PEREIRA – V

Depois de horas de pânico, começou a repetir para si mesmo uma ladainha simples. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Encostou-se na parede e ficou sentando, balançando-se para frente e para trás. Eu já tenho uma meia, eu já tenho uma meia. Assim conseguiu dormir. No dia seguinte, voltando do encontro com a Mestra, no jardim, valendo-se de um breve instante de desatenção do Piloto, achou a pedra. Uma linda pedra portuguesa, branca e quadradinha, de oito arestas ferozes. Tinha então uma meia e uma pedra. De volta a sua célula, montou a arma: uma meia com uma pedra dentro. Isso lhe deu coragem. Estava decidido, iria enfrentar todos ali, começando pelo mais odiado.

[…]

O magricela Pereira acertou então o imenso Piloto na cabeça. A pedra, dentro da meia empunhada pelo rapaz, rodopiou violentamente antes do impacto. Por instantes Pereira pareceu determinado e destro. Seu grito (desarticulado) soou até convincente. Havia algo de bíblico naquilo, sem dúvida: um sujeito singelo atacando um brutamontes, na cabeça,  com uma pedra. Mas havia algo de profano, profundamente profano, no Piloto, e o golpe — a pele cortada, o sangue escorrendo  — só serviu para irritá-lo. O homem agarrou Pereira pelos ombros, encaixou-lhe uma joelhada rápida no estômago e, ato contínuo, levou-o ao chão com uma cabeçada.

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