ISABELA9.TXT

Descia para nosso tradicional ponto de encontro. Isabela estava abaixada, quase de cócoras, olhando para alguma coisa próxima ao meio fio. Disse ei antes de entrar em seu campo de vista, mas não tive resposta. Aproximei-me e vi o que ela contemplava. Um pombo morto, o crânio aparentemente vazio (era possível enxergar através de seus olhos), com o peito aberto, as penas cinzas, ossinhos afiados e pálidos pedaços de carne confundindo-se com uma malha que pulsava levemente: vermes de anelados corpinhos amarelos. Isabela me passou o cigarro e apoiou o cotovelo no joelho, o queixo na mão — os olhos permaneceram voltados para baixo. Fixei minha vista no cadáver do pássaro, tentando entender o que naquele pequeno objeto mórbido despertava tanto interesse em minha amiga. Quando lhe devolvi o cigarro, dei uns passos para trás e olhei para os lados, ela disse, respondendo o que eu não havia (expressamente) perguntado:

— Os vermes. Como não está completo sem os vermes. A necessária dualidade de todo o símbolo. A cor da caveira do tarô: rosa.

Eu disse unhum e então ela se levantou, sorrindo, dando boa tarde,  pedindo  notícias:  iniciando as conversas do dia depois desse brevíssimo prelúdio.

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