LÍGIA2.TXT

As primeiras impressões sobre Lígia haviam sido superficiais. Só o óbvio (que era bela, que era jovem, que era inteligente, que tinha olhos muito vivos, que provavelmente dizia apenas um quinto do que lhe vinha à cabeça). Como muita gente naquela época, foi-me apresentada por Fernão. Começamos a nos tornar próximos quando pude perceber nela algo que existia (e ainda existe) também em mim: o medo de ser destruída pelas demandas da sociedade. Mais especificamente: o medo de ser destruída pelas demandas do trabalho. O trabalho iria nos mortificar, apagando as nossas verdadeiras ambições, mutilando o nosso orgulho. Isso se daria com todos, muito naturalmente, mas para nós existia um ponto onde seria mais fácil perceber os danos causados pela adesão forçada ao sistema estúpido, mesquinho e desprovido de criatividade: nossos textos.  O seu deterioramento e a possibilidade de progressivo desaparecimento. Decidi então me aproximar de Lígia pelos mesmos motivos que haviam me levado a ser parceiro de Isabela e de Olivenbaum: gente para para cobrir e dar cobertura, para passar e receber munição, para fazer vigia e ser vigiado, para viver mais um dia.

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