Pereira – II

A primeira suposição estava equivocada. Mesmo fosse Pereira um verdadeiro herói da classe trabalhadora, não teria melhores chances diante das forças do domo. Outros mais vividos — lidos, conversados e trabalhados — ainda assim correriam sérios riscos caso, desavisados, caíssem nas graças da Mestra. A segunda conjectura, porém, era acertada. Ele estava ali em razão de uma banda obscura. Banda que, de fato, carecia de qualquer qualidade distintiva além de nunca ter se tornado conhecida (motivo pelo qual, diga-se de passagem, com rara justiça, de forma tautológica, a banda nunca se tornou conhecida).

Atrasada, Olho Pineal se apresentou ao mundo como uma banda de rock psicodélico com letras que flertavam com o ocultismo no ano de 1977, quando a psicodelia, já disseminada por todo o globo, sentia então o baque das primeiras investidas do punk e testemunhava o desenvolver da sua cria, o rock progressivo. As ciências ocultas, por sua vez, já haviam mais do que iniciado a música brasileira em seus dogmas e rituais: Raul Seixas já conhecera, por meio do místico Marcelo Motta, os ensinamentos de Aleister Crowley, tornando-se um prosélito explícito da Thelema; Os Mutantes já haviam saudado Lúcifer; Tim Maia já havia lido os livros da Cultura Racional e Jorge Ben já anunciara a chegada dos alquimistas, formulara a conhecida pergunta lovecraftiana de Erich von Däniken e cantara os enunciados herméticos da Tabula Smaragdina.

Em seu primeiro disco, intitulado Quimeras, Olho Pineal, sem nada da nossa cor local, parecia uma cópia grosseira de Jefferson Airplane, com letras num português truncado que tratavam de feitiçaria, entidades mitológicas e cerimonias secretas. Tetragrammaton, lançando dois anos depois, em 1979, repetia a mesma sonoridade, dessa vez com referências à maçonaria, a textos herméticos, ao tarô e à cabala. As gravações, de fundo de quintal, eram cheias de chiado; a banda desencontrava-se com frequência e a vocalista, apesar de ter uma voz de fato bela, cantava com uma prosódia estranha, forçada, além de desafinar aqui e ali. Fizeram pouquíssimas apresentações, entre 1975 e 1979, sem tocar em qualquer lugar de renome e sem abrir para ninguém em evidência.

Pereira conheceu o grupo alguns anos antes quando, numa tarde letárgica de fim de ano, dissipada em andanças e conversas ditadas pela livre associação, encontrou os dois discos, LPs com as capas carcomidas pelo tempo, na bacia das almas, em um sebo sujo no centro de Belo Horizonte, no qual os produtos à venda eram todos expostos com igualitário descaso.

Nossa, ó se não é a pior capa de disco já feita! — disse então o moço, dirigindo-se ao amigo que o acompanhavam naquele passeio à toa, chamando a atenção para o desenho que ilustrava Quimeras: um corpo de leão com três cabeças humanas brotando de seu pescoço e uma quarta surgindo da ponta de seu monstruoso rabo coberto de escamas. O verso indicava que a besta era encabeçada por Cármen Valente (vocal e guitarra), Luciano Rizla (baixo) e Chiquinho Cientista (teclado). A Carlos Volta, o baterista da banda, coube a infelicidade de ser representado com sua cabeça saindo da serpentil cauda da criatura.

Cara, de quando é isso? — murmurou Pereira na ocasião, folheando o encarte — Ahn, Pineal Discos… Olha só, parece que eles mesmos gravaram. Uma parada absolutamente independente.

O interlocutor de Pereira permaneceu calado. O jornalista separou o álbum dos demais expostos, colocando por cima dos discos enfileirados, e começou a analisar a capa de Tetragrammaton, na qual a um pentagrama era apresentado em meio de letras do alfabeto latino e hebraico, números e símbolos herméticos.

Bicho Isso deve ser um treco prog, lo-fi, safado — disse baixinho o moço, olhando ao seu redor, buscando por um toca-discos capaz de sanar sua curiosidade. Não encontrou. Levou então os dois discos, sem nenhum (grande) arranhão, por oito reais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s