Lúcia – IV

— Há sim todo esse absurdo, essa sordidez. Não importa quando você passa a perceber, é indiferente. Há, existe. Antes de ver isso você não é um abençoado, não é livre de qualquer mal, é só ignorante, inocente. A inocência não tem valor. As sombras, o falho, o errado, o ruim, tudo isso sempre existiu e, olha… Tudo isso vai continuar existindo, para sempre. Assim como sempre existiram as luzes, o acertado, o correto, o bom. É tão difícil aceitar essa… Ahn… Justaposição? E… Não seria exatamente essa justaposição que torna tudo, tipo, ahn, inteligível? Nunca existiu uma hora, um dia, um ano, uma era mais propícia para a existência. A existência é isso mesmo. Nunca existiu nada muito diferente do que agora, em termos de, ahn..Tá, historicamente existem mil diferenças, mas… Para a parte mais central da existência… Como é?… Existencialmente…

— Ah… — disse Joana distribuindo protetor solar sobre o colo — Ontologicamente?

— Exato, doida, ontologicamente. Ontologicamente nada nunca foi muito diferente de agora.Todos nós temos de aceitar o agora, agora. Parece papo de livro de auto-ajuda, né?

— Só um pouquinho…

— Que seja, não tem jeito, nem todas posturas são sacadas geniais, idiossincráticas. Um punhado de coisa é assim mesmo, são chavões, platitudes. Expressas, ditas ou no papel, elas não tem graça nenhuma. Mas não tem jeito, na prática não tem jeito… Não dá para refutar um dia de cada vez, tudo tem seu tempo, é pra frente que se caminha, essas frases de mãe. Não é descolado não, mas vai contra isso para você ver…

— Frases de tia do Power Point… Nada descolado. — disse Joana antes de entregar o frasco de protetor solar para Lúcia e dar as costas para amiga.

— Mas eu, pelo menos, não estou aqui para ser descolada — respondeu-lhe Lúcia, batendo o frasco, de cabeça pra baixo, na palma da mão esquerda, antes de aplicar o creme nos ombros e no pescoço de Joana.

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5 comentários sobre “Lúcia – IV

  1. Vai ficar óbvio agora, mas, vamos lá:

    Stop this day and night with me and you shall possess the origin of
    all poems,
    You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions
    of suns left,)
    You shall no longer take things at second or third hand, nor look through
    the eyes of the dead, nor feed on the spectres in books,
    You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
    You shall listen to all sides and filter them from your self.

    3
    I have heard what the talkers were talking, the talk of the
    beginning and the end,
    But I do not talk of the beginning or the end.

    There was never any more inception than there is now,
    Nor any more youth or age than there is now,
    And will never be any more perfection than there is now,
    Nor any more heaven or hell than there is now.

  2. Tô ficando cada vez mais curioso; no fim das contas da sendo bem interessante essa experiência “folhetinesca” de ir lendo um pouquinho por vez, ver os personagens se formando tijolo por tijolo. Abração!

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