Versos de ocasião de Cláudio Tropigo

Rema-rema

Para Olivenbaum

I. Poeminha da ansiedade

Tenho tanta inveja
de quem vive no passado
O presente em mim craveja
Imanentes, inelutáveis dardos
Sou refém dessa eterna hora
Saboreio sempre o triste fardo
Da angústia do agora
Porto d’onde nunca parto.

(Também conhecido como O Lamento do Assalariado).

II. Poeminha do profissionalismo

Meu coração, não.
Passando daquela porta,
É só o músculo
Ligado à minha aorta.

Meu coração, não.
Só ideia torta
E ânimo minúsculo
Passando daquela porta.

Meu coração
Só faz o que gosta.
Então, não.
Nem pitaco dá
Passando daquela porta.

III. Prosaico

Vem-me uma impressão fugidia d’um ar fresco, d’uma luz gentil; como se, ainda criança, de manhã, na casa de minha avó materna, saindo pela porta da cozinha, chegando ao quintal, encontrasse ali todas as roupas brancas estendidas sob um grande pedaço de lona, a quarar, brilhando incrivelmente alvas. A memória de um maio passado que me visita enquanto a correspondência se acumula, o telefone não para e o único alento são fones de ouvido e ar condicionado.

IV. Doutrina maldita

Dizem os espíritas
Que depois da morte
Há muitas moradas,
Organizadas sociedades,
Com hierarquia e trabalho.

Doutrina maldita:
Que tipo de sorte
É aturar essa maçada
Por toda a eternidade,
Entre a bigorna e o malho?

V. Os lírios não constam (mais) nas leis

Dizem os protestantes
Que é por meio do trabalho
Que Deus escolhe os sob seu manto.

Sem querer ser pedante,
Às vezes, acordando com o orvalho,
Pergunto-me, desassossegado:
Que há de errado
Com olhai os lírios do campo?

*

Criancinhas

[…]

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7 comentários sobre “Versos de ocasião de Cláudio Tropigo

  1. Muito bem talhado! A alternância de métricas ficou extremamente natural, mal notei que eram métricas diferentes. O tema é clássico, me lembra aquela redondilha camoniana (Sôbolos rios que vão/por Babylonia me achei/onde sentado chorei/as lembranças de Sião…). O tema está muito bem colocado no início, traz um fôlego novo pra esse tema, ele é conduzido muito bem ao longo do poema. O último verso apresenta musicalidade e conclusão de ideias que só pode mesmo ficar no final, coroando. Excelente, cara, na minha opinião. Estou adorando seus poemas (e fiquei feliz de ver esse aqui, um poema que veio de sua veia poética, independente do romance).

  2. Lindo, cara… “Poeminha do profissionalismo” ficou soberbo em sua simplicidade, em sua originalidade discursiva. Um belíssimo poema, com todos os méritos.

  3. Eis a resposta, meu caro. Mais uma vez, poema simples, direto, a ideia de pegar os espíritas é algo bem ocasional. Ao fim do ciclo, terás uma bela resposta à opressão trabalhista, rs.

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