgadas sob o quesito: isso é lixo?

A luz do final da tarde refletida nos tacos de madeira a pouco encerados, o perfume artificial dos produtos de limpeza e a ordem, atípica, imposta à sala fizeram com que Pereira se sentisse um estranho em sua própria casa. Aproveitando essa experiência, buscou o disco Quimeras em cima da mesinha, retirou-o da capa e colocou para tocar, rolando, cerimoniosamente, um baseado longo e gordo em seguida.

A música o afetou antes do fumo.

O excesso de ruído o agradou desde aquela primeira audição. Anacronicamente (ainda que consciente disso), por acostumado com uma grande quantidade de bandas que de fato optaram por gravações precárias, Pereira tomou o defeito por efeito: chiados, estalos, distorções e os sons escutados ao fundo evocavam em sua mente uma atmosfera fantasmagórica e amigável.

O fato de os membros da banda estarem tecnicamente aquém de suas próprias pretensões também não o incomodava. Escrevia a respeito de música em parte por ser um músico frustrado, incapaz de cantar qualquer coisa ou tocar a mais boba canção de três acordes; razão pela qual nutria imensa simpatia por artistas de execução grosseira. Em várias de suas resenhas — textos cuja maior qualidade era a ausência do termo pegada, um vício muito comum no ramo — Pereira costumava repetir, de diferentes formas, criativas até, o lugar comum (um ranço do Romantismo, quiçá) que associa a crueza de estilo à espontaneidade e à autenticidade do artista.

A ortoépia às vezes estranha de Cármen Valente, associada às letras pedantescas (que por semanas depois daquela primeira exposição ainda enviavam Pereira ao dicionário) não foram recebidas de forma diferente. Além de soar estranha (e ele era um desses que aprovam o estranho pelo estranho), a vocalista, aos ouvidos do rapaz, tinha algo de aristocrática e estrangeira, afetação que foi como o último passe da mágica que o ascendeu a um estado de espírito especial que — de tão feliz, tão isolado das experiências cotidianas — era quase, quase, como um outro estado de consciência.

Quando os 37 minutos e 23 segundos de Quimeras acabaram, Pereira, que enquanto escutava o álbum tinha coado uma garrafa de café, bebido metade, fumado um cigarro de palha e dois terços de um segundo baseado, colocou Tetragrammaton para rodar.

Sua metade que desejava o prolongamento daquele prazer, oposta à que supunha um segundo acerto da turma do Olho Pineal algo muito difícil (afinal, Quimeras era tão singular), saiu vitoriosa. Tetragrammaton era apenas ligeiramente mais sombrio, sem maiores diferenças.

Ainda escutando o disco, tratou de buscar o computador em seu quarto. Para o espanto de Pereira, a internet não dava notícia da banda, discos e componentes. De acordo com a visão de mundo do rapaz, era quase como se tudo aquilo não existisse.

Quando o segundo disco acabou, Pereira quis ficar em silêncio. Tanto silêncio que colocou os tampões de ouvido que comprou quando, em vão, tentou por um tempo se preparar para concursos públicos cujos editais não exigiam graduação no Ensino Superior. De noite, assim que seus companheiros de apartamento chegaram, rapida e discretamente, tratou de recolher os discos e guardá-los em seu quarto, junto à sua pequena e arbitrária coleção de vinis, sentindo-se imediatamente culpado por ter ignorado o que agora considerava preciosidades, deixando-as ao deus-dará na terra de ninguém que era aquela saleta.

No dia seguinte, assim que seus amigos saíram para o trabalho, converteu os álbuns para um formato digital (FLAC) de forma que pudesse escutá-los em qualquer lugar sem ter de manusear os discos, aquele frágil e raro substrato físico. Cármen Valente e sua banda passaram a acompanhá-lo em várias atividades solitárias, até que Pereira se familiarizou com cada detalhe dos dois álbuns.

Egoísta à sua maneira, manteve Olho Pineal em segredo por quase três anos. Quebrou o silêncio apenas quando, já morando em São Paulo, considerou-se forçado pelas circunstâncias. Mudando maquinalmente os canais da televisão, ouviu a introdução de Hecáte, a canção que abria Quimeras, na vinheta de um programa no qual um modelo fingia passar pelas felicidades e agruras de viajar sozinho, como se não estivesse o tempo todo acompanhado pela equipe de filmagem. Se fossem apenas os acordes, apenas o riff do início, Pereira não se importaria, a simplicidade desse tipo de música implica em um número limitado de combinações, resultando em vários fragmentos semelhantes, se não idênticos: poderia ser qualquer outra coisa. Não era algo parecido, porém, era Olho Pineal, no registro que Pereira conhecia tão bem e tinha como algo para poucos (dos seus conhecidos, só ele), tocando na T.V., esse grande agente da vulgarização.

O moço ficou por minutos assistindo ao modelo emular ares cosmopolitas errando calculadamente por uma cidade europeia. Sentia que o seu segredo estava prestes a ser perdido: em breve todos falariam do seu achado e seu feito não seria mais nada. Aquilo era um sinal. Quando o quadro que assistia acabou, antes de entrarem os comerciais, a vinheta se repetiu. Um sinal, decerto. Pereira então pensou: vai banalizar, garantido, que eu seja então o agente da banalização. Como não tinha nenhum compromisso no dia, pôs-se de imediato a escrever uma resenha — impressionista, um tanto vaga, como eram todas as suas resenhas — pata ser publicada em seu blog (para o qual nunca parou de escrever, mesmo depois de começar a fazê-lo profissionalmente em outros meios). No meio do texto considerou ligar para Paulinho — seu melhor amigo, apto a identificar de pronto o modelo de qualquer instrumento, pedal ou amplificador — mostrar-lhe os discos e pedir ajuda na importantíssima apresentação da banda, mas não, pensou logo em seguida, isso é muito, muito, pessoal, é o trabalho de um só.

Sua redação foi a seguinte:

Olho Pineal

Quimeras, Pineal Discos, 1977 – •••••

Tetragrammaton, Pineal Discos, 1979 – •••••

O cânone da música pop é formado por um processo que tem muito pouco a ver com qualidade. Vários fatores impróprios concorrem em maior peso. Jabá, publicidade, sorte, aparência dos performers por si só, uso das músicas em filmes, programas de TV e comerciais, o generalizado mal gosto dos consumidores… É uma lista longa.

Provas disso não faltam. A que apresento aqui é o trabalho da banda Olho Pineal. Seus dois discos, Quimeras (1977) e Tetragrammaton (1979), são chaves para um universo sônico paralelo. Mesmo assim, nada é dito a respeito da banda. Absolutamente nada. Procure pelo nome do grupo: aprenderá algo relacionado ao olho parietal dos lagartos e lampreias, encontrará textos, pros lados da ciência e pros lados do misticismo, tratando da glândula pineal e, se resolver ir um pouco mais fundo, talvez lerá um ensaio (um tanto quanto perturbador) de Georges Battaille. Encontrará todas essas coisas, mas nada que indique que esses incríveis psiconautas brasileiros passaram pela Terra. É uma riqueza restrita a umas pouquíssimas coleções privadas, que até os mais esforçados arqueólogos dedicados aos vinis sofrem horrores para encontrar.

Nada poderia estar mais claro em termos de referências: são estudiosos atentos daquilo que se convencionou chamar de San Francisco Sound. Trocando o inglês pelo português, emulam com criatividade essa variedade do rock psicodélico americano cujos expoentes foram o Jefferson Airplane, o Grateful Dead e a sempre saudosa Sra. Janis Joplin.

Tocam de maneira solta e corajosa, evocando uma sensação de liberdade que casa perfeitamente com o clima sonhador das canções. Tudo é devaneio. As músicas soam como se não existisse obrigação nenhuma. Nada a ser seguido. É um modo de lidar com a técnica que abre a porta pela qual todos os deslizes entram como revelações. Há uma tessitura orgânica, que aceita o ruído como elemento essencial, uma unidade que supera a banda. Olho Pineal não é formada por voz, guitarra, baixo, teclado (às vezes piano) e bateria. São esses instrumentos e o barulho dos carros na rua, piados de pássaros, latidos, pessoas conversando em um cômodo próximo, passos, risos abafados, mil barulhinhos estranhos. E tudo se encaixa. Tudo, de uma forma largada, natural, está em seu devido lugar.

Hecáte, a faixa que abre Quimeras, começa com um riff de guitarra simples e sujo, copiado pelo baixo que entra segundos depois. A bateria, com uma batida de caixa magnética, quase uma marcha militar, chega, com o teclado, depois da curta introdução, dando peso. E aí entra o vocal, dramático desde o primeiro verso:

Na escura madrugada,
Diante do invisível,
A cainçalha toda late
Anunciando a sagrada,
Tríplice e invencível,
Divina sitônia, Hecáte:

É possível escutar ao fundo uma porta batendo e um grito indecifrável. A guitarra abandona o baixo e segue mais violenta e ligeiramente mais trabalhada, enquanto Cármen Valente canta, como se realmente diante da deusa grega:

Traz em mãos o lume,
Serpentes e ervas,
Das chaves a chave,
E aço de afiado gume.
É o brandão das trevas,
Que as trilhas abre.

Por um instante toda banda para, apenas para retornar mais firme e empolgada, acompanhando Valente que então não propriamente canta, mas entoa o refrão, como se em transe:

Encontrarei na encruzilhada
A Deusa da maior Arte
Prostrar-me-ei ajoelhada
Aos pés de Salvadora Hecáte

Em Anti-Orfeu, a mesma guitarra rasgada agora parece chorar, acompanhando um vocal telefônico, cujo efeito hipnótico é reforçado por um teclado monótono. Ao fundo, no meio da música, um carro dá partida e segue para fora da canção, soando quase proposital diante da letra da música, que é breve e dolorosa:

Não quedes à margem,
Como se moribundo.
Nem prepares viagem
Ao escuro submundo.

Foi assim, foi isso.
Para o n’água escrito
Não há nada prescrito.

Foi assim, é isso.
Natural é nosso oaristo
Para sempre no aoristo.

O tema do amor conflituoso retorna, também associado à mitologia grega em Medeia, quando fica claro que Valente pode ser mágica e misteriosa, mas nunca frágil. Como sua guitarra estrepitosa e alucinada, ela é uma força a ser temida. Sons de talheres e louça evocam a vida em família e Panis et Circenses enquanto Valente canta:

Ó, não me enganes não,
Não te chamas Jasão,
Mas não fazes ideia,
Se me vens com traição
E fere-me o coração,
Descubro-me deia.

E rápida, num arroubo,
Armo logo meu logro,
O pior tipo de jogo:
Deixo-te triste e louco
E ainda fujo em carro de fogo

Um improvável solo de bateria antecede o refrão ameaçador:

Ao infiel, o fel; ao falso amigo, castigo
Ai, ai! Que caia o céu de quem errar comigo

E esse é tom que se mantém por toda a música:

Nem virgem e nem santa,
Elisabetana e suicida,
Como infeliz Ofélia.
Quando a ira minha se levanta,
A briosa cabeça erguida
Outro papel espelha

Se me trazes injúria,
Percebes minha sabedoria
Toda feita de fúria
Quando ataco em euforia
Na minha destruidora estreia,
Feiticeira e cruel, vestida de Medeia

A verdade é que são nessas canções nas quais Valente apresenta seu eu lírico cheio de sex appeal macabro que Quimeras encontra sua força. Assim, Homem Suíno, uma faixa brincalhona (na qual os homens da banda tomam os vocais, harmonizando suas vozes em uma só), funciona como a abertura de um breve intervalo, seguida da balada folk Esfinge e do blues viajado, cheio de termos do que parece ser grego antigo, de Katabasis e Kteís. O intervalo tem ainda a instrumental Paracusia, uma faixa que alguém mais dado a rótulos poderia chamar de proto-post-rock, e a enigmática Nimitta, na qual o baixo de Luciano Rizla, tributário de Jack Cassady, soa caracteristicamente destacado. São canções eficazes, deliciosas, valorosas por si só, que funcionam perfeitamente como um descanso até que Valente volte a sua melhor forma, diabólica, agressiva, finalizando o disco com Circe. A progressão de acordes de guitarra é explosiva, a honestidade suja da técnica de Valente faz com que a faixa soe um pouco como uma canção de stoner rock avant la lettre. A letra é a seguinte:

Marinheiro, lasso e trabalhado,
Não hesites, junte-se a mim,
Venha deitar ao meu lado,
Em meio a comes e bebes sem fim,
Divãs para te largares sossegado,
Dóceis lobos e leões no jardim.

Esqueças guerras, pátria e família,
Alheie-se a todo e qualquer problema,
Desdenhes de proa, popa, velas e quilha,
Está tudo já resolvido, nada mais tema:
Perca-se em minha obscura ilha,
Onde reino só, senhora suprema.

Por que errar pelos mares de novo?
Se acertas encerrando aqui a história.
Por que com suor e sangue chegar à glória?
Se aqui tens infinito e gratuito gozo?
Quede com feiticeira da mais fina estirpe,
Sucumba a mim, filha do Sol, poderosa Circe.

E assim acaba o álbum, em grande estilo , colocando a banda naquela conhecida e dificílima posição de ter de superar o seu disco de estreia.

Dois anos depois, porém, dois anos sem qualquer reconhecimento ou divulgação, eles voltam com Tetragrammaton, mais sombrios e lentos, com gravações ligeiramente melhores, mas em nada inferiores. Valente não mais desfila suas personae diante de nós: já sagrada como figura mística, ela agora leciona. O álbum se inicia com Prima materia, uma jam session longuíssima que se inicia com uma pluralidade de sons amorfos que vão sutilmente se organizando até formar uma toada de blues psicodélico. A faixa parece ser puramente instrumental até que há uma súbita virada e, acompanhando um sintetizador que emula um órgão, dando um inquestionável e destoante ar gospel a tudo, Valente surge, primeiro num canto límpido e depois numa complexa superposição de distorções, repetindo os versos:

Do luxo à miséria
Tudo, tudo, é mera distorção
(Mera distorção)
Da prima materia

A faixa vai findando com um fade out do vocal e de todos os instrumentos, exceto pelo teclado debochadamente litúrgico que permanece até a faixa seguinte, Do uno ao quaternário, na qual Valente fica entre a recitação e o cantar, marcando os intervalos entre as estrofes com um riff grave que vai crescendo progressivamente mais rebuscado, até estourar numa coda que remete à jam inicial de Prima materia. A letra é de uma abstração quase incompreensível:

No princípio,

o ente, ponto uno,

Por sozinho, achou oportuno
Espelhar-se, alinhando-se no binário

E, concebida no dual, a fertilidade,
Invenção da síntese, do plano, da natalidade,
Sagrou-se vencedora na concepção da trindade

O uno, então, somado a si mesmo triplicado,
Gerou pontos, linhas e planos, para todos os lados
E assim, pelo quaternário, foram todos os mundos criados
Tendo forte, em suas bases, o poder do símbolo do quadrado

Assim como a primeira faixa que, graças ao teclado de Nelsinho Cientista, emenda-se à segunda, a segunda emenda-se na terceira, a canção De plano, formando a suíte que abre Tetragrammaton. Aqui as vozes de Luciano Rizla e de Nelsinho se harmonizam à de Valente, que pela primeira vez aparece se valendo da técnica da slide guitar. Os três, com leveza, ensinam então o básico da viagem astral:

O bom e o mal, o bonito e feio,
Pensamentos do mundo inteiro,
Tudo deságua no plano astral.

Em poucos lugares
Percebes tais ares,
O existir todo espelhado
Num desfile plural,
Caleidoscópio bagunçado,
De luz transcendental

Quando chega o refrão ficam então evidente as influências, com as vozes dos três remetendo diretamente à Grateful Dead Crosby, Stills and Nash:

Vamos, logo, de plano
Para outro astral
Outro astral (x2)

Há alguma coisa do tom ameaçador de Quimeras na estrofe seguinte, mas sem um personagem feminino, como antes. Digno de temor aqui é esse o próprio plano:

Não deixe amigo, que se parta
Esse, sutil, fio fino de prata
Não se percas, cá não é o céu
Não é lugar para errar ao léu
A qualquer instante, do divino
Descemos para o infernal
Cuidado, ó, místico peregrino,
Quando viajas por esse agente natural

As lições esotéricas continuam em Do Tolo ao Pelotiqueiro, uma balada, redondinha, diga-se de passagem, toda calcada na simbologia do Tarô, e n’A Grande Obra, na qual, assim como Prima materia, retorna-se à alquimia. Em Lilin a banda experimenta um arranjo acústico, com Valente tocando gaita. Paraguay, um alívio cômico da mesma natureza de Homem Suíno, é praticamente uma versão de Mexico do Jefferson Airplane, com uma letra que lamenta uma batida policial que colocou fora de circulação quantidades absurdas de erva. Curiosamente, é nessa canção que temos, tirando a língua portuguesa, o único elemento verdadeiramente brasileiro de Olho Pineal: uma cuíca, de som abafado e ligeiramente distorcido, segue frenética por toda a faixa. Já em A Psilocibina oxida azul o que se destaca é o mellotron de Nelsinho Cientista, colorido, de uma alegria que de outro mundo.

O disco termina com a marcante Abraxas. Acompanhada somente pelos sons de violões, um piano e uma flauta, Valente canta, misteriosa:

De regresso de Jerusalém
Vieram a mim os mortos
Almas soltas de rotos corpos
Julgando o além muito aquém

Sedentos por instrução
Vieram a mim os mortos
Todos frustrações e juízos tortos
Vieram para meu sermão

A bateria acelera o ritmo, as estrofes de antes, agora abafadas e cheia de eco, são escutadas ao fundo. O vocal prossegue:

Revelei-lhes o deus escondido
Que todos os céus habita
A divindade hermafrodita
Cujo poder é desmedido

Revelei-lhes o sol e o sal
Agente que tudo leva e traz
Contra quem resistir é ineficaz
O deus do bem e do mau

Há então vários trechos de gravações de peças de música clássica superpostos de maneira caótica, acrescidos das quatro estrofes anteriores, também misturadas, incompreensíveis. O efeito parece um pouco com aquele interlúdio que separa a parte de John Lennon da parte de Paul McCartney em A Day in the Life ou com a cacofonia de Revolution 9, também dos Beatles. Um longo uivo encerra a algazarra e quando ele morre surge a banda na sua configuração padrão: baixo, guitarra, bateria e teclado, repetindo o tema da suíte que abre o disco, com Valente literalmente esgoelando:

E como névoa
Os mortos ascenderam

E como névoa
Os mortos ascenderam

Tu também!
Arrastando-se pelo mundo
Na rotina absorto
É um corpo morto!

Tu também!
Abandone tudo
O que pensas e achas
E abra-te à obra de Abraxas!

E assim acaba a experiência proporcionada por Tetragrammaton o segundo e último disco da Olho Pineal. Depois disso a banda desaparece, quase que magicamente, sem deixar nenhum rastro.

Qualidade, como eu dizia, não é garantia de sucesso.

Fica aqui esse convite aos exploradores: em suas buscas, lembrem-se de Olho Pineal! Seus dois discos são um tesouro a ser perseguido. Faço também um apelo: quem pode fornecer mais dados? Qualquer informação é bem-vinda.

O texto recebeu três comentários no dia que foi publicado. FabioVedder89, um já conhecido frequentador do blog de Pereira, perguntou, um tanto irritado, qual seria o motivo para o próprio jornalista não colocar o álbum online, questionamento que foi respondido por Pereira com uma hipócrita defesa dos direitos autorais. O supracitado Paulinho reclamou: Não põe para tocar nem entre os amigos?, e um anônimo duvidou da existência da coisa toda, considerando a resenha saída diretamente da imaginação do jornalista. Depois dessas breves interações, silêncio até meses depois, quando, assinando Rizla, um leitor fez o seguinte comentário:

Não é uma cuíca, cara. É uma botija, uma garrafa de barro, com um microfone dentro. Uma eletric jug, muito parecida com a dos caras dos 13th Floor Elevators. Ficou curioso? Olha aí seu e-mail.

Assim que o leu, Pereira, imediatamente envergonhado pelo aparente deslize e impressionado com a alcunha do comentador, abriu sua caixa de e-mails, onde, em meio ao spam e notificações de vários sites (que ele ignorava metodicamente), esperava-lhe uma curta mensagem de um tal Luciano Angoulême:

E aí, cara?

Não conhecia seu blog. Curti muito o seu trabalho. Fiquei muito feliz quando achei os seus escritos, jurava que não ia encontrar nenhuma palavra tratando da Olho Pineal em lugar nenhum.

A sua bio confere? Você está mesmo aqui em São Paulo? Não quer marcar um café? Acho que seria legal. Eu tenho um bocado de informação do seu interesse.

Abraço, Luciano

Na assinatura do e-mail, logo abaixo do nome, estava escrito arquiteto, seguido por um endereço em Pinheiros e um número de telefone fixo. Pereira imediatamente buscou pelo relógio no canto inferior esquerdo de seu monitor e então pelo seu telefone celular. Cinco horas, ainda era possível encontrar o sujeito em seu escritório. Ligou naquele instante, não sem antes pegar lápis e papel e começar a rabiscar a esmo.

— Angoulême Arquitetura, boa tarde — disse uma voz masculina em um tom ligeiramente interrogativo.

— Boa tarde, tudo certo? Meu nome é Daniel Pereira. E… Eu queria falar com o senhor Luciano… — disse o moço desenhando um rosto, muito canhestro, um rabisco oval com uns tracinhos servindo de boca e nariz, com um terceiro olho saltado no alto da testa.

— Daniel de Pereira de onde?

— Ahn, do Noise é Nóis… — ele disse, mencionando nem um dos jornais nem uma das revistas para os quais trabalhava, mas o seu blog, ao mesmo tempo que fazia círculos concêntricos emanarem do terceiro olho da face desenhada às pressas.

O atendente pediu um minuto, Pereira ficou escutando Bach desfigurado pela transposição para MIDI, ampliando o propagar das ondas mentais da cabeça flutuante rabiscada, até que Luciano, antes Rizla, agora Angoulême, atendesse dizendo:

— Fala, Daniel! Que prazer falar com você, cara! — a voz era clara e grave.

— Ô, Luciano, o prazer é meu… Então, Luciano… O senhor…

— Pode chamar de você, Daniel, sem essa de senhor, cara…

— Sim, então…. Você, é claro, você é o Luciano Rizla, né? O baixista da Olho Pineal.

— Eu fui, meu caro, hahaha, eu fui…

Pereira sorriu sozinho em seu quarto, desenhando um corpinho de palitinhos, desproporcionalmente pequeno, para a cabeça flutuante. Escreveu o nome de Luciano abaixo da figura.

— Legal. É… Então, eu vou aceitar seu convite, Luciano. Ele está de pé? Eu quero escutar… Eu quero escutar tudo o que você quiser falar sobre a banda, os discos, esse rô- Essa fase toda da sua vida… Quero mesmo.

— Com o maior prazer, com o maior prazer, cara! Hoje está difícil, estou fechando um projeto aqui, mas amanhã é tranquilo, tranquilo. Como você está sua agenda? Ahn, como está a sua agenda para amanhã de tarde? Tipo umas quatro?

Pereira, que tinha poucos trabalhos para entregar naquela semana e, portanto, estava com tempo, confirmou o compromisso para o dia seguinte. Transcreveu o endereço de Luciano para o pedaço de papel onde havia feito o desenho tosco e escreveu 16h embaixo, com letras grandes. Passou o finalzinho daquela tarde e da noite escutando os dois discos e elaborando uma lista de perguntas. O trabalho começou sério, pé no chão, mas de madrugada, um pouco antes de ir dormir, o jornalista já fantasiava com o retorno de Olho Pineal à ativa, agora experimentando o sucesso, graças aos trabalhos dele, recém-transformado em um salvador de talentos injustamente negligenciados.

*

No dia seguinte, preparou sua bolsa à tira colo com cuidado, garantindo a presença dos itens indispensáveis: perguntas escritas em cartões pautados e numerados, um pequeno bloco de anotações, dois lápis, duas canetas, duas borrachas e um pequeno gravador, com fitas e pilhas extras. Vestiu-se com um tênis de lona, vermelho e surrado, jeans azuis novos e uma camisa de botão amarela que combinava muito bem com sua pele escura. A vasta cabeleireira castanha, despenteada, e o cavanhaque penugento, após uma breve olhada no espelho, permaneceram como estavam.

Pereira saiu do apartamento que dividia com um amigo diagramador e um conhecido programador, na Rua Augusta, não muito distante da Avenida Paulista, uma hora antes do horário marcado para a entrevista com Luciano. Foi caminhando despreocupadamente até o escritório daquele foi o baixista da Olho Pineal. Fazia sol e ventava. Ele se sentiu leve, como se fosse de novo criança e fosse o primeiro dia de férias ou a manhã da véspera de Natal. Sua visão, ao contrário da do deprimido, que escolhe e se demora sobre o que há de pior ao seu redor, inconscientemente, esquiava-se de tudo que a cidade tem de feio e absurdo: Pereira seguiu, quarteirão depois de quarteirão, impelido por recortes de céu, saltitantes criancinhas sapecas, casais de dedos entrelaçados em suas mãos dadas, passantes que, por motivos a ele desconhecidos, sorriam e uma série de vira-latas simpáticos.

Chegando ao escritório de Luciano, instalado numa casa alterada para atender as necessidades do arquiteto e sua pequena equipe, Pereira, que foi atendido por um jovem de poucas palavras, vestido com justas roupas negras e exibindo relógios nos dois pulsos, ficou impressionado com a imensa quantidade de superfícies lisas, brancas, completamente vazias por todos os lados, além do tanto de vidro ao seu redor. Tudo arrumado demais, claro demais, o que lhe deixou ligeiramente sem lugar.

Assim que se sentou, antes que pudesse começar a folhear a grossa revista de capa brilhante que acabara de pegar na mesinha de centro, Luciano entrou na recepção a passos largos, oferecendo-lhe a mão direita com um amplo sorriso. Alto, de ombros largos e braços fortes, cabelo castanho levemente grisalho e pele bronzeada, ele lembrava a Pereira um surfista experiente. A rapidez de seus olhos cinzentos e sua face perfeitamente barbeada lhe davam um ar jovial reafirmado pela informalidade das roupas: uma camiseta branca que parecia passada naquele instante — a camiseta branca mais digna que Pereira já viu—, calças verdes-esmeralda e tênis de camurça azul. Pereira conseguiu com facilidade imaginá-lo, da forma como se apresentava ali, ainda tocando baixo em uma banda.

— Vamos entrando, cara…— ele disse enquanto atravessava a sala posterior à recepção, na qual seis funcionários trabalhavam diante de seus Macs de monitores enormes. O jornalista seguiu seu anfitrião acanhadamente, acenando com a mão e fazendo meneios com a cabeça para aqueles que ergueram a vista em sua direção. Luciano, uma vez em sua sala, um recinto ainda mais asséptico do que a recepção, com paredes decoradas com projetos de prédios fabulosos (nunca construídos), tratou de preparar um café expresso numa máquina instalada dentro de um armário embutido imperceptível até que sua porta fosse aberta.

— Cara, você aceita um café? Normalmente eu te chamaria para uma cerveja depois do expediente, mas… Eu estou parando com a cerveja… E o expediente hoje anda meio parado — disse o agora arquiteto.

Pereira respondeu que sim automaticamente. Luciano serviu-o, sem oferecer açúcar ou adoçante, e em seguida preparou uma xícara para sim mesmo. Sentaram-se de frente um para o outro. Pereira, sorrindo para Luciano, colocou sua bolsa sobre os joelhos, da qual tirou o gravador, suas notas, um bloco de anotação e uma caneta. Com seus instrumentos de trabalhado timidamente próximos de si, sobre a bolsa apoiada em seus joelhos (e não colocados na mesa do entrevistado), ele pegou o gravador e, aproximando o dedão do botão vermelho, como se pronto a começar a registrar a qualquer momento, ensaiou dizer — Mas… Então, vamos lá? —, sendo, entretanto, antecedido por Luciano:

— Deixa eu te contar como eu te achei, e aí eu quero que você me conte como você achou a banda. Pode ser? — disse o músico aposentado, erguendo as mãos espalmadas energicamente, sem realmente deixar que Pereira tivesse tempo para dizer qualquer coisa — Beleza, cara. Pô, a internet, né? É… Eu… Eu contratei um serviço pra cuidar da imagem online do escritório, saca? Tipo, como aparece, de acordo com o que você busca. Saca?

— …— Pereira fez que sim com a cabeça e ligou o gravador.

— Daí, no início, para me mostrar que é um serviço realmente importante, eles me mostraram o que aparece quando você busca por Luciano Angoulême. Que é o meu pseudônimo de agora. Mostraram também o que aparece quando você busca Luciano Ferreira Seda, que é meu nome mesmo, como tá no RG, saca? E aí eu fui vendo e tal. O negócio deles é fazer todas essas buscas apontarem para o escritório… E fazer escritório aparecer como a coisa mais profissional e confiável possível. O que é verdade, cara. Daí, depois, em casa, eu fui revendo o que eles tinham me mostrado, só que com mais calma… Lá pelas tantas, já que não custa absolutamente nada mesmo, eu fui olhar o que aparece quando você busca por Luciano Rizla. E, cara, eu fiquei impressionado, completamente impressionado… Porque, você sabe, o que eu encontrei foi a sua resenha, no seu blog.

— …— Pereira sorriu, começando a se relaxar na presença de Luciano. Respondeu mentalmente — Legal, cara, que legal —, mas, efetivamente, nada disse.

— Fiquei impressionado com você, um cara que vive disso, né? Isso é o seu trabalho, né?

Pereira balançou o tronco para frente e acenou com veemência com a cabeça:

— Sim, sim… Tem um tempo que eu trabalho com isso.

— Pois é, um cara que trabalha com isso, tratando de nós como uma banda mesmo, analisando o que fizemos do mesmo jeito que escreve tratando de todas essas figuras famosas da música…— Luciano balançou as mãos expressivamente e girou os olhos para cima, como se mirando os céus — Como se nosso trabalho fosse uma coisa, ahn… Pública? Toda essa história, para mim, sempre foi uma coisa tremendamente íntima, era só sobre eu, Cármen, Nelsinho e Carlos, sabe?

— Entendo…

— Era uma coisa mais nossa. Tinha os amigos todos, claro, que iam aos nossos shows e compraram, ahn, compraram não, a maior parte ganhou, os nossos discos. Mas era isso, para mim sempre foi isso. O que sobrou foi isso, a nossa convivência, naquela época, a amizade que a gente tinha lá, naquela época… Daí eu fico muito encantado com você nos dando esse tratamento. Cara, fiquei feliz demais.

— Que bom…— disse Pereira, ainda mantendo o mesmo sorriso, segurando os cartões sobre os joelhos com as duas mãos. Luciano ficou um pouco olhando para o nada e então o perguntou:

— Mas, e aí, sua vez, como você nos achou?

— Ah, é… — Pereira ergueu as sobrancelhas e abriu bem os olhos — Então… Ahn, eu vou muito a sebos e… Lojas de discos usados e… Sempre, eu sempre procuro coisas desconhecidas. Tento fugir do óbvio… E aí, um dia, com o Mocó… O Mocó é um amigo meu, de Belo Horizonte… Ele não tem nada a ver com a história… Um dia nós achamos, ahn… Eu achei os dois discos da Olho Pineal num sebo do Maletta, o Maletta é um prédio, meio decrépito, no Centro de BH… E… Eu, eu não tinha nem ouvido falar de vocês… Quando percebi que eram gravações independentes fiquei muito curioso, quis levar para casa… Pô, parecia um treco, e… E depois eu vi que era mesmo… Parecia um treco mais underground do que as coisas da Barato e afins, da Cogumelo…E, pô, escutando, achei um trabalho maravilhoso, fantástico mesmo… E… E depois de um tempo quis falar a respeito… O que foi ótimo… Porque agora estamos aqui, né?

— Pô, que legal, cara. Eu nunca esbarrei com os nossos discos em lojas… Cê sabe que cada disco não teve mais do que duzentas cópias?

— Não… — Pereira disse sem abrir direito a boca, preparando-se para dizer —Então…— e aí começar com sua bateria de interrogações. Luciano foi mais rápido mais uma vez:

— Claro, né? É pra isso que estamos aqui. — disse o arquiteto antes de soltar uma gargalhada explosiva. Em um tom mais ameno, com algo de melancólico, emendou —Bem, como você pode imaginar, tudo começa e termina com Cármen Valente.

— Sim…— disse Pereira, quando, em verdade, queria ter dito — Não, não imagino nada, conte-me tudo.

— Nós nos conhecemos em uma festa em 1975. A história é assim. Rolou uma inversão total das coisas. Inversão total. Eu estava procurando um baixista para a nossa banda, Os Huxleys. Daí a Cármen apareceu e assumiu o vocal e a guitarra da banda — e Luciano riu ruidosamente mais uma vez — Ela me mandou para o baixo e tomou de mim a guitarra e o vocal, saca? Ela também alterou o nome da banda, passamos ser a Olho Pineal. Éramos uma banda cover, passamos a ser autorais. Olho Pineal. A verdade é que nós ficamos muito felizes com esse nome, estávamos com medo de nos transformar numa banda de apoio. Saca? Cármen Valente e os Taumaturgos, Cármen Valente e os Necromantes, ou — e aqui Luciano gargalhou com ainda mais força, chegando a ficar por instantes avermelhado — Cármen Valente e os seus Asseclas Acéfalos.

Pereira, antes de olho nas questões em seus cartões, agora, como pequeno bloco aberto, tomava notas, mesmo com o gravador ligado. Luciano prosseguiu:

— Mas… Cármen sempre foi incrível, incrível… Incrível em todos os sentidos, mas… Mas sempre foi muito bonita. Então, foi nessa festa… Rapaz, coisa de mais de trinta… Trinta e cinco anos atrás, 1975, foi nessa festa que eu a conheci. Eu a vi e fiquei inquieto, eu tinha de saber quem era aquela menina, aquela mulher. Eu tinha de fazer alguma coisa, né? Tentar a minha sorte. Todos nós, cara… Eu, Nelsinho e Carlos, todos nós fomos, em algum grau, apaixonados por ela… Todos dispensados, tudo não correspondido. Passou, passou, e não deu em nada, acabamos amigos e é isso aí. Isso aí. Mas… Tudo começou com esse xaveco meu. Ela tava com um violão a tira colo, foi a minha deixa.

Luciano ficou um instante parado, como sorriso estático no rosto. Pereira se valeu da deixa:

— Você disse, oi, eu tenho uma banda?

— Pô, é, oi, eu tenho uma banda e… E a gente está precisando de um baixista… Cara, eu nem sabia o que eu ia falar depois, eu só precisava de uma coisa, uma coisa qualquer para poder andar até lá, falar com ela…

— E o que vocês tocavam?

— Cara, nos éramos os Huxleys, uma banda cover de The Doors. Ela perguntou isso, inclusive, logo em seguida. Eu respondi, ela riu do nome da banda, achou bobo… Falei que ainda naquela semana nos iríamos ensaiar, na casa do Carlos, expliquei onde era… Mas… O xaveco não deu certo, né? Não peguei nem na mão, cara. Não rolou aquela, ahn, química da atração. Ficamos conversando mais um pouco, mas nos separamos… Festa: um chama aqui, outro chama ali, aquela coisa… Bagunça, né? Quando fui embora, ahn, antes de ir embora, não encontrei Cármen. Fiquei pensando então nela, claro, mas certo de que não ia aceitar o convite, de que não ia aparecer lá na casa do Carlos. Fiquei comigo: nem eu lembrava direito o que disse, ela muito menos, né? Você imagina o meu espanto quando, uns dias depois, ela apareceu na casa do Carlinhos, num Chevette azul-claro, trazendo guitarra, baixo, pedais, amplificador, uma parafernália imensa, cara…

— E… Como foi esse ensaio?

— Foi um grande encontro, cara. Nosso com ela. Ela foi imediatamente aceita na banda, tudo mundo ficou maravilhado. Ela encaixava muito bem na turma, a gente escutava mais ou menos as mesmas coisas, rock psicodélico, tinha uma energia parecida, um senso de humor parecido, sabe? Começamos a encontrar uma vez no meio da semana e nos finais de semana para tocar. Acontecia também da gente sair para beber com frequência. Nesse iniciozinho, estávamos juntos durante a maior parte do nosso tempo livre.

— Mas… Vocês ainda eram uma banda cover?

— Sim, mas isso mudou… De ela início ficou com o baixo, até que um dia, uns dois meses depois, de noite, depois de passarmos um bom tempo ensaiando, ela perguntou se a gente queria ouvir umas músicas que ela tinha escrito. A gente falou, pô, claro, mostra aí. E aí, cara… Tudo mudou. Cara, ela tocou Hecáte para gente, só no vocal e na guitarra. Foi o que precisava. Só uma vez. Foi a primeira vez que nós escutávamos algo dela, ela cantando e ela tocando guitarra. Cara… Ficou, assim… Ficou muito evidente que ela deveria cantar sempre… E tocar guitarra também… Como todo mundo gostou, achou bom, foda, muito foda mesmo — disse Luciano cerrando o punho— ela foi mostrando mais coisas, outras músicas dela… O nível de empolgação, cara… Imenso. A gente aprendeu a tocar as músicas todas bem rápido, coisa de menos de um mês… Isso virou Quimeras. Nós gravamos no sótão da casa os pais dela. Ela tinha um pequeno estúdio lá. Cara, ela sempre teve muita grana, o pai dela era, ou é, eu não sei, dono de uma empreiteira… Muita grana. Até hoje ela tem muita grana…

— O que ela faz hoje?

— É, pois é, a história chega nessa parte… — respondeu o arquiteto com uma careta de desgosto antes de continuar — Daí, gravamos o disco. Com muito custo. Foi nessa gravação que a gente começou a brigar. O negócio, cara, é que eu e os meninos… Há, é foda, você fica velho e ainda chama os caras de meninos, foda… Mas, eu e os meninos tínhamos banda para tirar onda, saca? Era pra tirar onda, exclusivamente… A gente estudava e trabalhava, não existia a menor pretensão de vir a viver de música, ter uma carreira sendo músico, com banda… A gente tocava, ahn, a gente não tocava bem não… Eu aceito os seus elogios, cara, mas… A gente não tocava bem. A hora de tocar era a hora de tomar cerveja, queimar fumo, brincar… Era uma onda. Era para relaxar. Os Huxleys eram isso…

— Era uma banda de zoeira.

— Pô, é, tinha muita palhaçada… Eu não chegava a ser um imitador do Jim Morrison, mas às vezes, nos poucos shows, nos nossos showzinhos, eu tirava a camisa, ficava dançando de um jeito que, à época, eu achava que era muito sensual, gritava que era o Rei Lagarto, uma besteira infinita, cara… Onda, onda… Como você diz, zoeira.

— E a abordagem dela era diferente?

— E Cármen já pensava diferente, ela queria estourar, queria que a banda estourasse. Daí… Ela tinha um padrão de qualidade e a gente tinha outro, bem inferior… Ela reclamava disso, bastante… Dizia, pô, esse teclado tá porco, essa bateria tá porca… Enquanto a gente aprendia e ensaiava as músicas… Tudo ia mais ou menos na toada de antes, dos Huxleys, na brincadeira, mas, aí… Na gravação começou… Brigas e brigas. Desse troço dela chamar tudo de porco, depois de gravar Circe, nós, eu e os meninos, como uma brincadeira e como um pedido de desculpas, uma forma de fazer as pazes, escrevemos o Lamento do Homem Suíno. É a única coisa da Olho Pineal que não foi escrita por ela.

— Mas ela gostou, né? Foi parar no disco.

— Foi parar no disco, com os porcos cantando todos juntos — disse Luciano sorrindo. Endireitou o corpo sobre a cadeira e então cantou, com uma voz grave, impostada, a primeira estrofe da canção:

Por qual pecado
Carrego tal fardo?
Só por tolo, descuidado,
fui em besta transformado?
É por mero capricho
Que sou mudado em bicho?

Ficou sorrindo por segundo e então retomou:

— É…. Mas, é… Ai, ai… Fizemos uns showzinhos. A turnê do Quimeras passou por todo tipo de D.C.E, D.A., grêmio, república, esses ambientes, assim… Hehe, insalubres. Teve também festa de aniversário, uns poucos bares, uma boate. E cara, pra gente tava bom demais. Era só isso e estava ótimo. Além da conta até.

— Mas para Cármen estava ruim…

— É, para ela estava muito aquém, cara. Ela queria, sei lá, competir com gente grande. Então, quando o trabalho de Quimeras não foi muito longe da repercussão que a gente tinha com os Huxleys, ela ficou muito desanimada. Muito desanimada… Aconteceu dela viajar então, foi para os Estados Unidos com a família, ficou uns meses lá. Acho que uns três meses, cara. Quando voltou, estava animada de novo, muito determinada. Conheceu um terapeuta lá nos Estados Unidos, cara… Ela sempre falou muito de Freud e de terapia… Mas esse cara tinha um papo místico pesado, muito pesado. Pô, ela já tinha toda aquela onda de mitologia, que, né, encaixa com o som viajado que a gente tirava, aí conheceu esse cara, do misticismo mesmo, do ocultismo… Ela voltou então, sem antes nos avisar de quando voltava, sem ligar de lá, mandar carta, postal, qualquer coisa, ela voltou então cheia dessas novas ideias, com Tetragrammaton todo escrito, algumas das canções até já gravadas, umas só com violão e voz, outras com guitarra já, os riffs todos…

— E… Luciano, vocês então voltaram para o estúdio caseiro dela, mesmo com as brigas de antes?

— E bem, aí houve um erro das duas partes. Todo mundo mentiu. Eu e os caras mentimos quando dissemos que estávamos dispostos a gravar outro disco, que dessa vez iríamos nos dedicar mais, que seríamos mais sérios, profissionais. Cármen mentiu quando disse quer seria menos incisiva, menos implicante… Deu na mesma, boas sessões de ensaio, divertidas, até pegarmos todas as músicas… E depois, na hora de gravar, aquela coisa muito puxada… Era como um namoro ruim, discussões o tempo todo, cada momento tratado como algo decisivo… Foi nessa época que, no meio de uma briga, a gente veio com o nome Asseclas Acéfalos, porquê era isso que estava acontecendo, cara… A Cármen às vezes ficava tão mandona, tão determinada a fazer tudo e-xa-ta-men-te do jeito dela, cara, que… Que a gente não se sentia como nada, éramos uns paus mandados, brincamos então com isso, e chamávamos a banda, debochadamente, de Cármen Valente e os seus Asseclas Acéfalos. Mas, saiu também o disco. Outro fruto de noites, finais de semana e feriados no sótão da família Valente…

— E montaram então uma turnê como a de antes?

— Os shows foram a mesma coisa. Tudo no underground, assim, sendo eufemístico. A única coisa que mudou, além dos D.A.s, das repúblicas, desse cenário, foi que uma vez tocamos em uma loja maçônica… O que não deu assim tão certo, porque no meio da apresentação Cármen fez um protesto contra o machismo dos maçons, que não aceitam mulheres dentro da organização deles, e aí tivemos de terminar mais cedo… Rolou um bate-boca com o pessoal da loja, teve até um momento no qual eu levantei o meu baixo, segurando pelo braço como se fosse a merda de um tacape… Mas, de resto, o mesmo esquema de antes, cara… Eu tava satisfeito, sério. Eu achava legal mesmo.

— …

— E, cara, durante os shows ela se entregava, dava o melhor dela. Podia ter três gatos pingados na plateia, ela realmente se entregava. Na hora, na hora. Depois era puro desânimo.

— E o que ela fazia?

— Ela insistiu muito, cara. Mandou os discos para tudo quanto é gravadora. Dizia que com um estúdio melhor nos teríamos resultados superiores, que aquelas eram nossas demos. Caçou agente, show em todos lugares da cidade, jeitos da banda tocar no rádio, da banda aparece na T.V… Mas nada demais acontecia e ela ficava péssima, péssima. E aí foi cada vez mais para o lado do ocultismo, da magia… Ela estava triste demais. Foi por isso, para alegrá-la, porque ela estava mal demais, que concordamos em gravara um terceiro disco…

— Terceiro disco?

— Sim, era para ter um terceiro, mas não aconteceu. Ia chamar Canções da Experiência. Só que agora, para dar certo, Cármen tinha decidido que tudo deveria ser ainda mais rigoroso. Ela queria todo o processo de ensaio e gravação ritualizado. Era um fetichismo danado, cara. Tinha as roupas que eram permitidas e as roupas que eram proibidas, o jeito certo de entrar no sótão, gestos e coisas que nós tínhamos de dizer antes e depois de começar a tocar cada música, assim, mil maluquices, maluquices mesmo, cara… Uma combinação errada, era essa obsessão em fazer a banda acontecer mesmo, estourar, essa coisa quase mágica, ritual, com a música e, cara… — Luciano olhou para baixo, Pereira conseguir ler um sentimento de culpa em suas feições — Ácido demais. Era muito difícil arrumar ácido naquela época, cara, você não faz ideia, não faz. Mas ela descolava, ela viajava e tal. Cara, errado, tudo errado. Ácido demais. E eu penso, era claro que ia dar errado, óbvio, era óbvio. Se pirou um Brian Wilson, pirou um Arnaldo Baptista, por quê a Cármen não ia pirar? Ela ficava regravando tudo sem parar, fazendo colagens, alterando tudo, transformando tudo. Como nós ainda tínhamos nossas coisas para fazer, ao contrário dela, que agora estava pensando só no disco, a coisa foi virando um trabalho dela…

— Nó…— soltou Pereira, mineiramente, abismado.

— Até que um dia ela veio nos dizer que para a coisa realmente acontecer nós deveríamos nos dedicar ainda mais, fazer uma dieta específica, não beber dada de álcool, só usar maconha e ácido para fins, de acordo com ela, espirituais… A coisa, ensaiar e gravar o disco, virou uma coisa totalmente religiosa. Totalmente, cara. E para mim, para os meninos, insuportável… Essa noite, do dia no qual ela veio falar isso com a gente, cara… Durou, arrastou madrugada adentro e terminou com a banda separada, com o Olho Pineal fechado, acabado. Isso porque chegamos a um consenso: nós não queríamos nada daquilo, aquela coisa toda cheia de ocultismo, e Cármen não nos queria mais nos projetos dela, porquê… Porquê, nas palavras dela… Nós éramos ineptos. E, eu não sei, cara… Nós éramos assim desde o início, esperávamos esse término, sério mesmo, desde o início…Asseclas Acéfalos, cara, essa sempre foi a questão… A tensão sempre rolou.

— Mas, e aí, ela terminou o disco sem vocês?

— É. E acabou que um pouco depois desse término todos se afastaram da música. Eu, Nelsinho e Carlos voltamos a tocar como os Huxleys algumas vezes, mas se foram cinco foram muitas. Cármen fez uma gravação dessas músicas, dessas Canções da Experiência, sozinha, sem o nome Olho Pineal, mas também não conseguiu muita coisa… Mas, essa coisa de ocultismo… Cara…

— Você acha que foi isso? O ocultismo que… Que deu fim a tudo?

— É… Aí ela entrou mesmo nessa de ocultismo, cara… Assim, a família dela sempre a deu uma ótima condição. Ela estudou História na USP, graduou, tudo certinho, mas nunca trabalhou. Recebia uma mesada considerável do pai. A única coisa que ela tinha de fazer era assinar alguns documentos para ele… O velho tinha colocado uma pá de coisas no nome dela… Ela não precisava de trabalhar, de fazer nada além de dar umas canetadas uma vez por mês, e olhe lá… Eu não diria que ela seria uma laranja, mas era quase, quase.. E então, cara, ela entrou com tudo no ocultismo. Isso virou a vida dela, em tempo integral. E cara, vou te dizer, tem gente demais nessa, muita gente… Durante os primeiros anos depois da separação, nós ainda falávamos com ela, sabe? Isso era início dos anos oitenta. Cara, ela viajou o país inteiro visitando gente do espiritismo, ocultismo, xamanismo, magia, ufologia… O Brasil inteiro. Tem muita coisa acontecendo aqui cara, a gente é forte nesse esquema. Muita coisa acontecendo. Tinha então e eu tenho certeza que ainda tem muita coisa acontecendo… Ela conheceu gente demais, cara… Fez contatos, muitos contatos… Um networking danado… Até que ali no final da década, 88, 89, ela fundou um… Cara, eu sei lá o que é aquilo, ela chama de centro de estudos, mas, para mim, aquilo é uma… Assim, começou com o lugar no qual essas pessoas do ocultismo, do misticismo, se reuniam, era palestra, curso, oficina… Mas logo virou uma seita. Não sei quando virou, mas hoje é uma seita. Associação Transcendental Amalantrah é o nome, A.T.A. na sigla.

— É sério isso?

— É sério. Triste e sério. Aqui, cara, eles tem uma página na internet… — Luciano se colocou diante de seu computador, mexeu com o mouse displicentemente e depois digitou algo no teclado, virando então a base do monitor para que Pereira pudesse enxergar a tela, na qual aparecia o site da A.T.A, com o nome da associação, em um tipo futurista sem serifas, acima de uma grande foto do prédio sede do grupo, o domo branco — Essa, ahn, coisa… Plágio do Niemeyer… Olha, que coisa horrível, é como a Oca, só que menor e… Erguida por essas colunas. É um Niemeyer falso sobre palafitas. Essa, nave… Cara, é quase a nave da Xuxa… Isso é o centro da A.T.A. Hoje eles são bem grandes.

— Nossa Senhora…

— Olha aqui… Nessa foto você tem uma ideia, é uma cidade, cara… Hoje a coisa é uma cidade. Uma vila, na verdade. Mas uma vilinha toda de gente nessa onda dela, de magia e ufologia…— disse Luciano pulando para a galeria de fotos.

— Incrível…

— Cara, uma merda, eu acho uma merda completa. Não tenho paciência nenhuma para essas conversas de espíritos, de alienígenas. Espírito misturado com alienígena então… Não, cara, não.

— E… A música? Ela, você disse, abandonou a música?

— Não, cara, não… Nada de música, nada… Cara… Ela mudou de nome, ela nem chama Cármen Valente mais. Hoje em dia o nome dela é Mestra Intreza. Mestra, saca só. Uma coisa de doido mesmo. Ela não se interessa mais por música. O único assunto agora é misticismo. Eu, inclusive, parei de falar com conversar com ela tem anos já, mais de dez, se bobear. É, isso mesmo, mais de dez. Porque não havia sentido, cara. Você vai conversar com a pessoa e tudo que ela faz é, insistentemente, tentar te converter…

— Eu… — disse Pereira, acanhando — Nossa, como eu gostaria de… Ahn, de… Falar com ela.

— Não, eu não acho que você vá conseguir tirar nada dela. Vai ser um desperdício do seu tempo. Mas, falar com ela é relativamente fácil, a sede da coisa fica em Goiás, nos arredores de Planaltina, perto de Brasília. Tem o endereço no site, telefone também.

— Mas, Luciano… E os outros caras?

— Cara, Carlos morreu num acidente de carro em 84. Carlinhos… Uma coisa horrível. Um susto que dura até hoje. Assim, eu sempre me esforço para me lembrar bem dele, de só reviver a amizade. Mas foi uma coisa… Deixa. É… Nelsinho tá aí, trabalha com áudio e vídeo, publicidade, coisas para a T.V. — e aí Pereira entendeu de onde vinha o riff de Hecáte como vinheta do programa de turismo.

— Fraguei…

— O que acontece, cara… É que o tempo vai passando e… Você pode dar às costas para tudo, esquecer, dizer para você mesmo que você esqueceu, que não mais importa… Ou você pode, Daniel, guardar o que foi bom… E eu fiz essa segunda escolha. Estou começando a chegar, cara… Começando a chegar naquela fase na qual o sujeito tem mais memórias do que expectativas. E… Eu poderia me lembrar desgostoso disso tudo, por conta do jeito que terminou… Poderia ficar lembrando das palavras de Cármen dispensando a gente, da nossa raiva, das coisas que dissemos em resposta… Mas, cara… E o outro lado? Foram tantas tardes e noites de amizade… Tanto tempo um com outro, fazendo a mesma coisa, por vontade, só por vontade de estar juntos… Não deu errado. Nada deu errado. Deu certo durante um tempo, de um jeito bem específico, e aí…. Acabou. Uma coisa finita, como qualquer experiência.

Veio então um momento de silêncio. Pereira se valeu dele para sopesar o conteúdo da conversa até então. Sentiu-se frustrado. Luciano não era o destinatário ideal de nenhuma de suas perguntas. Não era ali. Ainda não. Era como se um pequeno cogumelo antropomórfico lhe dissesse:

— A princesa está em outro castelo.

Com a diferença que a princesa era uma Mestra e o castelo um disco voador de concreto armado, plantado no interior de Goiás.

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