ISABELA2.TXT

— Nisso de negação do ego… Eu não sei se pode-se dizer exatamente assim… Negação do ego, mas… Acredito; gente, quem já disse isso?; que sim, somos proprietários apenas dos erros. Os acertos não são nossos, não nascem de nós, mas de uma, ahn, apassivação… Uma apassivação do ego diante da realidade. Quando estamos certos compactuamos com a realidade. De forma que aquele que se sente ou se sabe certo, correto, não deve nunca se orgulhar de nada: não há nada de individual ali, ele apenas é condizente com algo maior, diante do qual o ego dele é completamente insignificante.

Prossegui andando, olhando para as folhas de castanheira sobre o chão. Isabela continuou:

— Isso eu não tiro de uma percepção geral, porque, honestamente, eu nunca cheguei perto de algo que possa ser chamado de uma percepção geral, mas de estar certa pontualmente, sobre algo disputado, e saber que estar certa aí é ter abandonado todo e qualquer preconceito, toda e qualquer predisposição, toda e qualquer opinião sobre a superioridade de qualquer método e de qualquer forma de crítica, e ter realmente me colocado diante da questão até que eu mesma não fizesse nenhuma importância. De forma que minha autoridade, minha certeza não viesse de mim mesma, de alguma fabricação do meu espírito, mas da percepção das coisas como ela são, naquele caso ali, naquela oportunidade, naquelas circunstâncias.

Continuei calado.

— Entende?

No dia seguinte ela me mandou, por e-mail, um trechinho daquele ensaio do Eliot, Tradition and The Individual Talent:

[…] What is to be insisted upon is that the poet must develop or procure the consciousness of the past and that he should continue do develop this consciousness troughout his career.

What happens is a continual surrender of himself as he is at the moment to something which is more valuable. The progress of an artist is a continual self-sacrifice, a continual extinction of personality.

Então passei algumas horas à toa, pensando nela (depois de acender um e colocar uma playlist imensa pra tocar), desfazendo todas as imagens que eu havia feito antes, (da menina frágil e nervosa).

Eu não conhecia Isabela.

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