SÉRGIO – VI

— A minha filha, o nascimento da minha filha, não mudou nada, absolutamente nada no que se refere a todos esses problemas, ou sobre esse problema, já que pra mim é uma coisa só. O mundo, a existência: nada melhorou. Meu desencanto continua, mesmo eu sendo encantado por ela. Na verdade, piora um pouco, porque a minha filha, alguém que amo e a quem estarei pra sempre ligado, agora está também nesse mundo, nesse vórtice tedioso. Talvez ela não perceba agora, mas eventualmente, findas as ilusões da infância, a infância ela mesma ou uma infância tardia, como eu acho que foi o meu caso, não haverá como… Como fugir. Você, é…. O senhor, o senhor tem filhos?

— Não, eu…

— Uma coisa que eu descobri com isso de ter filhos, de ter a minha filha, é que o amor, quando é verdadeiro, tem uma propriedade estranha, por meio da qual as coisas se confundem. Os corpos se confundem, mas não de uma maneira sensorial, erótica, ou qualquer coisa assim, eu tô falando da minha filha, afinal. Para mim a existência de Úrsula, além da alegria finita que ela me propicia, significa que a área que eu tenho sujeita ao caos do mundo aumentou. Antes doíam as coisas que me aconteciam, ou que poderiam, a qualquer momento, me acontecer… Agora eu preocupo com o que acontece ou pode acontecer comigo e também com Úrsula. É como a superfície na qual eu tomo e posso tomar porrada tivesse aumentado. Com ela aqui, existindo com nós, eu me sinto ainda mais frágil.

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